trazendo pra cá um desses “pensando alto” que a gente joga no tuíter.
“quer que eu desenhe?” é uma das frases que eu mais detesto. Ela (assim como suas variações) sugere que a linguagem verbal seja mais sofisticada ou complexa que outras linguagens, como a visual — já que o desenho, supostamente ajudaria a tornar uma elaboração verbal mais compreensível por ser mais “fácil”.
não só a linguagem visual possui uma sofisticação bastante distinta da linguagem verbal como para a maior parte das pessoas o acesso ao universo da imagem é ainda mais prejudicado:
visite qualquer museu, por exemplo, e o que mais você verá são pessoas desesperadas em busca de explicações TEXTUAIS (e não visuais) para as obras expostas — das quais, aliás, elas tendem a se afastar com medo de se entregar a apreciá-las.
vivemos em uma sociedade viciada na palavra, não na imagem.
14 comentários
Nós vivemos a chamada “era da imagem” exatamente por causa da prevalência da imagem sobre a palavra escrita.
“Quer que eu desenhe” não tem nada a ver com “sofisticação” ou “complexidade” superior, tem a ver com cognição. O letramento do ser humano começa na imagem. Letras são imagens que nos ajudam a formar um pensamento, sintetizado numa imagem mental. É só lembrar do famoso “o ciúme tem olhos verdes”.
Quando alguém diz “quer que eu desenhe” só está remetendo o interlocutor de volta à primeira infância – é outra maneira de dizer “deixe os adultos conversarem”.
flusser discordaria de você: a era do conceito suplantou a era da imagem no mundo ocidental praticamente em sua gênese — o que viveríamos hoje seria a era da imagem técnica (justamente a imagem submetida à ditadura da palavra e do conceito)
ou como ghedin lembrou lá embaixo, uma época de iconofagia
note que seu argumento apenas reitera o meu: não só você sugere que imagens são apenas instrumentos para alcançar o letramento como reitera que o preconceito que a maior parte das pessoas nutre em relação ao mundo da imagem
e perceba que são justamente esses adultos os primeiros a correrem atrás de uma explicação em palavras para imagens que eles se recusam a apreciar
Flusser não viveu para conhecer a popularização/massificação da internet e das redes sociais. Isso posto, eu não sugeri em momento algum que “imagens são apenas instrumentos para alcançar o letramento” ou “que o preconceito que a maior parte das pessoas nutre em relação ao mundo da imagem”.
Ler é a maneira que o ser humano tem de criar imagens. A imagem é a ferramenta para se ter letramento, e o letramento é a ferramenta que permite ao ser humano formar imagens no cérebro.
Letras são imagens, números são imagens. Nosso cérebro trabalha imagens, não palavras. Você não consegue ler enquanto sonha, mas os sonhos (essencial para a saúde do cérebro) se concretizam em imagens.
E dizer que “justamente esses adultos os primeiros a correrem atrás de uma explicação em palavras para imagens que eles se recusam a apreciar” não faz nenhum sentido, assim como sua cruzada contra a palavra. O ser humano é uma espécie que começou a registrar sua história em desenhos dez mil antes de o primeiro alfabeto surgir.
contra toda a teoria da imagem, você insiste em instrumentalizá-la em relação à palavra
mesmo o esquematismo (que reconheço ser problemático) do flusser já vai exatamente no caminho oposto ao que você sugere, quando ele separa conceito e imagem
A insistência não é minha, é sua – considerando uma hierarquia que, na verdade, não existe. A palavra não está acima da imagem, ela é o meio que o homem usa para gerar mentalmente imagens sem usá-las.
E a maior ironia é que Flusser usou a palavra como ninguém em seus textos, abusando de jogos de palavras e floreios imaginativos.
