Não me entendam mal: estou bastante contente com todo o reconhecimento que Ainda estou aqui tem tido e com o protagonismo do cinema brasileiro.
Por outro lado, confesso que tenho um pouco de dificuldade em entender o frenesi com a indicação ao Oscar, uma premiação estadunidense, feita para filmes e artistas estadunidenses. (Tanto que existe uma categoria de “melhor filme estrangeiro”… estrangeiro para quem? Pois é.)
Essa dificuldade não surgiu agora — acho até que chegamos a debater o tema num dos finados posts livres. É que me causa mais estranhamento quando temos um filme bom, com chances de vitória no páreo, e o fato de toda a comoção e repercussão na imprensa causada pelo Oscar não se repetir em outras premiações, como BAFTA, Cannes etc.
É só mais uma manifestação da subserviência que o brasileiro tem com os EUA ou tem outro(s) ingrediente(s) aí?
29 comentários
Acho que vale um pouco de contexto histórico. O Oscar foi criado quando cinema ainda tava engatinhando — pra comparação, a academia foi fundada seis meses antes do primeiro filme falado ser lançado. Naquela época, cinema nem era considerado arte, inclusive com direitos de liberdade de expressão negados por não ter o mesmo potencial que um livro.
A ideia foi justamente criar uma organização para mostrar que a mídia tinha um potencial artístico a ser explorado. Nesse processo, ajudaram a fundar o primeiro curso sobre cinema em uma universidade, financiaram diversos estudos sobre questões técnicas para facilitar a criação dos filmes e fizeram a premiação para alavancar as capacidades artísticas do meio.
Aliás, o design da estatueta é baseado na logo original, que representaria um cavaleiro em posição de guarda como que protegendo a indústria contra a ideia de que ela era só um entretenimento.
(Tem algumas discussões sobre terem usado a instituição como contraponto para formações sindicais, mas essa discussão vale um texto só pra ela)
E, bom, funcionou. É fácil subjugar o Oscar hoje e comparar com outras premiações que abrangem uma diversidade maior, como Cannes ou Berlim. Mas acho bom lembrar que a indústria do cinema na totalidade estaria com algum atraso se não fosse pelo esforço que existiu no começo com pessoas que queriam validar o cinema como expressão artística.
Isso tudo pra dizer que historicamente a premiação tem um peso importante que acho válido de ser lembrado na hora de celebrar a indicação da Fernanda Torres.
Sobre ser uma premiação basicamente estadounidense, eu concordo (até porque, é mais um fato que uma opinião). Mas infelizmente isso está ligado nas raízes da instituição, que por sua vez estão ligadas na raiz da própria indústria do cinema. É meio difícil passar por cima de toda a formação cultural do cinema.
acho bastante romantizada essa leitura
a criação da academia (e da premiação) foi de fato uma iniciativa de empresários do setor cinematográfico que pretendiam se unir para enfrentar a sindicalização dos trabalhadores do audiovisual ― a academia, no fundo, surgiu como uma espécie de Fiesp do cinema
o próprio prêmio foi pensado como um recurso ideológico para promover a competição entre os trabalhadores do cinema
o reconhecimento do audiovisual como expressão artística foi, quando muito, artifício ideológico presente nos discursos da academia — até porque de fato isso só viria a acontecer plenamente entre o pessoal do cinema europeu nos anos 50 e 60.
o que a academia ajudou a promover, ao contrário, foi um cinema cada vez mais formulaico e raso
Ah, sim, não precisamos do Oscar. Mas queremos kk E acho até que isso ajuda a validar a importância do cinema nacional pra população em geral.
No papo de boteco, é comum que as pessoas digam não gostar de cinema nacional – e elas estão pensando em alguma comédia pré-fabricada da Globo. É lindo ver salas lotadas por um filme nacional, e acho que seria lindo vencer o Oscar também em suas próprias regras com um filme indiscutivelmente nacional.
Mas!… é importante que não se veja o Oscar como o validador, é verdade. O filme é incrível, tanto quanto outros que foram ignorados em anos anteriores.
Pra mim, quando Fernandinha subir no palco, estará tocando a abertura de Tapas e Beijos 🥲
Oscar é tipo um festival de Gramado, só que mais brega…
Ah brazuca adora um gringo, não tem jeito não…
Fico muito feliz pela indicação, mas o fato é que nem dentro dos próprios Estados Unidos o Oscar tem a mesma relevância que já teve um dia, basta ver a audiência que cai a cada ano. Já me sinto meio idoso comentando isso, mas quando “Central do Brasil” concorreu foi uma comoção similar (com final triste, como sabemos), mas não havia redes sociais na época, então sentíamos menos o impacto de tudo.
