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Como tornar a tecnologia divertida de novo?

Sonhamos por anos em ter algum instrumento dopaminérgico prático, que coubesse no bolso, para nos livrar do tédio, alguma minitelevisão portátil, sei lá! Agora que o temos, nunca mais teremos tédio, temos ansiedade coletiva.

Estou vendo aqui algumas propagandas de notebooks dos anos 90, 2000, 2010… Não me recordo de como era a usabilidade (deveria ser péssima!), mas lembro de como cada minuto em frente ao computador era precioso e deveria ser aproveitado ao máximo, até que algum parente fosse lhe tirar dali para abrir alguma sala de bate-papo ou fazer uma vídeo-chamada a mais pixelada possível.

A tecnologia eletrônica era divertida. Não era o protagonista de nossos dias, como o é hoje; era um convidado ― por isso era legal conviver com ela. Estaríamos com ela pela manhã, e talvez não a veríamos mais pela noite. Hoje a tela está estampado em todos os lugares, é a topmodel, é sobre quem mais se fala.

Acho que parte da estratégia de tentar tornar a tecnologia divertida passa pela ideia de torná-la um evento no cotidiano analógico: a hora de abrir o feed, a hora de ouvir um podcast, a hora de ler um livro digital. É o que tenho tentado fazer.

E você, o que tem feito para tornar a tecnologia divertida de novo?

10 comentários

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  1. Lendo a resposta, dá para resumir o porquê da tecnologia não ser mais “divertida” hoje em dia em três aspectos: pela escassez (ou seja, hoje em dia a tecnologia é onipresente, principalmente por smartphones); pela nostalgia (sentimos saudades de uma época onde as coisas eram mais simples, incluindo o mundo tecnológico); e por não sentirmos mais que é um “hobby” (ou seja, não temos mais um prazer característico de acessar à internet como um ritual, em horários específicos, ao invés de acessarmos o tempo todo, quase como uma obrigação, ou mesmo um vício/FOMO).

    Quando eu era adolescente, até meados de 2010, e frequentava o ensino médio, smartphone ainda não era algo popular, e acesso à internet eu só tinha ou na biblioteca, ou por internet discada, depois da meia-noite ou em finais de semana (já se popularizavam as internets via cabo, mas era algo que eu ainda não tinha). Mesmo na universidade, até 2015-2016, a maioria das aulas ainda era analógica, no quadro branco (em um curso de computação, vejam só), então dava para considerar que a tecnologia ainda tinha um horário “restrito” para mim. Só depois que comecei a trabalhar que passei a conviver com computadores quase que 24/7, e aí deixou de ser algo “divertido” para mim.

    Imagino que pessoas que tenham acesso mais “restrito” à tecnologia talvez possuam uma relação mais saudável com ela. Pessoas que, por exemplo, não tem a tecnologia como principal ferramenta de trabalho no dia-a-dia. Ou pessoas que não possuem nenhuma rede social em absoluto (ou mesmo que tenham, não sentem a necessidade de navegar ou acessar toda hora). Posso arriscar até mesmo que gamers (não os que jogam competitivamente) tem até uma boa relação, pois jogam apenas em seus tempos livres, e necessitam de uma dose de concentração e até comprometimento. O que acham?

  2. Acho que essa noção de diversão também tem ligação com a nostalgia. No final dos anos 90 e início de 2000, quando chegou o primeiro computador em casa e alguns anos mais tarde a internet, eu estava nos meus 10-15 anos. Minhas únicas preocupações reais eram estudar e socializar com pessoas da minha idade, aquele drama de criança virando adolescente. Ligar o computador (com horas contadas, pois era dividido com toda a família) significava jogar algum jogo, ou entrar na internet no sábado ou depois da meia noite para encontrar a galera no mIRC (aqui na minha cidade tínhamos até mircontros). Para meu pai que fazia planilhas já não era tão divertido assim hehe. Até mesmo antes de termos um computador em casa ele já fazia planilhas no Lotus-123 em um IBM que rodava DOS no trabalho. Eu achava mágico, mas não sei se ele via da mesma forma.

