O maior intelectual brasileiro (único brasileiro na lista de leituras das principais universidades em língua inglesa) e alvo frequente da extrema direita merece uma discussão em tempos de IA e “prompts” (uma vez que a pedagogia do Paulo Freire indica a necessidade de “customizar” a educação de acordo com a vivência/profissão da pessoa que está sendo educada formalmente).
E não, ele não é a base da educação brasileira, ele incusive foi preso e proibido durante o perído da ditadura civil-militar brasileira (https://diplomatique.org.br/por-que-o-sistema-educacional-brasileiro-nunca-adotou-paulo-freire-na-pratica/).
Valeu um pulo na página da IA que o sutor do link cita (Maritaca): https://www.maritaca.ai/ que é um LLM treinado pra PT-BR.
4 comentários
existe um equívoco fundamental na leitura de freire que ele propõe: sim, freire entende que todo processo educativo deva partir da realidade dos educandos, motivo pelo qual ele sugere que educadores se insiram em tais realidades antes mesmo da formação dos chamados “círculos de cultura”, quando a atividade educativa formalmente passa a acontecer. Contudo, a relação educador–educando para paulo freire é sempre baseada no que ele chama de dialogicidade — e essa dialogicidade tem por base o desejo do educador de escutar o educando.
e é aí que a relação que ele faz com as IAs generativas fica problemática: ao menos HOJE, tais IAs ainda não são constituídas de subjetividade tal que possam de fato promover esse processo de dialogicidade. IAs não escutam (ao menos HOJE elas não escutam): elas apenas interpretam a demanda do prompt e retornam um resultado baseado em probabilidade semântica.
além disso, essa inserção prévia dos educadores entre os educandos têm forte caráter etnográfico, coisa que IAs ainda não conseguem fazer plenamente
sou a última pessoa do mundo a duvidar do potencial das IAs no futuro próximo nem desdenho delas, mas essa forma que ele sugere essa correlação entre IAs e a educação freireana é falha porque justamente INDIVIDUALIZA os educandos — é quase uma leitura liberal (ou melhor dizendo: neoliberal) da educação freireana, porque reduz a dialogicidade à mera entrega de resultados individuais, potencializando a transformação desse processo em mercadoria
mas, enfim, acho uma provocação interessante: talvez, no futuro, IAs “socialistas” — pensadas não sob a lógica do capital — talvez possam colaborar em processos efetivamente dialógicos :)
Concordo com você.
E digo mais: essas IAs seriam problemáticas – e talvez sempre serão? – porque se baseiam num corpus neoliberal/liberal (textos que elas buscam na internet) e propagam ideias e ideiais ideologicamente liberais – ou espelham, em menor ou maior grau, a ideologia liberal-californiana que impregna a internet.
Pode mesmo ser que daqui alguns anos, ou meses (vai saber), exista uma IA que consiga ser subjetiva ao ponto de ser transformadora e libertadora.
O que vocês dois imaginam provavelmente não se realizará.
Se partir do princípio que o socialismo parte do como dito do DIÁLOGO entre partes, a IA nunca vai conseguir isso. Primeiro que toda IA ela é apenas uma base de dados alimentada para servir respostas a partir de uma solicitação, questão ou similar. Diálogo entre pares pode servir uma resposta, mas tem o elemento humano – o pensamento, a abstração, a observação à pontos de vista.
Uma IA “socialista” apenas faria o mesmo que as IAs “liberais” fazem: repetir frases prontas e baseadas em validações de lideranças intelectuais.
As vezes a sensação que vejo de alguns é a expectativa que um computador “raciocine” sobre algo. Um computador faz cálculos, o que é um tipo de raciocinio. Peça para um computador calcular baseado em uma métrica e ele lhe emitrá a resposta o mais rápido a qual seus processos foram construídos para ser, para lidar com inúmeros zeros seja à esquerda ou à direita.
Mas abstrair, imaginar situações, sentimentos, relações… um computador, ou melhor, uma inteligência artificial, não conseguirá. Isso é de seres que realmente pensam, tem ligações neurais. Pode se tentar criar um simulacro de sensações (um circuito de check control de um automóvel é uma forma de demonstração de “o que o carro sente de dor”, mostrando as falhas do mesmo). Mas se pergunta se um equipamento vai chegar ao ponto de raciocinar e emitir uma resposta esperada por quem o programou. Só lembrando que geralmente toda ficção que tentou gerar uma reflexão (como Eu Robô, Exterminador do Futuro e outros) sempre viu a questão da IA como um risco a humanidade.
Paulo Freire, ao qual admito que nunca fiz uma leitura profunda, entendo que quis tentar ensinar que as pessoas aprendem pela sua experiência com seus arredores e pares. Um jovem que aprendeu em uma era digital acaba aprendendo pelos seus pares digitais – seja em comunidades online e similares – a como sobreviver. E não a toa infelizmente com isso há muitos jovens que tem mais entendimento do “liberalismo” (o cara que se diz liberal na economia e conservador nos costumes) do que dos conceitos reais de “ser liberal” (a pessoa que entende que a vida é algo individual e desde que não faça mal a terceiros, seus atos não são relevantes a outros – seja nos conceitos sociais, econômicos e/ou políticos).
Em tempos de pais jogando os filhos para a babá eletrônica, isso demonstra que o maior problema é como nossa sociedade lida com tudo isso, mas aí é extender a filosofia para algo mais doido e fora da discussão.
Em tempos, me pergunto se Paulo Freire realmente seria um defensor das inteligências artificiais.
dê uma olhada no que os antropológos estão escrevendo sobre subjetividades não-humanas e como isso se insere no debate sobre inteligências artificiais — sem falar em toda a tradição de estudos “ciborgues” desde o clássico manifesto ciborgue e de como devemos subverter tecnologias disciplinadoras como hoje são as IAs
e tome cuidado com o excepcionalismo humano: não somos tão excepcionais assim