Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS

Minha razão para abandonar as redes algorítmicas

Estava comentando com amigos a minha razão para abandonar as redes algorítmicas: não tem a ver diretamente com a privacidade, mas com o modelo de publicidade que elas sustentam. Antes da internet, o anunciante publicava em um veículo determinado pelos seus planos de marketing: ele buscava seu consumidor associando sua marca à imagem do veículo e seu público. Havia um vínculo, digamos, ideológico mais ou menos direto: a depender do momento, um anúncio num determinado veículo seria um ato de coragem.
O modelo de veiculação que essas redes sustentam, pelo que entendi, é radicalmente distinto: não se anuncia mais no veículo, mas “no” usuário: se eu acesso a Folha, o anúncio que aparece para mim não está na Folha, mas no meu navegador, baseado no perfil que a big tech por trás das redes algorítmicas traçou de mim (me corrijam, por favor, se eu estiver errado).
O meio de comunicação não é mais a mensagem – não faz mais parte dela. Tornou-se só um suporte, como a tela que o seu Fulano vendeu para Picasso para que ele pintasse seu quadro.
Por outro lado, eu sou levado a crer que aquele anunciante está associado com a imagem que eu tenho do veículo – o que é falso!
Sair dessas redes é arruinar esse modelo que está destruindo a internet no que ela tem de melhor – que é a livre circulação de informação, a ampla oferta de escolhas a um ponto quase randômico (qual é mesmo a palavra equivalente em português? me fugiu aqui…).
Enfim, acredito que o objetivo é destruir esse modelo “gandhianamente” pela simples recusa de usá-lo.
Queria saber o que vcs acham dessa interpretação dos fatos.

17 comentários

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  1. Infelizmente, a catalogação (profiling) e venda dos usuários não se limita às redes sociais, vazando para toda a internet. Os dados saem de celulares, sites com rastreadores do Google, provedoras de internet etc.
    Para quem usa produtos big tech, fica pior ainda.
    Mas qualquer iniciativa, mesmo que pequena, para fora disso é ótima.

  2. Fora o embotamento da “serendipidade” – termo que acabo de conhecer nesta discussão –, outro efeito que antevejo na aplicação do conteúdo via algoritmo é o de tirar do usuário a capacidade de decidir.

    Quantos de nós no passado aqui tínhamos um tempo livre e ficávamos estancad_s em frente à tevê ou à aba de pesquisa do Youtube, em dúvida sobre o que assistir? Os meios algorítmicos resolveram isso.

    Varreram o tédio com o ônus de descobrirmos menos as coisas por nossa própria conta e de decidirmos menos sobre o que vamos conhecer. Agora, eu que ficava horas sem saber o que ver, fico à própria sorte do que o algoritmo – treinado com uma fração do que me interessa – pode me mostrar.

    A constatação dessa natureza paternalista do algoritmo, à la fast-food (“saberei o que quero quando eu vir o que quero”), é que me distanciou dessas redes que você menciona. No mais, e a custo de muito treino, não passo mais do que 15 minutos em um feed infinito.

    Quanto aos anúncios, eles não fazem sentido para mim em veículos sobre os quais tenho domínio. Não é como se eu precisasse ir ao banheiro enquanto um anúncio no Instagram é reproduzido – que, para mim, é essa a função dos comerciais de tevê, para dar esse “toque de recolher” momentâneo, essa pausa para respiro. Se eu tiver meios possíveis (e gratuitos) para varrer os anúncios do veículo eletrônico que uso, eu os usarei.

    E, digo com franqueza, já há mais de dois anos não vejo anúncios pelo meu celular ou pelo computador pessoal. Não há porquê. Ainda experimentei vê-los pelo feed com um algoritmo bem treinado e, de duas uma: ou eram muito irrelevantes ou mal feitos, ou me causavam uma angústia por me sentir observado. Hoje em dia mantenho uma batalha pessoal contra os anúncios e levo essa indústria como um brincadeira de cão-e-gato a ser jogada.

  3. Um “combo” de bloqueador de anúncios e Firefox resolve boa parte dessa experiência negativa com anúncios. Desconsiderando todos os detalhes de mercado, se os navegadores adotarem uma postura contra as publicidades por padrão, o modelo de negócios vai precisar mudar, já que ninguém mais está vendo anúncios. Logo, vai necessitar fomentar a criação de “hubs” para ver novos produtos e promoções, onde o usuário precisaria acessar um site específico para poder ver, e de fato, selecionar o que quer. Sendo muito mais assertivo e menos incômodo, porque a tese seria “só entra aqui quem está interessado em comprar”

  4. Eu larguei mão faz tempo. A ficha caiu pra mim quando percebi que estava ficando mal ao frequentar esses espaços.

    Hoje me contento em passear por comunidades no WhatsApp, Telegram ou nos bons e velhos fóruns.

