outro dia eu me deparei com uma discussão absurdamente patética nas redes sociais a respeito da virtude filantrópica de bruce wayne
não, não era uma discussão sobre os aspectos narrativos, sobre a maneira como o personagem é representado, sobre seus rebatimentos e reverberações ideológicas, sobre questões formais (como edição, corte, enquadramento, traço, etc), sobre a performance promovida em cada suporte, etc. Tudo isso seria válido. Mas… não: estavam discutindo se o sujeito é ou não uma boa pessoa.
olha
tá difícil
76 comentários
Bruce Wayne é meio vacilão mas o Batman é maneiro kk.
Vou ser bem clichê aqui, mas eu não acho que as pessoas deveriam ter vergonha de quase qualquer coisa. Inclusive isso. Eu entendo seu raciocínio mas acho ele pra lá de ranzinza.
Talvez sua opinião tenha sido mais pro lado de que… frente aos grandes problemas da vida porque as pessoas estão discutindo isso com alguma seriedade. Mas ainda assim acho uma visão estéril de que o ser humano só pode se preocupar e se importar com o que é muito sério/global/etc. Como se hobbys, entretenimento, temas lúdicas fossem obrigados a serem colocados numa hierarquia inferior porque… não dá dinheiro? não é real? não é palpável?
Seguindo o seu argumento é muito fácil traçar o paralelo de que uma faculdade de belas artes é inútil porque tá debatendo ou criticando um aspecto abstrado de uma obra ou conteúdo e, portanto, as pessoas deviam ter vergonha disso também. Acho um pensamento muito complexo e limitado.
Contudo, acho que existe um limite, que é comum em qualquer discussão que é o limite da agressão, da empatia, do respeito, etc. Mas entendo isso como sendo pertencente de qualquer tema.
Obs: fico muito surpreso, e negativamente surpreso, ao ver que estamos voltando pro debate de que se vem de uma determinada mídia ou tem determinado formato é tudo “infantilizado”. Quantos jogos conhecemos que tratam de assuntos adultos e até de maneira muito profunda? Quantos histórias em quadrinhos não debatem temas densos? Hoje em dia até as animações têm uma grande variedade de conteúdo voltado para adultos.
você não entendeu nada do que eu disse
eu nunca disse que o problema é ser infantil. Muito pelo contrário: se a coisa toda abraçasse a infantilidade seria muito mais sofisticada.
nunca falei sobre um debate ser útil ou inútil. Falei sobre relacionar-se com personagens (fictícios ou não) numa camada exclusivamente ingênua.
eu quero é que as pessoas não se levem tanto a sério. O problema todo da discussão era se levar a sério demais (mas de um jeito totalmente ingênuo)
Então entendi errado. Mas devo dizer que você deixou bastante margem pra isso no texto que inicia o tópico.
Mas ainda não vejo problema com a tal discussão. Concordo que existe um limite do quanto vale a pena o esforço para descobrir se o cara é bom ou mal, considerando principalmente que o conceito de bom/mal é bem complexo, haha. Ao mesmo tempo, sei lá… Deixa acontecer, talvez depois de chegarem a uma conclusão de bom/mal eles percebam que tem algumas outras camadas pra analisar e aos poucos a discussão ingênua possa se aprofundar.
Meus dois centavos:
Acho que o ponto do colega acima não é sobre faculdade de Belas Artes, nem ingenuidade, nem seriedade (estamos falando sério aqui, não estamos? Às vezes dá pra ser sério e divertido)
Acho que o ponto dele é que a discussão sobre o Batman é chata. Chata assim: repetitiva, boba, ultrapassada… Mas principalmente chata, chatinha.
Não que ela vá explodir o mundo, nem inundá-lo de pregos, mas só uma dessas coisinhas para as quais nem sempre vale uma palavra, mas às vezes vale uma revirada de olhos.
Duas reviradas, se são homens fanáticos por seus bonecos de ação, esbravejando comentários no rodapé de um shorts no Youtube em pleno 2024. Eita gastura!
E convenhamos… o Batman não é exatamente uma boa pessoa
O mesmo vale pra bíblia.
Alguém já deve ter dito isso, mas só cheguei na discussão agora.
