
Observando a situação mundial atual, a ascensão do Sul Global com o BRICS+, A China em ritmo acelerado para ser a maior economia do planeta, a Rússia que continuou forte mesmo após as sanções da OTAN, o uso de Ucrânia como “bucha de canhão” em uma guerra por procuração contra a Rússia, Israel cometendo genocídio à luz do dia e com apoio de diversos países ocidentais e utilizando tecnologia de big techs norte americanas para assassinar civis palestino…
O mundo está fazendo um giro de 360º, já não é surpresa para ninguém que os Estragos Unidos da América estão em uma espiral de decadência acelerada, até mais do que o esperado, porém aí entra a questão que gostaria de usar como modelo para um questionamento pessoal que faço desde o início da guerra na Ucrânia, segue a linha…
Os EUA utiliza o sistema SWIFT, que é utilizado por metade do mundo como sistema de pagamento principal, todo dólar negociado entre países passa por esse sistema que conecta 11 mil bancos em mais de 200 países e que reúne cerca de 70% das transações globais.
A Rússia foi “ejetada” desse sistema como forma de “punição” pelo conflito na Ucrânia, assim foi colocado em prática um projeto que já estavam há algum tempo sendo elaborado, chamado MIR, que criou um sistema à parte do SWIFT para concorrer com ele e interligar os países dos BRICS+ e do Leste Europeu, Ásia.
Observando como os EUA utilizam o SWIFT como literalmente uma arma de guerra, utilizada para “matar por inanição” um país que vá contra aquilo que eles ditam, e sabendo como eles atuam em espionagem descarada pelo mundo, monitoramento e, agora em última instância, o possível banimento do TikTok do território norte-americano caso a Byte Dance não venda para eles (WTF?!).
E nem preciso dizer o Twitter, utilizado como ferramenta de desestabilização de democracias, em conjunto com o Facebook.
Eu me pergunto… O que impediria essa desgraça chamada de país de utilizar o controle de seus servidores em solo norte-americano ou em países que são suas colônias, como ferramenta de guerra, bloqueando acessos a arquivos em nuvem, serviços de comunicação, literalmente um sequestro digital dos dados por meio de serviços administrados por empresas do país. Dizer para confiarmos em “termo de uso” chega a ser ridículo, visto o que as big techs tentaram fazer, colocando esses termos acima de nossa Constituição.
Li o texto do Cory Doctorow (enshittification), traduzido na página do Sol2070, recomendo para quem quiser ler, me fez pensar ainda mais nisso, em como estamos sequestrados por essas big techs, nossos dados em nuvem, como podemos confiar que realmente não estão sendo analisados por IAs, a quantidade de conhecimento roubado, a quantidade de informações sensíveis de governos indo diretamente para as mãos dessas big techs e de lá para o governo norte-americano.
Imaginem o WhatsApp sendo “desligado” do Brasil, o caos que isso geraria, quantas pessoas dependem dele para trabalhar, quantos negócios seriam afetados.
É desesperador pensar que estamos dentro de uma arapuca armada pelo império que agora já em decadência e já demonstra que não irá cair sem atirar.
O que posso dizer é: Precisamos urgente discutir soberania tecnológica, digital e científica no Brasil, precisamos de servidores em solo nacional, de ferramentas de comunicação internas que não enviem dados para fora do país, precisamos fortalecer nossos laços com o Sul Global e aproveitar a troca de tecnologia se conhecimentos com China, Rússia e Índia (grandes potências tecnológicas e militares), e precisamos tomarmos muito cuidado com os “Serviços Gratuitos” que fornecem armazenamento de dados em servidores fora do território nacional, nada é gratuito e aprendemos com a Google isso, a empresa em que trabalho foi afetada diretamente pela mudança de política da Google sobre contas antigas ou educacionais que utilizavam o serviço de armazenamento do Google Drive, quando a empresa começou a utilizar o serviço era gratuito com espaço ilimitado, na inocência e confiança os responsáveis pela área de T.I acreditaram que isso seria “para sempre”, até que a empresa se viu presa completamente pelas ferramentas da Google e do espaço em nuvem da empresa, além do sistema de gerenciamento de e-mail, ou pagava o valor que eles estipularam ou simplesmente não conseguiríamos mais utilizar os serviços, o trabalho de fazer a troca de sistemas seria absurdamente enorme e desgastante e prejudicaria muito nosso trabalho, e quando entrei na empresa eu já havia avisado desse risco, depois que ocorreu, fiquei cabreiro, sem contar as Universidades Públicas que utilizavam os serviços e foram afetadas diretamente.
