Talvez o traço mais marcante dos relacionamentos amorosos hoje não seja a falta de vontade que ocorram, mas a ausência de inclinação para nos mostrarmos vulneráveis aos desdobramentos e possíveis conflitos. O cenário que se desenha tem sido marcado por desconexão e frustração.
Esse é o terceiro artigo sobre o tema das relações amorosas contemporâneas. Dessa vez o foco é nessa dinâmica atual onde as pessoas se voltaram tanto para si mesmas (suas atividades, medos e expectativas) que, embora ainda desejem uma companhia, não têm disponibilidade real. Claro, a influência da tecnologia é notável.
13 comentários
Sempre acho esses artigos comportamentais um “choro de desocupado”, na vida real da maioria da população, pelo menos no Brasil, o povo mal tem tempo para procurar alguém, pega o/a primeiro/a que dá uma brecha e manda ver.
Não que seja bom, é só ver a quantidade absurda de mulheres sozinhas com filho.
Certamente que se formos pro interior os problemas são outros. Mas a cultura das cidades grandes aponta pras tendências, não é mesmo? E essas tendências indicam que num futuro bem próximo metade da população adulta vai estar solteira. E os índices de natalidade já se mostram um desastre entre os países da OCDE:
https://www.visualcapitalist.com/wp-content/uploads/2025/11/Fertility-Rates-in-the-West.webp
Estamos vivendo um surto de pessoas narcisistas: Sem empatia, sem nenhum pudor de manipular e usar as outras pessoas como escada, muleta e alimento para seu ego, extremamente autocentradas, destruindo quem ainda acredita em relacionamentos.
“Nossa, como o hétero sofre…”
(brinks, mas é a única coisa expressão que eu lembrava lendo esse texto)
Piadas a parte: acho que me pesou o tom dramático para falar de uma epidemia de covardia emocional disfarçada de “padrões altos”. Sim, tem tudo isso aí da produtividade, da individualidade e da relação com a tecnologia… Mas, tá sendo ruim pra quem mesmo? Talvez, só talvez, ter “”padrões altos”” seja evolução, não covardia. E talvez, só talvez, o problema não esteja em quem está sendo mais pragmático com relacionamentos, mas de quem romantiza relacionamentos do passado – ou a ilusão que vendiam sobre eles.
Nesse contexto, me parece que as citações de Bell Hooks e Helen Keller parecem reforçar o quanto o mundo perdeu com as pessoas deixando de acreditar num amor que nunca existiu. (Ou será que eu devia falar que talvez, só talvez, nunca existiu?)
Para os que não são covardes emocionalmente, o mundo fora dos aplicativos continua existindo. Pode ser que essas estatísticas de aplicativos nem correspondam ao mundo real. E nesse mundo, (e agora vou me basear na experiência que eu tenho com as pessoas que eu conheço) as mulheres às vezes só querem caras que não sejam babacas (não importa se ele não tem 1,80), e, misericórdia, como tá difícil encontrar um cara que não seja babaca – melhor entrar para as estatísticas de ser solteira entre 25 e 44 anos.
Pode ser que nada disso seja solidão disfarçada, seja escolha consciente mesmo. Pode ser que não estejam “ocupados demais pra amar”, pode ser que tenham liberdade suficiente pra amar direito, quando e com quem realmente vale a pena.
Talvez, e só talvez, eu seja só um cínico – que graças a deus não é hétero.
(engraçado que recentemente escrevi um texto sobre solidão, e relendo agora, posso apostar que não sou tão cínico como posso aparentar. óia só, gays também sofrem)
E o que seria “amar direito”?
boa pergunta
Vou ser sincero e dizer que impliquei com o termo “covardia emocional”. Em uma sociedade onde parte das pessoas abusam dos sentimentos alheios em benefício próprio, não temer lidar com as emoções é no final ousar demais e se arriscar a ponto de se perder com isso.
Falei da questão dos “padrões altos” no meu comentário por cima, mas não que totalmente é padrão social em qualquer lugar também. A priore, comunidades simples com educação repassada por gerações, o conceito de manutenção social é achar pares que se toleram, respeitam e ao mesmo tempo atendam aos padrões sociais daquela comunidade. Pensando aqui que talvez no caso dos religiosos há muito disso também, pois casamentos fora dos padrões de uma comunidade religiosa pode acabar retirando uma ou mais pessoas do convívio daquela comunidade, seja por preconceitos, medos ou até traumas.