  3. O meu eu dos anos 2000 se sentiria maravilhado com a quantidade e facilidade de tecnologia disponível, mas, não sei se o mesmo ficaria tão animado assim por tanto tempo.
    Acho que , assim como foi embora a era da informação , e vivemos agora na época da desinformação ( onde se gasta mais energia checando fatos do que os lendo e compreendendo), o mesmo se aplica na tecnologia, muito junk, muita opção disponível, e acabamos perdendo mais tempo lendo/escolhendo do que aproveitando em si. Creio que se conseguirmos passar dessas armadilhas, vamos voltar a aproveitar novamente (e se alguem descobriu uma maneira prática, por favor me conte rs)

  4. Para mim nunca deixou de ser divertido. Ainda fico maravilhado de ver como as coisas funcionam e vê-las funcionando.
    Divirto-me instalando, configurando e desinstalando programas. Acho fantástica a criatividade e genialidade dos desenvolvedores. Mas sempre vou me recusar e chamá-los, ou a mim mesmo, de dev. Ridículo tem limite.
    O que nunca foi divertido é o uso que é feito da tecnologia, mas isso não é exclusivo da informática. Em todas as áreas do conhecimento a tecnologia é usada para explorar e oprimir.

    1. O ponto chave é justamente o como a tecnologia hoje acabou explorando e oprimindo, sem parecer como se estivesse. É como dizem: a realidade hoje é bem próxima do “Admiravel Mundo Novo” de Huxley, com notícias exclusivas para cada casta (muitas vezes com a cultura gerada mais para apenas satisfazer um prazer interno), vicio controlado em entorpecentes, sexo endeusado demais e transformando quem está fora das tecnologias como “animal”.

  5. Esse é o sentimento de uma comunidade que era definida por um termo perdido no passado: os micreiros.

    Hoje em dia, dois conteúdos ainda me divertem. Retrocomputação é uma delas. Os micros clássicos me trazem essa sensação de diversão na tecnologia. Em especial, o MSX, que é a minha paixão. Tanto que eu já escrevi livros, coleciono micros, faço podcast…

    Outra coisa que me encantou desde o final dos anos 1990, foi o software livre, em especial o Linux. Compilar kernel, instalar o sistema operacional, baixar pacotes, configurar tudo… Me trouxeram o encanto e a diversão, no PC, que a tecnologia me traz ao lidar com meus MSX. Por isso é que eu digo sempre que o Linux é o segundo conteúdo que mais me encanta no universo da tecnologia (MSX é o primeiro).

    O resto, conforme já foi dito, se tornou comum e com isso, perdeu muito do encanto. E não me importo muito em ser “contracultura”. Estou melhor assim, à margem dessa “corrida maluca”.

  6. Na real tudo isso aí tornou-se comum, por isso não nos impressiona mais… Inclusive eu penso que vamos voltar a buscar coisas mais orgânicas justamente para fugir da artificialidade implementada em música, imagens, roteiros…

