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dias perfeitos

dias perfeitos é dos melhores filmes produzidos nos últimos anos

dá pra conversar sobre o filme (ou a partir dele) de várias maneiras, mas queria destacar um aspecto em particular (que, de resto, é bastante secundário): o personagem principal praticamente não tem vida digital nenhuma.

dádiva? benção? maldição?

de qualquer forma (e longe de qualquer romantização da “vida lá fora”), passar uma tarde no parque tomando sangria realmente é mais interessante que passar a vida preso no doomscrolling

27 comentários

27 comentários

  1. Li todos os comentários antes de escrever o meu. Não sei se sou uma pessoa literal, ou não vi o lado subjetivo da coisa mas fiquei buscando dias perfeitos.

    Alimentação duvidosa, falta de amizades ou família, a casa minimalista mas tudo amontoado no andar de baixo.

    Outras coisas eu mesmo poderia justificar mas não deixa de ser estranho, comunicação limitada por exemplo poderia ser visto como “apenas o necessário”. Mas se tratando de necessário ele viver como nos anos 90 não tem nada de errado apenas me pareceu desnecessário. Creio que haja um meio termo entre tecnologia e antiguidade.

    De qualquer forma, fiquei me perguntando se muitos acham viver isolado como dias perfeitos mas do ponto de vista científicos está repleto de pesquisas sobre maior probabilidade de doenças por falta de socialização.

    Achei o filme agradável mas não me senti encantado como muitos dos colegas que comentaram 🫤

  2. Gabriel, obrigado pela dica. Foi revigorante assistir a algo diferente dos blockbusters.

    O único detalhe que me incomodou, mas sem prejudicar o filme, é que eu realmente não conseguia acreditar que o protagonista tinha tantas fitas K-7 de 40-50 anos de uso, ouvidas dezenas ou centenas de vezes, funcionando; ainda mais rodando em aparelhos comuns. Pois, na minha experiência, esses suportes magnéticos, como K-7s, VHS, disquetes e até HDs, gradualmente apresentam desgaste físico, ainda mais quando os leitores/reprodutores vão ficando velhos e desregulados.
    Há uns anos, eu até digitalizei várias gravações em k7s de 30-40 anos, mas eram fitas de ótima qualidade reproduzidas poucas vezes.
    Nesse sentido, acho uma escolha pobre, por parte da turma retrô, optar por esses suportes (mídias). Assim como as câmeras instantâneas, do tipo instax/polaroid. Salvo se o propósito for o da efemeridade.

  3. Assisti outro dia, gostei muito. É um elogio a simplicidade e, de certa forma, ao minimalismo. O filme também trás uma ideia de que se pode fazer muito com pouco. O personagem não precisa de muito e, embora seja confrontado com parte do seu passado (com a cena da irmã) não parece precisar de muito para viver uma vida tranquila e com certa paz.

    Confesso, nem tinha me tocado na ideia do Hirayama ser mais desconectado. Me chamou mais a atenção ao apego as coisas mais simples ou retrô, tipo os seus k7 e a máquina a filme.

    E o encerramento do filme com a frase “komorebi”, que trás a ideia de se viver o momento, de que tudo que acontece acontece apenas uma vez, é único, é bem legal também. Mas, não sou muito entendido de cinema, posso ter falado alguma besteira.

    É um filme bem interessante. Acho que vale muito a pena assistir.

  4. Tive preconceito pelo trailer, senti uma vibe o amor supera o capitalismo.

    Mas depois de ler uns comentários aqui, vou assistir

    1. o capitalismo continua lá, implacável em toda sua perversidade

      a questão é que isso pouco importa, a graça do filme é outra

      pense menos no conteúdo e mais na apreciação da forma

    1. Achei bem bacana a sua resenha. Principalmente ao explicar alguns elementos da cultura japonesa.

  5. wim wenders é meio que um weeaboo, e nada mais japão visto por olhos ocidentais que o fascínio/nostalgia por uma certo trabalho não alienado japonês – o que é apenas um desvio de percepção pela propaganda do país para não focarmos nas bizarrices e atrocidades de lá, não a toa o filme foi encomendado pra divulgar o design dos banheiros pras olimpíadas e foi o indicado do japão ao oscar. tem também uma certa interpassividade do alemão, uma fantasia de submissão servil de outra pessoa – duvido que ele limpe o próprio banheiro – podendo ser lido como a madame reclamando do serviço de limpeza da diarista “não se acha mais gente que trabalhe duro hoje em dia”. mas o filme é excelente, aconchegante, perfeito em seus silêncios e em não se explicar – apenas quando a irmã vai buscar a sobrinha temos um vislumbre do passado dele e ficamos apenas imaginando como ele virou um burakumin – essa foi apenas uma cárie que me veio depois de tanto açucar da vida prosaica romantizada do protagonista.

