Sei que tem muitos aficionados(as) por sistemas de produtividade na audiência do Manual, por isso acho que este texto vem bem a calhar — mesmo sendo um pouco duro.
O autor argumenta que sistemas de produtividade e/ou de anotações prometem algo impossível de mensurar ou de ser analisado em condições ideais. Mesmo que a pessoa que compre a ideia (às vezes, literalmente, com dinheiro) se sinta mais produtiva, existem tantas variáveis que se torna impossível dizer o que mudou ou mesmo se algo mudou. (Pode ser apenas o fator novidade, um efeito placebo, qualquer coisa.)
Ele também critica o tipo de escrita da área, dos ditos gurus de produtividade, gente que vive disso. Que é ruim. (E, convenhamos, é mesmo sofrível e isso vale para vídeos também.)
A parte da distração foi a que mais me pegou. O trecho em que ele bate na prática de fazer anotações alucinadamente durante a leitura de livros chega a ser lindo. Transcrevo um trecho:
12 comentáriosOs livros são mapas de territórios que são completamente internos ao leitor. Ao se concentrar excessivamente na extração da simbologia da superfície do próprio mapa, esses anotadores compulsivos correm o risco de perder de vista o território. O território de um livro é o raciocínio e o argumento que ele te apresenta como um caminho que você toma em sua própria psique. O objetivo não é lembrar-se de tudo o que o livro contém. Lembrar o conteúdo de um livro é inútil. O livro existe para conter o que ele contém. Se o conteúdo for importante, você guarda uma cópia do livro para procurar as coisas novamente.
Mas esse não é o objetivo da leitura. O propósito da leitura é mudar. Às vezes, a mudança é trivial e temporária — uma peça de ficção que traz um pouco de alegria à sua vida. Às vezes, a mudança é profunda — uma guinada na sua perspectiva sobre a vida. “Itens de ação” de um livro são externos e forçar a si mesmo a segui-los é exaustivo.
acho que ele tá focando em algo específico, mas parte do argumento tocou em algo que eu pensava sempre olhando o trabalho da galera de “produto” da empresa em que trabalhei: o mais importante era ficar organizando, discutindo, reuniões, fechar o escopo etc. (insira aqui mais muitos termos, expressões, sobretudo em inglês…) em apps de colaboração online, com dinâmicas de post it e sei lá mais o quê. De uma forma bem louca – porque a aparência dessas coisas é toda divertida, parece algo lúdico – basicamente o trabalho era de um cartório, burocracia pura se retroalimentando. o planejamento era semestral e 1/3 desse semestre era gasto nisso. quase isso era gasto em avaliar, medir, sei lá oq. e no fim das contas o próprio processo era o trabalho. pra mim chegava a ser enlouquecedor, quando eu parava pra pensar. pra quem já viu o irmão do jorel, há aqueles engravatados executivos todos iguais e eu me sentia exatamente naquele mundo, como se existisse um batalhão de pessoas cujo trabalho é gerar lero-lero corporativo, muitas vezes por mais de 8h. enfim, pra mim esses apps de produtividade tão dentro de um mundo mais amplo que é o de metodologias de organização da atividade laboral, que tem um objetivo muito específico (e bem pouco nobre), e nem foram criadas com a participação de quem põe a mão na massa. então, vejo com preocupação quando vejo que essa racionalidade vaza para nossas atividades pessoais.
mas é isso, pode ser útil quando é isso que exigem de nós.
Estou assumindo que existem os mais diversos propósitos considerados que levam gente adotar sistemas de produtividade. Isso não faria que, para alguns, esses sistemas sirvam para atingir seus objetivos sociais?
Existem inúmeros propósitos por trás de uma mão qualquer folheando um tal livro. Sei que ele escreve para quem foi treinado para observar nitidamente, é só não consigo trazer para um contexto muito generalizado.
Eu acho que esse texto caminha aos tropeços sobre uma linha que divide uma crítica super importante e uma generalização rasa. Existe todo esse universo de comercialização de “sistemas de produtividade” e de falsos gurus vendendo cursos com respostas boas demais pra serem reais. Mas correlacionar “sistema de produtividade” diretamente com “sistemas de anotação” me parece um grande desserviço.
Faz parecer que só podem existir sistemas de anotações com intuito de aumentar a produtividade. Existem tantos outros benefícios e malefícios em ter metodologia para anotar coisas.
