Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS

[en] Como lido com pensamentos do tipo “dane-se, por que se importar” traduzir blog.avas.space

Não sou tão comprometido às minhas causas como a autora, mas identifiquei-me muito (muito mesmo) com as motivações e angústias que ela relata no texto. Eu poderia ter escrito isso.

4 comentários

4 comentários

  1. É difícil ter princípios, mas até que ponto isso não é simplesmente orgulho?
    Cada um faz sua parte, mas não é preciso que cada um faça tudo. Vejo um certo martirismo (existe esta palavra?) no texto, uma necessidade de jogar na cara dos outros “estou fazendo a coisa certa”.
    É impossível não lembrar do the good place e o cara que fazia tudo certo e ainda assim ia pro inferno, porque tudo ainda não era o suficiente.
    No fim do dia o exemplo é ruim, quem quer ter uma vida virtuosa e ainda assim sofrer passando vontade, ou seja, a “conversão” da autora não tem convicção, se tivesse ela não ia passar vontade de ir ao churrasco.

  2. Às vezes percebo que alguns amigos e amigas caem nessa angústia. Isso rende boas conversas, que pra mim às vezes parecem um bom ato político.

    Por aqui, fico pensando em manter minhas posições com a calma de quem sabe que o mundo não depende delas. E me preocupo mais com as ações diretas, de impacto imediato, ou de contágio.

    Quero que as pessoas ao meu redor fiquem bem, e quero que o mundo se torne um lugar melhor, mas, como algumas cartas já estão dadas, tento não perder de vista também que o mundo não depende de mim. Isso evita que eu “me queime” na tentativa do impossível.

    Provavelmente é sobre equilíbrio, afinal, e não acho que a gente deva sentir culpa por um dia qualquer experimentar uma comida que tenha carne, por exemplo.

    Agora, um causo:

    Eu me tornei vegetariano aos 13 anos (tenho 27), e isso não foi bem recebido pela família, nem pelos amigos. Até aquele momento, eu era o único vegetariano que eu já tinha visto na vida, e fazia aquilo por achar que era o mais correto. Eu fui literalmente humilhado e julgado por conta dessa escolha – que hoje soa tão boba e comum, não? O mundo hoje é cheio de vegetarianos e todo mundo entende a palavra, mesmo na cidade em que nasci. E nenhuma das agressões nunca me fez ceder um centímetro da minha escolha: nada de carne.

    Já aos 26 anos, me dei conta que nunca havia provado algumas comidas ribeirinhas. Como vinha do interior da Bahia, onde não havia rio ou mar por perto, alguns peixes típicos, moquecas, e toda sorte de mariscos e moluscos eram sabores que eu nunca tinha provado.

    Bati o pé que me daria um ano sabático pra descobrir esses sabores, e assim o fiz, provando de tudo e tentando ~errar~ aprender a cozinhar outras coisas.

    Ainda me atrapalho na cozinha com as carnes, mas não me arrependi por nenhum segundo de ter que lidar com os olhares dos carnistas (repare) que tentavam apontar minha suposta hipocrisia.

    Pelos meus planos, daqui dois meses eu volto a parar de comer carne, depois de alguns exames de estômago e uma ida ao nutricionista. A experiência foi importante, de todo modo.

    Tenho a impressão que a luta contra as injustiças que percebemos não podem custar a nossa vida, nem suplantar nossa felicidade ou experiência, porque é por uma boa vida para mais pessoas que lutamos. É como dizia o Mujica sobre o rapaz se jogando debaixo de um tanque: ele está equivocado, isso não vale a pena.

    O negócio é que fazemos parte de um mundo e, por isso, não podemos simplesmente parir um mundo novo de nossas entranhas, com os nossos ideiais. Somos obrigados a negociar com essa realidade e dobrá-la minimamente em uma nova direção. É preciso alegria e disposição pra isso.

    Não é brincadeira, afinal. Estive cozinhando com a carne de animais, o que pode ser absolutamente intragável para a sensibilidade de algumas pessoas pelas quais tenho a maior estima. Talvez esse exemplo seja uma boa medida do nível de complexidade da coisa toda e, ainda assim, não é motivo para a desistência, mas, antes, o contrário.

  3. Eu meio que queria o contrário… se importar é desgastante demais.

    1. Para mim é como a fé, algo que não se escolhe. Acho que há espaço para trabalhar isso a ponto de não ser uma questão, embora eu tenha medo de me dessensibilizar.