@julia, você insiste em hierarquizar as coisas, mesmo alegando o contrário, ao instrumentalizar a imagem em relação à palavra
letras são imagens cujo caráter pictórico é menosprezado e anulado durante o letramento: a escola é a principal instituição na qual se dá a ditadura da palavra sobre a imagem (veja o estado da arte das discussões do pessoal de arte/educação).
o seu problema é não perceber o quanto o seu logocentrismo define o seu pensamento
O post está “velho” e acho que passaram do ponto — virou troca de farpas (ataques pessoais) em vez de debate. Peço, por favor, para que controlem os ânimos nas próximas. Esta conversa, dou como encerrada.
Eu penso numa relação contrária. Não é que a linguagem visual seja menos sofisticada ou complexa que a verbal. Nesse ponto até concordo contigo, há características que as tornam distintas umas das outras.
Mas é que a imagem possibilitar passar a mensagem de maneira mais concisa, rápida e até mais acessível para mais pessoas.
Daí o erro de achar que as imagens são mais “simples” do que as palavras.
Quer um exemplo? Placas de trânsito. Elas necessitam ser de rápida compreensão, para o motorista obter a informação em poucos segundos, ou até menos. E nem por isso a mensagem é menos complexa.
Além dos símbolos, que indicam direções, velocidade e outros elementos, a própria forma das placas também tem seu significado: vermelha e redonda para permissões e proibições; amarela e “losangular” para alertas e avisos. E tem a placa “Pare” em forma de octógono (além de outras exceções) para indicar algo ainda mais importante.
No final das contas, o “quer que eu desenhe” acabou tendo um tom sarcástico, então também não tiro muito a razão da sua indignação. Em contrapartida, eu lembro da expressão “uma imagem vale mais do que mil palavras”, essa sim, eu creio que não tem problemas.
mas note que esse código viário expresso nesse conjunto de signos (placas, faixas, etc) ainda se guia fortemente por uma lógica de “leitura”: tais signos são aplicados para que o motorista, o pedestre e demais agentes no trânsito “leiam” determinadas condições de trânsito associadas a determinados lugares. Certamente os signos visuais são mais eficientes nesses casos que elaborações textuais, mas o conjunto ainda se constitui de um “texto” viário impresso no tecido urbano (e nesse ponto discordo de quem considera toda e qualquer construção semiótica, seja em que suporte for, necessariamente um texto).
a graça da imagem está justamente naquilo que ultrapassa esses signos bastante objetivos: está na incompletude, na ambiguidade, nas lacunas, naquilo que ela mostra tanto quanto naquilo que ela não mostra, mas sobretudo naquilo que não se traduz em palavras ou conceitos. E é nesse ponto que a provocação “quer que eu desenhe?” se mostra completamente estúpida.
Nada supera uma explicação que envolva texto, áudio e imagens. Eu, pelo menos, aprendo muito melhor quando a comunicação é multisensorial.
“vivemos em uma sociedade viciada na palavra, não na imagem.”
Se bem que na era do TikTok, viramos uma sociedade viciada no vídeos curtos do que qualquer outra coisa
Isso também me intrigou. O trabalho do Norval Baitello Junior tem um lugar especial no pouco que guardei de teórico da universidade. Em linhas bem gerais, ele argumenta que vivemos uma “era da iconofagia”, tão viciados em imagens que a relação se inverte e somos consumidos por elas em vez de consumi-las.
Conhece esse conceito, Gabriel?
não conhecia, muito bom, acho que converge com os situacionistas: na sociedade do espetáculo tudo o que nos resta é ser bombardeado por imagens sem que no entanto de fato nos relacionemos com elas — elas simplesmente passam e enquanto as olhamos, não as vemos
mas note que raramente nos deparamos com vídeos ou imagens construídas para que simplesmente paremos para apreciá-las — e nem quero aqui apresentar qualquer aversão moralista ao caráter efêmero delas, mas apenas apontar para a maneira disciplinada com a qual vamos passando pelo feed
por outro lado, acho que a tiktokzação da vida, por mais perversa (e precarizadora) que seja, traz uma brecha positiva de subversão desse disciplinamento: bem ou mal, as pessoas estão começando a PRODUZIR mais imagens e fazendo isso, bem ou mal, tendem a se relacionar melhor com elas (ou assim espero)