Concordo que tentar mensurar se anotar as coisas aumenta a produtividade é no mínimo ingênuo, mas digo de experiência própria que esse não é o único fim de um sistema de anotações. Melhora minha memória? Não kkkkkkk, ainda sou a pessoa que consegue lembrar da primeira senha de modem de wi-fi que vi na vida, mas quando me perguntam qual atividade eu estava fazendo duas horas atrás me vem um completo branco. Contudo também sou a pessoa que sabe dizer exatamente o que foi definido da reunião de planejamento de 3 meses atrás no trabalho, ou que lembra exatamente o presente perfeito para um amigo que comentou por alto quando caminhávamos na rua, tudo isso porque eu anoto e tenho um método. Pra mim é necessário que as coisas tenham métricas e rigores, é como funciono, talvez pra outros baste anotar coisas nas notas do celular e há quem só precise lembrar.
Gosto muito de pensar no sistema de notas como um “espaço pra pensar”, eu não preciso que ele me lembre de coisas, nem que aumente minha produtividade, mas gosto de poder ver como minha mente estava se organizando a tempos atrás ou até correlacionar pensamentos que pareciam desconexos. É um jardim digital só meu, muito semelhante à ideia de ter seu próprio blog ou de promover slow web, pra mim é um espaço de refletir, experimentar, testar e até descobrir coisas novas. Me ajuda a lidar com o mar aberto de informação que tenta nos afogar todo dia.
O autor abre o texto falando sobre esse processo de reflexão e de construir e criar a partir das anotações e aí se perde num retrato tão… insosso. Não sei se por já estar a tempo nisso, mas o conteúdo que consumo sobre Obsidian, PARA (ou qualquer que seja a palavra chave do momento) vai tão além de “anote tudo que vc lê pra entender o livro”, pra mim é justamente o contrário, as pessoas vão mostrando um pouco do seu próprio jardim, alguns gostam de um sistema minimalista e prático, outros gostam de decorar e deixá-los esteticamente agradáveis, cada um monta o seu.
“Mas não é esse objetivo da leitura”, de novo achei uma generalização tão fraca, não é pra quem? (Claro que para o autor, foi retórico). Pra mim anotar um livro não é sobre tentar extrair cada milésimo de informação do texto, é sobre registrar pensamentos que tenho na hora, sobre me fazer perguntas pra responder depois, sobre guardar passagens que me emocionaram. Não me parece que isso cruzou a narrativa do autor, se você for procurar 3 pessoas diferentes mostrando como elas anotam livros muito provavelmente vão ser sistemas muito diferentes, uns gostam de anotar cada milésimo de trecho, outros gostam de anotar só nas próprias palavras e conectar com outras notas. Eu mesmo amo anotar enquanto leio, porque durante a leitura vou tendo ideias e pensamentos que se eu não anotar ou me distraem da leitura ou então se perdem no vazio do esquecimento e depois ainda consigo conectar isso com outros elementos da minha existência porque eu vou anotando tudo kkkkkk. Me parece exatamente o “objetivo da leitura” que o autor elenca.
Enfim, fica aí o textão e as opiniões, foco em opiniões, foi só oq senti lendo o texto pela primeira vez. Talvez elas mudem, talvez não, mas achei um tema super legal. Depois quero revisitar o texto com outra cabeça e ver como chega até mim, quem sabe não faço até uma nota sobre 😅
O seu parágrafo sobre “[…] sistema de notas como um “espaço pra pensar”, […] um jardim digital só meu” é bem o que eu tento (embora tenha bastante dificuldade em) fazer com minhas anotações.
Pra mim o mais transformador foi abraçar a imperfeição, eu sou uma pessoa com um pensamento muito metódico e sistematizado, então quando eu alterava os meus templates por exemplo, pra adicionar novos metadados ou seções num tipo de nota (Notas de Diário por exemplo), me incomodava o fato dessa mudança não ser propagada pras minhas notas antigas do mesmo tipo, até porque a depender aquela modificação nem cabe numa nota que eu fiz a 3 anos atrás. Daí comecei a aceitar que as notas que já existem refletem um momento meu, elas tão ali de registro histórico e se eu precisar eu resgato uma antiga e ajusto se quiser.
