Recentemente notei algo peculiar, é muito melhor ver imagens da II Guerra Mundial do que do motim do grupo Wagner.
Entendo que da década de 1940, as imagens que sobreviveram até nós sejam as feitas por profissionais e com equipamentos melhores do que apenas entusiastas tinham.
Qualquer grande evento atual possui imagens filmadas na vertical, com campo de visão extremamente estreito e de fato com o objeto de foco cortado.
Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS
Eu vou defender a lâmpada que acende por voz: ela também apaga por voz. Nada melhor do que resolver parar o que estiver fazendo na cama e dizer a luz que se apague. Não, tem algo melhor sim: quando você apaga a luz do quarto, deita e percebe que a do banheiro ficou acesa.
Eu não sei a resposta da sua pergunta, eu só sei que acho video na vertical muito feio.
Isso COM CERTEZA não vai ser um problema porque, independente do melhor formato, pro historiador conta, nesse contexto de gravação por celular, (1) com a maior quantidade possível de gravações e (2) com mais perspectivas do que está sendo gravado.
Historiador precisa de documento, então todo registro importa. Hoje há mais possibilidade de registro do que sempre houve. Imagina como teria sido o volume de informação se o 11 de setembro tivesse acontecido num mundo como agora, em que o acesso a uma câmera digital é amplamente disponível.
Mesmo no caso em que há apenas um registro, uma fonte, provavelmente isso já é melhor e só é possível num mundo com smartphones, o que 15 anos atrás seria inimaginável…
Então, na verdade não tem jeito certo ou errado … tem o jeito que conversa com a narrativa que você quer propor ou pra mídia de exibição que você pretende direcionar o registro.
Como você mencionou, o registro que ficou salvo daquela época foi aquele feito em película – que inclusive é o que permite recolorir ou transformar estes registros em filme de alta definição hoje em dia. Quando olhamos para os equipamentos amadores, o fotograma das cameras da época era na maioria das vezes quadrado e não garantia o contraste suficiente para ter uma boa definição entre fundo e objeto.
Um outro ponto é que a acessibilidade a uma câmera atualmente possibilitará que um evento tenha dezenas de pontos de vista, vamos compensar a limitação de enquadramento com a variedade de takes disponíveis.
Esse debate é sintoma desta nossa época mesmo. Galera com preguiça de eventualmente girar o telefone… Comprando automóvel com porta malas que fecha (!) sozinho. Lâmpada que acende por voz.
Pra mim basta dizer que temos um olho ao lado do outro, e não embaixo do outro.
Comentário rápido pra defender o porta-malas elétrico rsrsrs: Por causa da suverização dos nossos carros, cada vez mais altos (leia a última coluna do Guilherme Felitti sobre o SUVs como retrato da imbecilidade), minha esposa com seus 1,50m não consegue fechar o porta-malas sem minha ajuda, tanto por causa da altura que chega quase a 2,10m quanto do peso da porta.
o que você sugere é a naturalização do olhar, como se a visão fosse mera realidade fisiológica e não uma construção social dotada de historicidade
regimes de visualidade são múltiplos e influenciados por condicionantes as mais variadas
veja o caso da pintura de paisagem chinesa: assim como existem rolos horizontais que representam o conjunto do território, há também rolos verticais que expressam de forma muito significativa a sensação de verticalidade das montanhas
não é porque temos olhos justapostos e não superpostos que produzimos imagens de um jeito ou de outro
embora não seja o foco do meu trabalho nem eu seja especialista no assunto, o trabalho com fontes fotográficas tem papel de protagonismo nas minhas atividades de pesquisa e profissionais
então posso dizer o seguinte: esse tipo de preocupação ainda é o reflexo da ideia de que a imagem fotográfica é a perfeita expressão de um acontecimento, um instantâneo fiel, neutro e objetivo de um evento
e isso é tudo o que as fotos não são: não porque elas sejam falsas ou imprecisas — nenhuma representação é falsa ou impecisa, essa discussão sequer cabe. A questão não está na foto em si, mas nas perguntas que fazemos a elas e no olhar que produzimos sobre elas (lembrando que o olhar também está longe de ser atividade neutra ou involuntária).
toda foto diz muito sobre si mesma — muitas vezes mais do que sobre o que ela supostamente representa. Nesse sentido, no futuro teremos uma imensidão de fontes valiosíssimas para discutir a própria cultura visual de nosso tempo — a maneira como as pessoas olhavam pras coisas, a maneira como elas manipulavam os aparelhos, a maneira como elas escolhiam determinados temas e objetos e não outros. Note que o que menos importa aqui é o objeto fotografado e muito mais o ato de fotografar: falar de cultura visual envolve uma teia complexa de produção de sentidos, da produção à circulação e recepção de imagens, assim como da forma como imagens conversam umas com as outras e com as próprias convenções e tradições visuais.