Para quem não se lembra do ocorrido:
https://www.tecmundo.com.br/mercado/281028-procon-multa-google-r-1-milhao-encerrar-drive-ilimitado-universidade-entenda.htm
https://www.intercept.com.br/2022/07/07/google-e-proibido-pelo-procon-de-limitar-servico-oferecido-como-ilimitado-a-universidade/
https://www.brasildefato.com.br/2022/03/01/entenda-o-que-e-o-sistema-swift-e-veja-situacoes-em-que-ele-foi-usado-como-arma-de-guerra
Desculpem os erros, digitei isso no teclado do celular :|
37 comentários
Muito legal a discussão aqui nessa postagem, muito mesmo. Queria saber elaborar meus argumentos assim também hehe.
Elogios a parte, entendo que “guerra híbrida” é meio confuso… mas acho que entendi o que Rick quis dizer.
O que posso adicionar na discussão é que até agora a internet não foi usada como arma, quem sabe grupos APT estatais fizeram algum barulho… mas já pensou se rola BGP hijacking com fins de guerra? Ou se o SS7 fosse atacado pra prejudicar a telefonia de país(es) de uma só vez?
Acho que essas coisas vão acontecer bem antes da gente entender El Niño e La Niña.
boa análise, isso me preocupa bastante também. há bastante gente discutindo soberania tecnológica com a urgência devida, mas sem a visibilidade e o alcance necessários. recomendo o podcast Tecnopolítica do Sergio Amadeu (prof da UFABC).
precisamos discutir isso e termos de política de Estado, mas também como sociedade civil organizada. uma tentativa tem sido feita pelo Núcleo de Tecnologia do MTST, de formação em tecnologia, produção de aplicativos próprios etc. isso não é o suficiente, mas se considerarmos que temos que diversificar os flancos de atuação, é muito bem vindo.
enfim, no geral sou um pouco pessimista, exatamente porque não há investimento público em desenvolvimento de tecnologia. a nuvem nacional da magalu é uma nuvem proprietária na mão de uma gigante do varejo, não muda muito pra mim em termos de soberania.
aproveitando a oportunidade: alguém por aí tem alguma novidade sobre a nuvem da Magalu ?
Teve uma época que o Brasil tentou algo para popularizar o software livre (o “Computador para Todos”, creio que no fim da década de 00 e até meados da década passada), só que para um país que já estava com uma geração que aprendeu a mexer no PC com produtos da Microsoft e para o grau de dificuldade de aprender a lidar com a diferença entre ls e dir, no final ficamos mais dependentes deles do que nunca da Microsoft, infelizmente.
A educação tecnologica no Brasil sempre foi fraca (isso falando a partir da educação fundamental até a média), e isso é um ponto que deveria ser posto melhor em foco. Claro que a popularização e baratemento das tecnologias aliada as redes sociais e a troca de conhecimento mais abrangente com as redes de vídeos como YouTube e TikTok, isso até que permitiu ao menos ter mais pessoas aprendendo além do básico. Porém ainda temos um vácuo para preencher antes que seja tomado de vez pelas big techs estrangeiras.
Também na década de 10 o governo tentou usar software livre como tecnologia base para serviços governamentais. Não sei como está hoje, dado que retrocedemos um pouco e voltaram a usar sistemas proprietários. No entanto, seria interessante até analisar como está a abrangência do software livre no governo e suas instâncias (inclusive essenciais como as tecnogias ligadas ao sistema bancário (que infelizmente sofreu um ataque dias atrás) e até militares (na qual espero um dia que não sejamos mais baseados em proteção militar, porém é outro tema a se lidar) e de comunicações (redes sociais).
Quanto a serviços essenciais que dependem de sistemas externos, talvez o ideal para a conversão seria a própria comunidade de software livre no país fazer um esforço político para não só se posicionar melhor e se mostrar a disposição do governo, como também gerar “cases”, talvez negociando com prefeituras para criar embriões de tecnologias para serem depois replicadas pelo país. O vácuo gerado por não fazer isso é o “Google For Education” colando sua marca em escolas públicas (isso é legal pela lei, a propósito?).
No mais, talvez no fundo este país que vivemos é no final um “vira lata caramelo” que abana o rabo para quem melhor alimenta-lo e morde quem enche o saco dele.
