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M. Alcoforado: “Pensar é luxo: a desigualdade agora é cognitiva” linkedin.com

Já pedindo desculpas pelo post estar no LinkedIn, mas achei interessante o argumento do Alcoforado e bate muito com discussões que rolam aqui no Manual. A analogia das telas e conteúdo digital como o _fast food_ do pensamento faz muito sentido, e quando você vê como crianças das classes média para baixo estão crescendo com acesso irrestrito ao conteúdo digital ultraprocessado, é bem plausível supor que as desigualdades se aprofundam agora nessa seara cognitiva, pois crianças de famílias mais ricas ficam menos expostas ao lixo digital, recebendo conteúdo mais educativo, na mesma medida que têm mais tempo de convívio familiar de qualidade e experiências lúdicas. Fico triste de ver meus sobrinhos grudados em telas o tempo todo, não desviando delas nem para comer. Os pais infelizmente não enxergam o mal que isso causa, vendo apenas a distração como auxílio para poderem fazer suas tarefas tranquilos.

13 comentários

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  1. Acho que vou numa linha totalmente fora do que muitos vem chegando. Quero apontar umas coisas aqui:

    – O preconceito intelectual: creio que quando se fala que “pensar é luxo” e joga nas costas da tecnologia o problema das pessoas aprenderem, isso me soa como se fosse retirar a carga que tem de um preconceito que acho que é muito pouco posto, que é as diferenças culturais e intelectuais que as pessoas tem. Como já lembrando, sempre a busca pela “desculpa do outro sobre suas distrações”.

    Pessoas vivem e pensam de formas diferentes. E muitas vezes, o que é associado como burrice ou desintelectualidade na verdade é uma outra cultura. Era assim quando pensavamos sobre povos originários. E diga-se: não tou exatamente “passando pano para quem tem mau carater ou preguiçoso” por exemplo, mas sim que temos um problema sério de entender as pessoas, e por isso as pessoas acabam buscando vícios para poder compensar a falta de sociabilidade, isso devido aos próprios preconceitos da sociedade (o outro é “vagabundo” porque não aprende pq fica com a cara vendo influencer online, mas o influencer do tigrinho fala com mais clareza do que o professor certinho).

    Eu tenho que admitir que nunca usei o TikTok de forma ativa justamente porque, admitindo preconeitos, eu via um “populesco” ali rolando, o “comum”, o dia a dia das pessoas exposto, somado a humor, a auto depreciação para ser aceito, a tentativa de fazer o comum ser um comum conhecido a todos. Quando um influencer vive fazendo humor para chamar a atenção, isso diz muito como a cultura lida com o humor e o entendimento “comum” sobre tal.

    E como eu por exemplo já tenho uns 20 anos ativos entre altos e baixos online, sou da época da paciência e de que nem tudo é humor ou sarcasmo, mas sim simpatia, respeito e busca pelo apoio ao outro. Mas acho que estou divagando demais, né?

    No final, a busca para justificar nosas divisões sociais ignora nossos preconceitos em entender-nos como parte social. Conhecimento é um valor social (e econômico), e por rótulos no mesmo ajuda a qualifica-lo no mercado. Pensemos sobre.

    – Linguagem simples: nisso tava pensando nestes últimos tempos sobre o quanto “falamos demais” e isso gera um muro de comunicação. Como se falar e escrever demais – não exatamente igual o que faço aqui divagando demais e não fechando bem raciocinios – fosse uma desculpa para uma “qualidade de informação”. Precisamos sim é de mais linguagem simples e entendimento mais “comum”, sem tantas ironias, sarcasmos, provocações e indiretas. Talvez o erro “zero” é justamente a falta de comunicação clara e sem “segundo entendimento” entre as pessoas, e usamos palavras difíceis ou com duplo sentido também como desculpa para o outro não entrar na roda social onde estamos.

    Eu lia muito quando participei de uma rede social por um tempo sobre um tal de “neo literalismo” – as pessoas meio que aplicarem literalmente um sarcasmo, como por exemplo a galera literalmente lavar dinheiro de origem ilícita.

    E isso não é problema exatamente cognitivo. Mas social. Pois já li por aí e sempre gosto de repensar: se a gente não se faz entender, não é culpa do outro se ele não nos entende. Ou acho que seria “se o outro não entendeu, talvez o problema seja em nós mesmos em não saber explicar”.

    Quando a gente lida com pessoas diferentes em trabalhos de atendimento, meio que aprendemos de alguma maneira a justamente lidar com isso (talvez, só estou teorizando).

    No final, tentar entender o outro deveria ser uma busca, ao invés de nos separarmos em castas intelectuais.