Talvez a dificuldade em entender esteja na área do interesse mesmo. A maior parcela das manifestações provavelmente venha do efeito manada, apenas porque o outro está repercutindo e especialmente por envolver um nome do Brasil. Mas também há aquelas pessoas que realmente acompanham e vibram com essas premiações e isso possivelmente influencia a primeira parcela das pessoas, ampliando a repercussão.
Por outro lado, talvez boa parte daqueles que mais curtem cinema não liguem a mínima quando uma nova versão de uma distro Linux é lançada, um novo app de lembretes surge, ou qualquer outra notícia do mundo da tecnologia ganha repercussão.
Não sei se alguém aqui tem idade para lembrar, mas quando Fernanda Torres ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes por “Eu sei que vou te amar” o frenesi foi semelhante, e não havia redes sociais como hoje.
Não acho que seja vira-latismo. O Oscar (assim como o Globo de Ouro) é um prêmio importante & relevante dentro do cenário cinematográfico internacional. Antonio Gades e Carlos Saura eram praticamente desconhecidos do grande público fora da Espanha até que “Carmen” ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro – a mesma luz foi lançada sobre o cinema argentino com o prêmio para “A história oficial”.
O Bafta é importante, assim como o César (que dificilmente premia estrangeiros como melhor ator/atriz), mas não tem a mesma projeção internacional para o mercado que o Oscar. Aqui no Brasil começamos a aprender a importância do TIFF além do Festival de Sundance, e Cannes ainda continua muito relevante, mesmo pra quem não segue o panorama – basta ver como foi divulgado os dez minutos de aplausos que o elenco de “Ainda estou aqui” recebeu em setembro passado.
O mais importante: é um filme maravilhoso – não apenas como mídia como pela história que ele conta, num país que não tem, como a Argentina (agora infelizmente fechado) e o Chile, um centro de memória e documentação sobre os anos de ditadura.
Quem venha um Oscar, um SAG, um Saturno, um Bafta – o que for. Não deveríamos pensar em vira-latismo – isso somente faz com que a excelência do filme seja subestimada.
acho que na falta de termos e valorizarmos as próprias o mundo “babar ovo” para os EUA faz tudo mundo se importar, se diminuir o 2º e aumentar o 1º dai terá menos importância.
Tarantino falou que a Netflix está destruindo o cinema.
Scorsese falou que os filmes de super-heróis estão destruindo o cinema.
Gwyneth Paltrow falou que usa a estatueta do Oscar para segurar a porta (Ah foi brincadeira, ela pediu desculpas e bla bla bla).
Oscar???? Pra quê?
Não entenda mal a minha ironia mas achei meio Xwiiter esse post.
Fazendo um paralelo: vc não ficaria feliz se softwares livres figurassem nos mais baixados do Google e da Apple store? E se ainda por cima fossem softwares livres brasileiros? Importa ser popular?
Sim e, como disse, estou contente com o reconhecimento que o filme e o trabalho da Fernanda Torres está tendo. A diferença é que a App Store, mesmo sendo de uma empresa estadunidense, se propõe uma loja global — não existiria… na verdade não existe, nas premiações da Apple, as categorias “melhor app” e “melhor app estrangeiro”, por exemplo.
Com o Oscar, eu sinto como se estivesse na festa de uma turma que não é a minha e que só me chamou porque notou uma coisa que eles acharam legal, como se fosse uma concessão, sabe? Sei lá. Festa estranha com gente esquisita.
É bom pro mundo conhecer as pérolas do nosso cinema, que tem sim muito potencial. Tem muita nojeira sim, mas Hollywood tb tem. Acho que Oscar premia mais que filmes, premia tb a arte num todo. Saber que o Brasil está tendo destaque depois de termos vivido tempos sombrios na cultura é um lembrete que a arte por mais enterrada que esteja, sempre ressurge mais forte.
