9 comentários

  1. Interessante perspectiva. Também me faz refletir essa época onde estudar não garante mais nada, nem pagar as contas básicas.

    Na área de desenvolvimento de software, por exemplo, existe atualmente uma massa constante de pessoas sendo demitidas em lote (há poucos dias só a Intel demitiu 15 mil pessoas numa canetada só), e as vagas que eventualmente abrem exigem tantas coisas e num nível tão avançado e específico que a maioria dos candidatos estão simplesmente desistindo de procurar emprego. Há inúmeros casos de pessoas que aplicam para mais de 500 vagas, e continuam sem emprego.

    O processo de contratação é tão humilhante que muitas vezes requer 10 ou mais etapas, incluindo várias entrevistas, testes de QI, lógicos, algoritmos, questionários quilométricos, coisas ao vivo, etc. A nova onda agora é nem sequer receber um e-mail dizendo se você foi recusado. A seleção de currículos já é hoje 100% automatizada — nenhum funcionário de RH lê mais nada. E já está ficando comum a prática de pedir pro candidato gravar um vídeo de si mesmo respondendo perguntas — o que, novamente, nunca será assistido por um humano. É enlouquecedor.

    Cito esse caso não apenas porque compadeço da situação dos meus colegas da área, mas especialmente porque programação até há pouco tempo era considerada A área de sucesso, afinal hoje em dia tudo é software. E também acreditava-se que esses profissionais seriam os últimos a serem afetados por IA, quando o que estamos vendo é que ironicamente são um dos primeiros — claro, esse não é o único motivo.

    O exército de reserva do capitalismo hoje não inclui somente caixas de supermercado, mas programadores; os mesmos que se esforçaram pra automatizar inúmeros trabalhos. Diante desse cenário de incertezas, como você bem colocou, é muito mais fácil cair nos encantos de promessas milagrosas, como bets, influencers e até esquemas de pirâmide (como criptomoedas e NFTs). O capitalismo é uma aberração desumana e fora de controle.

    1. Realmente, cada vez pior achar trabalho, mesmo em áreas que eram vistas como privilegiadas. Outro dia, uma colega de serviço comentou que a perspectiva dela é demorar um ano para conseguir um emprego de nível sênior. Quem é capaz de viver assim?
      E dá-lhe NFT, bitcoin, jogo do tigrinho ou bet. Só muda a classe social, mas a falta de perspectiva é geral.

    2. Me identifico bastante com sua reflexão. Eu tinha dois empregos até março deste ano (leia-se, tinha 2 contratos ativos como PJ), mas, recentemente, pedi demissão de um dos dois porque o estava considerando muito precarizado, e o que posso dizer é que tem sido complicadíssimo fechar com novos clientes ou conseguir um emprego efetivo que pague minimamente bem, mesmo tendo acabado de concluir a graduação em Mídias Digitais (setor que, à época em que ingressei no curso, em 2018/2019, parecia muito promissor).

      A alternativa que encontrei para me manter esperançosa foi fazer cursos online que tenham correlação com o que estudei (marketing, edição de conteúdo, SEO e coisas afins) para coletar alguns certificados (também sou daquelas que só conseguem enxergar a educação como alternativa para melhorar de vida) e, além disso, me inscrever no Processo Seletivo de Mestrado em Comunicação da Federal daqui – o que, felizmente, deu certo! Recebi o resultado ontem e as aulas começam na segunda-feira.

      Como o mercado de trabalho não me absorveu como eu gostaria (e a discussão travada aqui me ajudou a perceber que não é, necessariamente, um problema >meu<, que esteja em mim), a expectativa é a de que a Academia me receba com oportunidades um pouco melhores…

      1. A Academia é uma mistura estranha de acolhimento e hostilidade, mas te desejo muito boa sorte.
        Ninguém está exigindo que o mundo ofereça sucesso automático, mas os jovens vendo a situação do mercado, vendo tanta gente que se esforçou e jogou pelas regras, com resultados ruins, perdem a esperança de que o sistema vá recompensar estudo e dedicação.
        Um mercado promissor, que depois de alguns anos na faculdade já não é mais é um nível de incerteza que impede as pessoas de panejar o básico da vida. Muito difícil viver hoje em dia.

        1. Pois é… às vezes eu penso que pode ter sido falta de esforço meu, sei lá, e por isso estou tentando me profissionalizar o máximo possível – vou aproveitar o fôlego novo da aprovação recém-conseguida para me dedicar também, no tempo livre, aos estudos de outras áreas que podem agregar valor ao serviço que eu presto – mas, ainda assim, só o tempo dirá se terei bons frutos a colher disso. É o tipo de coisa que me deixa muito ansiosa se eu paro demaaaais pra pensar a respeito, sabe? Então, tô tentando levar com base numa frase que um amigo sempre repete: venceremos, porque não há outra opção.

          P.S.: Valeu pelos votos de boa sorte! Vamo que vamo :-D

  2. Texto maravilhoso.

    Talvez seja o efeito do meu remedio acabando (acabei de tomá-lo, sempre antes de dormir), mas sempre que vejo digressões como essa ou as do Srta. Bira, me vem a sensação de que não tem mais jeito e é só esperar a morte mesmo.

    Ou, sei lá, comprar um livro de cálculo com cartelas de ácido entre as páginas em algum darknetmkt e sair vendendo por aí pra pagar o pão de cada dia.

    1. Que bom que gostaram =]
      O tema é bastante complexo e tenho a impressão de que o debate está ficando um pouco simples demais, focando apenas no lado do vício e da publicidade. Por isso tive vontade de contribuir com essa questão da desorientação no planejamento da vida.

      1. Foi certeiro. Eu ouço muita gente falar mal da geração atual e sua falta de interesse e força de vontade, mas admiro a intrepidez de ir contra o sistema simplesmente não jogando o jogo.

        The Dude abides.