Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS

Soluções não mirabolantes de enfrentamento às consequências das mudanças climáticas

Antes de abrir este tópico, fiz uma pesquisa, localizei e li estes posts. Muito bons por sinal:
Não há assunto mais urgente que a mudança climática ⁄ Manual do Usuárioa
O negacionismo da mudança climática é bem forte no X/Twitter ⁄ Manual do Usuário
Inteligência artificial: a que custo? ⁄ Manual do Usuário

Todavia, gostaria de propor algo um pouco diferente: propostas de soluções não para prevenir aquecimento global / mudanças climáticas, mas sim para enfrentar suas consequências. Pois diante de tudo que li e já vi, acho que estamos no ponto de não retorno, com seu trem de consequências.

E me refiro a coisas que podem ser colocadas em prática imediatamente, com a tecnologia que já possuímos no Brasil. Que dependa apenas de atitude e vontade (política), mesmo que fiquemos no campo hipotético, já que esta última questão é a mais difícil.

A propósito, os livros que já li sobre o assunto:
– LOVELOCK, James. Gaia – Alerta Final;
– EMMOTT, Stephen. 10 bilhões.

O próximo que pretendo ler é: STENGERS, Isabelle. No Tempo das Catástrofes (Coleção Exit).

Abaixo, darei o pontapé inicial, fiquem à vontade para debater ou trazer outras propostas.

Asfalto Permeável

Sempre que chega a época de chuvas, vejo as notícias sobre alagamentos e enchentes na TV. Fico perplexo por nunca ver, na grande mídia, uma discussão que toque na raiz do problema. Nenhuma proposição sobre o que fazer para evitar ou minimizar estes eventos.

Nos últimos anos, comecei eu mesmo a pensar no que poderia ser feito e uma das primeiras questões com as quais me deparei dizia respeito à impermeabilização do solo como principal problema. O que me levou à solução do asfalto permeável. 2

No Brasil, temos o asfalto desenvolvido pela Escola Politécnica (USP). Segundo os testes, ele reduz pela metade as consequências de uma chuva forte. 4

Seu custo é 30% maior em relação ao asfalto convencional. 1

Segundo os pesquisadores: “O pavimento capta e armazena a água antes dela correr para as bocas de lobo. É como se a água estivesse sendo lançada na areia da praia. A inovação está no rearranjo de materiais que já existem no mercado. Trata-se, na verdade, de uma nova técnica construtiva a partir de pedras, asfalto poroso e outros materiais já disponíveis comercialmente”. 4

A maioria das reportagens e matérias que encontrei sobre o assunto são antigas, feitas há mais de 10 anos. Parece que isso caiu no esquecimento. Segundo o portal Vrum Notícias, existe a norma NBR 16416/2015, contendo requisitos e procedimentos sobre pavimentos permeáveis de concreto. O mesmo portal afirma que as seguintes vias fazem uso desta tecnologia: Avenida Escola Politécnica, em São Paulo, a Avenida Atlântica em Copacabana, no Rio de Janeiro, a Rua João Negrão, em Curitiba, e a Avenida Borges de Medeiros, em Porto Alegre. 3

Alguém aí circula por estes locais, perceberam alguma diferença?

Referências

[1] Momento Ambiental – Asfalto poroso – YouTube
[2] “Asfalto do futuro” absorve 4 mil litros de água em 1 minuto
[3] Asfalto permeável: conheça a tecnologia que pode acabar com enchentes
[4] Pavimento antienchente – ESCOLA POLITÉCNICA
[5] Conheça o sistema contra enchentes do Japão – YouTube
[6] DESCUBRA TUDO SOBRE O ASFALTO PERMEÁVEL – YouTube

35 comentários

35 comentários

  1. Asfalto permeável não é uma solução, é só um mal investimento. No caso de chuvas, um bom sistema de drenagem urbana, com galerias pluviais e bocas de lobo devidamente implementadas, já faria mais do que asfalto permeável.

    Mas o importante é que isto não é uma solução de enfrentamento, é apenas parte da construção inteligente da cidade e preparação para eventos de grande precipitação. Por exemplo, olhando para o cenário atual do Rio Grande do Sul (RS), as cidades localizadas em áreas de vale não teriam sido beneficiadas com um sistema de drenagem pluvial, justamente porque estão localizadas em áreas de canalização natural da água da chuva.

