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Considerações de um livreiro sobre o estado atual da web

Recentemente, me deparei com esse texto do livreiro Mauricio Gouveia, do (excelente!) sebo Baratos da Ribeiro, no Rio de Janeiro. Além de vender livros e discos, organizar shows da “cena underground” e ainda atacar de DJ, Maurício costuma compartilhar nas redes sociais suas observações sagazes e relevantes.

Achei pertinente aos temas discutidos nesse site, e reproduzo abaixo com a devida autorização do autor:

FIZ ALGO QUE NÃO FAZIA HÁ ANOS (cinco, pra ser exato): PUBLIQUEI NO SITE da livraria [Baratos da Ribeiro]. E GOSTARIA DE USAR ESSE GANCHO PRA LEVANTAR UM DEBATE.

AS PESSOAS ESTÃO DEIXANDO DE USAR A WEB como um todo, E ESTÃO NAVEGANDO MAIS & MAIS NUMA PEQUENA PARTE do mundo virtual. Estão se restringindo às redes sociais e usando meia dúzia de aplicativos pra comprar produtos e serviços. A maioria usa Insta, Uber, Ifood, whatsapp e uns sites de compras / app do banco. Só. O próprio Google, que antes direcionava as pessoas para outros sites: passou por uma recente e intensa reformulação para oferecer um conteúdo (como resposta à pesquisa) que mantenha o usuário por ali mesmo – sem clicar em qualquer link que o leve “pra fora”.

O PERIGO? É dependermos cada vez mais de menos empresas: que podem falir, abusar de seu poder econômico, ditar normas à despeito da opinião de seus usuários ou priorizarem interesses escusos de seus proprietários. Ilustrando cada uma dessas hipóteses, imagine: os músicos perdendo tudo o que disponibilizaram on-line porque a plataforma de streaming quebrou, a Estante Virtual dobrando sua comissão porque não há concorrência, o Feicebuqui te impedindo de marcar os 10 amigos que aparecem na foto por considerar spam ou o Elon Musk cancelando a conta da Taylor Swift porque a considera esquerdista. Na real: tudo isso já aconteceu – no caso dos músicos: foi com a falência do MySpace.

NO CASO DA MINHA EMPRESA e da minha rotina profissional, sou atormentado diariamente por esse “novo comportamento” do público / consumidores. Por exemplo: ao invés de consultarem o site da livraria, a esmagadora maioria manda mensagem inbox via feicebuqui ou insta: e esse não é um canal de comunicação com a empresa. Pra falar com meus funcionários: é o telefone fixo, e ponto.

O Google é uma dor de cabeça: ele “se mete” a informar o horário de funcionamento da loja: informação que eu nunca forneci. Sei lá de onde ele tira esses dados: e muitas vezes: ele erra. O Google definiu que a Baratos é uma loja de Quadrinhos: quando é muito mais que isso. É antes de mais nada: uma livraria. Mas de novo: o Google nunca me perguntou: usou sua pseudo-inteligência artificial pra definir lances que eu talvez nem queira definir. E as pessoas, ao invés de clicarem no meu site: tomam por fato o que o Google lhes apresenta – e ficam eventualmente até enfurecidas – comigo! – quando descobrem que não é como o “Santo Google” disse que era.

PRA FINALIZAR, UM CAUSO QUE ME AFLIGIU, enquanto usuário / cliente. Me interessei por um show. Houve dúvidas quanto ao horário. A Casa de Shows só vende ingressos na bilheteria, física, lá no seu endereço real. A casa não tem site próprio. O último post que a casa fez no feicebuqui: tem anos. A tal casa só usa o Instagram. Eu não uso o Instagram. (Minha empresa tem um perfil, mas apesar da impressão de alguns: eu e minha empresa não somos a mesma entidade.) Resultado: perdi o show porque cheguei atrasado.

