Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS

Relacionamentos não são sobre você sem paywall medium.com

Vivemos em uma era de solidão crescente, e muito disso tem a ver com o impacto das tecnologias e o modelo de relacionamento moderno. Eu procurei questionar no texto essa ideia em voga de que relacionamentos existem para satisfazer nossas expectativas pessoais. Coisas como ‘quero encontrar alguém para construir uma família’ ou ‘não me relaciono com quem ganha menos que eu’.

Acredito que em vez de buscar alguém que se encaixa perfeitamente em nossos desejos, talvez seja hora de repensarmos o que deveria ser uma relação a dois: reconhecer a autonomia do outro e compreender que o amor não é sobre você, mas sobre a conexão que é construída a partir da presença afetiva, da empatia, admiração e desejo constante de fazer funcionar.

4 comentários

4 comentários

  1. E pensar que sites como esse que a op postou permanecem, enquanto a maravilhosa Vice fechou.

  2. Caro fulalas, não sei se entendi direito seu argumento e, se sim, discordo dele.

    Num relacionamento livre entre duas pessoas, é óbvio que existe um aspecto egoístico muito forte. Por que outro motivo eu me submeteria a uma relação profunda e com implicações enormes sociais, familiares, financeiras e jurídicas com alguém de quem não gosto muito?

    Quando pensamos em nossos amigos, fica claro que a dinâmica é bem diferente. Em primeiro lugar, não buscamos uma amizade para a vida toda. Não projetamos nossas fantasias nos amigos, esperando que eles façam tudo se realizar. As expectativas são muito menores, e há mais empatia e espaço para o outro existir como ele é, e não como gostaríamos que fosse. Basicamente, pedimos uma boa companhia e aceitamos as diferenças. E é isso.

    Você não vai conviver a maior parte do tempo com um amigo, nem atrelar sua vida à dele. As expectativas com amizades são menores porque há muito menos coisas em jogo. Se sua parceira/seu parceiro tivesse o mesmo tratamento e estivesse sujeita(o) às mesmas expectativas, seria… um(a) amigo(a) — talvez uma amizade colorida, mas ainda assim.

    Existem muitos motivos pelos quais um relacionamento não deve girar em torno do que você quer. Talvez o mais evidente seja o fato de que existe outra pessoa ali, ocupando a outra metade da relação. Ela também tem expectativas e sentimentos, e tudo impacta nessa dança delicada e igualmente transformadora. Então não se trata nem de negociar. Trata-se de reconhecer que estamos lidando com seres humanos complexos, e não ferramentas que escolhemos para alcançar objetivos arbitrários.

    Novamente: por que eu ficaria com alguém que não me satisfaz (no sentido mais amplo do termo)? É, acho eu, uma negociação sim, constante e total, ainda que tácita. “Dentre tantas opções, eu escolhi ficar com você e você escolheu ficar comigo.”

    Os estudos que você apresenta contradizem sua hipótese, no sentido de que as pessoas se relacionam com quem *não* consideram companhias ideais. O que mais tem por aí é casal “imperfeito”, nesse modelo que o texto idealiza e alega ser raro.

    Faz muito tempo que abandonei os apps de relacionamentos. Quando usava, nunca os abria na expectativa de encontrar o amor da minha vida, e acho que ninguém ali é tão ingênuo. Mesmo quem está atrás de um relacionamento sério sabe que o Tinder é só fachada, o primeiro passo de um longo caminho até encontrar alguém. (Muitas vezes, um primeiro passo em falso.) E mesmo quando a gente encontra esse alguém, ninguém se ilude de acreditar que encontrou a pessoa perfeita. Minha companheira tem manias que me incomodam, gostos dos quais não compartilho e outras incompatibilidades menores, e vice-versa, mas queremos estar um com o outro porque gostamos um da companhia do outro e estamos alinhados na maioria das coisas que importam.

    1. Ghedin, não sei se entendi o que você quis dizer com ‘relacionamento livre’. Mas estamos de acordo com a ideia de que vamos nos aventurar numa relação mais séria com uma pessoa de quem gostamos, claro. Tá lá no artigo: ‘Mantenha a mente aberta e procure alguém com quem você se sinta bem, que desperte o seu melhor lado.’

      Você não vai conviver a maior parte do tempo com um amigo, nem atrelar sua vida à dele. As expectativas com amizades são menores porque há muito menos coisas em jogo.

      Talvez esse seja o cerne da questão. Esperamos demais do nosso par romântico. Excluindo a questão financeira, por que, por exemplo, temos que morar juntos? Ou: por que tem que haver necessariamente ‘mais coisas em jogo’ (além de sexo)? Eu discordo que ter menos expectativas aqui faria a relação ser menos especial ou tendendo a amizade — aliás, talvez as amizades estejam comprometidas e o referencial acabou ficando precário.