    Então quais seriam soluções não mirabolantes?
    Vamos começar com o básico, precisamos parar de degradar e expandir áreas agropecuárias e urbanas. O Brasil não precisa desmatar mais uma árvore sequer para dar vazão à produção agropecuária e às necessidades urbanas de moradia e comércio. Existe uma quantidade incrível de áreas rurais improdutivas, assim como imóveis desocupados que não cumprem qualquer função social (inclusive do Estado).
    Também é necessário reformular os processos de licenciamento e autorização ambiental. Trabalhei com isso então posso falar que não existem parâmetros. O licenciamento é para averiguar viabilidade, ou seja, pesar qual será o impacto, onde será feito e quais os riscos. No caso de dúvidas, ou informações insuficientes, o licenciamento deveria ser negado, mas não é isso que acontece. Da mesma forma, autorização de corte, deveria ser muito mais rigoroso e ter parâmetros explícitos para sua emissão, porque hoje temos alta discricionariedade.
    Ainda quanto ao caso de autorizações de corte, não é porque o código florestal autoriza desmatamento da vegetação até 80% do terreno rural que o órgão ambiental deve conceder.
    Também precisamos criar e melhorar a gestão, fiscalização e punição referente às Unidades de Conservação, pois não adianta proteger uma área e um zé ninguém desmatá-la inteira.
    E por último, precisamos repensar as cidades. Existem cidades, como Muçum no RS, que precisam simplesmente serem construídas em outros locais. Precisamos de mais áreas verdes, libertar rios, parar de construir à beiras destes.

    Precisariámos de mais? Sim, sequer falei com relação aos mares, produção e importação de bens, mas isso não cabe aqui.

    Nada disso é mirabolante, é tudo possível e seria aplicável no mesmo tempo que levaria para trocar todos os asfaltos por asfaltos permeáveis.

    Enquanto nada disso acontece, vamos continuar com nossas responsabilidades e lembrar de escolher bem em quem iremos votar. E obrigado Diego pela publicação desse tópico, é assim, conversando, trocando ideias, que “pavimentamos” (hehe) as mudanças.

  2. Li todos os comentários. Agradeço pelas ideias e contrapontos.

    Soluções (no plural)

    com certeza, é preciso um conjunto de soluções, o asfalto permeável é apenas uma delas;
    é uma “solução” de enfrentamento, não uma resolução definitiva do problema;
    e, sim, a própria Escola Politécnica prevê, em seu projeto, o uso de galerias para captação (não me recordo se prevê também a drenagem, mas fala inclusive em reaproveitamento desta água);
    A respeito de um sistema de drenagem mais eficiente, no link [5] das Referências que deixei, há uma solução em escala absurdamente maior, mas que poderia ser utilizada em menor escala no futuro: Conheça o sistema contra enchentes do Japão – YouTube (sim, o empreendimento japonês é mirabolante, friso o “menor escala”, “micro escala”);
    a ideia do asfalto permeável não é “mais” asfalto e sim implementá-lo em vias já existentes, principalmente naquelas que são pontos de alagamentos. Cabe lembrar que, não raro, são realizadas obras constantes, não só de recapeamento como também de água, esgoto e gás, o que daria ensejo a substituição em momento oportuno;
    as mudanças climáticas, a meu ver, não significam apenas catástrofes de grandes proporções, mas nosso dia a dia: pequenas inundações que podem causar aquaplanagem dos veículos, engarrafamentos e dificuldade de travessia dos pedestres;
    Dúvida: no lugar do asfalto, qual alternativa para as vias por onde circulam veículos automotores?
    E só para lembrar: quis apenas propor soluções e colocá-las sob escrutínio. Essa do asfalto permeável, como disse, foi apenas um pontapé inicial. Pois, diferentemente do que aconteceu aqui, não se discute esse tema na grande mídia.
    E, convenhamos: diante de todo o conflito de interesses existentes, acho que todos concordariam em vias públicas sem alagamentos ou com estes mitigados, atenuados. Para usar a expressão que “brincamos” aqui: prefiro usar um band aid do que deixar uma ferida exposta;

    Rodoviarismo

    Também acho que precisamos discutir esse modelo, principalmente para o transporte de cargas;
    O Brasil não aproveita seus rios e não explora seu potencial para ferrovias;
    E digo isso sem avaliar o impacto dos poluentes, mas visando uma fluidez na locomoção de pessoas e cargas.