EU MESMO VACILEI: há quase 5 anos parei de atualizar meu site e passei a divulgar os eventos da Baratos só nas redes sociais. Cá com meus botões: concluí que errei. Então volto a anunciar os shows e saraus de poesia no baratosdaribeiro ponto com ponto br.

Porque acho lindo que alguém possa viver sem feicebuqui e instagram. Eu mesmo: volta e meia gostaria de me livrar dessa joça. ;-)

(O texto acima, ironicamente, não foi publicado na web).

19 comentários

19 comentários

  1. a web não acabou.
    as pessoas é que não usam mais como usavam antes.
    e não usam mais como usavam porque tem coisa que elas acham melhor.

    quem quer usar a web ainda usa.
    e o público desse site é um grande exemplo disso.
    a gente gosta de vir aqui e ler.
    se fosse no instagram, linkedisney ou facebook que o Ghedin postasse, talvez eu nem lesse.

    1. Será que elas realmente acham melhor ou todo o sistema tem sido feito para que elas acham que gostem e fiquem por dentro desses locais?

      1. Quase ninguém me parece gostar de estar lá. Parece que todo mundo fica por convenção social, necessidade pessoal/profissional ou adicção cognitiva mesmo

  2. Muito bom! Acho (acho) que não conheço o Mauricio, mas frequentei a Baratos da Ribeiro um tempo… É uma delícia de sebo/ livraria/ ponto de cultura, feito e frequentado por gente que gosta mesmo de livros (bibliólatras, como eu chamo) e de discos, quadrinhos, etc. Que bom vc ter publicado esse texto – quase jornalístico de tão real – com o endereço do site: vou começar meu retorno aos Baratos por aí…
    Esse papo de ser o Google a dizer quem somos e o que fazemos é puro Kafka, puro Orwell…

  3. Nossa, sim!! Eu não sei quantas vezes já reclamei sobre isso por aqui.

    Eu não tenho redes sociais nem utilizo aplicativos tipo ifood ou uber, e direto passo raiva quando quero apenas saber o horário de funcionamento de algum lugar ou a programação de um evento. (Nem vou falar dos eventos em si que eu perco por nem ficar sabendo.)

    Concordo que é mais prático usar as redes (eu mesma acabei me rendendo ao whatsapp), mas sinto falta de acessar o site e simplesmente consultar as informações que preciso.

      1. Edson, eu pensei bastante sobre isso pra te responder, mas não sei o que falar??

        Eu acho que depois do Orkut, que foi uma rede social que eu realmente gostava, nada mais me conquistou tanto. Na real, eu acho que gostava mesmo era do fato de poder simplesmente desligar a internet.

        Hoje eu acho tudo… excessivo. Eu já tentei ter Facebook, Instagram, Twitter e nunca tive uma boa experiência. O autor do Minimalismo Digital fala que a gente não precisa largar tudo, mas pesar os prós e contras e usar só o que nos favorece. No meu caso, o bônus sempre foi muito aquém do ônus, então eu decidi que não ter era mais benéfico para mim.

  4. Daqui algum tempo as reclamações serão outras. A gente vai ficando velho e indisposto a mudanças. Garanto que tem alguém por aí dizendo que era mais legal viajar com um guia 4 rodas do que com um aplicativo de GPS.
    Logo, alguém vai estar reclamando em algum lugar que bom mesmo era em 2025.

    1. “Garanto que tem alguém por aí dizendo que era mais legal viajar com um guia 4 rodas do que com um aplicativo de GPS.”

      Bom, Guia 4 Rodas era feito por gente e levava 1 ano pra ser atualizado, mas nunca mandou ninguém pra dentro de comunidade ou pontes inexistentes. Então sim, era muito mais legal (e confiável) viajar usando o Guia 4 Rodas.

      1. “mas nunca mandou ninguém pra dentro de comunidade ou pontes inexistentes.”