Não cheguei a ver na prática. Mas em cursos preparatórios para concursos públicos, cheguei a ver uma abordagem bem significativa de software livre, desde a parte histórica até comandos de terminal. Já fazem alguns anos, não sei como está hoje em dia.
Na parte da educação, acho que o maior trunfo de usar software livre é o fato de poder usar máquinas antigas para determinados fins. Algo que, nas versões atuais de Windows, jamais seria possível.
Eu concordo com o início de sua análise, e concordo com sua conclusão sobre a importância da soberania, mas há um salto no meio do raciocínio que talvez seja um erro
Um primeiro ponto é que o conceito de guerra híbrida caiu em desgraça acadêmica, com mil interpretações simplistas importadas dos jornais e que agora fazem com que ele seja visto com cada vez mais descrédito acadêmico. Sempre é preciso dizer o que queremos dizer quando dizemos “guerra híbrida”, mas vou saltar isso, para não me estender muito.
Um dos pontos da ideia de guerra híbrida que considero ainda importantes é a de um Estado que se volta, fragmentariamente, em disputas interiores. Uma leitura dos USA não deve considerar somente sua disputa com a China, mas também seus problemas com insurgências internas. Nem mesmo internamente os Estados são todo-poderosos mais (nenhum Estado-nação é como já foi).
Assim, acompanho sua análise até a ideia do controle dos servidores, então discordo. É que existe algum controle, mas dificilmente haveria um consenso geral entre Estado (executivo e legislativo), governo (democratas e republicanos) e Mercado, ao menos, mas não só, de big techs (que teriam que não se esforçar em redirecionar servidores, não resistir em perder potenciais usuários…) para uma ação dessa natureza.
Backdoors, coleta de dados, mesmo violações em termos de uso e na Lei são mais negociáveis e sutis do que a quebra abrupta do serviço para o Sul Global. Haveria um grande tremor no Capital, que não pode ser ignorado nessa conta (é só ver o quão difícil é banir o TimTok).
Portanto, acredito que seja necessário um derretimento profundo dos USA que, se for acontecer, será bastante notável. Precisaríamos de um país tão decrépito e pequeno que seu interior se converta em um consenso.
Ótima análise! É um assunto que me preocupa diariamente. Uma pena que a maioria das pessoas parece não compreender ou não se importar; ou, verdade seja dita, muitas vezes preferem focar seu tempo e energia para necessidades mais imediatas.
Sobre o bloqueio de serviços de comunicação, é um risco real. Um exemplo, ainda que fuja um pouco do escopo do seu post:
Elon Musk: Starlink domina internet na Amazônia – BBC News Brasil
Acho que a coisa mais básica é: adotar software livre no serviço público. Já vi repartições (fóruns) utilizando Microsoft / Office 365. Ou seja: parte das informações sensíveis de processos judiciais (incluindo aqueles em que as big techs figuram no polo passivo). E tudo isso rodando no Windows que, a cada versão, parece ter mais recursos de telemetria embutidos.
Ótimo exemplo cara!
Observando as atitudes do bilionário fascista, é preocupante essa situação na Amazônia, sem contar que a mesma tecnologia está sendo usada por Israel para o genocídio dos palestinos.
Eu fiquei de cara quando, no governo passado, a ABIN estava usou WhatsApp para comunicação de conteúdo confidencial.
Esse caso da ABIN só demonstra o quanto as pessoas são ignorantes tecnologicamente.
Isso é um grande problema! Ao menos o judiciário daqui de Sergipe usa o LibreOffice por regra, mas acaba aí. O resto é Windows e um e-mail que parece hospedado junto à Microsoft.
Rick, analisei esse caso do contrato do google com as universidades federais no Brasil em minha especialização. Me chamou muita atenção ler os acordos de cooperação técnica elaborados para firmar essa dominação de mercado do Google, basicamente rendemos nossa infraestrutura de pesquisa e a intermediação da modernização do nosso sistema de educação.
Da uma olhada no Plano Nacional de Educação Digital https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/lei/L14533.htm
e na Política Escolas Conectadas
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/Decreto/D11713.htm
Opa Vinicius, que legal cara! Sua pesquisa está publicada?
Vou conferir os links que indicou! No momento estou usando o Legislatech e agora o Ciência Monitorada, projetos da Núcleo Jornalismo, para acompanhar as discussões sobre temas relacionados à soberania digital, IA e demais.
Que massa! Abri essa discussão na minha dissertação, mas, depois de algumas portas na cara, e-mails automáticos e silêncios institucionais, ela acabou sendo secundária.