    Reforma Agrária

    Acho que é um ponto crucial para colocar em prática muitas das coisas que envolvem Agropecuária. Infelizmente, apesar de previsto na Constituição STF – Constituição Federal do Brasil , passado todo esse tempo, não é algo que pode ser executado de forma imediata. Infelizmente;
    Nessa esteira, algo benéfico seria a maior produção de alimentos mais direcionada ao mercado interno ao invés de commodities para exportação;
    E a questão do biocombustível? Não conheço muito sobre o assunto, mas me lembro da frase de Gurgel (o dono da famosa marca de automóveis brasileiros), que dizia que a terra tinha que servir para alimentar gente, não veículos;
    No mais, acredito que o “X” da questão seja o quê está sendo plantado. Salvo engano, monocultura não é algo benéfico para fertilidade do solo. Sobre os indígenas contribuírem menos do que o “Agro”, nunca soube de indígenas devastando a natureza e, salvo engano, vem deles o sistema agroflorestal;

    Plano Diretor / Áreas Verdes

    Gostaria de mais áreas verdes no meu bairro e cidade, mas aqui é tudo cinza;
    Como fazer isso acontecer na Zona Urbana, desapropriações?;
    Aliás, há reportagens que mostram uma diferença de temperatura (e, principalmente, de sensação térmica) entre bairros nobres e favelas: Teto que esquenta na favela e ar-condicionado no bairro rico: desigualdade sob calor extremo – YouTube;
    Cabe diferenciar também a Zona Urbana da Zona Rural quando se fala em implementar solução X ou Y, ainda que o efeito de uma tenha impacto sobre a outra.

    1. Ops, tentei fazer uso de títulos com “#” (“hashtag) e listas com “-” (hífen), mas não saiu na postagem. Acho que, nos comentários, não aceita o markdown. Perdão pela formatação.

    2. O problema é que essas “soluções”, não são soluções. São desculpas que serão usadas para agredir ainda mais o meio ambiente.

      Tu viu o tamanho da área que foi usada para construir a Havan em Porto Alegre? Se o velho da Havan tivesse usado asfalto impermeavel, daria pra dizer que ele solucionou o problema da impermeabilização da imensa área de terra que foi utilizada para construi-la em vez de ser utilizada para plantar árvores? Talvez daria, mas resolveria 1 problema e continuaria criando muitos outros mais.

      Por isso a analogia do asfalto impermeavel com a coca-cola zero é mais adequada que do band-aind. A coca-cola lança uma versão zero dizendo ser mais saúdavel que a coca normal, e quem tinha deixado de tomar coca passa a tomar coca zero, ou quem toma coca passa a tomar mais coca zero do que antes tomava de coca normal. Sendo que o certo é não tomar coca.

      Acho que o problema principal é a concentração e criação de mega-cidades. Com cidades maiores, surgem problemas maiores, e soluções piores.

      1. Compreendo. Pelo visto a palavra “soluções” soou muito forte, talvez tivesse sido melhor usar “tecnologia”, “medida” ou algo assim.

        Acho que existe um espaço entre o tudo e o nada. As vias públicas, asfaltadas, são um dado da realidade nas grandes cidades. Concordemos com elas ou não.

        As bocas de lobo, desobstruídas, cumprem um papel de escoamento mas, em chuvas mais fortes, podem não dar vazão. Nesta situação, por exemplo, acredito que o asfalto permeável pode auxiliar. Quem já teve que descer de um ônibus e não teve onde pisar sem afundar o pé na água até a altura do tornozelo, sabe do que estou falando.

        Sobre a loja da Havan, sinceramente não sei a que demanda este tipo de estabelecimento atende. Meu foco são as vias públicas mesmo.

        Para um diabético acho que faz diferença sim uma Coca Cola Zero (se ele fizer questão de tomar refrigerantes). Eu prefiro água.

        Só para deixar claro: não acredito que a humanidade irá resolver a questão das mudanças climáticas, acredito apenas em redução de danos. Quando falo em “soluções” são de enfrentamento, não para acabar com o problema de uma vez por todas.

        Concordo, acho que um dos maiores problemas que enfrentamos é a densidade populacional. Com os empreendimentos (prédios) isso só piora.

        Mas em sua opinião, Quandt: acha que existe alguma tecnologia que pode ajudar neste tema geral, das mudanças climáticas?

        1. Acho que não existe não. Qualquer tecnologia que exista será sempre para ferrar ainda mais as mudanças climáticas.

          Se inventarem uma forma nuclear de gerar energia virtualmente infinita e limpa, que substitua todas as hidrelétricas, termoelétrica, fazendas heolicas e solares, em seguida usaremos essa energia para ferrar ainda mais o planeta, expandindo a presença humana e impacto no planeta.

  3. E sobre o asfalto permeável: nós não deveríamos estar lutando por mitigar a ação deletéria do rodoviarismo no espaço urbano. Deveríamos estar lutando CONTRA o rodoviarismo.