        Não por mal mas o ponto aqui é uma função que o Guia Quatro Rodas (ou Mapograf ou outros, depende da região que a pessoa mora) NÃO tinha era “navegação”.

        E taí algo interessante a se pensar: hoje as pessoas não “leem” mais mapas, ou temem aprender sobre, sei lá.

        Para ter um guia ou mapa – algo que era bem comum de ver em terminais de ônibus e ao menos em estações de metrô e trens em São Paulo tem – também o ideal é ler e interpretar. Nisso por exemplo, se a pessoa “traça” uma rota, ela tenta saber ao menos os nomes de lugares chave para poder passar com segurança. E como mapas tem até indicativos de pontos de interesse, como postos policiais, lojas e hospitais, isso ajuda na hora de ir a algum lugar.

        Com um aplicativo de navegação, quem faz “navegar” é o algoritimo que gerou aquela rota, e não eu ou outro que estiver usando o aplicativo, seja Waze, Maps, (Here) We Go. Nisso a gente perde um pouco o senso de local, pois jogou nas mãos de uma tecnologia ao invés de raciocinar sobre a rota. E nisso pensar que por exemplo uma entrada pode levar a um bairro estranho.

        1. Não quer dizer que as pessoas não lêem mais mapas, na verdades as que não fazem isso hoje também não fariam antigamente usando o guia. justamente para essas que os apps facilitaram a navegação.

          Eu uso os apps e leio o Google maps também, afinal ele tem um algoritmo que nem sempre é a melhor rota.

          E também eu gosto de mapas. Quando pequeno ganhei um atlas zero hora e me debrucava sobre aquilo por horas hahahhahaha

          1. Não posso cravar que antigamente as pessoas não interpretavam tanto os mapas; mas tipo antigamente as cidades tinham mais mapas dipsostos em comércios e pontos públicos como terminais de ônibus. Em São Paulo, as linhas ferroviárias geralmente contam com mapas (só algumas estações trocaram por telas com propagandas…).

            Como não tenho muito tino social, não sou tão bom observador para falar “antigamente as pessoas liam mais mapas”. Na verdade, não discordo que estou tentando deduzir tal afirmação que no passado havia mais interesse para usar mapas para ir de A a B. Só que sei também que as pessoas não tiveram tanta educação para ler mapas – aprendi por causa de um livro da “Biblioteca do Escoteiro Mirim” que ganhei quando criança.

            O mal é que as pessoas parecem que não tem tanto interesse por geografia, por saber como se guiar pelos lugares. Um pouco mais de conhecimento assim ajudaria mais as pessoas. Mas bem, aí tou soando pedante também.

      2. Concordo. E digo mais: eu me achava capaz de encontrar qualquer lugar sem o guia. De vez em quando dava certo. Mas que é muito melhor que waze eu garanto que é.

  5. Nós que temos mais conhecimentos muitas vezes esquecemos dos leigos. Eis o resultado. Quem se lembra dos leigos não são aqueles que entendem que o mundo é vasto, mas sim aqueles que veem pessoas como números, valores e cifras.

    E leigos não é que são “preguiçosos”, é que tem tantas condições – a pessoa teve uma vida dificil, a comunidade não ajudou a ensinar, etc…

    E quando falo leigo, não é desmerecendo, é que sinceramente eu mesmo sou leigo em lexo, então não sei qual melhor termo para “quem tem menos conhecimento em tecnologias” ou “quem tem inteligencia voltada para outros talentos, mas tem dificuldades com tecnologias eletrônias”

  6. Essa tendência está sendo discutida há algum tempo, e para mim, ñ tem muita volta. As pessoas estão “preguiçosas” e a tal facilidade de ter tudo em um lugar só, por mais que seja estranha, traz o conforto para quem nem imagina a imensidão da Internet.

    Lembro de perguntar a minha mãe se ela conhecia sites de receitas (ela gosta de cozinhar) e ela se me respondeu que só ver receitas nos grupos do Facebook.