Se as pessoas realmente “levassem a sério” a Bíblia, ou realmente a mesma serviria como base de estudos de como as pessoas tanto viviam nas eras relatadas quanto repassavam fábulas de sobrevivência perante a comunidade; ou simplesmente não viveriam baseados na mesma, dado que é só um relato de uma época passada.
Eu entendo que quem busca uma religiosidade, usa seja a bíblia ou seja as palavras de um líder religioso para poder “nortear” a própria vida. Pena que isso acaba gerando mas pessoas alienadas do que pessoas reflexivas. São poucos os verdadeiros líderes religiosos ou pessoas com consciência e religiosidade que trazem alguma reflexão sobre a vida sem lições de moral falsas.
por quê?
Porque parece ser “cool” falar mal das crenças dos outros.
Eu coloquei uns pontos no comentário acima, e se me permitem, espero poder complementar nesta resposta.
De fato, um problema ( e uma exposição) que as redes socias trouxeram foram a exposição dos problemas das religiões e dos desdobramentos.
Ao mesmo tempo que temos religiões que de fato dão um senso de comunidade às pessoas e tentam dar às mesmas o poder de se ajudarem, crescerem e evitarem conflitos, há outras diversas que aproveitam da fragilidade emocional para criar uma horda ao invés de seres individuais com senso crítico. A própria igreja católica hoje, em partes, meio que tenta se redimir dos problemas de séculos passados. E em compensação, as igrejas criadas na revolução protestante, ao mesmo tempo que há igrejas que mantém algum senso comunitário, há as neopetencostais que buscam usar a ilusão de prosperidade para poder fazer a pessoa ajudar a igreja e não se ajudar.
A discussão é bem complexa e prefiro deixar na mão de quem estuda e entende disso. Digo que hoje tenho amizade com alguns evangélicos, mas meio distante dos mesmos. Um que eu era muito amigo no passado acabei durante a ascenção do dito “bolsonarismo” me distanciando dele, e depois de voltar a conversar com ele há algum tempo, notei que ele está buscando o caminho do evangelismo por meio de uma igreja neopetencostal (o mesmo vive tentando me fazer ler “o grande conflito” como se fosse uma verdade…)
O título me fez pensar se quando eu jogo emuladores dos videogames de infância, eu devesse ter vergonha tbm…nostalgia ou síndrome de Peter pan?
O texto, bom…eu acho extranho discussões sobre Marvel e DC, eu só assisto e fim,
Estou lendo hq’s do Batman (scan na verdade cbz CBR) eu gosto do espírito de forum sabe tipo Reddit:
Você entra por tema e discute e tem teorias etc me lembra a internet do inicio dos anos 2000.
Não faça tanto download da internet na sua cabeça e nem mate a criança interior, deixa os bichinhos kkk
o problema não é ser infantil, muito pelo contrário
se a coisa toda abraçasse a infantilidade seria perfeito
Bom, a primeira vez que eu assisti Batman eu tinha 7 anos de idade. E era isso que eu pensava. Se ele era uma boa pessoa ou não. Era essa a minha interpretação.
Sei que alguns filmes são feitos para adultos. Mas, acredito que um filme, como parte de uma arte, abre uma gama enorme de interpretações. E seria válido discutir qualquer ponto de vista.
Melhor ainda: não levar filmes, séries, qualquer produto cultural tão a sério assim.
São só filmes, HQ’s, etc. O apego deles a essas coisas chega a ser absurdo.
E o pior de tudo é ver esses marmanjos se debruçando com tanto interesse em produtos claramente feitos pra CRIANÇAS. Tudo nas histórias é infantil: desde a motivação até os desfechos.
Chega, né? Por favor.
Eu concordo com você, mas acredito que todos nós somos assim com alguma coisa. Eu digo que “todo doido tem a sua loucura”. Para uns são desenhos e universo de heróis, para outros pode ser o futebol, a música, alguma arte marcial, os carros, o vídeo game, os cavalos, e mais uma lista imensa de coisas que os seres humanos são “fãs”. Parece idiota gostar de desenho, eu acho. Mas, eu, por exemplo, gasto milhares de reais pra assistir shows de rock em outros estados, e muita gente também acha isso idiota, mas pra mim é o que motiva.