Agora ficou divertido me bater com notas antigas, eu vou lembrando de como eu tava me organizando naquela época, o que tava presente na minha vida, é bem gostoso. Pra mim meu Obsidian é “abraçar o caos” (uma frase que um professor uma vez me disse e ressoou comigo), nada nele é perfeito e ele é perfeito por isso.
Eu concordo com alguns pontos que você trouxe. Pra mim, a grande falha do texto foi não definir exatamente o que ele avaliou e trazer exemplos. Se tivéssemos uma noção maior sobre quais sistemas, gurus, métodos, argumentos, ele avaliou, aí o campo de discussão poderia estar mais bem circunscrito, mais focado nesse contexto de “preciso do sistema perfeito pra aumentar minha produção”, pro qual cabem bem as críticas que ele trouxe. Sem esse recorte no texto em si, a gente meio que tem que imaginar, intuir a partir do que conhecemos, e aí pra pessoas que têm um outro tipo de relação com as anotações – como a sua, me parece -, mais pautada na criatividade, no processo em si, os argumentos não se aplicam tão bem.
Fiquei pensando justamente em como o Tiago Forte, do método PARA, costuma enfatizar aspectos que vão bem na linha das boas reflexões do texto, comofocar no processo criativo. Acho que a conversa fica rasa se não considerarmos casos assim.
De qq modo, gosto de algumas provocações do texto, principalmente a de que seu sistema não pode ser tão trabalhoso de montar que falta tempo pra ler, escrever, trabalhar etc. E que sistema pronto nenhum substitui pensamento crítico e VISÃO sistêmica, coisas que muitos modelos não vão tentar discutir.
Eu *acho* que a artilharia do autor é voltada justamente para esses caras que ganham a vida promovendo “sistemas de produtividade”, como Tiago Forte, Ali Abdaal, crackudos do Notion e do Obsidian e companhia.
Digo, veja esta insanidade (“segundo cérebro” do Ali Abdaal). Não é possível que alguém perca tanto tempo da vida complicando um negócio que poderia (deveria?) ser simples.
Sou um não-praticante das ideias que baseiam o pensamento que colocam as anotações como alicerce de processos como o “Zettelkasten” no Niklas Luhmann. Nesse sentido, o texto do autor é perfeito! O incômodo dele é o meu também. Separei três frases ótimas.
“O propósito das anotações nessa escola de pensamento é melhorar a qualidade da sua produção e isso é, infelizmente, algo muito, muito diferente de produtividade”.
“Gerenciar suas referências, notas e o que você leu é uma parte essencial do trabalho do conhecimento, mas a leitura (ou a observação, se você estiver nesse tipo de área) e o resultado precisam estar no centro de tudo o que você estiver fazendo.”
“Se o seu sistema está distraindo você de se envolver totalmente com sua leitura e melhorar iterativamente sua escrita, codificação ou arte, então eu diria que ele está lhe fazendo um desserviço e que seria melhor simplificar suas práticas.”
Esses programas de anotações sempre me pareceram placebo, nada melhor que um bloco de notas simples ou mesmo papel e caneta para destacar o que é importante.
Lembro da história da criação do palm, alguém aqui teve? O criador, não vou saber/lembrar o nome, queria algo que fosse tão simples quanto papel e caneta, daí o formato do palm, parece um bloco de papel, é fácil de escrever e cabe no bolso da camisa. É o caminho oposto dos programas de anotações.
Durante um tempo usei o evernote, mas é tão cheio de opções que eu demorava tanto para fazer a anotação que esquecia o que ia escrever. Gosto do google keep porque é simples e tem uma quantidade suficiente de recursos.
Sim e não.
Anotar livros de ficção não faz sentido, a não ser que você seja estudante de literatura e aquele livro precise ser analisado posteriormente em um trabalho, ensaio e/ou prova.
Livros técnicos ou de não-ficção, por outro lado, acabam tendo que se ter anotações em algum momento. Nem que seja um post-it pra marcar uma citação.
Não faço anotações. Mas discordo sobre o “não fazer sentido”, na medida que são experiências individuais. Um leitor, de um livro de ficção, pode simples ss identificar com uma personagem, com uma situação e querer…anotar.
Esse sou eu. Anotações totalmente desorganizadas. Quando leio no Kindle grifo o que me convém, as vezes anoto algo digitalmente ali mesmo, e nunca mais volto pra ver, só se um dia eu reabro o livro.