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  1. as pessoas tiram fotos por vários motivos: para mostrar para os outros os lugares em que estiveram, para guardar de recordação, para se exibir, para jogar nas redes, para servir de apoio pra outras atividades, para anotar coisas, etc. Às vezes elas tiram fotos simplesmente porque o ato de tirar fotos é agradável e é uma mediação entre o corpo, o olhar e o mundo.

    de todas essas razões, fico pensando na fotografia pessoal como álbum de recordações em face dessas novas ferramentas de IA: longe aqui de querer valorizar experiências “autênticas” (que são em última instância ilusórias), mas a capacidade ampliada de manipulação e invenção de imagens generalizada para todas as pessoas* acaba anulando (ou em grande medida alterando profundamente) o estatuto de registro de uma experiência passada que uma foto possui

    por um lado isso é bom, porque deixa explícito para todo mundo que a fotografia não é um registro fiel da realidade material exterior — toda representação é autônoma

    mas por outro anula justamente aquilo que leva as pessoas a registrarem esses momentos — desconsiderando os outros usos citados acima, é claro. Afinal, você visita um local durante o dia e instantaneamente possui a foto noturna. “Corrige” imediatamente eventuais “imperfeições” do cenário.

    considerando a “autenticidade” como mercadoria cada vez mais valorizada, será que as imagens com ruído, desfoques não intencionais, enquadramentos ruins, luzes problemáticas, etc, serão mais valorizadas?

    *lembrando que fotografia é SEMPRE invenção e é SEMPRE manipulada, etc, etc, etc — a diferença aqui está na escala e no alcance disso

    1. “considerando a “autenticidade” como mercadoria cada vez mais valorizada, será que as imagens com ruído, desfoques não intencionais, enquadramentos ruins, luzes problemáticas, etc, serão mais valorizadas?”

      Sim e isso já vem de anos, lembra do começo do Instagram que a febre era aplicar filtro para deixar a foto com cara de “velha”?

      Mas isso, como você disse, sempre ocorreu na fotografia. Mas antigamente era algo visto mais como artístico, ou mais restrito pela dificuldade em criar imagens que não são o “comum”. Técnicas de processamento cruzado, manipulação de negativos e filmes, dupla exposição, utilização de filtros coloridos para gerar imagens diferentes em preto e branco. E na era do digital, várias pessoas experimentaram o filme pela primeira vez, justamente para sair do comum.

      Enfim, a fotografia está altamente popular, todos hoje tem uma câmera a 1 bolso de distância. É algo cotidiano e se a tecnologia ajuda a deixá-la ainda mais prática (realmente é ruim isso de ter uma foto com todas pessoas do grupo sem ter um terceiro para fotografar e enquadrar adequadamente), acho bem-vinda.