Covardia também nasce ou é perpetuada por preconceitos e traumas antigos.
Quando somos bombardeados por informações falando justamente sobre relacionamentos problemáticos, isso faz as pessoas ficarem pensando por si mesmas também se compensa ou não. À quem nunca se relacionou com alugém, fica mais difícil ela achar alguém, e dependendo, não dá para cravar que “é covardia”, mas sim traumas externos. Experiência dos pais ou pessoas próximas com relações problemáticas podem gerar isso também. “Teoria da caverna”, né?
Mas bem, no final tudo isso acaba sendo percepção individual de qualquer forma. Discutimos isso para tentar achar consensos, mas relacionamentos são tão diversos (ao contrário do que se pensa) que é difícil cravar padrões. Ah! E lembrando que quem “dava aula de relacionamento” muitas vezes tinha intenções abusivas.
Não tenho certeza se entendi a sua implicância com o termo “covardia emocional”. Usei ele por entender que se aplica a esse medo de vulnerabilidade em relacionamentos que diz o texto. Mesmo quando nasce em preconceitos e traumas antigos, pode até ser que traumas coletivos influenciaram nesse medo generalizado.
O covarde vai evitar o desconforto e escolher o caminho mais seguro por não saber lidar com esse medo, esse temor de lidar com as emoções. Enquanto quem se posiciona e enfrenta suas questões não está fazendo isso por não temer lidar com as emoções, mas apesar de temer lidar com as emoções.
Mas a sensação que tenho ao ler o termo “covarde” em seu comentário é de forma negativa ao mesmo. Ou seja, o “covarde” é vitima de uma escolha própria. E tipo, não nego que também é eu que impliquei com isso, mas sempre que leio este tipo de vertente ao entender sobre, é como se “covardes são responsáveis por serem covardes”. Bem, covardes geralmente sobrevivem, né?
E em uma sociedade onde todos julgam todos em atitudes, posições, e tudo mais, o posicionamento pode gerar um problema para a pessoa. E quem inicia ou tem posição em relacionamentos amorosos mais abertos acabam sempre sofrendo com uma posição aberta, pois acabam alvo de abusadores – isso em uma forma genérica e pesssimista.
Não que uma pessoa que se abra a relacionamentos vai assim que ousa encontrar alguém na primeira esquina, mas ponho o fato que nessa nossa sociedade, ser aberto e se posicionar gera uma posição de destaque e as pessoas lhe transformam em alvo. Enquanto que “covardes” se resguardam.
De qualquer forma, talvez eu também aqui nestas divagações estou usando termos errados e formas erradas de colocar o ponto em questão.
O que quero dizer no final é que os textos do Fulalas filosofam sobre os relacionamentos e os porques de não existir mais uma abertura maior. O ponto de covardia que você põe não é tão errado, mas a sensação é que você põe como virtude não ser covarde – mas talvez eu esteja exagerando ou lendo errado isso. E ponho o fato que em milhares de anos de relacionamentos, só agora temos mais livros e inúmeras pessoas pensando sobre – incluso nós dois nestes comentários – e tentando achar consensos sobre como ter relacionamentos melhores.
Nisso, talvez o que tu pôs no primeiro comentário seja o melhor fato: “Pode ser que nada disso seja solidão disfarçada, seja escolha consciente mesmo. Pode ser que não estejam “ocupados demais pra amar”, pode ser que tenham liberdade suficiente pra amar direito, quando e com quem realmente vale a pena.”
A estes, nem estarão lendo nada ou comentando nada, mas apenas vivendo a vida sem julgar ou serem julgados…
Mas já que estamos “julgando” aqui, o ponto é esse: não julgaria a “covardia” em tempos de abusadores. No dia que sentirmos mais seguros de ter conseguido justamente isolar abusadores e pessoas “tóxicas”, talvez será um pouco mais fácil se abrir e conseguir ter relacionamentos melhores.
Para se posicionar, precisamos de uma sociedade que não julgue posições (exceto se prejudiciais a TODOS). Mas talvez eu esteja divagando demais sobre também.
Bem, definitivamente eu considero uma virtude não ser covarde. Mas também não acho que ele seja vítima de uma escolha própria. É só alguém que deixa de fazer o que quer ou precisa fazer por medo. Não vejo escolha própria aqui, e sim a ausência dela.