    1. Chamar alguém de Weeaboo já não denota que você tem um viés contra o suposto viés dele?

    2. obrigado pelo comentário, me fez elaborar melhor alguns incômodos e o fato de que não me conectei muito com o filme.

      gosto dessa coisa do filme não se explicar e dos silêncios, da pegada contemplativa. ao mesmo tempo, me parece que as discussões sobre hiperconectividade etc etc são a pauta do dia na esfera pública e o filme, feito nesses tempos, induz propositalmente conclusões bem óbvias da maior parte do público (ou seja, ele não se explica, mas nem precisaria mesmo). e por isso não entendo por que acham ele genial (há um componente de “boa vontade” com o diretor tb, muito comum quando a análise parte de cinéfilos).

      enfim, no fim das contas acho um filme bem feito, legal e é isso. não é nenhuma obra-prima, na minha opinião, é claro.

      1. o problema é que você está tentando interpretá-lo — e isso mais de meio século depois de tudo o que a susan sontag escreveu

        a graça do filme está na forma, não no conteúdo

        se você focar no conteúdo, não só não vai conseguir apreciar a obra como vai resvalar num sociologismo raso e totalmente ignorante da qualidade estética da coisa toda

        1. não entendi. você consegue assistir a um filme sem interpretá-lo? a arte não está no vácuo. acho que eu não conseguiria (e acho que ninguém conseguiria). ao mesmo tempo você coloca uma informação sobre quando ele foi escrito (ou seja, você julga importante essa informação para interpretá-lo, se ele fosse “só forma” isso não teria qualquer relevância…).

          fora que forma e conteúdo não são coisas separadas. a forma influencia o conteúdo e vice-versa. não existe só forma nem só conteúdo. não entendi o que é “sociologismo raso e ignorante da qualidade estética da coisa toda”. qualidade estética, inclusive, pode ser um atributo técnico (há muitas controvérsias), mas é também um juízo de valor.

          1. um filme é antes de tudo som e imagem em movimento — e em última instância é disso que se trata o cinema. O que menos importa num filme é o enredo, o roteiro, o contexto, a trama: isso tudo é secundário, porque a potência do cinema está na exploração das possibilidades plásticas de construção e movimentação de sons e imagens.

            óbvio que isso se comunica o tempo todo com as inúmeras camadas de significado que dialogam com essas imagens e sons dançando na tela, mas em última instância, trata-se apenas disso: uma experiência plástica audiovisual. E é justamente no contraste e no diálogo entre esses sentidos e significados e a plástica audiovisual que acontecem os melhores filmes: godard, glauber rocha, felini, antonioni, wim wenders, bunuel, etc

            nem acho que dias perfeitos se aprofunde nisso, mas em tempos recentes é certamente um oásis em meio a um cinema comercial que quer ficar o tempo todo se explicando

            e nunca falei que estética é atributo técnico, mas perceba que juízos de valor, como qualquer dimensão da subjetividade, também são historicamente construídos

            de resto, fica a sugestão de leitura do clássico contra a interpretação da susan sontag: em vez de uma hermenêutica da arte, precisamos de uma erótica da arte (e nesse sentido, dias perfeitos é bastante erótico)

          2. gabriel, não consegui te responder na resposta à minha resposta, acho que tem um limite de aninhamento aqui.

            mas, nem vou me alongar muito, só quero dizer que realmente discordo (e no fim das contas podemos concordar com isso) que se cinema se trata disso. isso é retirar a história de dentro da arte e essencializar uma experiência pessoal. som e imagem em movimento podem ser deleitosos ou violentos dependendo de quem assiste. só sua lista do que seriam melhores filmes, elencadas por diretor, já dá bons indícios da nossa discordância. e dias perfeitos é certamente comercial.

            mas, enfim, valeu pela discussão. não tenho como comentar sobre o filme ser ou não erótico, porque não tô familiarizado com o conceito (mas valeu pela dica!)