    Não precisamos de carros elétricos, precisamos de MENOS carros nas ruas. Precisamos de cidades nas quais as populações pobres tenham condição de acesso a moradias bem localizadas e dotadas de infraestrutura urbana digna. Não adianta nada construir bairros longínquos com asfalto permeável se essas pessoas forem obrigadas a se deslocar dezenas de quilômetros todos os dias.

    1. Concordo sobre o rodoviarismo. Na prefeitura de São Paulo, pelo pouco que conheço do Plano Diretor proposto pelo gestão Haddad, havia propostas neste sentido de desconcentrar as empresas da região central e levá-las também para os bairros.

      Na gestão Dória, sei apenas que privatizaram até parques, cobrando estacionamento inclusive, dificultando o acesso para população mais pobre.

      No caso das bicicletas, é um excelente modal. Mas há um problema de ordem climática (pra variar) e outro cultural: a falta de respeito com os ciclistas, que coloca sua vida em constante risco.

  4. Não existe NENHUMA solução que não envolva superar o capitalismo. O modo de produção capitalista é inerentemente agressivo à nossa relação com o planeta e sua continuidade é incompatível com a manutenção da vida humana na Terra.

    Não tem solução fora da superação do capitalismo.

    Não estou falando em revolução. Uma das coisas que os anarquistas nos ensinaram é que já podemos deixar de praticar o capitalismo agora. Mas a mudança deve ser global.

    1. E um adendo: sustentabilidade é falácia ideológica capitalista. Como nos lembra Timothy Luke, sustentabilidade nada mais é que a degradação negociada do mundo natural pelo capitalismo.

  5. “Arquitetura sustentável” ou mesmo “construções sustentáveis”. Por que entre aspas? Porque num mundo ideal deveria simplesmente ser “arquitetura” ou “construção”.

    E entre aspas pq não estou falando de greenwashing (telhado verde, parede verde e painéis solares).

    A indústria da construção, se não me falha a memória, é responsável por quase 80% das emissões de carbono no mundo. Desde a extração das matérias primas, indústrias de cimento, aço, cerâmicas, etc; transporte de tudo isso; processos químicos destes materiais (processo de cura do concreto); Maquinário de construção; e depois de pronta a construção, tem os gastos de manutenção, limpeza, gastos energéticos para aquecimento ou ar-condicionado, iluminação artificial, etc etc…

    Em um mundo ideal, ninguém em sã consciência, faria um prédio com fachada reta de vidro para virar uma estufa no Brasil. Usaríamos mais barro e madeira para as construções. Mas existem os shoppings e as Farias Limas aos montes. O problema é que tentamos emular aqui (de maneira muito porca) uma “arquitetura internacional”, sem dar a mínima para as nossas condições climáticas, e pensando que o “ar-condicionado resolve tudo depois”. Ainda mais com essa coisa de que placas fotovoltaicas estão aí para limpar nossa consciência dos gastos energéticos – sem pensar que elas tem um prazo relativamente curto de validade, são caríssimas, possuem um processo de fabricação com muita emissão de carbono e ainda tem a questão do transporte da China até aqui.

    As vezes aquelas construções com tijolinho de barro, umas paredes externas mais grossas, estrutura de madeira e telhas cerâmicas (tudo matéria prima do local), com longos beirais (ao invés daqueles caixotinhos) são exatamente a solução que precisamos.

    E claro, mais áreas permeáveis. Não sei de onde vem essa mania nossa de querer “acimentar” tudo. Além de dar mais trabalho fica horrível! Deixem espaços de grama, e plantem mais árvores! (isso já é implicação pessoal com clientes que querem quintais “sem plantas pra não sujar a casa e não dar trabalho”).

  6. Essa tecnologia pode ser útil em casos específicos, mas de qualquer forma não é solução isoladamente. Precisamos de um conjunto de estratégias. Por exemplo, um sistema de drenagem bem planejado, sistemas de contenção de enxurradas (que podem ser de diversos tipos de descentralizados), agricultura, pecuária e outras alterações de solo com boas práticas para evitar erosão (olha a quantidade de barro que a chuva carrega nesses eventos!), não deixar construir sobre as APPs e várzeas de rios (como foi o caso da loja da Havan em Lajeado/RS, destruída nessa cheia), mais áreas verdes permeando a cidade, cidades menores, logística/fluxo de bens e serviços mais inteligente, etc. etc. etc.

