Texto de Sheon Han na Wired: “Software pode ser o artefato cultural definidor de nosso tempo. Então por que não há uma cultura de análise crítica em torno dele?”
Um texto que interessa a todos os leitores deste Manual, espaço que está pavimentando uma leitura crítica sobre tecnologia e programação.
6 comentários
Não existe um mercado consumidor para esse tipo de crítica, e o autor cita isso.
Quantos sites de tecnologia existem hoje e quantos existiam há… 15 anos ou mais? Chuto que eram mais. Todos aqui devem ter a lembrança de pelo menos um site que não existe mais e que não foi “reposto”.
Sem pensar muito cito: Info Exame e Gamecenter (ou era gamesmania? ou eram dois sites diferentes?). Sendo que esse segundo fazia sim a crítica de software.
Tendo isso em vista, como esperar que alguma alma vai fazer crítica de software? Com certeza existe alguém em algum canto da rede, é só achar.
Bom, existem reviews e existe gente reclamando muito na internet, isso não conta como crítica? Se o autor quer estilo crítico gastronômico saindo no jornal e tal vamos ficar devendo mesmo, mas precisa disso pra crítica ser válida?
Não, não conta como crítica no sentido que está sendo aplicado no texto do link. Isso que você apontou é análogo a dizer que um livro, digamos “Torto Arado” (de Itamar Vieira Júnior), não requer a leitura crítica de uma Lígia Diniz, já que no GoodReads o livro possui muitos comentários, sejam positivos ou negativos. Isso inclusive subestima o livro em questão, e também o “artefato” de que o texto linkado fala — o software.
O seu equívoco está em pôr “reclamação” e “texto crítico” no mesmo balaio, o mesmo que André aqui embaixo comete, que, diga-se de passagem, pelo visto não leu direito sequer o trecho que ele citou, que é uma passagem que contraria o próprio argumento dele.
Artefatos complexos exigem um repertório complexo, e um espaço de muita circulação a fim de promover o maior debate público possível. E é aí onde o crítico entra, seja em assunto de arte, gastronomia, automóveis e tecnologia.
Isso não é desvalidar o feedback do usuário comum, mas procurar aprofundar os problemas dos softwares e entrever caminhos para suas soluções. Sem contar que, como o autor do link aponta, uma possível consequência disso seria também valorizar o serviço de ourivesaria dos programadores que fazem o trabalho de base das BigTech.
Ok, a diferença entre os dois é a profundidade da crítica, lacuna que um review já não preenche? E tem outro fator, software é extremamente utilitarista (você usa porque ele resolve um problema seu), os que não são, os jogos, já possuem uma cultura de crítica no estilo proposto.
“Review” é o que em outras áreas é chamado é “resenha”. Volto ao exemplo anterior: o “review/resenha” literária (seja de blogue, seja de coluna de jornal) de “Torto Arado” daria conta da complexidade da obra ? Não, né ? Porque “resenha” atende mais a uma exigência de mercado, para convidar o leitor ao consumo, do que para uma apreciação mais aprofundada do objeto.
A mesma coisa se aplica às tecnologias, sobretudo ao software. Evitaríamos muitos problemas de uso em torno dos socialmedia se há dez anos atrás déssemos o mesmo espaço de debate e de análise crítica para essa tecnologia quanto damos hoje ao ChatGPT . . .
E sim, software é utilitarista, assim como televisão é utilitarista, computador é utilitarista, cinema é utilitarista, smartphone é utilitarista, arquitetura também, se for esticar a conversa, até comida o é.
O problema é que todas essas coisas não são objetos soltos no mundo, que nem fedem, nem cheiram. E também não são coisas que usamos simplesmente para “resolvermos um problema” e fim. Elas afetam o ambiente em que estão e são afetadas por quem as usa, recebendo outros destinos que não aqueles que foram propostos pelos fabricantes e programadores.
Marshall McLuhan, um autor que Sheon Han cita no link, avisou isso há mais de 60 anos, inaugurando um campo de estudos só para massmedia. Décio Pignatari, um grande semioticista e poeta de vanguarda aqui do Brasil, nos anos 70 fazia análise crítica (entre outras tecnologias) de tevê, sobretudo de novelas ! Andy Clark, filósofo e neurocientista, tem falado a respeito dos impactos neural e social dos algoritmos e da chamada “inteligência artificial” há 20 anos (a respeito disso, inclusive, recomendo a leitura de seu “Natural-born cyborgs”) . . .
O que Sheon Han propõe, no entanto, é que haja um interesse coletivo e, se possível, sistemático em analisar o software como artefato cultural, fazendo com que isso não seja o ato de um gato pingado aqui e ali (como aponta Juarez no comentário acima), já que o software é o maior veículo de informação da atualidade, assim como o foi a tevê no século passado.
Ele mesmo da a morta…
” Take Microsoft Teams as an example. What we get now is a fusillade of tweets or rage threads in r/MicrosoftTeams. But a software critic can nail the underlying malady and establish a rational basis for its terribleness.”
O cara não quer critica, isso tem um monte, em todos os cantos. Ele quer que alguém seja pago para criticar. Um reclamão profissional.