    1. A questão aqui não é nessa linha de se ter um preconceito com quem consome vídeos curtos e superficiais como pessoas menos dotadas intelectualmente. O conteúdo que cada um consome nessas plataformas não é relevante nessa discussão. Dá no mesmo se a pessoas estiver vendo vídeos sobre física nuclear e filosofia ou pegadinhas com risadas falsas no fundo. O problema é como as big techs usam vulnerabilidades psíquicas para capturar a atenção das pessoas e mantê-las grudadas em suas telas, e como isso impacta de forma desigual as vidas de pessoas mais pobres. Há inúmeras formas mais saudáveis de lidar com a tecnologia, consumindo conteúdos quaisquer, mas as big techs tornaram muito difícil usar telas e redes sociais de forma moderada. A analogia com alimentos ultraprocessados dá mais clareza. Pense que, se alimentos industrializados cheios de açúcar e gorduras são mais baratos que alimentos naturais, a tendência é que famílias de baixa renda comprem mais desse tipo de alimento, pois pesa menos no bolso e tem sabor muito agradável, causando desproporcionalmente mais doenças nesse segmento da população, pois o rico tem tempo e dinheiro pra manter uma rotina de *wellness*. Com as telas e o lixo digital acontece de forma parecida. Os aplicativos com algoritmo mais viciante capturam muito a atenção e são todos grátis, amplamente disponíveis, então famílias sem muita disponibilidade de tempo facilmente cedem a esse entretenimento, que é cada vez mais granular e capaz de preencher as pausas do dia. É claro que ricos também estão vulneráveis a cair nessa, mas só ricos tem acesso a um retiro de detox digital, terapia, yoga, e professores particulares, e aí que está o buraco que está sendo discutido.

      1. Como colocado abaixo em um comentário do Ghedin, a questão de “ultra processamento de informações” é antiga. Da informação impressa, passando pelo rádio, tv e agora o “online”, todos podem sofrer com a captura de atenção, isso porque pessoas estudam para justamente praticar e ganhar com isso.

        E quando ponho a questão do preconceito intelectual, é porque entendo que justamente quem estuda para mudar consciências, isso com o marketing, interfaces, atuações; o faz para aproveitar desta diferença de conhecimento.

        É o “aproveitar brechas”, vamos dizer. Pessoas reagem e entendem coisas de forma diferente.

        Não discordo da culpa das big techs, mas o ideal era entender que quem tem consciência de o que está ocorrendo, não deveria usar desculpas para não combater os problemas. E com comunicação simplificada – por isso coloco a questão da linguagem simples e do preconceito – , fazer o outro entender do perigo do excesso informativo.

  2. Queria trazer um contraponto: ele cita uma pesquisa do “Common Sense Census”, mas não vi a fonte na postagens ou nos comentários principais. Dito isso, temos a “TIC Kids Online Brasil 2025” (https://cetic.br/pt/pesquisa/kids-online/), olhando pra realidade brasileira, e a tabela “A4 – CRIANÇAS E ADOLESCENTES, POR FREQUÊNCIA DE USO DA INTERNET” (https://cetic.br/pt/tics/kidsonline/2025/criancas/A4/) mostra que o uso da internet aumenta com a renda e com classe social na opção “Mais de uma vez por dia”; algo similar também acontece na tabela ” B1B – CRIANÇAS E ADOLESCENTES, POR ATIVIDADES REALIZADAS NA INTERNET – COMUNICAÇÃO E REDES SOCIAIS” (https://cetic.br/pt/tics/kidsonline/2025/criancas/B1B/), em que não parece haver diferença significativa entre uso de redes sociais entre quem ganha até 1SM e quem ganha mais de 3SM ou entre as classes AB e DE.

    Não sei, me parece que quando se tratam de crianças e adolescentes no Brasil, tá todo mundo usando telas de maneira muito similar (pelo menos na frequência e tempo). Portanto, a afirmação que ele faz no texto de que “crianças de famílias com menor renda passam duas horas a mais por dia diante de telas do que as de famílias mais ricas” não parece ser a realidade no Brasil.

    Mas concordo com essa frase: “E há quem viva à base de conteúdo ultraprocessado, produzido para manter o corpo online e a mente cansada.”. Penso nos discursos do influencers de lifestyle, os tigrinhos e bets da vida. Pode ser preconceito meu, mas sinto que esses discursos tem uma maior aceitação nas classes mais baixas e famílias com menor renda.

    1. Repare, Ghedin, que o texto do link não cita celular, mas telas. E nessa discussão, tratar tela como o dispositivo é uma simplificação. E como você apontou agora, não é uma crítica nova, logo ela deve ser vista dentro de um processo histórico. Não somente, o que você disse até me chama atenção pra uma agudização desse fenômeno: ficar horas no computador há vinte anos parece muito menos grave do que no celular hoje.