  7. Asfalto permeável é literalmente um band aid. O que causa a impermeabilização do solo é a opção da cidade de não ter política pública de habitação/expansão e preferir condomínios a áreas verdes.
    Como disse um biólogo amigo meu no Instagram, o problema não é o transbordamento dos rios, é construir EM CIMA dos rios.
    Asfalto permeável é solução mirabolante, quando deveria ter MENOS asfalto, não mais. Quando deveria ter aproveitamento do já está construído, não construir mais (o que, aliás, está levando a uma galopante escassez global de areia, sem solução à vista).
    Um dos fatores que levou a essa catástrofe no RS foi o oceano estar mais quente. Não existe asfalto permeável que ajude nisso. Até mesmo o solo tem um limite para absorver água.

    Então né, bora botar band aid.

  8. Nunca cheguei a parar pra ver na Borges de Medeiros, próxima vez que tiver por ali vou dar uma cuidada.

    Mas, trazendo Porto Alegre como exemplo, me parece que em parte algumas soluções atuais já resolvem as coisas, como diques melhores preparados, medições mais precisas e um planejamento melhor na construção de vias. Falta o poder público gastar com isso ao invés de limitar gastos em infraestrutura necessária para aguentar essas catastrofes.

    1. “Mas, trazendo Porto Alegre como exemplo, me parece que em parte algumas soluções atuais já resolvem as coisas”

      WHAT?!!!
      Ou tu não mora aqui, ou tu está em uma data diferente.
      Em 05.maio.2024 te digo: nem todo o meu pessimismo de 47 anos consegue compreender que merda que está acontecendo hoje.
      Mas o mais legal, não espalha tá?: Em 2035 +/- a previsão é ser isso TODOS OS ANOS. E tu sabe né que nada será feito…. ou realmente acha que algo pode mudar?

  9. Aqui no Brasil, ações que previnam alterações climáticas não vão dar em nada, enquanto o Agro for considerado Pop.

    1. Acho muito maluco a galera do agro resistindo a qualquer ação sendo que o aquecimento global afeta diretamente a produção deles (já está afetando)

    2. Então; só pra deixar claro, os maiores protetores de biomas do Brasil são justamente o médio e o grande protetor rural – dados da Embrapa e corroborados pelo ICMBio.

      1. Ah, tá. Então quem acabou com o Cerrado aqui no Centro-Oeste foi a agricultura familiar.

        1. Amigo, é a verdade. Não estou dizendo que os grandes fazendeiros não desmatamento. Estou dizendo que os maiores protetores de vegetação nativa são médios e grandes agricultores. Em 2018, “os produtores rurais brasileiros (agricultores, florestais, pecuaristas, extrativistas etc. cadastrados no CAR) preservam no interior de seus imóveis rurais um total de 218 milhões de hectares, o equivalente à superfície de 10 países da Europa ou 66,3% da área de mata nativa conservada. (…) Os limites das unidades de conservação integral são conhecidos de forma circunstanciada. Elas protegem 10,4% do território nacional e representam menos da metade da área dedicada à preservação pelo mundo rural. As 600 terras indígenas ocupam 13,8% do país.”

          https://www.embrapa.br/car/sintese

          1. Nos últimos anos o desmatamento aumentou. Tem muito desmatamento ilegal. E esse Agro pressiona com todas as forças pra que possa continuar desmatando. Agora mesmo estão comemorando a redução da taxa de fiscalização ambiental aprovada na Câmara. É verba que vai pro Ibama.

          2. Não tem uma lei obrigando o produtor rural a preservar uma % das suas terras? Aí quem tem mais terra vai preservar mais mesmo, não entendi qual o ponto em trazer essa estatística.

      2. @JoaoM o objetivo de trazer a estatística é mostrar que existe uma política pública que torna possível o produtor rural ser também aquele que protege. Dizer que o agro é daninho é uma falácia. O agro não é daninho, quem é daninho é o agro que não cumpre a lei. E esse tipo de legislação mostrou-se uma estratégia que deu certo – tanto que produtores rurais protegem mais biomas naturais que as reservas e os territórios indígenas. Não é esse o tópico da discussão – soluções não mirabolantes?

        1. Sim, porém trazer esse dado aqui passou a impressão que sua mensagem foi “O agro já faz até demais, pode fazer menos agora”.

          Acredito que todo mundo razoável não quer acabar com o agro, afinal todos precisamos comer. Só gostaríamos que ele fosse mais sustentável a menos devastador ao meio ambiente

          1. Eu rebati explicitamente o comentário sobre “a galera do agro resistindo a qualquer ação”. Uma das razões de o RS estar nesse lodaçal é por ter sido o primeiro estado do país a cobrir todo o seu território com propriedade agrícola. Quase não existe áreas naturais: só restam 7% da área original de Mata Atlântica. Esse foi um estado em que claramente andaram solenemente pra lei.
            Então tem, sim, que mostrar que o produtor rural é parte MUITO importante nesse processo – e, diferentemente do que foi dito acima, eles se importam (e bastante) com o problema.

