Trago para cá alguns comentários meus a respeito de alguns argumentos recorrentes nas discussões em redes sociais a respeito do uso de tecnologias de geração de imagens por meio de IA — pauta que gerou uma conversa em que ninguém se escutava após o caso da desclassificação de uma edição do livro Frankenstein pelo prêmio Jabuti em função do uso de ilustrações geradas por IA.
Para quem prefere o substack (dica: não prefira) também está aqui: https://arquiteturaemnotas.substack.com/p/nao-temos-combater-ias-temos-que
7 comentários
A gente já deveria trabalhar 6h ou menos desde a proliferação da da internet. A gente já deveria ter 90 dias de férias desde a popularização do computador nas empresas. A gente já deveria ter 1 ano de licença maternidade (ou mais). A gente já deveria ter salários reajustados de acordo com o lucro das empresas as quais trabalhamos. A gente já deveria ter um monte de coisas, mas o “capitlaismo tardio” é ardiloso e descobriu-se que é muito mais simples individualizar os problemas e pessoas do que gerar melhorias no bem-estar.
Um dos sintomas mais evidentes de que o sistema capitalista é muito eficiente em criar novas maneiras de explorar trabalhadores é, exatamente, a plataformização dos empregos. Pegamos um problema que era recorrente (trabalhadores CLT ou equivalentes que brigavam por mais direitos e se sindicalizavam) e transformamos isso em um problema individual (agora cada pessoa é um “empresário”).
O que essa plataformização vende? Você recebe um valor justo pelo seu trabalho, sem o governo abocanhar o seu salário e tem liberdade de trabalhar quando e quanto tempo quiser. O que é a realidade? O entregador de delivery, o motorista de aplicativo, o programador PJ e tantos outros, precisam trabalhar +12h por dia para conseguir o mesmo nível de segurança salarial que tinham com a CLT/contrato/vínculo de trabalho.
De tempos em tempos alguma coisa ocorre no mundo do trabalho e força as empresas a apertarem ainda mais o cinto. A pandemia mostrou que o trabalho remoto pode ser a realidade da maior parte das profissões. O que isso gerou nas empresas? Demissões em massa pra criar um estado de terror nos trabalhadores e os forçar a aceitar retornar à uma rotina excrusciante de 3h no transporte público.
Junto disso, os LLMs colocaram na mesa que a tecnologia já tem como melhorar a nossa vida sobremaneira, a ponto da maior parte dos trabalhos poderem ser feitos de forma automatizada, requerendo apenas uma revisão humana posterior. Isso deveria encadear-se com menos horas de trabalho e mais horas de lazer, mas ocorrerá (e está ocorrendo) o oposto: mais horas de trabalho, mais PJ, mais plataformização e mais terror, porque, novamente, as empresas perceberam que é mais simples criar o ambiente de terror que “você vai ser demitido se não der 150% de si no trabalho” e lucrar ainda mais, pagando ainda menos.
O problema não é a IA, não é a devassa de dados pessoais, não é a empresa X ou Y. O problema é o capitalismo. Enquanto a gente (trabalhadores) não nos dermos conta disso e achar que dá pra remendar esse sistema com uma social-democracia falida ou amenizar o problema escolhendo empresas que consumimos, vamos estar apenas tapando o sol com a peneira.
É uma ótima discussão, mas acho que o MdU, apesar de ser um espaço diferenciado em termos de discussão de tecnologia, não vai gerar a discussão que se poderia ter. Acho, inclusive, que nenhum espaço de tecnologia, hoje, vai gerar essa discussão. Mas espero estar errado :)
O texto do Gabriel e o seu comentário são ótimos pontos de partida, Paulo! :)
Tomara :)
Uma boa referência (já antiga) sobre a plataformização (que acaba sendo um ensaio do que veremos quando as empresas utilizarem IA para o trabalho diário e transformar todos os outros em plataformizados).
O QUE QUEREM OS ENTREGADORES DO IFOOD? | Cortes do História Pública
perfeito
o ideal seria mesmo focar essa discussão em instâncias de debate do mundo do trabalho e de organização dos trabalhadores, mas o perverso da coisa é que esse foco no mercado criativo ocorre justamente num contexto em que há pouca (ou nenhuma) sindicalização ou até mesmo reconhecimento dos profissionais como classe trabalhadora — e quando há esse reconhecimento e (proto)organização, o resultado é essa retórica de um neoludismo raso e acrítico que apenas demoniza as IAs (num comportamento mais de corporação de ofícios que de sindicato)
Não falta uma conjunção ali no título?
nossa, passou completamente batido, obrigado