          3. @ gabriel

            Acho que o mais próximo desse cinema “sinestésico” a que assisti foi Adeus à linguagem, do Godard. Achei chatão.

          4. @ghedin

            o godard pós-anos 80 ainda não vi, mas dizem que é mais difícil mesmo

            (mas considerando tudo o que ele fez nos anos 60, fico pensando pra onde ele poderia ir em anos recentes)

          5. @guilherme

            mas note que eu nunca disse que isso aliena o filme da história (até porque isso seria impossível). O que quero reiterar é que precisamos superar análises que não passam de sociologismo raso de boteco (e é normalmente isso que tem acontecido com dias perfeitos). Até porque, no limite, essa abordagem vai privilegiar filmes didáticos, rasos, mastigados (como os do Nolan ou os do realismo socialista).

            você não gosta desses diretores? por quê? quais diretores prefere?

          6. um filme é antes de tudo som e imagem em movimento

            Partindo desse principio, filmes de heróis são o ápice do cinema.

          7. @paulo

            eu diria que esses filmes poderiam ser o ápice do cinema não fosse o fato deles irem justamente para o caminho exatamente oposto: estão exclusivamente preocupados com roteiro e com construção de mundo fictício — e não com linguagem cinematográfica

            eles têm péssima fotografia, enquadramentos preguiçosos, edição conservadora, estrutura baseada em manual de roteiro, etc. São totalmente conservadores quando podiam justamente apostar na psicodelia formal. É como se fossem arquitetura feita por engenheiros.

          8. @ gabriel

            Eu até concordo, mas eles sequer tem bom roteiro.

            Aliás, esses filmes e séries de heróis (e da “cultura pop”) são peças infanto-juvenis que servem como “cautionary tales” modernos. Não sei em que momento eles viraram “coisa de adulto”. Talvez por isso tenha essa sensação de “arquitetura criada por engenheiros”. Até porque, na verdade, eles são criados por engenheiros mesmo, criados pra vender com base em dados e demografia.

    3. mas a beleza do filme é justamente esta: em meio a um turbilhão de vícios e perversidades entranhadas na produção, ainda assim o resultado é de uma sofisticação formal cada vez mais rara no cinema comercial

      justamente porque o filme é perfeito ele é perverso (isso o torna ainda mais perverso)

      mas não deixa de ser perfeito

      1. concordo com vc, achei o filme sublime justamente por isso e por revelar nas sutilezas diversas chaves para uma leitura para além do filme. wim wenders repete temas dos seus road movies de protagonistas silenciosos, mas a deterritorialização da personagem nao ocorre por uma viagem, mas pelo contentamento, resiliência e contemplação da beleza prosaica do cotidiano, remetendo a ozu. dá até vontade de viver como ele.

        voltando ao tema do post, o quanto do personagem principal poder viver uma vida analógica se dá por ele estar no japão? diz-se que lá se vivia nos anos 2000 na década de 80 e que agora, nos anos 2020, ainda se vive nos anos 2000. nós podemos inferir que ele largou a vida de sararīman para viver analogicamente e isso nao traz nenhum revés, temos o companheiro de trabalho dele ansioso e conectado para contrastar com a paz de espirito zen do protagonista. em comparação, em Eu, Daniel Blake, filme britânico de Ken Loach de 2016, temos um carpinteiro que se encontra em um limbo por não estar conectado e não saber como usar as tecnologias de hoje em dia, seria impossível vivermos completamente desconectados ou da forma analógica de perfect days.

  6. Vi esse filmes meses atrás, achei lindo, a história é ótima, fotografia, a trilha sonora, tudo muito bom, você termina ele e tem a sensação de que queria ver mais, e no final deixa você pensando sobre sua vida, excelente mesmo.

  7. Esse filme me destruiu. Uma das melhores coisas que assisti nos últimos anos, de muito longe.

  8. Esse é o tipo de filme que, quanto mais eu penso sobre, mais eu gosto.

  9. eu devo assistir esse filme hoje, ouvi falar muito bem dele antes (e agora)