
Eu sou designer de produtos digitais, venho estudando e atuando na área há pelo menos uns 15 anos, minha atenção sempre se volta para a questão de utilidade e usabilidade de produtos e sempre me perguntei “será que existe o ápice da evolução de um produto”? Um teto aonde chegamos e podemos dizer “está pronto!”, onde não é necessário mais nenhum tipo de melhoria, significativa no projeto, onde não é necessário literalmente “inventar moda” enfiando uma série de “utilidades” e outras firulas. Essa questão boba sempre me acompanhou, então recentemente eu realizei um sonho de garoto, um sonho barato, simples e acessível, que para algumas pessoas pode parecer ridículo, mas que para mim tem um simbolismo e um significado muito forte, principalmente pela condição de vida que vivi durante o período entre a infância e início da vida adulta, uma condição de viver no limiar entre ser pobre e ser pobre e ser pobre pra caralh*.
Enfim, adquiri um relógio que se tornou um símbolo de uma época difícil na minha vida e que muitas pessoas o usavam, justamente por ser barato, e eu sonhava em ter e não podia, mas não é um relógio qualquer, é um Casio F91W, considerado o relógio mais vendido no mundo, ele é uma lenda entre os relógios e posso dizer que ele conseguiu chegar no ápice do que um produto se propõe realmente a oferecer com utilidade, usabilidade, qualidade e durabilidade, esse relógio com pulseira de plástico, caixa em resina e com um chip, visor e botões simples mas que juntos o fazem ser lindo, um design que continua por décadas o mesmo, alterando somente alguns detalhes em cores, no meu caso comprei o F91W dourado, lindo.
Mas o que esse relógio tem de tão especial em uma era onde smartwatches que propõe realizarem praticamente tudo que um smartphone faz e com alguns acréscimos como o controle dos batimentos cardíacos, pressão, contador de passos, além da possibilidade de turbiná-los com mais apps variados. Então, ele simplesmente mostra a hora, tem um calendário básico, cronômetro, alarme e uma iluminação pífia, com uma espécie de led verde que ilumina mais um lado que o outro e isso dá um charme especial, pq tudo funciona muito bem, como um relógio deveria funcionar, sem contar que a bateria dura pelo menos 7 anos, e já vi relógios desse modelo durarem 10 anos.
Esse reloginho barato, simples e bonito continua sendo vendido aos montes, pode-se dizer que é um dos mais pirateados do mundo e pasmem, até mesmo as versões piratas possuem qualidade, atingiu o ápice até mesmo na pirataria.
Enfim, eu sei que sendo da área da tecnologia e poderia ter um monstro turbinado no pulso e cheio de firulas, mas estou feliz demais com o meu reloginho de 150,00 que faz minha criança interior pensar “eu venci!”
Hoje quando vou projetar qualquer tipo de produto e tenho que pensar nas questões de utilidade, usabilidade, qualidade e durabilidade a primeira coisa que me vem à cabeça é Casio F91W.
31 comentários
Trem.
Se for olhar qualquer solução de trânsito do vale do Silício, eles começam com algo extremamente mirabolante, não dá certo e eles vão deixando mais complexo, até que então simplificam e refazem uma versão de trem.
Esses dias vi um post que dizia que “trens são pra engenharia de trânsito o que os caranguejos são pra evolução”. Se tu iterar o suficiente pra uma solução otimizada, tu sempre vai acabar com trem ou coisas parecidas.
O que os caranguejos são pra evolução?
O formato de caranguejo é um clássico caso de evolução convergente.
A seleção natural já chegou pelo menos 5 vezes ao mesmo formato, de forma independente.
https://super.abril.com.br/ciencia/a-selecao-natural-tem-uma-fixacao-por-evoluir-caranguejos/
Meu pai é relojoeiro. Pra ele, o F91W também é o mais icônico dos relógios. Confesso que não enxergo ele como o relógio definitivo – aquele que reúne em si tudo que é necessário de maneira insuperável. Mas ele com certeza é o símbolo do que significa um relógio de pulso. Eu compararia com o que o Fusca é para os carros. O mais marcante da História. E, assim como o F91W sempre foi pra você, o Fusca é o meu sonho de carro (com a diferença que, quanto mais o tempo passa, mais inacessível fica ter e manter um Fusca)
Fósforo palito longo. O padrão ouro em acendimento de fogo em casa kkkkk
chave de ignição e freio de mão do carro, acho um inferno essas coisas serem botões hj em dia
no mais, caneta bic e palavra cruzada coquetel, dois produtos em seu ápice há décadas
Então você tem que experimentar A Recreativa!