          2. @ Julia

            Na minha visão de leigo, de alguém sem contato direto com esse universo, tenho a impressão de que o agro não exatamente se importa, ou que se importa no limite dos seus interesses.

            O fator determinante na área de preservação permanente é a lei. Se essa galera priorizasse a sustentabilidade, não precisaria de lei obrigando manter um percentual da propriedade preservada.

            Fazendo um paralelo, seria equivalente a dizer que a Apple é a favor da competição entre lojas de aplicativos no iOS agora que isso é possível na Europa, ignorando que a abertura é resultado direto de uma lei.

          3. @Julia isso que tá difícil de entender: se eles se importam tanto assim, porque só sobrou 7% de mata atlântica no RS? Ou por que o cerrado tá diminuindo pra dar espaço pra plantação de soja?

          4. Para o @ghedin também:

            No caso do RS, para que não fosse cumprida a legislação, o governo estadual mudou a lei.
            Em 2019, Eduardo Leite mutilou o código florestal do estado e passou a régua em boa parte do texto para afrouxar a legislação ambiental. Como sempre, a mudança foi aprovada a toque de caixa pela base de apoio do governo na Assembleia Legislativa. Depois de ser atropelada no processo, técnicos da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (FEPAM) divulgaram uma nota técnica (https://agirazul.com/wp-content/uploads/2019/10/Nota-Tecnica-Analistas-FEPAM-1.pdf) em que elencam os principais pontos do massacre. O resumo:

            “1 – Acaba com os quatro artigos do capítulo 5, que tratam de medidas de proteção, por exemplo, às áreas adjacentes às unidades de conservação. Também deixa de proteger áreas reconhecidas pela Unesco como reservas da biosfera; os bens tombados pelo Poder Público; as ilhas fluviais e lacustres; as fontes hidrominerais; as áreas de interesse ecológico, cultural, turístico e científico, os estuários, as lagunas, os banhados e a planície costeira; as áreas de formação vegetal defensivas à erosão de encostas ou de ambientes de grande circulação biológica.

            2 – Apaga todo o segundo capítulo do código de 2000 [grifo meu: considerado um dos melhores e mais avançados do país, elaborado justamente para salvar o que restava de biomas nativos do RS], aquele referente aos estímulos destinados à proteção ambiental. Foram suprimidos todos os mecanismos de apoio financeiro do Estado, até mesmo para as pesquisas e centros de pesquisas, manutenção de ecossistemas, racionalização do aproveitamento da água e energia, entre outras tantas.

            3 – Afrouxa o licenciamento ambiental, criando grave risco ambiental. É o que acontecerá com a criação da LAC, sigla que identifica a “Licença por Adesão de Compromisso”. Ou seja, o empreendedor pode iniciar a instalação e a operação baseadas apenas numa declaração. É, na prática, o auto licenciamento.

            4 – Cria “uma terceirização disfarçada” através do artigo 56. Permite contratar pessoas físicas ou jurídicas para cumprir prazos para emissão de licenças, ocupando a atividade-fim da Fepam e desconsiderando o instrumento do concurso público.

            5 – Desmonta o Código Florestal/RS. Revogam-se vários artigos que protegem as florestas e espécimes importantes da flora gaúcha. Entre eles, os que citam a proibição da coleta, o comércio e o transporte de plantas ornamentais oriundas de florestas nativas. Também cai a proibição da coleta, a industrialização, o comércio e o transporte do xaxim. Retira-se a proibição da supressão parcial ou total das matas ciliares e das vegetações de preservação.

            6 – Abre caminho para os incêndios florestais ao riscar o artigo 28, aquele que proíbe o uso do fogo ou queimadas nas florestas e demais formas de vegetação natural. Também elimina o artigo 1º que reconhece as florestas nativas e demais formas de vegetação natural como bens de interesse comum.

            7 – Retira o veto ao corte de árvores, comercialização e venda de florestas nativas, numa sucessão de equívocos e desconhecimento.

            8 – Revoga o artigo 35 do Código Florestal, aquele que proibia ou limitava o corte das espécies vegetais em via de extinção.”