Epa! Libera essa dissertação aí Edson, vamos fortalecer! Qual foi teu tema principal?
Tens razão, OP. Na verdade, numa guerra ou conflito, quase tudo pode virar arma. Temos algumas convenções mas na prática a banda toca diferente. E não, nada impedirá que os EUA, ou qualquer outra potência, usem essas armas e softpower como bem entender.
Não precisamos achar que tudo deve ser feito como antes, existem outras maneiras de fazer, exemplos são o que não falta pelo mundo. É interessante que sempre que o tema “soberania nacional” surge em pauta, sempre é atropelado por exemplos ruins de tempos passados como se não houvesse evolução no pensamento. É para ontem essa discussão, o país precisa ter o controle de seus dados doa a quem doer.
Qual exemplo, exceto a China?
A mais recente e que demonstrou o quão necessário é manter a sua soberania tecnológica e digital? A Rússia é um excelente exemplo, já que, sabe-se lá o motivo, você removeu a opção China, porque será?
Também porque eu já conhecia e um colega abaixo já tinha citado?
Não há necessidade de fazer um julgamento com base numa pergunta.
mas Russia não é um país, tal qual China, que mata quem não pensa igual?
os disparos unidos da américa jamais fariam isso, vide fred hamptom e quetais kkk assange e snowden não podem pisar lá etc
kkkkkkkk Disparos Unidos da América foi foda.
Falar dos Otários Unidos da América é sempre complicado.
A Alemanha por exemplo. O email mais comum não é o gmail, mas sim uma opção local. Estão estudando migrar para software livre de office nos serviços públicos.
por via das dúvidas, a China já tem seus serviços de nuvem pública: Alibaba, Tencent, Huawei (sim, ela), e se não me engano Baidu
a Huawei inclusive opera no Brasil
O Brasil já foi e é palco de guerra híbrida, né? O governo que tentar se alinhar mais à China e Rússia nessa questão de “fechar” as portas pra big techs, ter soberania tecnológica, vai cair. Vai ser um massacre midiático e comunicacional contra qualquer ideia nesse sentido.
Lembra que a Dilma usava Gmail? Foi um problemão…
O problema é esse liberalismo de almanaque de farmácia que impera hoje, pelo certo o estado deveria investir em serviços de email, busca, armazenamento e etc utilizando empresas estatais para oferecer uma opção ao monopólio que aí está.
“Precisamos urgente discutir soberania tecnológica, digital e científica no Brasil, precisamos de servidores em solo nacional, de ferramentas de comunicação internas que não enviem dados para fora do país”.
Reserva de mercado, Telesp… hmmm, melhor não.
A reserva de mercado não é necessariamente ruim, precisa vir acompanhada de políticas de incentivo à produção nacional.
Na época da reserva de mercado de micros tinha até sistema operacional desenvolvido aqui no Brasil, mas não havia uma política de incentivo à pesquisa e desenvolvimento.
E a telesp funcionava melhor do que a vivo.
eu sou do tempo da reserva de mercado
havia uma oposição feroz dos segmentos de direita (os mesmo que ainda hoje continuam a defender a subordinação econômica do Brasil aos EUA), aliados aos fabricantes estrangeiros, especialmente IBM e Olivetti (que nem existe mais)
inclusive na época o Roberto Campos (avô do atual presidente do Banco Central) era chamado de Bob Fields …
foi feito muita coisa boa naquela época, inclusive um sistema operacional, utilitários e compiladores para um minicomputador … tudo foi feito aqui, hardware e software (com exceção dos chips de processamento) … na época, esse minicomputador (Cobra 500) não ficava a dever nada em relação ao que tinha nos EUA
quando entrou o Figueiredo a coisa desandou (a Cobra era uma empresa de economia mista)
juntando a incompetência cavalar do governo do Figueiredo e as pressões americanas, a Cobra foi sufocada (não é piada 😁)
depois foi só ladeira abaixo, com Sarney e principalmente Collor, que desmanchou não só a indústria de informática com também outros segmentos sensíveis, sob pressão dos americanos
houve a transição das tecnologias, o surgimento dos microcomputadores a preço de banana, isso também acabou afetando indústria brasileira de informática
em termos de montagem de microcomputadores no entanto a indústria continua viva até hoje, embora esteja seja desprezada (quem quer um computador Positivo ?) … mas a Itautec resistiu bastante tempo na montagem de micros
outro setor que acabou dando uma força para a indústria nacional (mesmo após a política de informática ter ido por água abaixo) foram os mercados de automação bancária e automação comercial … a automação bancária brasileira sempre foi muito avançada, por muito tempo esse mercado foi abastecido principalmente por fornecedores brasileiros … hoje não sei se ainda existe algum fabricante brasileiro atuando nesta área, talvez a Perto, uma empresa do Rio Grande do Sul
Caraca! Quem viveu a história conta ao vivo! Ótimo relato!
