Um tem recorrente aqui (no Manual do Usuário e no Órbita) é o “segundo cerebro” (e aplicativos de notas de forma geral). Foi aqui que eu aprendi sobre o termo “second brain” e sobre os muitos aplicativos de notas (eu uso o Notion, contudo).
Mas o título já diz sobre o se trata o artigo. A blogueira/streamer/youtuber, Joan Westenberg escreveu um artigo/post muito bom sobre o processo de deletar todas as notas dela (nas palavras da própria “10000 notas, 7 anos de ideias”). O problema principal é que ela se deu conta que ele estava apenas acumulando e não estava colocando nada em prática e nem utilizando os links, notas, realces em livros ou qualquer outra coisa que guardava no Obsidian. O que, eu acho, 99% das pessoas já se deu conta (lista de links e artigos para leitura que nunca serão lidos, ideias que nunca sairão do papel, projetos que nunca passarão do primeiro commit/paragrafo etc) e ela se deu conta depois de analisar que tinha “personas” acumuladas.
O mais importante, pra mim é que o que ela fala sobre a memória humana – ela é associativa, emocional e contextual; e nunca acumulativa – e isso fez ela se dar conta que esse acumulo de informações paralisava ela muito mais do que ajudava e, no final, se tornava uma fardo (eu diria que muita gente gosta de organizar as notas mais do que lê-las, daí o apelo dos PKM (descobri essa sigla para Personal Knowledge Management hoje) para a grande maioria das pessoas; indo além, eu diria que é um hobby ver tudo isso organizado e catalogado num sistema desses) que gerava um sentimento de ansiedade pelo “eu de um futuro que nunca chega”. Finalizando, ela fala da ideia de que a nossa memória precisa apagar certas coisas para ver com mais clareza o que é essencial pra nossa atividade – seja qual for – e acumular muita coisa só gera lixo e impede a nossa memória de se conectar com o conhecimento catalogado. É a impermanência da nossa memória, ou seja, aquela informação que importa vai se sobressair e vai ser mantida.
Finalmente, para quem quiser, tem um video-ensaio no YouTube: https://youtu.be/CjSWwmg-JRM
14 comentários
Eu gosto muito do Obsidian, mas não consigo usar nesse esquema de segundo cérebro.
Acho ótimo pra organizar notas de trabalho. Como eu trabalho em projetos curtos, às vezes mais de um ao mesmo tempo, tem sido muito melhor do que ter vários txt soltos em várias pastas diferentes. Isso quando eu não ficava com as notas espalhadas em vários caderninhos. Acho que talvez eu use o obsidian mais como um caderninho midori infinito do que como um segundo cérebro.
Gostei muito do vídeo, obrigado por compartilhar.
Ainda tenho sentimentos mistos em relação a esse tema. É realmente uma faca de dois gumes.
Por um lado, acredito fortemente que o essencialismo e o minimalismo ajudam a reduzir o ruído e a sobrecarga cognitiva. Por outro, como alguém com TDAH e memória não tão confiável, percebo que meu sistema de anotações frequentemente me resgata em momentos cruciais, especialmente no trabalho.
Outro dia mesmo, encontrei uma nota antiga no Upnote com referências valiosas que me permitiram reconsiderar um problema sob uma nova perspectiva. Isso me levou a entregar um resultado significativamente melhor do que teria conseguido sem aquela consulta.
Manter essa biblioteca pessoal tem um valor enorme para mim. Ao mesmo tempo, me vejo constantemente reorganizando e reestruturando tudo, tentando encontrar uma lógica que torne o uso realmente prático e sustentável. Até criei um prjeto pra mim mesmo de “Reorganizar minha biblioteca pessoal”.
Enfim… acho que no final das contas o que precisa ser feito é manter um relacionamento mais saudável e não a sede de controle e obsessão nos detalhes.
Meus caros, não relacionado ao conteúdo e a discussão em si, notei um detalhe aqui que entendo importante: Joan Westenberg é uma mulher trans, e estamos nos referindo a ela como “o autor”.
Ela não salienta isso em cada artigo, o nome é um pouco ambíguo para nossa língua, então me parece fácil a confusão. Eu mesmo a acompanho há algum tempo no Mastodon e demorei algumas interações para perceber.
Erro meu. Não tinha percebido mesmo.
Eu não tenho como editar o post original, mas se o Ghedin quiser/puder seria uma boa.
Obrigado por apontar isso :)
Feito!