Entendo completamente.
O problema pra mim é a galera considerar essas coisas muito maiores do que elas de fato são.
Realmente, todo mundo tem a sua “droguinha”.
Mas poxa, o Batman não é TÃAAO complexo assim. Na verda não é nada complexo.
Muito menos Homem Aranha, Superman, etc.
É tudo muito preto no branco, até porque o conteúdo é infantil.
Acho que o pessoal deveria saber separar melhor.
Ótima discussão. Li todos os comentários e também salvei os links indicados.
Tenho uma certa aversão atualmente pela temática de super-heróis. Mais pela sua saturação e pela forma dogmática de como é defendida por seus fãs do que por uma suposta infantilidade inerente às obras.
O que mais me causa espanto é essa coisa de que, se uma vez você gostou de uma franquia, muitas pessoas esperam que você a acompanhe pelo resto da vida, consumindo seus remakes e reboots infinitos. Tanto nos jogos quanto nos filmes, sinto falta de espaço para novos personagens e propriedades intelectuais. Neste texto, que escrevi em 2017, falo mais detidamente sobre isso, um trecho:
E finalizo com:
PS: Falando em Alan Moore, fiquei interessado em ler um conto chamado “O que se pode saber a respeito do Homem-Trovão”, presente no livro Iluminações. Pelo que ouvi falar, satiriza o Superman. É uma crítica ferrenha ao mundo dos quadrinhos, das grandes editoras.
A maioria das pessoas foi infantilizada pelo capitalismo, só observar como se expressam, o que comem, o que consomem.
Perdoe-me ter 40 anos e ainda jogar Pokémon.
se ao menos essa infantilização chegasse na potência que ela tem, isso seria positivo — no sentido de explorar o caráter lúdico da vida. Aquele clichê do picasso dizendo que precisava reaprender a desenhar como uma criança
mas, ao contrário, é uma simplificação estética da vida — inclusive, uma espécie de adultização dos sentidos, vide esse desejo dos filmes de hominho de evitarem soar infantis, dessaturando suas paletas e buscando supostas respostas racionais para tudo.
pra mim não é nem “infantilização”
é transformar nostalgia num produto mesmo
pegar tudo aquilo que te traz um sentimento bom e trazer de volta, denovo, denovo e denovo …
Não acho a discussão patética. Todos são personagens uns para os outros, o Bill Gates é tão real para mim quanto o Bruce Wayne. Ambos podem facilmente terem sido inventados.
Discutir a ética de um ou de outra não faz diferença.
que ambos são ficção eu concordo
mas naquela conversa em específico eu consideraria patética a maneira como o bruce wayne foi defendido DA MESMA FORMA como seria patética se a mesma defesa fosse direcionada ao bill gates
o problema não é a ficção (tudo é ficção), o problema é a maneira ingênua como lidamos com ela
Aí sim! Entendi 👍🏾
Você vai ter que vdar vários passos pra trás – no tempo – para começar e entender porque esse tipo de coisa ainda ocorre. E pior, ocorre com mais frequência.
Primeiro de tudo, o pessoal que hoje consome esse tipo de mídia é, em sua grande maioria, uma massa infantilizada de pessoas de classe média (sim, precisamos generalizar porque não podemos tratar de todos os recortes de classe) que exarcebam essa infantilização para política e para o meio social. Por isso a ideia de “polarização” é tão querida à essas pessoas.
Pegando esse gancho. Os personagens que estão sendo postos por você são rasos (ou planos) no sentido de serem escritos com base no que o Edgar Alan Poe criou (e que se convenciona como teoria do conto clássico) e que se caracteriza por personagem que não evoluem (ou que evoluem muito pouco) e reviravoltar no enredo que mantém o leitor preso na narrativa. É uma história acontecendo, os pesonagens são bem delimitados, as narrativas são delimitadas (existem os mocinhos e os vilões) e todas as ações são em prol de uma narrativa bem delimitada do que é correto e do que não é correto (dentro das regras criadas por essa própria narrativa). Extrapola isso pra vida real e você tem uma boa analogia com a polarização política e com o fenômeno do coach/vendedor de cursos (delimitar ações sociais, criar inimigos e definir quem é bom e quem é malvado com base em uma lógica criada internamente por essa narrativa).
