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[en] Status, classe e a crise da especialização traduzir conspicuouscognition.com

O autor defende que a crise de populismo/demagogia é fruto do que chama de “caridade epistêmica”, um tipo de humilhação sentida por aqueles fora do circuito de produção do conhecimento. Peço licença para citar um longo trecho (final):

Se a crise de expertise está parcialmente enraizada em sentimentos de ameaça ao status, ressentimento e humilhação, isso tem implicações significativas para como devemos pensar—e abordar—essa crise.

Mais obviamente, sugere que soluções puramente epistêmicas terão eficácia limitada. Não se pode resolver competição por status através de verificação de fatos. E enquanto a aceitação da orientação especializada for vivenciada como uma admissão de inferioridade social, haverá um mercado lucrativo para demagogos e charlatões que produzem narrativas mais afirmativas do status.

Além disso, sugere que reconstruir a confiança nos especialistas significa mais do que melhorar sua confiabilidade, por mais crucial que isso seja. Instituições dominadas por uma única classe social e tribo política inevitavelmente enfrentarão resistência e reação adversa na sociedade mais ampla, independentemente de sua competência técnica.

Não precisamos apenas de melhores maneiras de produzir conhecimento. Precisamos repensar como o conhecimento é oferecido: de formas que respeitem o orgulho das pessoas e minimizem as humilhações da caridade epistêmica unilateral.

Acho que o recado vale para muita gente, como jornalistas que se acham bastiões da verdade, quem venera o “confie a ciência” e afins. Não por estarem errados (embora possam estar), mas por um tipo de “arrogância epistêmica” (o outro lado da caridade a que o autor se refere) que afugenta quem pensa diferente e — a grande ironia, a grande tragédia — mais se beneficiaria do conhecimento que lhe é oferecido.

2 comentários

2 comentários

  1. Acho que o recado vale para muita gente, como jornalistas que se acham bastiões da verdade

    O segundo grande problema do jornalismo (e da sua crise), no meu entendimento, é exatamente essa abordagem egolatra e arrogante dos jornalistas com a profissão. O primeiro é o comercial invadindo a redação.

    Mas, elaborando mais, os jornalistas cavaram a sua própria cova quando se colocaram como pessoa acima das ideologias e detentoras de uma visão única acerca do mundo. Nunca foram isso. A liberdade de imprensa é essencial, mas precisa ser acompanhada de responsabilidade.

    Exemplo: hoje mesmo eu li uma matéria nbo Tecnoblog onde um empresário defende que o Brasil não aplique a lei de reciprocidade em cima dos EUA porque “o Brasil já taxa em mais de 50% os produtos tecnológicos”. Sem apresentar contas, sem mostrar dados, sem ir além na abordagem, apenas solta um número (que é quase impossível de uma pessoa normal averiguar) e cria uma matéria inteira ao redor disso para justificar o ponto de vista ideoológico do jornalista e do veículo. Esse tipo de atitude de isolar da discussão e, posteriormente, usar a liberdade de imprensa e a profissão de jornalista como escudo para falar e propagar ideologias é um problema (não pela ideologia, mas pela ideologia que se traveste de isenção) que as pessoas acabaram percebendo com o tempo e rechaçaram oas veículos mainstream, criando o vácuo de informação do WhatsApp, Brasil247 e Brasil Paralelo.

    quem venera o “confie a ciência” e afins.

    O grande trunfo da ciência é sua falhabilidade. As pessoas que falam sobre ciência desse modo não sabem o que é ciência e, não raro, entendem ciência como um cojunto fechado de disciplinas sbre física e biologia enquanto ignoram a ciência social e a política ideológica que cerca as decisões (hipoteses e provas) que a ciência chega.

    A religião da ciência criou um monte de pessoas que não questiona os resultados quando eles vem com um verniz de ciência, ignorando que a base do método cientifico é questionar o que lhes é apresentado.

    E daí ligamos os dois assuntos, retornando a matéria do Tecnoblog, onde falta uma prova, mesmo que fraca, que o número apresentado na matéria seja real (é bem possível que seja) e explique porque esse número é real e qual a consequência disso. Isso poderia ter sido feito em um paragráfo, mas a escolha editorial não permitiu isso. Analogamente, é isso que se faz quando se exclui um conjunto de dados que não corrobora a decisão que queríamos apresentar em um artigo/estudo.

    A crise do jornalismo é reflexo da crise na ciência (ou, na ciência vista como uma religião que não se questiona) e na crise de pensamento crítico que a nossa geração está demonstrando.

  2. Vou ler e reler com calma. Mas o ponto que ele oferece é sensacional.

    Lembrei de um livro muito interessante, “O Mundo do Avesso”, onde a antopóloga Leticia Cesarino observa de que forma a estrutura digital “esfarela” a confiança em algumas instituições e desestabiliza o diálogo. É como se houvesse, ainda, uma camada “cibernética” nesse debate – além da questão dialógica, trazida pelo texto.