O CEO do Ghost, que lançou a versão 6.0 esta semana, escreveu em seu blog que temia que a integração com ActivityPub e AT Proto fosse incompreendida.
A tecnologia é maravilhosa, mas complexa. Para muitas pessoas, termos como ActivityPub, fediverso, ponte, protocolo, servidor, toot, boost e Webfinger são alienantes e confusos. Eles sutilmente insinuam que, a menos que você entenda o que todas essas palavras significam, este pode não ser um lugar para você; da mesma forma que os termos cripto — blockchain, web3, carteira, pares de chaves, nonce — são uma parede de jargão que grita “você não pertence aqui” para pessoas normais.
Apesar do temor, ele diz estar surpreso com a boa recepção. Sou um pouco mais cético; acho que a boa recepção foi de gente já familiarizada com esses termos. Ou estou errado? Qual a percepção de vocês a respeito do fediverso e plataformas sociais descentralizadas para “pessoas normais”?
3 comentários
Acredito que o Ghost em si tem uma UX legal e até agora tudo que vi deles foi feito de forma que pessoas não técnicas conseguem entender. Não tenho um blog Ghost, mas acho que uma galera não tech vai se incentivar a ativar a integração.
O tempo vai dizer.
Totalmente de acordo que não é real essa recepção positiva, real digo para o uso popular. Não gosto da ideia de subestimar a capacidade de compreensão de ninguém, mas acho que precisamos tomar cuidado ao achar que pessoas não familiarizadas com termos e técnicas, não vão conseguir utilizar determinadas ferramentas.
No caso da “web social” temos uma barreira muito maior que os termos, que é o modo como opera a própria existência das linguagens de programação em si, o fato de tudo ser nomeado e produzido com origem na língua inglesa, é um fator determinante do afastamento. Logo, toda obra produzida por essa estrutura, também vai ser desestimulante pra gerar pertencimento em qualquer pessoa do mundo, que não seja falante da língua ou não esteja num país “amigo” dos ingleses.
Gosto de acreditar na ideia de que é possível popularizar esses conceitos, a partir de uma educação popular e integrada com o instrumental técnico pra realização dessa participação social mais igualitária entre as diferentes camadas sociais. Mas ainda assim, hoje, é restrito a pessoas que não se encaixam na classe, na cor, no gênero ou até mesmo do território que hoje é predominante nos usuários de sistemas e serviços como o Ghost em si.
O problema é sociotécnico.
“O problema é sociotécnico” – vou começar a usar este termo agora para algumas discussões.
O uso de tecnologias de fato depende de ou a tecnologia ser “intuitiva” a ponto da pessoa se virar sem precisar de tanta instrução, e/ou a tecnologia ter algum nível de necessidade de aprendizagem para servir de “proteção” para que a tecnologia não se volte contra as pessoas.
Noto que redes sociais de conversa – Mastodon, Blusky e similares (e agora o antro do inferno X, claro) servem basicamente para isso – conversa. Não diferente também de redes de assuntos como Reddit, Discord e o que estamos aqui – o Órbita.
Diferencio porque um (como Bsky e Masto) trabalha com fios (o assunto é efêrmero e lida mais com o que a pessoa tem de tema e o que tem rolado no “feed”), e outro (Órbita e Discord / Fóruns) trabalham com “tópicos” – as pessoas PRECISAM entrar nos tópicos para focar no assunto. Posso estar fazendo uma confusão com esta terminologia, mas penso que é hora também de “botar na prateleira” as definições de cada rede social também, até para facilitar o entendimento.
Mas voltando, apesar da complicação no parágrafo anterior, entendo que as pessoas buscam SIMPLICIDADE. Tal como dirigir um veículo, pessoas não querem ter tanto trabalho de mexer por baixo do capô, apenas querem dirigir – ou comentar, conversar, chamar a atenção. Noto que as pessoas dão valor aos técnicos – inclusive se eles são completamente transparentes em suas atitudes. A pessoa que opera um PC não quer saber a velocidade da RAM, só quer saber como deixar o computador rápido. E muitas vezes a pessoa que é leiga em termos técnicos usa o computador mais para por exemplo dar entrada em documentação, fazer um trabalho que requer um site ou programa, etc…
Tem horas que falo para a pessoa “olha, algumas coisas você precisa realmente aprender porque ajuda”, mas mesmo assim ela não aprende. E não nem porque ela quer ou não, mas sim porque a cabeça da pessoa está especializada em outra coisa, e dedicada àquela coisa – seja por exemplo fazer um processo jurídico, um cálculo de engenharia, uma redação para jornal ou revista…
Temos nós – que temos algum conhecimento técnico um pouco melhor – que entender que a melhor coisa muitas vezes é ser prático para o usuário final. Se ele vai usar a rede, tentemos ao menos deixar uma documentação para ele entender algumas dicas e boa parte da rede seja prática para uso. Quanto mais difícil o uso, mais justamente o senso de “você não é bem vindo aqui”, e aí a ferramenta se torna inútil e mal falada.