Very thx :)
Que interessante! Um contraponto é ir pela perspectiva da “anti-biblioteca”, ter as referências guardadas mas já sabendo que provavelmente não vai acontecer de finalizar projetos e afins. Uma forma de lidar com nossas limitações como apego ainda que virtual (pra quem é minimalista off-line essa é uma grande contradição que dissolve, talvez, a persona criada que se identifica como minimalista total); ter noção que as memórias nos escapam e não há sistema que vai parar isso, é a entropia do tempo, não tem jeito, lidamos com a finitude; as coisas inacabadas, nossas tentativas, aceitar que não fomos até o final, que mudamos de ideia, que desistimos… acho que por aí é uma boa linha a seguir.
Tenho salvo algumas notas (no Apple Notas) com tutoriais e comandos menos óbvios e que uso raramente, como referência. São úteis vez ou outra e não ocupam espaço (em disco e na minha memória). A busca interna é bastante útil e funciona bem, o que não é uma grande surpresa, visto que são só uns poucos arquivos de texto.
Como exemplo, recentemente descobri o sshfs, que permite montar um disco remoto apenas com acesso SSH. É bem prático para gerenciar a mídia no meu servidor doméstico! Aí escrevi alguns comandos necessários, o rolê do macFUSE (dependência necessária) e outros detalhes que, daqui a cinco ou dois anos, ou mesmo em questão de meses, eu já terei esquecido.
Essas coisas como comandos e soluções que eu sei que posso precisar um dia eu tenho tentado transformar e publicações que outras pessoas vão entender e publico no meu blog.
Fazendo com que qualquer um entenda eu sei que lá na frente eu vou conseguir entender de novo hehe
Eu anoto isso tudo em um caderno e mantenho isso salvo nas notas do Fastmail.
Mas como o @Rafael disse, eu acho que o melhor modo de guardar isso é criando um Gist ou publicando aqui no Manual. Pode ajudar outras pessoas inclusive :)
De acordo com o autor.
E digo mais: tenham muito cuidado com esses minimalistas de internet (que não sabem a diferença entre minimalismo e essencialismo) e esses organizadores de YouTube.
No geral, a satisfação deles está mais em organizar o que nem usam do que efetivamente usar o que organizam.
A vida real de quem tá produzindo para pagar as contas é um tanto diferente.
Esse artigo traz ótimas reflexões sobre o que e porque acumular em notas.
Eu li o livro “Segundo Cérebro” do Tiago Forte, não sei se foi ele que inventou o termo, mas ele trata ironicamente exatamente do que o autor fala neste artigo. A ideia não é acumular e salvar tudo, pelo contrário, é saber excluir quase tudo e deixar apenas o que for muito útil para o que você está fazendo agora, o mínimo possível de notas, o resto ou você exclui ou joga num limbo chamado “arquivo” se tiver medo de deletar (que na prática é a mesma coisa pois nunca acessamos o “arquivo”). E se o seu sistema estiver te travando ou sem sentido, é só apagar tudo e começar de novo, que é o que o autor diz que vai fazer.
Eu uso o Evernote há 15 uns anos (passei um período no Obsidian e voltei) e tenho notas acumuladas lá que me salvam em muitas ocasiões, coisas como documentos escaneados meus e de familiares que preciso cuidar, número de calçados de familiares, listas de possíveis presentes de aniversário, histórico de exames médicos e de tratamentos (também meus e de pessoas que preciso cuidar), receitas culinárias que repito sempre (com observações do que dá e não dá certo), aquele vinho maravilhoso que tomei em tal ocasião… Essas são notas que realmente me são úteis e acesso frequentemente quando preciso.
Mas realmente é preciso fazer uma limpa de vez em quando, se acho uma receita que sei que nunca vou fazer, já deleto. Uma ideia que passou e não vou usar, tchau… Se um dia eu precisar procuro de novo. Evito fortemente listas de leitura, coisas para fazer, ideias para “um dia”.
Outra coisa legal que achei do artigo é pensar sobre como (não) acumulamos conhecimento focando em registrar detalhes das coisas.
Hoje somos obcecados pela precisão filológica. Cada vírgula deve ser documentada, cada citação verificada, cada detalhe certificado. Transformamos o conhecimento em um exercício de contabilidade intelectual. O resultado? Sabemos tudo sobre os fragmentos e nada sobre o todo. Catalogamos folhas e perdemos as florestas.
Concordo contigo, Leandro, e acho que há uma linha tênue entre acumular notas e tratá-las como aceleradoras de alguma ideia. Justamente no livro, Tiago deixa bem claro que o foco não é ter um armazém de notas, mas sim uma espécie de fábrica (apesar de não gostar dessa analogia) que te ajude a juntar e moldar essas notas em algo que possa ser compartilhado com outras pessoas.