Agora, isso não significa que a pessoa corajosa automaticamente está se colocando em situações de risco tão absurdas e perigosas para sua segurança ao ponto que você está trazendo aqui – ainda é preciso a razão para ponderar riscos antes de tomar uma decisão que o covarde sequer ponderaria.
Não se trata de julgar a “covardia” em tempos de abusadores… Nesse caminho estamos transformando um texto sobre o medo da galera se entregar para uma outra pessoa (uma galera que tá meio preguiçosa emocionalmente, quer tudo mastigado) numa dissertação sobre estruturas sociais opressivas e teoria da sobrevivência.
enfim, papo para um bar.
Costumo ouvir o mesmo tipo de argumento/ironia das mulheres: nossa, como homem cis sofre, hein? Como se estivéssemos nessa vida pra competir quem sofre mais. Ora, até famoso de Hollywood tem seus dramas inerentes à condição, e nem por isso a condição é irrelevante. Não é porque tem uma criança com câncer e passando fome na África que os nossos dramas deixam de existir, não é mesmo?
Tá sendo ruim pra todas essas pessoas, que agora se sentem solitárias. Tá sendo ruim pra sociedade, que agora está menos empática. Tá sendo ruim pro sistema de saúde, que agora gasta mais tratando as pessoas (solidão mata como fumar cigarro). Tá sendo ruim pra economia, que agora sofre com uma população que envelhece e não tem novas pessoas pra entrarem no lugar (a taxa de natalidade é um problema crítico nos países da OCDE). A lista poderia seguir.
Entendo o que você diz, mas não é uma questão de idolatrar o passado, mas de reconhecer que se isolar num oceano de exigências impossíveis não é evolução de nada. Só estamos nos afastando ao acreditar que merecemos pessoas que não existem — e o mergulho em relações com chat bots vai ficar cada vez mais popular. Esse ode à liberdade que vivemos hoje é uma clara alienação da condição real que muitos vivem, que é de extrema solidão — até porque a coisa, claro, não se limita a relacionamentos românticos.
O que venho tentando dizer nesses artigos é que a dinâmica de apps influencia a vida real de uma maneira ou de outra. Você vai num evento real, como speed dating, e as expectativas delirantes estão lá, iguais às de quem está dando swipe em app. E cada vez está mais difícil conhecer pessoas de maneira orgânica, pois isso passou a ser algo cringe, quase como um abuso moral. O flerte, quando existe, costumam ocorrer via telinha, e aí já sabemos, né? Empatia lá embaixo, ilusão de abundândia, falta de foco, etc.
As estatísticas mostram que elas na maioria dos casos querem, sim, um cara de 1,8 metro de altura, entre tantas outras exigências. E gente babaca sempre existiu, né? Só que agora como as mulheres se acham merecedoras de homens incríveis em todos os indicadores possíveis, e como há poucos que atendem a esses requisitos, ocorre um completo desbalanço, e esses poucos homens estão com tanta gente aos pés que não se esforçam em nada para serem razoáveis, daí passa-se a ideia de que todo homem é babaca. Eu abordo isso nos artigos também.
Infelizmente não sei como resolver esse cenário, nem na teoria. Me parece que o excesso de abundância é um problema intrínseco, e é difícil imaginar voltarmos atrás nesse sentido. Teríamos que ou abortar apps (incluindo redes sociais) ou torná-los públicos, focados em efetivamente ajudar a população, e não os acionistas.
Fui ler os três textos “por cima” então pedirei perdão se o comentário já tiver entrado em algum ponto já feito nos textos.
Acho que a questão da busca por “alugém de ‘classe’ igual ou superior” é herança de uma cultura hierarquizada, aliada a educação de que “relacionamentos partem de alguém proteger o outro”. E mesmo em sociedades como a nossa brasileira que teoricamente tem uma abertura social maior, ainda há pessoas que vão nessa linha; porque por exemplo a mãe fala para a filha que “o marido que teve foi uma escolha ruim, então escolha ao menos um marido com dinheiro”, ou o pai para o filho “você escolha uma moça bonita ou ao menos bem educada e que tenha dinheiro porque se se separando aí ninguém perde”. Sei que Japão e Coréia do Sul tem muito disso, dado a cultura hierarquizada dos mesmos.
