A expansão do reconhecimento facial em locais públicos segue implacável no Brasil. Em Joinville (SC), serão 3.500 novas câmeras instaladas.
6 comentáriosBluesky, Mastodon, Telegram e RSS
Bluesky, Mastodon, Telegram e RSS
A expansão do reconhecimento facial em locais públicos segue implacável no Brasil. Em Joinville (SC), serão 3.500 novas câmeras instaladas.
6 comentários
sempre que for pra segurança ou proteger crianças, as pessoas vão abrir mão da privacidade.
na verdade, por muito menos elas já abrem mão da privacidade (ex: gmail, chatgpt, etc).
Não sei se existe alguma distopia pré-1984 de George Orwell que defina uma possibilidade futura de monitoria e controle social de forma regrada e digitalmente monitorada.
Sempre colocaram as distopias do começo do século 20 (1984, Admirável Mundo Novo, Fahrenheit 451 e outros) seriam meio que uma tentativa de acertar o futuro e conseguiram de certa forma alcançar isso.
Fahrenheit 451 fala sobre o controle cultural com o fim dos livros e a planificação cultural. De certa forma hoje os livros não foram queimados, foram digitalizados e o acesso a eles desincentivado.
Admirável Mundo Novo fala sobre o controle baseado na regulação do prazer, das relações sociais e da nivelação sócio-cultural. Tenho pensado o quanto a figura do “Selvagem” representa o que seria um “humano normal fora das normas impostas” e o quanto que a sociedade autoregulada usa tais regulações como forma de preconceito contra outros – além de transformar a vida do “Selvagem” em um “reality show”.
Big Brother fala sobre o controle invisível social quando grupos se fecham e monitoram entre si. Tenta retratar ditaduras, mas acho que pensando hoje, mostra como nós como sociedade caímos facilmente em uma se tal ditadura deixa minimamente confortavel, ao mesmo tempo que nos faz desconfiar de qualquer um. E acertou no uso de tecnologias para monitorias de seus pares.
O uso de tecnologias para controle social foi algo bem demonstrado em 1984. E infelizmente só estamos assim porque políticos ao invés de planejar formas de apoio social às populações de forma a desincentivar práticas criminais, tais políticos retroalimentam algo que acaba sendo também um “ganho econômico” – porque segurança tem valor monetário, e com isso usar formas de justificar tais atitudes é uma forma de políticos e corruptos ganharem com isso.
Como se câmeras fossem tirar criminosos das ruas, mas o problema não é o cara que furta comida ou coisas em garagens abertas para vender na feira do rolo (este último tem seus riscos, mas tem formas inteligentes de impedir que ele continue). Mas sim o político que usa seu poder para pegar o dinheiro público e ter ganhos ilegais com contratos ilegais, e pagar propinas para não ser investigado. Este, as câmeras de um sistema de segurança não pegam, infelizmente.
Eu gosto do caminho que toma sua análise, mas acho que ela para no meio do caminho e fica sem uma conclusão.
A corrupção que você cita é pior do que o bandidinho de esquina, show, mas aprofundemos! Por que esse tal político faz isso que você descreveu? É porque é um arrombado, logo é uma questão moral? Se for uma questão moral, basta coibir esses indivíduos. Ou a questão está numa organização política que depende dessas ações para se viabilizar? Tipo campanhas financiadas por gente muito rica que custam fortunas muito acima do que vai ser pago de salário pra essas pessoas.
Há uns anos, estive numa festa em que todo mundo tinha cargo comissionado. Uma pessoa relatava com muito desprezo sobre a corrupção na secretaria onde trabalhava. Me chamou muito a atenção a forma como ela falava. Parecia estar num pedestal moral. Ela, a assessora número quatro, era pura, mas o subsecretário de qualquer coisa que a contratou era imundo. Ela não considerava que o trabalho dela era assessorar os malfeitos daquela secretaria. Em teoria, claro, é o bem público, mas na prática ela foi contratada pra executar um plano de governo que inclui a tal corrupção.
Voltando a continuar a análise que acho que você interrompeu, é como alguém que rouba por fome. Esse roubo é um problema, alguém foi roubado. Mas impedir esse único ato de acontecer, não impede outros. Temos que garantir que esse sujeito não tenha fome.