            Depois de 5 anos, a gente vê o resultado. E o cara foi reeleito. Quem protestou a época? Os “ecochatos”. Então, de novo: existe legislação, e ela é boa. Grande parte do agro a cumpre, e por isso mais da metade do bioma protegido o é graças a esses fazendeiros e pecuaristas – que, obviamente, não o fazem pelo bem de seus corações, e sim porque têm acesso a crédito e ao que de melhor o Embrapa oferece. A lei existe não porque todo mundo segue, e sim porque uns vão fazer o certo independentemente de ela existir, a maioria vai fazer o certo porque burlar a lei traz consequências com as quais não se quer lidar e outros vão passar por cima por acharem que a lei não deveria existir – e esses têm poder para bancar isso.

            Agora está sendo votada no Congresso mudança na legislação ambiental, e ninguém está falando disso. O projeto de lei vem se arrastando desde 2021, e se for aprovado vai ser um desastre (https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2024-03/pl-que-muda-codigo-florestal-vai-desproteger-48-milhoes-de-hectares). Cadê a sociedade civil? Só os “ecochatos” estão fazendo barulho.

            Eu só acho que, para uma discussão séria e produtiva entre quem realmente se importa com o problema, é preciso saber de todos os dados antes de dizer coisas do tipo “o agro tem que acabar”. Asfalto permeável é legal, mas é complementar. Não existe tecnologia boa o suficiente para contrabalançar os estragos decorrentes do aterramento da cabeceira de um rio ou a eliminação de mata ciliar. Como você sabe, eu também sou bióloga, e um problema grave desses só é resolvido quando a gente para de apontar dedos para caras e os direciona para fatos.

          5. @ Julia

            Interessante esse bastidor da legislação gaúcha, Julia. Fiquei com uma dúvida, só: se não o agro (e, quando falo em agro, falo em grandes latifundiários), quem provocou/pressionou o atual governo a mutilar a legislação florestal do RS?

          6. Sim, vai atrair mais críticas, enquanto o lobby das mineradoras e das grandes construtoras faz um estrago maior. Sabe como se combate isso? Aprendendo a ler a pauta dos projetos em andamento. Recolhendo dados, seguindo gente que está atento a isso. Como eu disse, apontando o dedo/jogando luz/ expondo dados – a cara dos pilantras vem a reboque. O projeto de lei que está em vias de derrubar a chamada lei da Mata Atlântica começou de um jeito (certo, ao eliminar um vazio legal) e foi radicalmente mudado quando estava sendo analisado pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. A mudança não somente beneficia os grandes latifundiários e pecuaristas como abre a porteira para a construção de resorts e hotéis por todo o Pantanal.
            Uma das coisas que eu aprendi trabalhando no Globo: quando a gente quer denunciar/acusar, sua base de argumentação não pode ter furos e deve sempre apontar para os fatos, não para a pessoa. A pessoa sempre pode argumentar perseguição; fatos não podem usar essa estratégia.

        2. @ghedin os grandes latifundiários não são os únicos que fazem pressão; nesse caso, a pressão partiu principalmente das grandes incorporadoras avançam cada vez mais em áreas protegidas nos grandes centros urbanos. Vimos exatamente isso em São Paulo em 2016, quando Ricardo Salles foi pego fraudando o plano de manejo da APA do Rio Tietê, quando era secretário de Meio Ambiente de São Paulo, para beneficiar mineradoras. Estamos vendo isso em Ilhabela – o prefeito Antônio Colucci (PL) desapropriou uma área protegida e começou a mexer os pauzinhos pra cedê-la para um grupo português construir um resort de luxo “ecológico” (https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2024/03/27/mpf-abre-inquerito-para-investigar-possivel-construcao-de-hotel-em-praia-de-ilhabela-onde-vive-comunidade-caicara.ghtml)

          E nem vou citar áreas da União, de mata fechada, como a que a Cutrale simplesmente invadiu ainda no milênio passado, devastou e plantou pomares de laranjas. O Incra tenta há décadas despejar a empresa (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1010200902.htm), que sabe ser grileira (https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/2011/11/presidente-do-incra-diz-que-cutrale-sabe-que-invadiu-terras-publicas/).

          Aí você pergunta sobre grileiros derrubando mata nativa, e a resposta é MST, e o argumento é sempre DESTRUÍRAM O LARANJAL DA CUTRALE ou DESTRUIRAM O LABORATÓRIO DO EMBRAPA.

