Muito tem se falado do novo livro de Jonathan Haidt. Achei este artigo o mais equilibrado — traz as duras críticas, lideradas por outro artigo que saiu na Nature, e as preocupações de uma mãe.
É um tema difícil, cheio de nuances, e muito próximo da realidade de muita gente, o que abre ampla margem para relatos anedóticos. Que são válidos, mas (por natureza) enviesados. Complicado.
5 comentários
Confesso que não tinha lido essa parte criticando o trabalho dele, realmente algumas soluções que ele traz parecem ser só reacionárias a frente de um problema social tão amplo.
Longe de ter respostas para a questão eu iniciei algumas reflexões sobre o assunto baseando-me primeiro no texto publicado no “The Atlantic” antes do lançamento do livro.
Eu compreendo que o problema não é a tela em si, mas sim a exploração comercial exacerbado das plataformas.
Escrevi e falei algumas coisas sobre isso aqui: https://caiocgo.net/2024/03/os-terriveis-custos-de-uma-infancia-baseada-no-telefone/
O quanto disso tudo (problemas de redes sociais + ansiedade + depressão + TDAH) é explicado de forma muito mais simples: capitalismo.
Nos EUA esse problema é ainda pior. Um local onde é comum as pessoas dividirem o valor que pagaram em algo relacionado ao entretenimento pelas horas e calcular o “custo” de um filme/jogo, se torna normal que até mesmo momento de ócio seja pressionado para ser “produtivo”.
A gente, sociedade, chegou no problema (ansiedade/depressão causada pelo stress) mas não quer ver a causa (um modo de produção desumano e escravizador). Parece que nós estamos incapazes de perceber uma sociedade diferente da atual (capitalista) a ponto de olhar pra um problema geral e pensar que o problema *não é* o modo como o sistema pressiona todos.
O maior indicativo disso é que a gente perceba a IA como uma ameaça (aos nossos empregos) e não como uma oportunidade de trabalhar menos.
Perfeito, Paulo.
Conforme eu ia lendo o artigo as mesmas associações se formavam na minha cabeça.
O artigo se concentra em apresentar visões distintas sobre tempo de tela e acesso sem sequer conseguir mergulhar numa segunda camada que é qual conteúdo os jovens acessam.
As redes estão recheadas do discurso do vitorioso; padrões de sucesso inalcançáveis, sociedade de falsos-felizes, pessoas vivendo praticamente uma vida dupla entre a realidade e o digital, incentivo maciço ao consumo, crises e mais crises.
Incrível como os americanos possuem esse talento de não conseguir enxergar o modo de viver como parte do problema.
Por mais que tudo encaixe perfeitamente para culpar as tecnologias que foram moldadas especialmente para nos viciar, pelo jeito não é nesse problema complexo que teremos uma resposta simples. Por enquanto vai caber a cada um decidir o que é melhor para si.
Agora com toda a crítica frente a mais um livro “científico” popular, sinto falta de algum lugar que compilasse contestações críveis a essas obras ou avaliasse as conclusões tiradas frente a estudos mais recentes. É um destino que tanto obras com embasamentos sólidos quanto aquelas mais questionáveis estão sujeitas pela evolução natural da ciência.