Deixamos de lado fatos irrelevantes, o prêmio é sim estadunidense e é uma premiação local. Mas enquanto Hollywood seguir sendo o mercado mais relevante do cinema, o Oscar seguirá no mesmo caminho.
aproveitando o assunto:
a abertura recente do oscar a produções internacionais (com destaque para parasita em 2020 e fernanda torres e ainda estou aqui agora, mas também lembrando de filmes como zona de interesse e anatomia de um assassinato no ano passado) pode ser lida de várias formas, mas acho interessante pensar nisso também como uma resposta à queda de popularidade que o evento vinha tendo dentro dos próprios EUA
não por acaso a indicação de fernanda torres e de ainda estou aqui está surtindo um efeito bastante desejado pela Academia: INTENSO engajamento nas redes sociais, clima de final de copa do mundo (e todo mundo falando no assunto) e ampliação do público potencial atingido pela cerimônia
não que isso seja necessariamente uma estratégia deliberada (embora eu acho que seja), mas o efeito é evidente
No Civilization isso se chama “Vitória Cultural” :D
Ah eu gosto. Querendo ou não, com todos os problemas que possa listar, o Oscar faz uma curadoria legal de filmes que provavelmente eu não veria, especialmente curtas, documentários e filmes internacionais. Poderia ter acesso de outra maneira? Poderia. Mas é um evento cultural tão grande que facilita até a disponibilidade de citados filmes. Ano passado vi um do Nepal que muito dificilmente eu teria acesso mesmo em tempos de internet (alguns curtas, mesmo da lista Oscar, já são bem difíceis de conseguir, então avalie sem…)
É subserviência sim e uma carência sem limite, mas, porem, entretanto, contudo, o filme fura bolhas, conta uma história que talvez nunca fosse conhecida. Acho que só isso já vale engolir nosso ranço com a premiação.
Não que eu vá ficar acordado para torcer, aí já é forçar a barra.
Eu, em um passado não tão distante, já fui envolvido com políticas públicas voltadas ao Cinema. E, logo após o longa “O menino e o mundo” ter sido selecionado para concorrer ao Oscar houve uma direta melhoria nas políticas públicas voltadas a produções de animação no Brasil. Entendo o ponto de “subserviência americana” mas é importante reforçar que existe impacto político a partir da ressonância midiática do ocorrido.
Acredito que o mesmo ocorrerá com esta grata novidade do filme em questão.
Gosto de acompanhar o Oscar porque consigo pegar filmes interessantes que não são extremamente cults (o que não me atrai tanto) e não são os filmes blockbusters fast food que temos sempre servidos no cinema mais próximo.
Ter um filme brasileiro lá é ter esse filme divulgado para todo o planeta e isso pode fomentar mais recursos para o cinema nacional e tals.
Cara, e é um filme sobre um golpe militar na América Latina, que foi suportado pelos EUA. É um tema tão atual considerando o presidente atual de lá que eu acho muito interessante ter isso na mídia correndo por lá.
Não acho que seja tanto uma questão de subservência com os EUA. É só o famoso comportamento do brasileiro que “não gosta de esporte, gosta de vencer” vindo à tona mais uma vez.
O brasileiro médio ama ver um conterrâneo se destacando em qualquer coisa que nem sabia que existia antes, não pra torcer pela pessoa, mas pra poder contar vantagem. Foi assim com o Anderson Silva no UFC, Gabriel Medina no surfe, Bortoletto na F1, João Fonseca no tênis… E com a Fernanda Torres no Oscar.
Se ela passar batido sem levar nenhum prêmio, aí o povo vai esquecer de novo que o Oscar existe e ficar no aguardo do próximo “heroi nacional”, enquanto desmerece todas as outras conquistas fodas da Fernanda só porque ela não atendeu as expectativas de milhões de brasileiros que ela nunca teve obrigação alguma de cumprir.
Pois é Pierre, eu me alienei de muita coisa por causa disso… Participar nunca era suficiente, o Brasil tinha que ser campeão.
Toda essa treta recente da seleção brasileira de futebol… Só estão passando pelo que qualquer outra seleção sempre passou, mas pro brasileiro isso é “inadmissível”
E voltando ao Oscar… É só uma premiação de bajuladores de jurados…
Tudo certo, Ghedin? Entendo seu ponto de vista, mas a partir do momento em que comecei a trabalhar com entretenimento, aprendi que o Oscar é uma premiação importante para todos os envolvidos na indústria, não só o topo da pirâmide. Então, aquele diretor ou diretora vencedor de curta documental pode ter a chance de ter uma carreira e parar de ter mais de um emprego para sobreviver. Aquele vencedor ou vencedora em maquiagem e figurino pode ter mais trabalhos meramente por ser indicado. O costume é olhar para o glamour da premiação, mas a indústria é feita de uns 95% de trabalhadores como a gente. E sobre a repercussão, é natural que a premiação mais conhecida ganhe mais holofotes, mas o prêmio em Veneza de Melhor Roteiro para Ainda Estou Aqui foi bem comentado, sim.