repare que as únicas fotos que temos de campos de concentração são as já conhecidíssimas imagens dos sonderkommandos de auschwitz (imagens estudadas em profundidade por didi-huberman). Foram fotos produzidas de forma quase secreta, em condições precárias e o resultado igualmente precário, repleto de “erros” técnicos é fundamental para entendê-las como fontes para compreender a violência que foi o holocausto
ao mesmo tempo, a mais famosa foto da guerra civil espanhola, produzida não por qualquer profissional mas pelo próprio “pai” do fotojornalismo — a célebre foto do miliciano abatido — é objeto até hoje de enorme celeuma entre pesquisadores porque há fortes indícios de ter sido uma imagem “fabricada” (posada, no mínimo) — e lembrando que toda foto é fabricada
se quiser estudar mais sobre o assunto, recomendo fortemente os textos de ulpiano meneses sobre história visual (e em particular o texto sobre a foto da guerra civil espanhola do robert capa). São textos panorâmicos e bastante didáticos
e ficam também algumas palavras minhas sobre o assunto: https://arquiteturaemnotas.com/2023/04/11/preocupar-se-com-a-autenticidade-do-fotojornalismo-e-pauta-dos-anos-1930/
o ligeiramente fora de foco, livro com a historia do Robert Capa, também é excelente. vale a leitura!
Ah, mas até lá, a IA vai preencher esse espaço restante.
:)
“da década de 1940, as imagens que sobreviveram até nós”
Gente, isso foi há 80 anos, não há 800. E muitas, mas MUITAS imagens que temos da Segunda Guerra Mundial foram feitas por civis e soldados não profissionais – gente que inclusive arriscou a vida para filmar/fotografar as atrocidades cometidas.
O mundo começou bem antes dos anos 2000 e da invenção do celular.
Não entendi o motivo da crítica, de verdade. Poderia explicar?
Na década de 40 não existiam muitas fabricantes de câmera (até hoje não existem), e mesmo sem embasamento, acredito não ter sido um equipamento de fácil acesso, nem de fácil manuseio. Pelas leituras que eu fiz, só os mais abastados possuíam câmeras fotográficas naquela época. Muitos dos fotojornalistas nem tinham o próprio equipamento, era tudo do jornal. Se considerar que os civis são os fotojornalistas, e que os exércitos (por terem grana dos governos) deveriam também ter soldados fotógrafos, faz mais sentido. Mas cidadão comum, que não fosse abastado, dificilmente teria ou saberia manusear uma câmera. Até hoje você encontra famílias mais simples que não possuem registros fotográficos de seus antepassados, quem dirá na década de 40.
calma, não se tratava de prática tão exclusiva assim nem eram poucos os fabricantes (suspeito até existirem mais naqueles anos que hoje).
a kodak já mantinha campanhas de venda de máquinas fotográficas para o grande público desde o fim do século 19 — veja o caso das famosas kodak girls, por exemplo
Pelas leituras que eu fiz sobre os fotógrafos da época, não parecia ser algo tão difundido para além dos profissionais. E duvido muito que na década de 40 tinha mais fabricantes que hoje em dia. Fora que muitas das marcas da época só faziam câmeras de médio e grande formato, inviáveis de usar no front.
Os fotojornalistas da época geralmente usavam Leica, Contax ou Kodak (os americanos), e como disse no outro comentário, muitos deles nem tinham o próprio equipamento, era cedido pelo jornal.
“as imagens que sobreviveram até nós”
Por que elas não “sobreviveriam”? Não só muita gente fotografou a guerra no seu dia a dia, como também fotógrafos profissionais acompanharam militares em incursões e cidades ocupadas (dos dois lados). As forças armadas (dos dois lados) tinham departamentos para registro de imagens, seja por foto como por filme.
Não houve uma grande destruição dos registros para falarmos de “imagens que sobreviveram até nós”. Ao contrário: a Segunda Guerra Mundial, arrisco dizer, foi o primeiro conflito dessa magnitude a ser muito bem documentado.
Ficou bem claro. Obrigado pela explicação!
https://xkcd.com/2119/
Hmmm não acho que isso será exatamente um problema por um detalhe que você comentou, nerd nóia: gravações profissionais. Elas continuam (e continuarão) existindo. Os vídeos na vertical são um adendo — não fossem eles, sequer teríamos esses registros.
Até ~2015 eu era muito apegado à ideia de gravar “do jeito certo”, mas… né, tem jeito certo? Se os vídeos serão vistos na tela do celular mesmo (a maioria, pelo menos), o “jeito certo” passa a ser em modo retrato, acho eu.
“Se os vídeos serão vistos na tela do celular mesmo”
Ué, filma na horizontal e que o espectador gire a tela kkkkkk
Hahaha, é uma opção! O que quero dizer é meio que isso: cada um grava do jeito que quiser ✌️😌