      Tem muita gente que associa relação séria com os planos supostamente grandiosos que traçam pro futuro. É um delírio. Essa ideia de que relação pra valer tem que ter X, Y e Z me parece uma espécie de cilada surda imposta pela sociedade. Acredito que cabe questionar.

      Novamente: por que eu ficaria com alguém que não me satisfaz (no sentido mais amplo do termo)?

      É… Satisfazer é uma palavra complicada nesse contexto porque pode entrar justamente no que eu tava questionando no artigo. A pessoa não tem que te satisfazer, em nada, inclusive. Nem você a ela, claro. Uma coisa é gostar da companhia de uma pessoa, e outra inteiramente diferente é esperar essa pessoa te satisfazer. A diferença é que satisfazer aí pode ter a conotação de que o outro te deve algo, que ele vai fazer coisas ativamente para te agradar (o que pode acontecer, claro, mas não deveria ser uma expectativa ou, pior, exigência). Vejo essa expectativa como bastante problemática, pois implica que a relação é uma moeda de troca, e eu sinceramente acho isso pragmático e frio demais pra considerar algo profundo, amor.

      Os estudos que você apresenta contradizem sua hipótese, no sentido de que as pessoas se relacionam com quem *não* consideram companhias ideais.

      Não é bem isso. Citei os artigos para mostrar que todo esse auê que as pessoas anda fazendo de que só vão iniciar uma relação com quem tiver essa longa lista de atributos e não tiver essa outra longa lista de red flags, tudo isso cai abaixo quando percebemos que aqueles que mexem com a gente (no bom sentido) não necessariamente se alinham com essa nossa pretensão de que sabemos o que queremos — porque em última instância não fazemos ideia. Então a boa, acredito, é baixar a bola e tocar a relação com aquela pessoa com quem nos sentimos bem, e só. O que vai ser dali pra frente não temos como saber, e tá tudo bem. A impressão que me dá é que relacionamento amoroso hoje adotou o cinismo de Hollywood: só se investe com risco zero ou próximo disso. Um horror!

      Mesmo quem está atrás de um relacionamento sério sabe que o Tinder é só fachada, o primeiro passo de um longo caminho até encontrar alguém. (Muitas vezes, um primeiro passo em falso.) E mesmo quando a gente encontra esse alguém, ninguém se ilude de acreditar que encontrou a pessoa perfeita.

      Não sei se as pessoas de uma maneira geral pensam assim hoje. Talvez não usem a palavra ‘perfeita’ ou ‘alma gêmea’, mas no fundo rola essa esperança de que vão encontrar uma pessoa que atenda à maioria dos critérios (numa lista que, como já falei, só vem crescendo), pois afinal de contas ‘eu mereço’.

      Isso tudo tem a ver com a oferta virtualmente infinita de potenciais parceiros românticos disponíveis hoje e o conceito do Paradoxo das Escolhas, proposto pelo Barry Schwartz, e que rendeu aquele que provavelmente é um dos melhores e mais relevantes TED talks de todos os tempos: https://www.youtube.com/watch?v=VO6XEQIsCoM

      Acredito que devemos parar de achar que as pessoas devem algo a nós além de respeito, e passarmos a aceitá-las do jeito que são, e não do jeito que gostaríamos que fossem. Isso não quer dizer que vamos iniciar uma relação amorosa com a primeira pessoa aleatória que esbarrarmos na rua. Não é isso. É evidente que queremos uma companhia agradável. Mas de ‘companhia agradável’ para essa lista detalhada de exigências que vem sendo exigida (muitas vezes no primeiro encontro), bem, há uma distância brutal.

      Pensa-se cada vez mais no que ‘eu quero’ e cada vez menos no que o outro sente, no que seria melhor para a relação como um todo. Estamos cada vez mais autocentrados.

      1. Acho que podemos nos encontrar no meio do caminho, hehe.

        Esperamos demais do nosso par romântico. Excluindo a questão financeira, por que, por exemplo, temos que morar juntos?

        Porque, a princípio, essas expectativas são pressupostos de um relacionamento romântico. São elas que o diferenciam uma amizade (colorida ou não). Talvez meu argumento soe meio careta, e provavelmente é para algumas pessoas (talvez até para você), mas é que não consigo mesmo conceber o relacionamento sem exigências ou expectativas. É até meio irônico porque essa característica me parece mais sintomática das ~relações líquidas contemporâneas que, parece-me, motivou sua crítica. “Ninguém quer nada sério” etc.

        Pensa-se cada vez mais no que ‘eu quero’ e cada vez menos no que o outro sente, no que seria melhor para a relação como um todo. Estamos cada vez mais autocentrados.

        Cuidado para não exagerar para o outro lado. É imprescindível importar-se com os sentimentos do outro, mas deixar o que você sente em segundo plano é ruim também. Equilíbrio, sempre. Não há nada de errado em ter expectativas razoáveis e ser criterioso na escolha de um(a) parceiro(a). Pelo contrário, diria até que é um pré-requisito importante para um relacionamento saudável.