Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS

[en] Seria a IA generativa a cocaína digital? traduzir makemeacto.substack.com

É um texto longo, ainda que interessante. Para o nosso debate, o cerne da hipótese do autor é isto (tradução livre):

Se a cocaína faz você trabalhar mais horas, reduzindo o impacto da fadiga, os chatbots fazem você produzir mais artefatos no mesmo intervalo. Do ponto de vista de um sistema, o resultado líquido é comparável: mais unidades de coisas produzidas por unidades de custo.

O fato de que (ab)usar de tais muletas que melhoram o desempenho pode levar ao declínio progressivo das capacidades cognitivas do indivíduo é um efeito colateral que não impede diretamente o sistema de atingir seus objetivos declarados. Uma vez que os ganhos de produtividade são alcançados, o custo humano se torna pouco mais do que um efeito colateral infeliz.

5 comentários

5 comentários

  1. Opinião impopular, mas isso me soa muito mais como alarmismo ou criação de factóides. A IA é um problema social antes de ser um problema cognitivo. Social porque ela vai depredar ainda mais as relações de trabalho nos países periféricos e vai propiciar ainda mais a fuga dos cérebros daqui.

    Me soa como o mesmo argumento (errado) contra a pornografia (aquele de que a pornografia é um vício) que nos leva para a reflexão pelo lado errado. Estamos pensando constantemente em manter o capitalismo funcionando, seja com IA, Google ou pornografia (que no final se tornou uma forma de exploração do capital, vide o último relatório do OnlyFans) enquanto a verdadeira causa é obliterar o sistema que nos aprisiona.

    Muda algo se eu uso IA ou o Google para fazer uma tarefa? Não. Quem ganha é a mesma sempresa de sempre. Empresa que usa esses ganhos para financiar golpes e genocidios. E no final do dia, a “produtividade” da IA é usada como cortina de fumaça pra discutirmos questões alheias.

    Eu acho que seria muito bom se pudessémos delegar pra IA qualquer coisa chata ou massiva – como reesecrever um site, implementar um sistema computacional, traduzir documentos técnicos – enquanto o ser humano vive. Acho essa ideia de que nós deveríamos nos preocupar em VIVER muito doida, principalmente porque vemos uma preocupação muito grande em “produzir” de forma “consciente”.

    Devemos acabar com o trabalho e não com a IA.

    Mexendo um vespeiro, é a mesma questão da fragmentação das pautas de esquerda. Veganismo, machismo, feminismo, identitarismo. Todas essas questões são problemas que deveríamos debater, mas a questão central de todas elas, o que permeia as relações de consumo, é o capitalismo. O machismo, nazismo, racismo, xenofobia; tudo isso é capitalismo. Se a gente não discute, nem que seja pra somnhar, o fim do capitalismo, estamos apenas jogando a culpa em outras pessoas (quase sempre tão ou mais precarizadas do que a gente).

    1. A sensação que tenho quando leio sobre “combate ao capitalismo” são dois:

      Primeiro que não se explica o que pode substituir a questão do capitalismo, ou melhor, nem como se houve a imposição de sistema de “valores” para definir a humanidade por tais formas.

      Segundo porque é raro alguém achar alguém aplicando algo que não seja capitalismo na prática, ou melhor, não há exemplos claros de pessoas que não meçam a vida por valores de troca.

      Não se acaba com o capitalismo – e também com a força de poder de “bilionários ou poderosos” só falando “acaba com o capitalismo”. Mas sim em algum momento alguém vai ter que ou mostar alguma comunidade que não seja capitalista funcionando ou criar uma (tal como tentaram criar uma cidade socialista no passado). E tal comunidade tem que funcionar de forma a que convide as pessoas a saírem do capitalismo só pelo próprio exemplo que gere. Pessoas não vão parar de medir valores só com palavras de gente que estudou, mas sim com exemplos reais de que vai funcionar algum outro sistema social que pare de usar valores como métrica para sucesso da vida .

      “Devemos acabar com o trabalho”. Eis uma frase que as pessoas entendam errado. Mesmo sem capital ou sem “valor financeiro”, as relações geralmente são baseadas em tarefas e ações para obter algo para a sociedade: alimento, proteção, tecnologias. E tudo isso é gerado por trabalho, por pessoas usando seus talentos e força corporal para criar ou cuidar de algo.

      Nessas horas tenho uma grande inveja de povos originários que vivem do básico – busca por alimento e manutenção de sua comunidade. E que acabam sofrendo porque capitalistas invadem a terra deles para tentar transformar metais em dinheiro ou transportar drogas e contrabando pelas áreas…

      1. “Segundo porque é raro alguém achar alguém aplicando algo que não seja capitalismo na prática, ou melhor, não há exemplos claros de pessoas que não meçam a vida por valores de troca.” – você mesmo deu o exemplo no final, ao citar os povos originários. Desde o colapso da União Soviética o capitalismo é tido como algo natural e inerente ao ser humano, quando já vivemos milhares de anos sem ele (inclusive tem um livro bem interessante da Nastassja Martin, “A leste dos sonhos”, que mostra uma comunidade na Rússia que volta a viver na floresta após o fim da URSS). Não estou querendo dizer para voltarmos a viver em cavernas, mas que é possível viver fora de um sistema ultraindividualista e que só visa lucro a qualquer custo, mesmo que o de vidas e do próprio planeta.

  2. Li traduzido e achei excelente! Casa com alguns argumentos trazidos por ti e por muitos na comunidade, e também traz o sentido de um comentário que li ontem:

    *Não dá pra explicar com dancinha de Tiktok em 15 segundos coisas que valha a pena entender.
    Não dá pra terceirizar para uma máquina o trabalho de leitura, reflexão e escrita que são fundamentais a uma disciplina acadêmica.
    Quem espera isso está atrofiando partes importantes do seu cérebro.*

    Hoje de madrugada eu tava pensando o quanto estou esquecendo de coisas, e tipo, parte dos argumentos usados no texto também são usados para definir o quanto o uso de buscadores (que antes das IAs eram mais “pergunta que tenha uma resposta simples”) fizeram também, dado que hoje as informações estão a uma digitação ou ditado de distância.

    Não atribua a uma conspiração o que pode ser facilmente explicado pela ganância

    Eu tava precisando ler esta frase nestes tempos…