Puxando outro fio desse novelo: vivemos uma época (hoje em dia e nos últimos 15 anos) que criou um mercado consumidor ao redor de uma persona de ultra-consumo que compra bonecos, revistas, camisetas, pelúcias e tudo o que estiver relacionado com essa cultura (e esse não é essencialmente o problema, mas é um dos) que foi amplificado por uma questão transmidia (podcasts, televisão, YouTube, cinema, literatura, quadrinhos e música) que foi sendo martelada dia após dia em todo o centro ocidental (EUA e UE) e seus raios (américa latina, principalmente) que foram criando uma grande quantidade de pessoas que iniciou essa caminhada de consumo aos 15/20 anos e está hoje eom 30/35 anos mantendo os hábitos de consumo e mantendo a leitura artística (não é de graça que livros de fantasia vendem tando com sagas enormes e histórias cada vez mais maniqueístas) rasa que se transpõe para a vida e para as relações. Como você mesmo disse abaixo, representatividade importa, mas nas mãos dessas empresas e servido como alimento para o consumo desse público, não serve de nada, senão para mercantilização da opressão (cinema sem luta de classes e sem consciência de classe).
Atente-se, finalmente, ao fato de que o Brasil – e o capitalismo – mantém a sua base social com uma educação utilitarista – a mesma educação que diz que não precisa de faculdade ou que reclama que a faculdade de TI não ensina a última linguagem de programação, diga-se – que não tem tempo para se debruçar sobre questões sociais e profundas sobre a arte – seja por qual meio/suporte – porque precisa preparar os alunos para ENEM e trabalhos práticos de mão-de-obra barata (e não tem problema nisso, mas tem problema quando toda a educação é baseada nesse mesmo cenário de gerar mais e mais pessoas pra alimentar um sistema/setor sem questionar e apenas trabalhar 80h por semana (alienação da mercadoria que chama né?)) e é inundada por um processo de cobrança e mudança constantes (de espaços físico, de turma, de pessoas, de tomadores de decisão escolar etc).
Em resumo: você tem um contínuo de 20 anos (pelo menos) de uma construção de uma público-alvo sem capacidade de questionar a composição e a criação das obras que consome e treinado para apenas consumir a obra e o que se cria ao redor dessa obra. Não é interessante que se questiona ou discuta como algo é feito, porque algo é feito e as moralidades desse algo quando se quer criar, vender e consumir em escala.
Isso é expansível para redes sociais, trabalho, escola, esportes e tudo o que nos rodeia.
Acho que o título meio que queria dizer “as pessoas deveriam sentir vergonha de ser nerd/freak”, não? Porque o problema principal não é o curtir, mas sim o foco em transformar a própria vida na adoração de uma série, personagem, etc…
Na questão das discussões, talvez quem é mais velho (como muitos de nós) e já tem alguma experiência em conversar online, deveríamos “nos tocar” e entender que sempre haverá pessoas novas na área, que não tem tanto conhecimento. E uma hora dá aquela epifania na tal pessoa e começa as discussões que já vimos no passado, quando não fomos nós mesmos que iniciamos quando eramos nós a pessoa nova na área, no fórum, na comunidade, na sala de chat.
Quanto a discussões sobre personagem e a defesa cega de alguns (“aahhh, o cara é legal porque é herói e bilionário, etc…”). Bem, temos um defcit no Brasil de educação social e política. Se não tivessemos, aí talvez a discussão seria no nível que você almeja, falando dos porquês do personagem chegar a aquela situação e tal.
(E cá entre nós, pior do que gente defendendo Bruce Wayne, é a galera defendendo o Coringa… o personagem sofreu – e gerou – inúmeros traumas, virou um psicopata total, e a galera faz tatuagem, traseira de perua de entrega, risada em adesivo de moto e festa infantil temática em cima dele… pior que a adoração de heróis dúbios é a adoração a vilões e criminosos…)
A depender do ponto de vista (e alguns, válidos), vilão é o Batman. Coringa é uma personagem e, como tal, tem a liberdade de ser admirado por características que, a sério, são condenáveis. É a nossa capacidade de abstração que permite a existência de vilões ficcionais adorados.
