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Sobre uma aversão a sites baseados em texto

Tenho notado que as pessoas do meu círculo social têm uma aversão a sites baseados em texto, como o Manual/Órbita e blogs em geral. Já ouvi dizerem que “parece que o site não carregou direito”, “que tá faltando algo”, coisas do tipo.

Acho engraçado, pois é justamente esse estilo de uma página mais limpa que me atrai hoje.

Digo “hoje” porque começei a frequentar o Manual, minha porta de entrada, há apenas alguns anos e me lembro bem que eu também tinha uma pequena sensação de resistência mental para ver um texto na tela do meu celular e continuar a leitura até mesmo de um pequeno parágrafo. Acho que a falta de ter sempre uma imensa imagem, vários botões coloridos e as carinhas das pessoas que conheço por todo lugar na tela simplesmente fizessem minha mente querer olhar pra outro lugar. Confesso que, para atualmente eu gostar de ler uma página assim, baseada em texto, eu tive que insistir por um tempo até que meus olhos e minha mente se acostumassem.

E daí eu fico pensando em como os artifícios visuais que as big techs usam para roubar nossa atenção moldam nossa mente de uma forma que a gente não consiga empregar atenção a uma tela de texto puro.

Não quero ser um caga-regras de como cada um devem usar a internet. Mas é que vejo ser falado várias vezes, e que acredito, que essa predominância do uso das redes sociais tem efeitos negativos sobre nosso foco. E vejo isso diretamente relacionado com essa resistência que as pessoas encontram em se deparar com uma tela sem todas as firulas coloridas e um botão de curtir.

Já repararam isso próximo a vocês?

16 comentários

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  1. Aversão é um termo muito forte, mas porque não ter imagens de apoio em artigos e publicações de sites e blogs? Como produtor audiovisual, a fotografia e o vídeo estão inseridos no meu dia a dia e é fato que são mídias que prendem mais a atenção do espectador e despertam o interesse. Gosto de ler bons e longos textos, mas se vier acompanhado de fotografias, ilustrações, gráficos, audios, e até videos de apoio, tornam o material muito mais rico e atrativo.

  2. Nunca ouvi/li ninguém falar isso. Já eu tenho aversão a sites e redes com vídeos curtos tipo Tiktok.

  3. E com a explosão de videos curtos (tiktok, kwaii, reels, YouTube shorts, etc.) isso só tende a aumentar cada vez mais. As pessoas estão perdendo a capacidade de se concentrar em coisas que necessitam de muito tempo, tipo uma leitura longa ou um vídeo longo.

  4. O problema é que a maioria dos sites se tornou painéis de distração. Não é difícil ver longas postagens sem imagens; porém, os mesmos sites inserem anúncios (não só propagandas externas, mas também anúncios de outras postagens) em caixas flutuantes (o que ocorre mais no celular) e acaba atrapalhando a leitura.

    Junte a preguiça criada pelas redes sociais com esse detalhe que citei, e as coisas vão ficando cada vez mais desagradáveis. Daí a minha quase obsessão em encontrar blogs no estilo de 2007~2009.

  5. A maior parte da minha vida (até agora) foi na era pré-computadores e pré-celulares. E eu sempre vi na maior parte das pessoas essa resistência ao texto, às fontes de informação que precisam de tempo e paciência pra irem sendo digeridas. Não vejo exatamente novidade nessa resistência (ou preguiça, ou ojeriza). Se ela tende a piorar de agora em diante, é coisa pra gente ver nos próximos capítulos. Ou ler….

  6. Deve ser a mesma sensação que tenho ao pesquisar algo e só achar conteúdo em vídeo

  7. Engraçado você postar isso: eu conversei com dois psicopedagogos sobre as mudanças no ensino sueco (e a famigerada que foi anunciada pelo governo de São Paulo) e eles me disseram que, para prender a atenção do aluno, o digital precisa de uma série de recursos, como botões coloridos, links, gifs etc – como estamos (ou fomos) acostumados via redes sociais. E o resultado parece sintoma de TDAH: as informações adquiridas são mais difíceis de serem fixadas e a atenção vai pro buraco.

  8. Eu também prefiro muito mais ler e me considero fora da curva quando vejo que enquanto quem está perto está vendo reels de Instagram. E eu estou atualizando o RSS ou entrando no Pocket.

    Mas gosto de encontrar imagens ou vídeos no meio do conteúdo. Desde que seja coerente com o texto.

  9. Um terço dos brasileiros é analfabeto funcional e boa parte dos que não deve ser aversa a textões. (Não à toa, “textão” virou quase sinônimo de texto longo e enfadonho.)

    Apesar disso, acho que hoje se lê muito mais que antes, graças a aplicativos de mensagens e — detesto admitir — às redes sociais. Vídeo e áudio (em especial mensagens) têm uma participação grande no consumo de mídia, provavelmente majoritária, mas ainda tem muita legenda de foto e mensagem de WhatsApp rolando por aí.

    1. Ler mais não é sinônimo de ler melhor. Você pode dizer que tem uma biblioteca de três mil volumes e ela ser composta por obras de autores do naipe de Lair Ribeiro e Olavo de Carvalho.

      1. Talvez vocês estejam falando de coisas distintas. Como entendi, Ghedin fala de pessoas com dificuldades no ato de leitura propriamente dita, juntar sílabas, formar palavras, fazer a conexão de uma frase com a seguinte, extrair a ideia geral, etc. Para isso, penso que a frequência de leitura realmente ajude. Me parece que Julia fala de uma leitura reflexiva e crítica, que seria um nível superior, por assim dizer. Aí concordo com a Julia que, para esse segundo tipo, frequência de leitura não garante muita coisa. Fora o que disseram, há quem leia muito e nada apreenda também, mesmo quando as obras são bem escolhidas. Entre pessoas conhecidas, me vem à cabeça certa booktuber, que consegue ler mal todo e qualquer autor que lhe caia às mãos, inclusive o Olavo citado.

      2. Isso mesmo, Julia: a leitura de bulas de remédio e de poesia é muito diferente. Quanto à taxa de analfabetismo funcional, houve pesquisas indicando um número de até 75% da população. De todo modo, são números alarmantes e tristes.

  10. Penso que talvez seja por isso que eu não consiga mais ler textos fora do modo leitura, ou de serviços como o Omnivore e Instapaper, que limpam o conteúdo da página pra mim.
    Ler na web para desktops sem bloqueadores por exemplo, é um esforço que nem tento fazer mais, por menor que seja o texto.
    E além das vantagens visuais da leitura de texto puro, vejo nessas ferramentas uma forma inconsciente de fugir da área de comentários, que a depender da relevância do assunto, pode se tornar um local bem tóxico.

    1. Você tocou em um ponto que me fez lembrar de um passado “distante”. Antes das redes sociais e seus algoritmos moldarem a cabeça da galera, acho que as caixas de comentários foram o começo dessa expansão da toxicidade na internet. Geralmente as pessoas acompanhavam (pelo efeito manada, talvez) a opinião dos primeiros comentários. E esses geralmente eram os mais superficiais e tóxicos.

  11. pessoal tem preferido muito mais vídeo (curtos) a textos mesmo, raramente vc vê alguém lendo, acho que o único que se salva nisso ainda hoje é newsletter que (acho) graças ao substack deu um novo fôlego a leitura