Hashis
e o primeiro apple watch durou não mais que quatro anos…
mas avançando um pouco sobre o assunto: itens duráveis e com recursos otimizados são exatamente o que o mercado não quer, né? Passamos todos a usar fones de ouvido sem fio que tem data de validade — já naturalizamos a troca periódica desses acessórios, sem falar dos próprios telefones celulares
outra coisa: uma série de categorias de produtos já atingiram uma configuração considerada ótima pela maioria das pessoas e todos os acréscimos tendem a ser mal recebidos — não porque exista uma configuração ideal a ser atingida, mas porque o uso do aparelho responde a uma performance na qual operam vários fatores.
Um exemplo: o formato de livro aberto dos laptops. A apple tentou colocar uma barra sensível ao toque e foi mal recebida. Mudou o mecanismo de teclado e não deu certo. Mesmo as otimizações que ela própria fez no passado e em tempos recentes abandonou (como o magsafe) tiveram de retornar. Por outro lado, toda uma indústria tenta sugerir formas de interação com tablets distintas da interação com laptops mas no final até a Apple comercializa teclados com trackpad para o iPad ser usado como um laptop.
e pensando mais genericamente: tecnologias como o lápis, algumas peças de vestuário, cadernos, o livro, entre outras, provavelmente atingiram seu ápice de configuração material.
(a versão “evoluída” do lápis talvez seja a lapiseira, mas aí já é outra coisa, e mesmo ela também já chegou num nível em que qualquer adição parece supérflua)
Boa reflexão, gabriel!
A respeito do notebook, acho que ainda não atingiu a “configuração ideal” porque essa levaria (ou deveria levar) em conta a ergonomia, e usar um notebook por longos períodos é das coisas mais desconfortáveis e prejudiciais a longo prazo à coluna. Destacar a tela, como algum Surface da Microsoft fazia e é a ideia por trás de tablets para produtividade (do Surface ao iPad Pro), resolve metade da equação — a do consumo —, mas não a da produção/digitação com teclado físico.
Tenho esse relógio pirata, custou 15 reais e faz tudo o que eu quero.
Frigideira de ferro tem a mesma sensação: performance máxima e praticamente indestrutível
Esses dias o genuíno tava em oferta por 50 reais…. Até pensei em comprar, mas meu skmei já me atende muito bem. Kkkkk
Eu sou gamado no skmei mas vou esperar meu pirata morrer hahaha
Mano, eu fui buscar, pq não conhecia essa Skmei, e pqp, os relógios são super daora e barato.
Eu corro de kart eventualmente, e faz muita falta um cronometro de botão, e ter isso no relógio faz muita diferença.
Vi pela loja oficial do MercadoLivre / MercadoShops.
Não sei se já tem conhecimento, mas pesquisando mais sobre o relógio em questão encontrei esse projeto muito interessante mas que parece abandonado: https://gitlab.com/_Pegor/kepler_fw
Rapaz, que delícia de post! Acabei de comprar um desses, mas uma versão ainda mais barata. Estava usando minha segunda Miband (a primeira cai dentro do vaso sanitário e lá ficou presa no sifão até acabar a bateria) e pra minha raiva ela simplesmente descolou a tela e parou de funcionar. Fui comprar outra e achei os preços absurdos. Pior nao havia pronta entrega! Pô, se é pra comprar na China, compro eu. Aí no processo de busca, dei de cara com esse clássico e comprei. Durante anos, só usei Swatchs. Aí de repente, fiquei anos sem usar relógio. Hoje por acaso dei de cara com este aqui na Amazon: Smartband Huawei Honor Band 3 – 75,00 reais! Será que dá pra acreditar? Eu gosto desses relógios porque posso ver a hora de noite sem óculos e pq ele monitoram o sono (o aplicativo da Miband era bem simples). O resto não me interessa. Mas 75,00 reais me parece barato demais…
Eu gosto mto de relógios e esse é um dos meus favoritos! Maaaaas ainda acho que ele não é o ápice, a pulseira é bem frágil.