Tratar a corrupção como uma questão moral, um problema individual, é estar num navio afundando em alto mar e tentar tirar a água com um baldinho. Precisamos de um salva-vidas pra nos levar a outro navio.
Mas a ideia é justamente trazer algo para todos pensarem. Não queria concluir o raciocinio, queria fazer as pessoas trazerem outros pontos de vista. E você trouxe ótimos pontos.
Quando eu trouxe a ideia das distopias, era para justamente comparar como trilhamos o caminho para algo próximo ao que tais “previram” em suas histórias. E como mesmo ler isso ou entender um pouco sobre não afetou muito o nosso futuro. Naquela época havia problemas sociais similares aos nossos – pessoas pobres sofrendo, e ricos fazendo acordos escusos mas saindo ilesos, mas dado os conceitos da época, muito do que era resolvido contra os pobres era na violência mesmo e rico só apanhava se fizesse uma grande besteira – não duvidemos.
Paralelos somados, o ponto é esse: as vezes me vem a mente que justamente as questões morais como você pos aqui são formas de segregação social e formas de dizer “não vou resolver o problema das outras castas”. Vide: as vezes discutimos em redes sociais o que o outro fez ou deixou de fazer e vira a famosa “fofoca”, que dependendo do nível da informação vira uma notícia falsa. E usamos notícias falsas para continuar nos segregando, não vendo o pobre famélico de forma a ajuda-lo e tolerando o rico cometendo crimes sem uma investigação contra o mesmo.
As distopias antigas trazem isso no entre texto – a tolerância dentro de alguma casta / hierarquia entre seus pares e os acima, quando não, o interesse para estar com alguém na casta superior e evitar ir para uma casta inferior.
Aí indo e colocando tudo isso no caso das câmeras: quando usamos tais para o trabalho posto de “monitorar as ruas”, é para monitorar os problemas patriomoniais e seguir “suspeitos”, geralmente de castas inferiores. Um cara que entra em garagem para roubar algo, um pixador, um vândalo de ônibus. Não que não precisem de alguém falando “pô meu, ajuda a te ajudar! não faça besteira!”. Mas sim que geralmente a exposição de casos acaba em algo neste tipo. Também as câmeras acabam inibindo muito a “obscenidade”, vamos dizer assim.
Alguém “rico” acaba só alvo desta câmera se faz uma ca**da homérica, tipo passa do limite de velocidade e mata alguém, quebra algo de raiva, ou mata alguém da mesma casta ou alguém “relevante”. Porque se mata um pobre ou mata alguém “sem valor social”, aquela gravação fica “apagada”, “oculta”, “protegida por sigilo judicial”. Ou aquele ponto: não vemos muita gente com Porsche sendo preso exceto se ou o cara está em fase de ser preso ou se matou na contramão passando o farol vermelho à 200 km/h.
A questão moral acaba sempre “relativa à” – o famoso “quem não tem medo não se preocupará com isso”. Dado que há também a visão que “no final, até a fofoqueira sabe das piores coisas da rua”, as pessoas toleram esta visão de serem monitoradas por câmeras porque isso a faz pensar que “já que não estou fazendo nada de errado, não serei alvo de algo, e posso pedir a gravação se alguém me abordar”. Apesar de todo o paralelo que fiz com as distopias, a realidade é que as pessoas veem e são vistas, e originalmente a proteção de uma comunidade depende dos olhares de todos. Câmeras apenas fazem a questão do “olhares de todos” ser algo jogado na costa do Estado, ou de algum terceirizado relativo ao Estado.
E um detalhe que me passou desapercebido e me veio a mente agora: 3 mil e quinhentas câmeras provavelmente não serão exatamente monitoradas “em tempo real”, mas sim usadas mais para investigar situações devido as gravações que estarão disponíveis. E isso se tal número for realmente instalado. Dependendo da cidade – Joinville é uma cidade média – , não é tão necessário tantas câmeras, e o número posto é só uma propaganda. Pelo pouco que entendo, se usa mais uma configuração de câmeras que monitore entradas e saídas de bairros e da cidade. 3 mil câmeras significaria colocar meio que uma em cada rua ou esquina.
perdão a longa divagação e qualquer outra coisa que incomodou nesse longo comentário
Amo a série person of interest e agora vai ser como estar nela 🥲
As pessoas trocam fácil essa falta de privacidade se isso, ao menos, aparentar mais segurança pra andar na rua.