neste fim de semana finalmente assisti a uma versão integral de idade da pedra, último filme de glauber rocha, de 1980
o filme é uma grande experiência audiovisual que procura fugir completamente de qualquer narrativa protocolar ou tradicional (o que não quer dizer que não apresente múltiplas narrativas), a ponto do próprio glauber sugerir ainda em vida que os rolos do filme deveriam ser apresentados numa ordem aleatória no cinema
é estranho mas é maravilhoso
gosto muito de filmes com estruturas narrativas não usuais ou que se pretendam não-narrativos ou anti-narrativos (embora a ausência de narrativa, mesmo que emergente, me pareça impossível ou ilusória)
numa outra linha também adoro ano passado em marienbad — cuja narrativa se dilui o tempo todo —, assim como meu jantar com andré (o filme inteiro se trata de duas pessoas conversando num jantar) e praticamente tudo o que o david lynch já fez (império dos sonhos inclusive tá no limite de ser assistível de tão maluco que é)
também há os filmes que, não deixando de serem narrativos, fogem a uma explicitação narrativa mais evidente, como koyaanisqatsi (que também é maravilhoso)
quem mais gosta de filmes assim e pode sugerir outros títulos?
22 comentários
Lembrei do curta A Pista (La Jetée), do Chris Marker.
A trilogia Qatsi já citada é um dos que mais gosto.
Além destes, poderia citar além dos já mencionados:
– Electroma (Daft Punk em um universo próprio, sem diálogos)
– MindWalk (Ponto de Mutação)
Eu vi o título do seu post e já pensei no *Ano passado em Marienbad*, filmaço! Outras sugestões que talvez interessem, em geral um pouco mais narrativas que os que você mencionou (mas: em algumas, indicá-las aqui tem um quê de spoiler…):
– *Possessão* (Zulawski); parece Buñuel fazendo horror
– *Hill of Freedom* (Sang-soo Hong)
– *Funny Games* (Michael Haneke)
– *Players vs. Angeles Caidos* (Alberto Fischerman); talvez seja difícil de achar
– *O Fim e o Princípio* (Eduardo Coutinho); é documentário, mas talvez se encaixe
Assista “Limite”, filme do brasileiro Mário Peixoto.
um clássico!
Árvore da Vida? Não lembro detalhes do filme mas lembro de ter gostado.
Que tal a animação Paprika do Satoshi Kon?
Tem a série de animação Serial experiments lain
Paprika é muito bom! Acho que segue bem essa linha.
O rei da morte?
não sei se monster de 2023 entra nessa lista
monster é um típico filme “estilo rashomon” (por apresentar fatos narrados por personagens distintos ou a partir da perspectiva de personagens variados)
é muito bom, certamente um dos melhores filmes do ano passado ― mas penso em filmes ainda menos usuais em suas estruturas narrativas
Narrativas não usuais (se eu entendi direito): me vem a cabeça “O jardim dos Finzi-Contini”, “O baile”, “Corra, Lola, Corra”, “Solaris” (o original russo), “Mishima”, “Matadouro 5” e “O labirinto do fauno”. “Festim diabólico” foi o primeiro filme teoricamente com um único plano sequência (não é, mas as soluções para parecer que foi filmado de uma vez só são muito boas).
Festim Diabólico!
Os rolos de filme tinham limite de 10 minutos, o filme 80 minutos. Foram 8 rolos. Quando chegava ao filme a câmera passa por trás de alguma móvel ou trocando de cômodo e a parte escura serve de corte quase imperceptível.
O filme antes foi uma peça de teatro, então é praticamente a encenação da peça para a câmera (que, evidentemente, não é o mesmo que para o público).
Muito indico.
Festim diabólico andou para que 1917 pudesse correr!
adoroo
festim diabólico não vi até hoje, lacuna imperdoável
Na graduação, tivemos um módulo que envolvia obras não-narrativas em duas disciplinas. Não vou conseguir me lembrar de tudo, mas em Multimeios o que me chamou mais atenção foi a animação inglesa A Colour Box. Tanto que tivemos que desenvolver uma atividade baseada nela, com uma série de projetores de slide e música.
Na disciplina de Cinema lembro que iniciamos com “Um Homem com uma Câmera” de Dziga Vertov, depois “A Idade do Ouro” do Buñel e “Espelho” do Tarkovsky, passamos por Ron Fricke (Chronos e Baraka – Samsara ainda não havia sido lançado ainda), Godfrey Reggio (Koyaanisqatsi, Powaqqatsi, Naqoyqatsi e Anima Mundi). Existia um debate de fundo interessante sobre se a técnica dominava a linguagem (tipo um playground do Reggio e Philip Glass) versus uma sofisticação maior sem roteiros lineares. Uma pena que não tenha encontrado mais material sobre isso, foi o melhor semestre de cinema.
Daí anos depois em um módulo cineclubista, até expandimos isso com outras obras meio que semi-derivadas como “Ashes and Snow” do Colbert, “O mundo visto de cima” baseado no livro do Yann Arthus-Bertrand e “Sweetgrass” (não lembro se era francês ou inglês).
Além desses tivemos um que ficou meio entre a lógica narrativa e a não-narrativa que era “Le Quattro Volte” de Michelangelo Frammartino, que é muito interessante.
muito bom
buñuel é fantástico, né? mesmo as obras mais “convencionais” são maravilhosas
sobre koyaanisqatsi: acho que toda a graça está mesmo em ser um grande playground formal (e justamente por isto é tão sofisticado)
algumas das sugestões ainda não conheço (fricke, frammartino, colbert), vou procurar, obrigado!
Memento é o primeiro que me vem em mente
Acho que não é o que o gabriel tem em mente, memento, é apenas apresentado na ordem inversa. E pode também ser assistido na ordem direta, existe uma narrativa sólida e não chega a ser não usual. É divertido por ser um quebra-cabeças. Coisas de Nolan
Parece-me que o gabriel quer sugestões de filmes mais com estrutura não usual, acho que “assassinos por natureza” (natural born killers), do oliver storne, talvez se encaixe no que ele procura. Faz muito muito tempo que vi, pode ser que esteja enganado. 🤔
E falando em Lynch, tem Coração Selvagem.
ah, também já fizemos um podcast falando de aqui, uma HQ com estrutura narrativa também bastante interessante:
https://foradeprumo.com/2023/05/31/fora-de-prumo-f-33-aqui-a-ghost-story/