Ah, e esse debate de levar quadrinhos de heróis muito a sério está longe de ser uma questão brasileira. Tem em todo lugar.
De fato depende muito também da construção de roteiro. Um dito “herói” pode ser vilão, assim como um “vilão” pode ser herói. Assim como também podem existir histórias para jovens com ambiguidade nos papéis. Dragon Ball mesmo tem muito do vilão ou adversário acabar do lado dos “mocinhos”. Detona Ralph é um filme sobre um vilão cansado de ser vilão e acaba descobrindo uma protagonista hackeada por um vilão em outro jogo… e por aí vai.
E parando para pensar, se for para entender que as histórias tem no fundo algum roteiro relevante – X-Men é um exemplo – até pode se levar a sério. Mas só relativo a isso (como o roteiro tenta passar alguma mensagem0, não transformando o debate no “ah, meu boneco é melhor que o seu” ou “meu boneco não é vilão”. Deve ter textos melhores com reflexões sobre isso.
Quanto a adoração e abstração sobre vilões, tenho minhas dúvidas e preconceitos que não vou estender muito sobre. Só digo que se vejo uma moto com adesivos relacionados ao tema Coringa, saío de perto… e se tem dois caras na moto, aí que tento ficar o mais longe possível.
O Coringa é o efeito colateral – da falta de acesso à educação, emprego e saúde – de uma cidade neoliberal governada pelo pai do Batman. O Batman/BW é ium bilionário que se veste de morcego e bate em bandidos criados pelo sistema/pai dele.
Sim. Geralmente todo “vilão” é fruto da manutenção de um sistema de castas e segregações, muitas vezes considerado qualquer ser “modificado” ou até os “alienigenas” (a “deshumanização”) em histórias bem mais antigas conta também – lembrando que quadrinhos americanos já tiveram até adversários/vilões alguem de povo originário sendo considerado “selvagem”.
Mas também há retratos de vilões como fruto de um “desvio de caráter” (Lex Luthor no caso do Superman e Norman “Duende Verde” Osborn em Homem Aranha, dado serem empresário ricos), e o “vilão” geralmente nas histórias tenta subverter o sistema ao bel prazer, sob justificativa que “a sociedade não o ajuda, não é igualitária, etc…”.
Só comparei a situação real com o Coringa pois de fato, como mencionado, é um preconceito meu. Andar na rua ainda significa lidar com atenção a estereótipos para evitar problemas maiores e riscos. Quem dera não puder se preocupar com isso.
Aproveito para elogiar seu outro post, pois é uma ótima análise.
Obrigado pelo elogio :)
As histórias em quadrinhos de heróis tinham como conceito serem as novas fábulas e servirem como contos de moral, falar sobre alguma questão social do seu tempo e propor a discussão ou ensinar as crianças e jovens. E quando enxergamos elas assim, vemos que elas servem a isso. O problema foi virar um produto de adultos infantilizados que não entendem que o Coringa, por exemplo, é sobre opressão, que os mutantes é sobre imigração e depois sobre a comunidade LGBTQIAP+, que o superman é sobre os imigrantes, que o justiceiro é sobre a guerra e o como ela é ruim pra todo mundo envolvido, que o batman é tão doente quanto a cidade e o coringa etc.
Eles (os brothers que consomem todo esse universo de forma acrítica) enxergam essas fábulas ipisis literis e só conseguem ver herois e vilões.
Para mim, esse tipo de debate é dos mais úteis (num sentido prático mesmo) da ficção. As novelas da Globo fazem muito isso, de trazer problemas sociais ao debate público.
Isso é muito subjetivo, então essa é a minha humilde opinião: acho que filmes de bonecos só se tornam prejudiciais quando viram o centro da vida de alguém. E vale para tudo — um produto/bem de consumo tornar-se o principal traço de alguém é a supremacia dos piores aspectos do capitalismo.
eu concordo, mas a discussão ia num outro sentido: não é como se a discussão fosse em torno dos rebatimentos ideológicos ou sociais da narrativa ou de como ela é construída e mobilizada para privilegiar um ou outro sistema de valores
discutiam a bondade do personagem como se ele fosse um steve jobs ou um elon musk — não era muito diferente desse povo que fica elogiando elon musk como o grande herói de nossos tempos
(e talvez isso diga mais sobre a maneira como esses bilionários se representam do que propriamente sobre bruce wayne…)
Cada um com seus bonecos. Tem quem discuta Jesus, tem que discuta Mark Zuckerberg. Eu parto do princípio que não me enchendo o saco, cada um pode fazer o que quiser da vida.