    1. Eu nunca usei o Instagram e enchi o saco do FB já há sete, oito anos. Na pandemia, “descobri” o Twitter que eu simplesmente não sabia usar, apsar de ter sido dos primeiros a se cadastrar, em 2014, acho. Quando entendi que aquilo era um grande feed e que eu podia usar listas temáticas, a coisa virou quase um vício – até que o Musk apareceu e estragou tudo.
      Sempre gostei muito do Whatsapp, apsar de não participar de grupos, e sempre digo que no longo prazo vai ser o unico produto da Meta a sobreviver.
      O Telegram acho interessante, mas nunca usei, acho over. Adoro a simplicidade do WZ q me lembra muito o saudoso ICQ.
      Agora criei uma comunidade lá – uma ferramenta nova que me parece bastante útil e que nasceu, me parece, de forma orgânica. Também uso muito a lista de distribuição.
      Por causa do Rodrigo e aqui do pessoal do Manual, descobri o mastodon, mas ainda estou engatinhando. Comecei na mastodon.social, mas me mudei pra vivaldi.net. Mas ainda me sinto um anacoreta por lá.

  5. Esses anúncios com base em perfis do usuário eu gosto. São bem mais assertivos. Descobri muita coisa legal através de anúncios e coisas que se encaixavam nos meus gostos. Mas sempre vai exigir uma curadoria do usuário para separar os anúncios de qualidade duvidosa. Eu prefiro ter anúncios personalizados a ter anúncios extremamente genéricos como era na televisão aberta.

    1. Mas esse era o “espírito da coisa” quando se vislumbrou que a publicidade (e a internet) se encaminhava pra isso, pra essa hipersegmentação ou personalização. “Don’t be evil” era o motto do Google (e acho que refletia bem essa ideia de “parceria”). E de fato isso é positivo e real – real no sentido que é da essência da internet e portanto não lhe pode ser tirado. O que ningupem imaginava (ao menos não quem achava que a internet era o portal do paraíso) era que a coisa ia virar isso, essa manipulação escancarada, essa concentração absurda de poder e grana. E vc tem razão quando dá a entender que mesmo esse aspecto negativo pode ser contornado com o mínimo de autocontrole, digamos assim.
      Minha recusa é contra o modelo de financiamento, isso, sim, insanável se a iniciativa não vier da ponta do consumidor – simplesmente pq os anunciantes e os veículos já não têm mais como reagir, achi eu.

      1. Para mim o mais tóxico é a forma que os anunciantes atuam. São chamadas apelativas, que geram ansiedade. Muitas vezes os anúncios são mentirosos ou dúbios, e confundem a audiência. Sem contar nos produtos e cursos que não resolvem nada. Isso é o pior dos anúncios na internet, mas não é um problema exclusivo dela, isso já existia antes, quando só assistíamos TV.A maior diferença é que agora você cai nisso com poucos cliques, e antes exigia um maior esforço. Mas, sinceramente, não faço ideia de como isso poderia ser solucionado.

  6. Infelizmente, não é só pelas redes sociais que é feito esse “profiling”. Isso vai também via dados cruzados de celular “bigtechzado” com logs de DNS (que provedores de internet compartilham), acessos wi-fi, GPS, e de outros serviços e sites etc. Mas acho que qualquer redução de dano, mesmo que incompleta, ajuda.

  7. Talvez a palavra que você esteja procurando é “serendipidade”.

    E eu concordo com tudo e queria ter o mesmo desprendimento. Talvez se houvesse algum esforço coletivo de aculturação, letramento ou sei lá, a gente pudesse conviver melhor com as redes algorítmicas. Como quem toma vacina pro coronavírus. É ingenuidade?

    1. Fui dar uma olhada no dicionário:
      “Significado de Serendipidade (substantivo feminino): Ato ou capacidade de descobrir coisas boas por mero acaso, sem previsão. Circunstância interessante ou agradável que ocorre sem aviso, inesperadamente; casualidade feliz.”

      Sim, vc tem razão. Foi exatamente isso que se perdeu com o abuso e manipulação dos algoritmos.

      1. Nunca imaginei que tinha uma palavra pra isso. Achei incrível.

        1. Pois é… Eu nem lembrava mais dela. Ou melhor, não sabia que existia uma tradução pro português e não lembrava mais do significado da palavra que conhecia do inglês. Se não me engano, é o título da autobiografia da Lillian Hellman, uma escritora e ativista americana que foi casada com o Dashiell Hammett… É bonito mesmo ter uma palavra que guarde essa ideia… Mas não sei explicar porque ela em português não me soa bem… Como se fosse uma palavra feia pra uma ideia bonita.
          Seja como for, nos serendipicamos com a palavra!