Não quero passar raiva sozinho. Por isso divido com vocês um texto de opinião, assinado por uma empreendedora (nunca tinha ouvido falar dela) e publicado num periódico de grande circulação (não entendi a razão).
“Essa rotina maluca não é sacrifício. É entrega, paixão. É gostar tanto do que faz que… A EXAUSTÃO vira PARTE DA DANÇA e não um motivo para desistir”.
Tem outro nome pra isso na língua portuguesa: masoquismo.
“Porque quem ama o que faz não vive esperando o final de semana, não deseja fugir da segunda-feira e não conta os minutos para desligar o computador”.
Vive, sim.
“Quando o equilíbrio se torna a única meta, a gente corre o risco de trocar a exaustão pela estagnação”.
E quem fixa sua meta em qualquer missão que não seja, digamos, humana, fincada na realidade, preocupada consigo mesmo ou com o outro, corre o risco de priorizar o que não importa.
“Isso não é uma apologia ao burnout”.
É, sim.
15 comentários
Oi André! Obrigada por compartilhar o texto aqui com a gente e bora passar nervoso junto! Eu desligo o meu note às 18 h, evito liga-lo aos finais de semana e valorizo o descanso. E isso não é preguiça, faz parte do trabalho pausar o trabalho. Aliás, a vida não é só trabalho, é também um desafio a pausa. Em um mundo cada vez mais com Burnout e também com boreout, ou seja, quando as empresas não motivam seus colaboradores, ler artigos como esses só nos faz lembrar que devemos pensar em nossa saúde indo além de cumprir metas. (E fazer baldeação no Brás e na Sé não é para amadores)
Eu conheço pessoas assim. Elas se sentem estimuladas pelo desafio e até mesmo conflito, e encontram isso no trabalho. Fazer a vontade dela prevalecer. Em alguns casos, elas não são cruéis (pelo menos não intencionalmente) e até estimulam os que o cercam se sentir bem na situação. São como aquelas crianças que conduzem o grupo naquelas brincadeiras que preferem ou tem vantagem.
Eu só vejo duas maneiras de lidar com essas pessoas. A primeira é ser como elas e estar disposto a sempre disputar para impor sua vontade sobre a deles (eu acho isso cansativo). A segunda maneira é convencê-las que o que vcs querem a mesma coisa (eu acho isso irritante). Evitar a interação com elas não é uma verdadeira opção, pois assim elas tem a vontade feita sem oposição.
Tenho a impressão que a totalidade dos cargos políticos e corporativos são ocupados por essas pessoas.
O grande problema mesmo é quando a pessoa acha que todos devem se portar como ela e/ou quando é um idiota com iniciativa.
Ela trabalha em shopping, mercado ou corta cana de açúcar?
Ela trabalha?
Penso em qual seria a opinião dela sobre o assunto se ela passasse a vida toda trabalhando 16 horas por dia, mas nunca chegasse ao sucesso de verdade (não desse sorte). Tipo o que acontece com os outros 96%* de empreendedores que fazem isso e só conseguem o suficiente pra sustentar uma família de classe média ou nem isso.
Putz.. pior que esses também tem a mesma opinião, só que o motivo já é outro.. “eu dou duro pra caramba pra ganhar a vida e esse bando de acomodados consegue fazer o mesmo trabalhando só 8 horas por dia, que absurdo”.
*número meramente ilustrativo
Tinha que ser uma playboy mimada e privilegiada cagando regra…
Essa nunca pegou um trem no Brás as 17h pra fazer baldeação
Mas gente, vocês não conhecem a peça? Ela é o supra sumo do neoliberalismo explorador. Algumas colunas que ela cometeu:
“Como a liderança Nutella e a falta de pulso firme estão afundando as empresas /
Medo de desagradar está criando líderes fracos, colaboradores medíocres e um mercado cada vez mais incompetente”
“Tratar colaborador como família é o caminho mais curto para criar gente folgada /
Quando um funcionário deixa de entregar o que foi combinado ele não perde um sobrenome, perde um contrato”
“Ser de direita e mulher é o novo pecado capital, mas quem ganha com isso? /
Cresci ouvindo que o feminismo lutava por todas nós, mas percebi que sororidade tem asterisco”
Ela e a Paula Schmitt dividem bolinho Ana Maria no recreio.
A pior enganação que minha geração teve foi o fato de que você podia amar o que fazia profissionalmente, e logo, se você achasse isso, a vida ia ser uma grande diversão.
O texto é tão doido que parece até uma paródia. Daquele tipo de vídeo/post “fake” de LinkedIn, falando bem de ganhar um chocolate por cumprir a meta. Mas aí lembro que existe coach motivacional e que tem gente que realmente acredita nesse tipo de gente.
Eu até entendo que tenha gente que trabalhe mais do que 8 horas diárias, não por gostar, e sim por necessidade, o que deve ser a realidade para grande parte dos microempreendedores do país. Bem diferente do que ela defende.
Aí a pessoa vem com esse texto em tom de desabafo, dizendo que “talvez seja o fato de você estar no lugar errado” (ou seja, culpada é a pessoa, o sistema está certo) e “Isso não é uma apologia ao burnout, é um alerta contra a romantização de uma vida profissional morninha” (a romantização de uma rotina exaustiva nem existe, né?).
Ela até coloca que “acordo antes do sol, treino, cuido das minhas filhas” numa tentativa de dizer “olha só, é possível, só você que não quer”. Quero ver se ela precisa enfrentar 2+ horas de transporte público diariamente, arrumar e faxinar a casa, preparar as refeições, levar as filhas na escola, etc.
A cereja do bolo tá no final do texto, no link para outra matéria: “Entenda como as empresas devem mitigar riscos psicossociais no trabalho”.
Versão sem o paywall: LINK
“Jornalismo de qualidade exige recursos.”
Que preguiça, hein? Tá maluco.
Tem a hora que a Folha se supera em quem convidam pra escrever colunas.
Tudo bem amar o trabalho, o problema para mim é pensar que o jeito dela é o jeito certo, como se existisse um jeito certo.
Esse povo viciado em trabalho, e que portanto vive para o trabalho, não consegue se colocar no lugar de quem vive fora do trabalho.
O único que ganha com esse discurso é o sistema.
Essa dedicação toda sem sentido é completamente absurda. Afinal, caso eles queiram te demitir, mesmo que você seja o melhor funcionário da empresa, eles o farão.
Dar espaço pra esse tipo de discurso em um jornal desse tamanho?
Ridículo.
Essa gente sempre teve espaço nos jornais desse tamanho.