Entendo sua indignação.
Mas não se pode esperar uma discussão profunda, formal, analítica de enlatados. É como fazer uma crítica gastronômica de congelados da Sadia.
Mas talvez seu título tenha sido um pouco apelativo. Como vc diz no texto, não vejo nada de mais em gostar, vc só gostaria de uma discussão mais profunda, levando em consideração que são produtos culturais fictícios.
As vezes a gente quer fugir tanto da realidade que esses enlatados vem de encontro. É mais bem mais fácil falar se o Batman é ou não uma boa pessoa entrando dentro da ficção, do que pensar que isso é um produto cultural com um contexto social econômico etc…
Entra também que esse tipo de discussão rasa deve existir desde que existe cultura de massa, mas é diferente quando falamos disso despretensiosamente em um boteco, ou no café da firma com um ou dois colegas, e quando publicamos nas redes sociais para milhares de desconhecidos doidos para dar uma opinião em busca de validação e likes.
O autor Alan Moore é semi famoso por odiar este aspecto da cultura de quadrinhos atual, a dos super heróis corporativos e seus fãs. Se você pesquisar, vai achar umas entrevistas dele dissertando sobre isso, eu vou copiar este parágrafo daqui, com umas notas minhas marcadas com []:
”
[Entrevistador]
Qual foi o impacto das histórias em quadrinhos de heróis populares em nossa cultura? Por que as pessoas são fascinadas por realidades alternativas?
[Alan Moore]
Eu acho que o impacto dos super-heróis na cultura popular é tremendamente embaraçoso e não um pouco preocupante. Embora esses personagens fossem originalmente perfeitamente adequados para estimular a imaginação de seu público de doze ou treze anos de idade [de 50 anos atrás], o super-homem franqueado de hoje, voltado para um público supostamente adulto, parece estar servindo a algum tipo de função diferente e atendendo a diferentes necessidades.
Principalmente, os filmes de super-heróis do mercado de massa parecem estar incentivando um público que não deseja abrir mão de (a) suas infâncias relativamente tranquilizadoras, ou (b) do relativamente tranquilizador século 20. A popularidade contínua desses filmes para mim sugere algum tipo de estado deliberado e auto-imposto de prisão emocional, combinado com uma condição entorpecente de estagnação cultural que pode ser testemunhada em quadrinhos, filmes, música popular e, de fato, em todo o espectro cultural. Os próprios super-heróis, em grande parte escritos e desenhados por criadores que nunca defenderam seus próprios direitos contra as empresas que os empregam, muito menos os direitos de um Jack Kirby ou Jerry Siegel ou Joe Schuster – parecem ser amplamente empregados como compensadores de covardia, talvez um pouco como a arma na mesa de cabeceira. Eu também observaria que, exceto por um punhado de personagens não-brancos (e criadores não-brancos), esses livros e esses personagens icônicos ainda são em muito sonhos supremacistas brancos da raça superior. Na verdade, acho que um bom argumento pode ser feito para considerar O Nascimento de uma nação de D W Griffith como o primeiro filme de super-herói norte-americano, e o ponto de origem para todas aquelas capas e máscaras.
”
Complementando com isso aqui:
Eu realmente não achava que os super-heróis fossem adultos. Eu acho que isso foi um mal–entendido nascido do que aconteceu na década de 1980 – ao qual devo me colocar com uma parte considerável da culpa, embora não tenha sido intencional – quando coisas como Watchmen estavam aparecendo pela primeira vez. Havia uma enorme quantidade de manchetes dizendo ‘Os quadrinhos cresceram’. Eu costumo pensar que, não, os quadrinhos não cresceram. Havia alguns títulos que eram mais adultos do que as pessoas estavam acostumadas. Mas a maioria dos títulos de quadrinhos eram praticamente os mesmos de sempre. Não era quadrinhos crescendo. Acho que foi mais quadrinhos atendendo a idade emocional do público vindo para o outro lado.”
