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[black mirror] s7e6 — uss callister: into infinity

acaba de chegar à netflix a sétima temporada de black mirror e pulei diretamente para o sexto episódio, sequência direta do episódio uss callister da quarta temporada.

achei decepcionante

o episódio anterior não era perfeito (está longe da qualidade que os primeiros episódios de black mirror tinham) mas era bonzinho. Já essa sequência achei totalmente medíocre e genérica (pra não dizer desnecessária, considerando que o final mais ou menos aberto do episódio anterior era muito mais interessante).

eu sinto que black mirror é antes de tudo sobre o mal estar e o desconforto na nossa relação com tecnologias digitais. A série sabe (ou sabia) explicitar um certo estranhamento constrangedor com práticas tecnológicas naturalizadas no cotidiano (mesmo que abusando de metáforas ou figuras de linguagem, às vezes por demais literais). Mesmo nos episódios mais otimistas ou caracterizados por supostos “finais felizes” (como em san junipero) esse mal estar ainda permanecia.

nesse último episódio esse mal estar simplesmente desapareceu. Foi simplesmente um roteirinho pra explicar o que aconteceu depois do episódio anterior. Puro foco na trama. Talvez o momento mais tenso (e mais interessante) tenha sido o do contato da personagem marcada pelo trauma do abuso com o seu abusador (ou ao menos com a sua representação). Mas, fora isso, um episódio completamente vazio e genérico.

10 comentários

10 comentários

  1. Tenho um viés de olhar com mais carinho porque dublei esse episódio.

    Com certeza é um capítulo que abraça e atende a demanda de consumo. Franquia (continuação) é bom porque não tem risco, é seguro. Não vou ser desafiado por esse filme. Ele vai me entregar o que eu já conheço e fui buscar por já conhecer. Mas aí bate na contradição de ser um capítulo de Black Mirror, que é um produto de consumo em massa, dentro da Netflix.

    Ao mesmo tempo, me atingiu de forma oposta ao que cê descreveu: pra mim terminou com o tal desconforto. Teus amigo dentro da sua cabeça vendo tudo que cê vê na aba anônima e podendo entrar em contato contigo. Sacanagens a parte, a perspectiva de nunca mais estar sozinho é aterrorizante. O outro deixar de ser o outro e passar a ser uma manifestação psíquica sua, tornando-se uma voz de antagonismo e controle.
    E eu gosto da ironia desse terror aparecer com o texto dizendo que viveram felizes pra sempre.

  2. O primeiro episódio de USS Callister já tinha algo de fanfarrão, né? Nessa continuação ficou ainda mais pasteurizado. Tirando o carisma inegável dos personagens e uma ou outra gag inspirada, além do encontro até interessante entre a Nanette e o Robert Daly, é uma história longa demais (1h:30m) e cheia de coisas implausíveis (mesmo dentro da lógica sci-fi da série), permeada de uma fanfarronice que na minha opinião não casa muito bem com as ambições da história.

    Dito isso, como falaram aqui, o primeiro episódio dessa sétima temporada foi o que chamaria de Black Mirror raiz. Acho que poderia muito bem estar numa das primeiras temporadas. É ácido, melancólico, crítico, analisa o impacto humano de uma tecnologia, não termina nada bem, etc. Além disso, é um tema super atual e relevante. Ah, e a Rashida Jones é uma querida (inclusive co-roteirista do episódio Nosedive, da terceira temporada).

    Mas pra mim o episódio mais bonito dessa temporada foi o Eulogy (o quinto). Que história cativante! Foge da convenção pessimista e ácida de Black Mirror, mas coloca no lugar uma investigação pessoal (auxiliada por uma tecnologia sci-fi) sobre a memória de uma paixão, de um amor único e que foi separado por circunstâncias banais da vida, e que aos poucos vai se revelando para o protagonista e para nós também. De uma sensibilidade não só no conceito e na trama, mas também na composição das luzes e cenário. Além de contar com as excelentes atuações de Paul Giamatti e Patsy Ferran, Eulogy faz par com San Junipero como uma das pérolas melancólicas mas ao mesmo tempo poéticas de Black Mirror. E depois da tenebrosa temporada anterior eu não poderia mais esperar nada assim vindo da série.

  3. Achei a temporada no geral melhor que as duas anteriores, mas realmente o uss calister foi o patinho feio junto com o dos bandoletes

  4. em defesa do black mirror: o episódio common people me pareceu bastante o as primeiras temporadas. Tecnologias e plataformas que estão sendo discutidas, o absurdo das lives, serviços por assinatura.

    1. assisti a esse episódio hoje e você tem razão, tem todo o clima do black mirror clássico, mas…

      senti que foi literal demais, mesmo pros padrões já muito literais de black mirror. Foi uma paulada deliberada, bastante assertiva, intencionalmente com zero sutileza, mas o black mirror clássico, mesmo bastante literal também, ainda tinha momentos de sutileza — e senti falta disso.

      1. Ainda não assisti os outros mas com esse primeiro tive uma esperança que eles tenham acertado a mão de novo.

        Na minha opinião, apesar do episódio ter escancarado o que queria dizer em detrimento da sutileza, achei bom o tratamento que eles deram com o exemplo absurdo de assinar pra continuar vivo. O final (bem pesado eu diria) amarrou bem a conclusão de ambos os serviços.

        Tem a piada na internet que a realidade tá tão black mirror que a série não conseguiu acompanhar (aquele episódio meio sobrenatural no final da última temporada, por exemplo), porém acho que estamos tão anestesiados com essa realidade maluca que vivemos que cabe a série não apelar pra entrelinhas pra passar a mensagem (coisa que ela podia se dar ao luxo quando surgiu).

        Isto posto, ainda espero um episódio que consiga fazer o que Smithereens (s5e2) fez. Pra mim sempre será o melhor de todos, menos no sentido de botar a pulga atrás da orelha e mais em expor o absurdo do uso das redes. Única crítica que eu tenho é ter pintado o CEO de um meninão que não sabia o que tava criando, Mark tá aí pra mostrar que é um c****.

        1. Não estou assistindo, mas queria comentar sobre a questão da sutileza no áudio visual.

          Não saberia dizer se é preguiça dos produtores ou se eles entendem a situação mais ou menos como eu. Também pode depender da produção…

          Tenho a sensação de que a ironia e a sutileza se tornaram um artigo de luxo e ao mesmo tempo perigoso.

          Vemos gente que acredita no exato oposto cantando Como nossos pais, filha permitindo o usa da imagem da mãe em propaganda de empresa que a mãe defendia em entrevista gravada o direitos trabalhadores, cantando música que não significa o que proporam.

          Ou seja, as vezes ser sutil, não esta funcionando e o autor, produtor se vê na “necessidade” de ser mais literal.

          Posso ter viajado demais? Posso, mas essa tem sido minha sensação.

          Fico triste com isso? Demais, porque realmente perdemos em qualidade nas obras em função disso.

          Não sei se haverá retorno, pelo menos para produções mais mainstream.

  5. PS: pra não dizer que não falei das flores, achei que foi um pastiche simpático de outras obras de ficção científica, com referências explícitas a coisas como matrix, blade runner, etc