Excelente relato, José!
Lembro que o Brasil chegou a fazer até engenharia reversa em consoles de videogame: Turbo Game por exemplo. E, na geração do Mega Drive, desenvolveram até um tal de Mega Net, que transformava o console numa espécie de computador com acesso à internet e, pasmem: era possível acessar sua conta bancária! ! A História do TELEBRADESCO do Mega Drive TECTOY ! – YouTube
Tenho uma lembrança também da Scopus, na época em que pertencia ou tinha relação com o Bradesco.
A Telesp funcionava bem, pelo que me lembro. Sou do tempo que havia ainda o plano de expansão. Ou seja: não havia infraestrutura plena nas cidades. Por isso, a linha telefônica era tão cara, mas o proprietário tinha também direito a ações da empresa, que poderiam ser vendidas, independentemente de continuar ou não com a linha. Era possível até mesmo fazer locação de linhas telefônicas.
Depois, com as privatizações, tivemos uma oferta mais ampla, mas quem construiu toda a infraestrutura que as companhias telefônicas se utilizaram? O Estado, a Telesp.
Também temos de tomar cuidado com anacronismos, uma coisa é ver a Telesp com a tecnologia dos anos 1990; outra, é com a tecnologia do século XXI (particularmente, acredito que não teríamos internet tão veloz, mas acho que seria mais estável e mais acessível a toda a população).
O grande erro do Brasil foi o de não exigir transferência de tecnologia. Para citar um exemplo: na indústria automobilística. As empresas vieram aqui, geraram empregos, agora foram embora e não ficamos com nada de know-how para construir nossos próprios carros populares. Coreia do Sul e China não chegaram onde estão “apenas” investindo em educação, mas forçando as empresas que lá se instalaram a transferir seu conhecimento.
Você citou um item muito importante, “Exigir transferência de tecnologia”, foi assim que a China chegou aonde está hoje.
O Brasil já exige transferência de tecnologia mas só para algumas áreas como a militar. Os novos caças e os novos submarinos são tecnologia francesa transferidas para cá. Sobre os serviços na nuvem, recentemente foi noticiado um movimento da Serpro voltando com os seus data centers. Um pena que tais decisões entrem na espera política e não técnica, assim podendo serem revistas de acordo com a estratégia de governo.
É, me parece que a gente enfrenta o tempo todo essa dessincronia entre a política e a técnica.
Quem discute na Câmara, quem julga o Twitter, quem interroga CEOs, sabe o mínimo sobre os aspectos técnicos? E outra, a estrutura atual do Estado dá mesmo conta de acompanhar o avanço técnico e os truques das big techs?
É uma briga por se acompanhar.
É uma pena que essa transferência tecnológica militar é restrita a poucas unidades e não é algo que irá impactar diretamente a vida da grande maioria da população, como uma automobilística.
E é complicado, quando os próprios brasileiros criam uma tecnologia na área militar, forças estrangeiras mexem seus pauzinhos para imputar casos de “corrupção” e afins (que atiçam o moralismo do brasileiro médio): Almirante Othon, 85 anos, personagem da história
Ainda conheço pouco sobre o Almirante Othon, mas tempos atrás li uma biografia muito boa “Montenegro”, escrita por Fernando Morais. Trata do homem que idealizou o ITA e criou o embrião para a EMBRAER, um dos exemplos mais promissores que o Brasil tem nesta seara. A estratégia dele foi a de fazer exatamente o que os EUA fazem: chamou professores e cientistas estrangeiros para lecionar no Brasil e ajudar a criar tecnologias próprias na área da aviação.
E sobre o que o Edson comentou mais abaixo, concordo que há realmente essa dessincronia entre a política e a técnica. Acho que, no caso dos parlamentares, a maioria não possui uma instrução básica para exercer o próprio cargo. Quanto às questões mais técnicas, eles dispõem ou podem dispor de funcionários para isso ou fazer uso das comissões técnicas, chamando pessoas da área. Acho que, no final, o que pesa mais é o conflito de interesses mesmo.