Ele acha que isso não é apenas infantil, mas perigoso. “Eu disse Por volta de 2011 que achava que teria implicações sérias e preocupantes para o futuro se milhões de adultos estivessem fazendo fila para ver os filmes do Batman. Porque esse tipo de infantilização – esse impulso para tempos mais simples, realidades mais simples – muitas vezes pode ser um precursor do fascismo.”Ele ressalta que quando Trump foi eleito em 2016, e “quando nós mesmos fizemos um desvio um pouco estranho em nossa Política”, muitos dos maiores filmes eram filmes de super-heróis.
Desse ponto de vista é realmente preocupante.
Baita entrevista.
E além dele, sei que George Lucas já falou várias vezes que Star Wars é a mesma coisa, uma história para crianças. Aí tem gente que vive naquele mundo, se veste de bonequinhos do filme e levam muito a sério qualquer coisa que envolva os amigos fictício da infância. Sei lá, é bizarro esse tipo de coisa.
George Lucas falou que Star Wars é sobre rebeldes pobres lutando contra uma ditadura rica (e que seria a tentativa dele de incutir nos adolescentes esse tema).
Sim, as pessoas não entenderam nada.
alan moore é um pouco como o caetano veloso do festival da canção de 1968: “vocês não entenderam nada”
já viu o texto do david graeber sobre super-heróis?
https://thenewinquiry.com/super-position/
em tempo: por outro lado, há aspectos de performatividade e de imaginação em quadrinhos de super-heróis que são (esses sim) absolutamente maravilhosos
é a coisa do batman com aquelas roupas coloridas dos anos 60, a série de tv de 1966, etc
esse vídeo aqui fala um pouco de como batman é sobretudo um personagem drag: https://www.youtube.com/watch?v=7_uT2YaOjOI
e isso é maravilhoso
Curti ambos os textos mencionados. Acho então que existe um espaço para super-herói ser uma força artística boa, mesmo que segundo David graeber e Alan Moore este não seja o caso do contexto atual. Acho que eu vou baixar a série do Adam West depois para ver, e acho que se ressuscitassem o batman queer e cômico ia ser um choque cultural muito bem vindo hoje em dia.
Os quadrinhos em que sentido?
Tem um quadros de 600p chamado Retalhos que conta a história de um jovem que foi criado em uma sociedade interiorana dos EUA super religiosa e conservadora e todos os problemas que ele teve decorrentes disso.
Tem Persepólis, Maus e tantos outros. Os quadrinhos são apenas uma mídia que serve de entretenimento. Harry Potter é um livro, Água Viva (da Clarice Lispector) também. Outra mídia de entretenimento. Ambos são absurdamente diferentes, mesmo sendo literatura. A questão não é se o meio cresceu, a questão é o que vende e quem consome. Se tem essas história maniqueístas de vilões x heróis é porque elas vendem. E elas vendem porque é um entretenimento barato, rápido e engraçado. Isso não quer dizer que “os quadrinhos” como meio são coisa apenas para criança, isso quer dizer que o público é infantilizado (politicamente e socialmente) e acaba consumindo esse tipo de mídia.
O Alan Moore estava falando sobre ”este aspecto da cultura de quadrinhos atual, a dos super heróis corporativos e seus fãs”, não sobre a forma de arte dos quadrinhos em geral. Ele também obviamente curte muito a forma e tem um monte de quadrinhos alternativos que são diferentes, mas o comentário era sobre a sub-cultura específica de quadrinhos que é majoritária na sociedade e no entretenimento. Infelizmente, para cada x dinheiros que um livro de Maus ou Persépolis vende e ganha, tem 100 x dinheiros sendo ganho pela venda do novo quadrinho do batman, pelo filme série podcast youtuber da marvel e dc, etc.
Eu entendo sobre o Moore, eu estava falando mais sobre a sua fala.
Entendo que você diz que existem títulos mais adultos e que a maioria é infantil. Mas isso é a tônica de todo a mídia de entretenimento. O que vendo é Velozes e Furiosos e não Amor à Flor da Pele. Não é uma questão de quadrinhos, é uma questão social, educacional e sistêmica.