Eu tenho o CA53W-1. Troquei a pulseira por uma NATO e acho que, agora sim, ele atingiu seu ápice rs. Só sinto falta do led.
Eu tenho algum interesse em ficar buscando esses objetos que estão no “ápice” do design. O relógio Cassio é um desses, com certeza.
Do lado dele, o copo americano, o clipe de papel, o prendedor de papel e, indo contra o mundo, não a caneta Bic, mas a Pilot BPS 0.7.
Experimente uma caneta gel ou uma tinteiro e você mudará sua opinião sobre a Pilot BPS.
Hahaha, claro, claro. Mas penso que uma caneta tinteiro não é bem o equivalente a um relógio Casio
Sim. Meu comentário não foi em relação a resistência e design. Eu só estou levantando o ponto de que há canetas muito melhores para se usar no dia a dia. Atualmente existem canetas tinteiro descartáveis, como a Zebra, que é quase tão confiável como uma Bic, mas muito mais agradável.
Eu gosto muito dos produtos da Tramontina.
Botões dentro dos carros é algo que me faz falta. Comprei um que tem ar condicionado touch e é muito ruim quando quero mexer nele, quase sempre tenho que olhar e isso desvia a minha atenção.
Ao menos na Europa as empresas perceberam isso e estão aos poucos abandonando colocar as funções do carro tudo na tela e voltando com os botões.
Parabéns mano! É sempre muito bom realizar sonhos de infância, mesmo quando são simples como este. Esse CASIO foi meu primeiro relógio, lá na infância (o pirata, claro). E mesmo depois de adulto, numa prova de TAF onde marcar o tempo das voltas na pista de atletismo era super importante e faria a diferença na minha vida e da minha família, eu escolhi deixar o Galaxy cheio de firula de lado e usar um velho Casio desses, pela confiabilidade.
Eu penso no copo americano da Nadir.
Sobre gadgets, depende das expectativas do público e das circunstâncias (ou da “cultura”, do momento). Deve ter quem ache que o Casio F91W faz coisas demais, que poderia só mostrar o horário; e, com certeza, muita gente que acha que faz de menos depois do surgimento do Apple Watch e similares.
Eu gosto bastante da linha A700 da Casio, uma versão refinada dessa “linhagem” do F-91W: mais fino, melhor iluminação e outras opções de pulseira. Gosto quando as empresas vão iterando em design bem sucedidos, resolvendo pequenos problemas e iterando.
Eu adorava minha câmera Fujifilm X100F, para a proposta dela eu achava quase perfeita e as últimas versões seguem melhorando.
Pois é, o F91W é icônico, mas certamente não é o ápice. O A700 e o W217h possuem o mesmo form factor e são objetivamente melhores.
Estava refletindo sobre isso depois de um vídeo do canal “Gigaton” onde ele fala desse tema só que voltado aos controles de vídeo game e como eles não evoluíram mais desde a sétima geração de consoles que foi iniciada em 2005 pelo Xbox 360, enquanto até aquele momento víamos controles estranhos como o do N64 por exemplo ou do Atari que era só um joystick.
Acho que chegamos a esse ápice em várias coisas que usamos hoje em dia. Celulares são um bom exemplo, a Apple reduz o notch, mas não tem como fugir mais do retângulo preto com tela de ponta a ponta popularizado em 2017 com o iPhone X. Mesma coisa com os notebooks, praticamente os Macs tem o mesmo design desde a linha Pro de 2012.
O que mais muda é somente o poder de processamento, mas o conceito do design em muita coisa já está estabelecido.
O único produto atual que vejo que no futuro vai sofrer um bom redesign são os óculos de realidade aumentada/virtual, com certeza devido a nanotecnologia vão começar a reduzir de tamanho e peso, se tornando completamente diferente dos trambolhos que temos hoje.
Acho que os controles de videogame tem sim um padrão mais estabelecido, mas ainda é possível ver a Sony adicionando funções que alteram de uma forma ou outra a jogatina
Caneta Bic