          O laboratório não era do Embrapa, e ele foi destruído por mulheres do MST porque tinha mudas de um eucalipto transgênico, cujo plantio (adivinha onde) pela Suzano (famosa por seus “desertos verdes”) foi aprovado como sempre a toque de caixa (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/542125-aprovacao-de-eucalipto-transgenico-atende-interesse-do-mercado-de-pasta-de-celulose-entrevista-especial-com-leonardo-melgarejo) sem estudos de impacto de longo prazo no meio ambiente. Uma das consequências elencadas seria a contaminação da produção de 6 mil apicultores orgânicos certificados nacional e internacionalmente (https://oglobo.globo.com/brasil/sustentabilidade/eucalipto-transgenico-ameaca-mel-organico-14379745), que por cinco anos tentaram ter voz no processo, e jamais foram ouvidos.

          Sabe quantos eucaliptos transgênicos o país tem depois da quebradeira? Até antes da pandemia, zero. (https://epoca.oglobo.globo.com/ciencia-e-meio-ambiente/noticia/2018/01/o-dilema-do-eucalipto-transgenico.html)

          Enfim. É um assunto imenso, cheio de ramificações – um problema que pode ser resolvido sem soluções mirabolantes e com as pessoas (como eu disse) apontando o dedo não para caras, e sim para fatos. Infelizmente, eles são duros de engolir, e as soluções mirabolantes paliativas acabam sendo mais pop que o agro.

      3. Julia, apenas olhe para a evolução do desmatamento. Consulte qualquer trabalho feito por geógrafos (e não pelos agrônomos pró-agronegócio da embrapa).

        O Código Florestal é só um paliativo (um band aid, pra usar a sua própria expressão) que apenas legitima a ação agressiva do agro no avanço sobre o cerrado, sobre o pantanal e sobre a Amazônia. Nós não temos que disciplinar novos loteamentos rurais — como faz a legislação —, nós temos que ACABAR com a possibilidade de novos loteamentos rurais e diminuir os existentes.

        A culpa é sim do agro e esse tipo de discurso ideológico só serve para mitigar os danos causados por essa gente.

        1. Rapaz, desculpe a carteirada, mas são quase 40 anos fazendo isso. Você querer acabar com loteamentos rurais é tão utópico quanto achar que o país vai adotar asfalto permeável. Novos loteamentos também são entregues para comunidades agrícolas como as do MST. Isso não existe.

          A Constituição de 1988 determinou o uso social da terra, e protegê-la também se enquadra nisso. Lei não é “paliativo”, é o que – como eu disse – faz com que a maior fatia do que é preservado esteja em propriedades rurais.
          Enquanto houver esse pensamento de que o agro é o grande e único inimigo (MST é agro), a destruição dos ambientes urbanos vai continuar. Um excelente exemplo é o que aconteceu em São Gonçalo, quando um prefeito achou por bem extinguir com uma canetada a área rural do município e o resultado foi Jardim Catarina, que nasceu como bairro e cresceu como favela.
          Existe uma extensão área de mata ao lado da comunidade onde hoje da Maré – era o parque biológico da Fiocruz onde eram criados macacos. Com a construção da Avenida Brasil, da Linha Vermelha e da Linha Amarela, e mais a expansão urbana desenfreada nas proximidades, a área foi tomada por lixo. Os moradores pediram e lugar foi retomado, passou por obras e hoje é uma ajuda para o escoamento das chuvas – insuficiente, por causa do tanto de asfalto ao redor da comunidade.

          Posso passar o dia dando exemplos. Resumir o problema ao agro é, desculpe, infantil. Outros atores são tão ou mais daninhos que latifundiários – como as grandes incorporadoras e grupos estrangeiros voltados para a hotelaria de luxo. O garimpo é uma ameaça tão ou maior que o ahro. Enquanto todo mundo está chamando o plantador de soja que conserva parte da mata de “agro safado”, tem um resort aprovado para a Ilha de Boipeba que vai botar abaixo um bom pedaço de Mata Atlântica.

          (E pelamor, “agrônomos pró -negócios da Embrapa”? Parece antivacina falando “Ministério da Saúde pró-indústria farmacêutica”. A Monsanto só não se mudou de mala e cuia pra espalhar aqui sua política de arruinar agricultores via patente de sementes por causa da Embrapa. Graças também a ela o MST é reconhecido internacionalmente como produtor de arroz orgânico)

          1. Mineradoras e cia também são culpados, mas quem tem o slogan bonitinho “o agro é pop”, quem tem a “bancada do boi”, quem tá sempre encabeçando lobby anti pautas ecológicas vai automaticamente atrair mais críticas.

  10. Essa “solução” do asfalto permeável deve resolver para chuvas fortes de curta duração, que são as chuvas comuns, e não essas chuvas fortes de longas duração que duram dias, onde o próprio solo fica tão encharcado que se torna impermeável.

    Fora que asfaltado permeável é tipo coca cola zero né?