      Imagino que estejamos todos aqui bem a par das questões políticas e econômicas sobre big techs. O problema das telas atuais não é o conteúdo em si mesmo, mas quem distribui. E colocando o dispositivo nesse contexto, esse se torna problemático por suas funções e dinâmicas: ser um apêndice e poder te chamar quando quer que você o atenda; e do lado de lá, o software que se aprimora cada vez mais pra reter atenção.

      Sobre o dispositivo, eu e você sabemos (ou nos enganamos que é possível) domá-lo. Desligamos ou selecionamos notificações, escolhemos que redes vamos frequentar, nos distanciamos fisicamente do aparelho. Qualquer um pode fazer igual, só que isso é individualizar a solução de um problema coletivo. Nisso já existe uma desigualdade. Não só é preciso estar informado, como também ter o tempo e a disposição de fazer.

      1. Estamos rodeados por telas e isso não é um problema a princípio. Acho que aí nos distanciamos um pouco, Mauricio: as telas podem ser (e são) mal usadas, mas [o mundo moderno é intrinsicamente ligado a elas](https://www.theatlantic.com/technology/2025/10/screen-time-television-internet/684659/?taid=68fa18d9b7e4fe000187a4e5) e não acho que elas seja, a princípio, o grande problema.

        É por isso que digo que o celular (ou as telas, que seja) é um sintoma. A doença, como o fulalas comentou ali embaixo, é o capitalismo e, num menor grau, mas imprescindível para o adoecimento do paciente, estão as big techs com suas práticas viciantes, anticompetitivas e exploradoras.

        Se Meta, Apple e Google deixassem de existir hoje, ainda usaríamos telas. Os bons usos e os maus usos. Porque, para algumas coisas, continuaríamos fazendo o mesmo de que reclamamos hoje.

        Pegue o WhatsApp como exemplo, que é o app “menos Meta” da Meta no sentido de que não tem algoritmo de recomendação. Mais que “viciado”, a gente meio que depende dele. Em lugares onde o WhatsApp não é hegemônico, sempre tem uma alternativa igualmente onipresente.

        1. Rodrigo, acho que estamos concordando, mas não nos entendendo.

    2. O sistema capitalista parece realmente a força motriz por trás desse caos que, como você bem colocou, não começou agora.

      Mas acho meio complicado sugerir que o discurso é super velho e que tela onipresente como temos hoje é somente um sintoma, como se não pudéssemos melhorar nada enquanto não atacarmos o principal gerador de problemas sociais.

      Basta olhar pro cigarro pra ver com clareza o problema dessa argumentação. Era algo extremamente popular no Brasil até o final dos anos 90, e seu sucesso pode ser atribuído corretamente à fome capitalista. Mas nem por isso deixamos de debater o assunto, realizar pesquisas e finalmente regulamentar, reduzindo drasticamente seu uso e salvando milhões de vidas, literalmente.

      O exemplo do cigarro me parece muito pertinente porque no fundo é a mesma lógica que vemos nas big techs hoje: usar a tecnologia disponível para tornar as pessoas viciadas em produtos, e assim gerar lucro indefinido para as empresas.

      Não dá pra normalizar o que andam fazendo essas big techs, totalmente soltas, manipulando nossas vidas, e ficarmos de mãos atadas até o sistema se autodestruir. Eu fico feliz que algumas medidas já estão sendo tomadas, como proibir smartphone em escolas. Que seja só o começo!

      1. Existem telas e existem big techs. São duas coisas diferentes. Concordo que não podemos cruzar os braços e acho que precisamos regular as grandes empresas que exploram as nossas fraquezas psicológicas e o aparato tecnológico para nos viciar.

        O sintoma também precisa ser tratado quando adoecemos.

        A redução no consumo de cigarro é fruto de regulação; é o que precisamos fazer com plataformas digitais. Não compro muito o argumento do Alcoforado de equivaler concentração a patrimônio. Acho até que isso esvazia outra frente da disputa, a da redução de grandes fortunas e desigualdade. (E o que seria a “elite cognitiva” de que ele fala? Algumas das pessoas mais estúpidas e aceleradas que já conheci eram também muito ricas.)

    3. Pode-se discordar dos argumentos, mas dizer que é um discurso super velho interdita um debate que precisa ser feito de uma forma mais cuidadosa, não? Não é só o velho discurso da alienação. O smartphone não é uma tecnologia equiparável a um livro em termos de capacidade de prender atenção. E não é vilanizar a tecnologia, o smartphone em si. Mas é um fato que o capitalismo está cada vez mais especializado em criar formas de nos manter presos às telas, e isso merece uma reflexão diferente, ao meu ver.

      1. Concordo que o debate é válido e, mais que isso, urgente. O que acho contraproducente, até, é esse viés de colocar o tempo longe do celular como “luxo”. É só ir a qualquer rolê de rico para ver que, nesse sentido, é igual (se não for pior) que um de pobre: todo mundo com a cara enfiada no celular.