Acho ótimo que indicações e premiações gerem esse efeito cascata, Fagner. Mais que isso: fico contente pelo reconhecimento da obra, seja no Oscar ou em qualquer lugar.
A minha rusga é com a desproporcionalidade da repercussão do Oscar em relação a outras premiações. Isso, repetindo-me, não é novo e talvez nem seja coisa só do Brasil. O peso que o Oscar tem em lugares para os quais a Academia caga e anda (porque é uma premiação estadunidense, para filmes de lá) é… incompreensível. (Eu nunca vi o narrador dos comerciais da Globo anunciar “vencedor de três BAFTAs” como ele anuncia as estatuetas do Oscar ao falar do filme da Tela Quente, por exemplo.)
Tenho curiosidade em saber de onde vem esse “soft power”, se é só consequência das políticas de exportação cultural dos EUA, se tem algo a ver com reminiscências da época de ouro de Hollywood ou outra coisa.
Tem isso, sim, de Hollywood ser o topo do mundo quando o assunto é cinema. São anos e anos colocando isso na cabeça do povo. Mas isso está mudando, principalmente com pessoas como a Isabela Boscov fazendo muito sucesso no YouTube e outras pessoas sérias que trabalham com cinema. As pessoas estão aprendendo mais sobre a importância de Cannes, Veneza, Berlim, Sundance (que começou hoje!) e outros festivais. Saber disso exige tempo e interesse, mas vale muito a pena. Dá para descobrir ótimos filmes e não depender apenas do Oscar para isso.
O Oscar tem um péssimo histórico de premiações, exemplo é O discurso do rei em 2011, Shakespeare em 99, Danças com Lobos em 91, Crash em 2006, Emilia Pérez esse ano, etc. As premiações de 2012 – 2013 e 2014 são motivos para que todo fã de animações aprenda a ignorar o oscar
Creio que é injustiça colocar a relação cultural como subserviência brasileira, pois é resultado da hegemonia cultural dos EUA. A cultura dominante, seja na TV, cinema, música, internet, etc é estaduniense, dada as circunstâncias é óbvio que o prêmio de hollywood seja visto como o melhor
E naquela edição que eles confundiram o Oscar com o Miss Universo, anunciaram “La La Land” como o melhor filme, mas deram outro envelope e o vencedor mesmo foi outro.
No ritmo do coração como melhor filme em 2021. Merecia — no máximo — o prêmio de melhor filme da Sessão da Tarde.
quem se importa?
por hora, muita gente, afinal é só perceber a comoção pelas indicações.
depois da premiação, são duas situações em potencial:
– caso o filme ganhe e/ou fernanda ganhe, mais gente ainda vai se importar com o oscar, será uma festa, se brincar até feriado vira.
– caso o filme não ganhe, nem fernanda, o discurso já deve tá no ctrl + v pra dizer que o oscar não presta, é injusto, etc.
falando por mim, caguei desde sempre, vida que segue…
Filmes que são indicados ou ganham Oscar acabam tendo uma visibilidade muito maior dentro do “mainstream”.
Pessoas do mundo todo terão a oportunidade de conhecer um pouquinho mais do rico cinema brasileiro e isso pode se tornar um reforço positivo para cada vez mais se invistam em produções nacionais de qualidade.
Para muitas pessoas Parasita foi o primeiro filme coreano que elas viram e com certeza uma boa parcela quebrou certos preconceitos e se permitiu conhecer mais da cultura e das produções de um outro país.
Concordo, Mas em um cinema mainstream mequetrefe 95% das vezes igual o nosso, que vive de comédias radiotaivas com Leandro Hassun, Tata Werneck, Marcus Majella e cia, um filme do calibre massivo de Ainda Estou Aqui ganhar a luz nos EUA é uma surra na cara das grandes produtoras BR que investem horrores nessas comédias (quem ri disso?) porcarias sendo que podiam ta aí investindo em filme com um conteúdo mais interessante e com possibilidades anuais de estar em listas de premiações do mundo todo. O Oscar virou status. Eu considero a Palma de Ouro muito mais importante.
O povo pode rir sim, mas esses lixos que fazem por aí… nem pra isso serve.
Um exemplo de comédia com uma critica pesada é Saneamento Básico. OBRA PRIMA.