  7. Eis a questão…
    Eu, profissional e academicamente, sou um designer de produtos focado no meio digital, e após estudando e atuando na área, percebi que não queria mais participar dessa “corrida de ratos” onde uma tecnologia “necessita” de um planejamento minucioso para a manipulação dos usuários, em resumo a regra atual é “viciar para conquistar!”, porém isso está cobrando um preço muito alto e perigoso, estamos assistindo uma geração inteira sendo imersa nesse tipo de “facilidades tecnológicas” e perdendo autonomia, prejudicando a cognição e desenvolvendo sérios problemas psiquiátricos como ansiedade e depressão. Já temos até um termo para denominar o cérebro dessa geração, o “Brain Rot” ou “Cérebro Podre”.
    No meu caso que acompanho, estudo e assisto essas ferramentas sendo produzidas e vendidas como formas de comunicação e diversão, e sabendo o que rola por debaixo do capô disso, o desespero e a falta de perspectiva para a superação desse modo de produção me deixa simplesmente com medo do futuro, que está sendo desenhado como uma distopia de livros de Philip K. Dick, William Gibson, George Orwell.
    Eu divaguei um pouco, mas sua pergunta tocou em um ponto que venho refletindo já a algum tempo, tenho a sensação de que a diversão por meio da tecnologia foi convertida em compulsividade, tanto que hoje eu tenho preferido jogos em modo offline, tenho reduzido o uso de redes sociais e passado menos tempo rolando qualquer tipo de timeline.
    Respondendo sua pergunta, acredito que para fazer a tecnologia divertida novamente nós vamos precisar destruir o capitalismo que converteu esse meio em um tecnofeudo maluco, essa é minha visão atualmente.

  8. Lendo seu relato, pensei mais na escassez do que no ritual como a chave para tornar a tecnologia divertida outra vez. (Se todo dia fosse Natal, para ficar num exemplo próximo, o Natal seria banalizado e esquecido.)

    Eu tento encarar a tecnologia mais como algo utilitário do que um “instrumento dopaminérgico”, embora admita que coisas como computadores e celular ainda têm esse efeito em mim.

  9. Sei bem como é este sentimento nostálgico da diversão tecnológica. Acho que a resposta passa por vários pontos.
    Primeiro somos nós mesmos que envelhecemos. Aqui vou falar por mim. No final dos anos 90 e início de 2000, quando chegou o primeiro computador em casa e alguns anos mais tarde a internet, eu estava nos meus 10-15 anos. Minhas únicas preocupações reais eram estudar e socializar com pessoas da minha idade, aquele drama de criança virando adolescente. Ligar o computador (com horas contadas, pois era dividido com toda a família) significava jogar algum jogo, ou entrar na internet no sábado ou depois da meia noite para encontrar a galera no mIRC (aqui na minha cidade era um evento forte, tínhamos até mircontros). Para meu pai que fazia planilhas já não era tão divertido assim hehe. Até mesmo antes de termos um computador em casa ele já fazia planilhas no Lotus-123 em um IBM que rodava DOS no trabalho. Eu achava mágico, mas não sei se ele via da mesma forma.
    Dessa relação eu tiro também aquela coisa de que quando a gente trabalha com o que gosta, essa coisa deixa de ser hobbie para ser trabalho. Acompanho a comunidade de computação gráfica desde essa época, início dos 2000. Hoje geralmente quem mexe com CG, é ou está tentando ser profissional. É diferente de uma época em que ser “artista digital” não era uma profissão muito tangível na maioria dos lugares, então eram quase todos artistas amadores, dava para ver em suas imagens que eles se divertiam muito, e experimentavam, assim como eu e meus amigos passávamos horas no paintbrush do windows 3.11.
    Depois tem justamente a questão da escassez. É mais ou menos como meus pais e avós contam a história de que quando eles eram crianças, ganhavam refrigerante só em ocasiões especiais, e para durar mais eles só faziam um pequeno furo na tampinha com um prego. Mesmo quente, imagino que deviam achar o sabor incrível.
    Hoje tá tudo onipresente, temos que fazer um esforço enorme para “sair da internet”, para ficar longe de uma tela, e estamos viciados em informação.
    Acho que a sua estratégia está corretíssima, funciona, mas vai te demandar um esforço.
    Eu tenho tentado algo parecido. Antes de pegar o celular eu me pergunto. O que quero ver aí? E então penso se é o melhor momento. É para responder mensagem de trabalho? Então vou responder no computador do trabalho, não no celular. É para ler artigos aleatórios na internet (e no Manual)? Será que é o melhor momento? Vou então pegar um tablet e sentar mais relaxado no sofá para isso…
    Virou um textão, mas isso me trouxe reflexões legais. Parabéns pelo tópico!