Relacionamentos hoje tem o fator econômico / social também. Quando se junta com alguém “igual” socialmente, o risco de em uma separação não ter problemas é menor (imagino). Fora também toda a dor de cabeça, o estereótipo ou mesmo os problemas sociais posteriores (processos, acusações, etc…). Então não a toa hoje tem menos pessoas se relacionando – medo de toda a burocracia. Isso falando de casamentos heteros.
Não conheço o mundo homossexual, mas vagamente me lembrando de um colega que era; ele falava muito do fato que tinha gente que casava também por diferença financeira “para dar um up social”; a esperança de algum rico querer estar com ele e ter uma grana. Claro que nem todo mundo é assim, falo de um prisma minúsculo.
Em uma sociedade capitalista, estar com alguém é custoso. Sempre me perguntam se sou casado, e respondo “com quê dinheiro?”. Senão eu estaria com alguém em uma barraca de praia em algum lugar deserto com “meu amor” por aí, mas não tenho nem barraca de praia, nem muito menos um amor.
Há também a questão sexual. Não sei o quanto pode ser posto aqui nos comentários, mas só tentando pincelar: hoje há uma tentativa de abertura sobre sexualidade um pouco maior, mas ainda há muito preconceito e também auto regulações deste assunto.
Até porque tipo, não dá para se falar sobre tudo e no final das contas, vale o ditado: certas coisas só devem ficar entre quatro paredes. Mas tipo, “relacionamentos abertos”, “poliamor”, etc… tentam emular algo diferente, a ideia do “harém” que algumas culturas propagaram em romances, e que aí recaí no começo do comentário sobre ser de classe social igual ou superior: quando se tem vários envoltos, na época do harém, a liderança era rica socialmente e financeiramente. Porque se punha a responsabilidade de “pagar as contas” a tal liderança. Mas isso falando no passado, só que para alguns o conceito ainda persiste.
No presente, pessoas se encontram em clubes para práticas assim. E tem gente que não gosta – e nisso mais um relacionamento se esvai.
E aí falando de sexualidade, há o tabu e a sátria. Quando políticos expõem sobre “quem molestou quem”, isso acaba fazendo o de sempre feito: rebaixar a sexualidade para algo “sujo”. Quando se fala mal de pessoas “feias”, ou gera um fetiche em algum estereótipo específico, transforma tudo isso em relacionamentos mal projetados, que viram mais maus exemplos futuros sobre; dado que relacionamentos também lidam com sexualidade.
No caso de apps, não acesso nenhum (tentei acessar no passado, mas não me dei bem). Mas noto este padrão: pessoas buscam ou “gente bonita” ou “gente rica”. Isso é bem tratado nos textos, não irei além.
Falta mais contato social físico real também? Falta. Mas pessoas temem golpes. Temem um “boa noite cinderela”. Temem estupros. Temem perderem dinheiro. Como confiar em alguém se ninguém é confiável, seja amáveis ou sejam “brutos”?
Em um mundo de desconfianças, ninguém confia em ninguém. E nisso relacionamentos íntimos, que dependem de justamente confiança, acabam renegados.
Ponto extra sobre isso tudo e um motivo extra sobre a questão de relacionamentos: uma “guerra dos sexos” que não acaba.
Porque enquanto a estrutura social – para héteros – é a velha do “homem gera recursos, mulher cuida da família”, isso também gera motivos para que relacionamentos não vinguém. Isso indo de encontro ao comentário meu anterior: quando é repassado entre gerações sobre “ter um parceiro ideal” e ao mesmo tempo se repassam histórias sobre um padrão comum de desrespeito entre as pessoas – incluso mulheres, que sempre sofrem mais neste caso, as pessoas renegam ter um relacionamento de forma, vamos dizer assim, “orgânica”.
Porque uma vez que já temos raciocinado sobre tudo que antepassados passaram, sobre o que notícias passam sobre violência doméstica, sobre as decepções não serem só decepções, mas muitas vezes recaem em sofrimentos devido a problemas do (agora ex-)parceiro, como senso de propriedade / cíumes doentio, etc… etc…
Fora se não a diferença cultural entre os pares, pois se relacionamento é ambos cederem para ambos ganharem, as vezes de alguma forma os conflitos psicológicos de cada um vão se dizer que “melhor perder o parceiro do que perder a razão”.
Talvez repensar como construir uma educação social, que faça as pessoas se entenderem e respeitar o mundo em volta, pode fazer melhores parceiros sociais. Mas sei lá, somos egoístas demais talvez…