Na verdade isso tudo que está escrito é do Alan Moore, eu me limitei a reproduzí-lo e traduzí-lo, mas eu estava concordando com essa visão então ainda me encaixo na crítica sua.
Outro dia vi uma discussão sobre se a Magali da Turma da Mônica tinha bulimia por comer e não engordar… Achei o cúmulo
isso é de um absurdo sem tamanho: é simplesmente a incapacidade das pessoas em lidarem com ficção e fantasia
elas querem uma resposta objetiva pra tudo
mas o pior de tudo é que a própria cultura pop de massas tem culpa nisso (mesmo que se voltando contra si mesma)
Pode nos deixar uma listinha sobre o que podemos gostar? Futebol ainda tá liberado?
Vamos fazer uma lista. Eu começo: pode distro hopping e maconha (inclusive ao mesmo tempo).
Não gosto de futebol nem de maconha.
Tô de mal de vocês.
E ficar instalando distros linux diferentes toda semana, você gosta?
Aí é impossível não gostar.
você pode gostar do que quiser
eu adoro historinhas do bátimã (os filmes do joel schumacher são maravilhosos, inclusive)
Desde que eu:
a) sinta vergonha por gostar de “historinha de hominho”
b) não discuta nada disso na internet ou em público.
Não é essa a mensagem do post original?
não
hahahahhaahhaha perfeito!
e respondendo: não pode curtir futebol, muitos ismos envolvidos…
Como alguém que viu todas as temporadas de The Boys nessas férias em dias, não sei se isso deve ser para mim ou não. Nada como uma violência esteticamente agradável para relaxar ao fim do dia.
meu problema com the boys (principalmente a série de tv) é que ela se leva muito a sério
Sei lá, acho que algumas discussões em relação a personagens ficcionais são completamente idiotas, outras nem tanto… Mas certamente tem gente que leva as coisas muito pro coração. Uma coisa que acho completamente ridícula é a discussão de fanboys Marvel x DC, Playstation x Xbox… No fim acho que as pessoas só qerem brigar por alguma coisa, seja por política e esporte ou empresas bilionárias e personagens ficcionais….
As pessoas só querem pertencer a algo.
O fazem a qualquer custo, mesmo que isso as tornem ridículas (vide patriotas acampados).
Polêmica
Mas falando sério, sabe o que me lembrou tbm? Quando teve o último filme dos Vingadores e o se pessoal se partindo pra ignorância se alguém soltasse um spoiler do que iria acontecer no final
Aquilo foi uma babaquice.
Perdão pelo monte de “se”, o pensamento é mais rápido que o digitar do teclado, aí acontecem coisas como essa 😂😂😂
Pra mim o vingadores fim de game foi a apoteose do formato e desse tipo de mídia. Depois disso parei de consumir enlatados, assinei mubi e vejo docs no youtube.
Me recomenda alguns docs, sobre qualquer coisa? Ou canais, playlists, etc.
eu sempre digo que quem se importa com spoiler não sabe apreciar audiovisual de verdade (ou qualquer forma de ficção)
cara, cada dia tem que ter mais cuidado ao ler coisas na internet pra não se deparar com esses floquinhos de neve discutindo personagens…. tu acompanhou a treta da 007 negra? ou da pequena sereia negra? ou de qualquer coisa que incorpore uma etnia ou genero que eles detestem? esses caras são patéticos.
esse é um outro problema, mas eu tenho uma opinião bastante polêmica sobre esse assunto
não discordo de quem fala que “representatividade importa”, mas o que as pessoas esquecem quando dizem isso é que “representatividade” na mão dessas grandes empresas monopolistas como a disney é simplesmente mais uma mercadoria — e mercadoria usada justamente para construir engajamento
O PH Santos vez um vídeo legal sobre este tópico: Ilusão da Representatividade no Cinema – YouTube
Particularmente, gosto do resultado prático imediato: maior representatividade. Por outro lado, percebo que essas empresas monopolistas instrumentalizam isso de forma “cínica” e quando se trata posições de poder, nem sempre vemos tal representatividade.
Por que não deixar as pessoas se divertirem com o que gostam?
e quem está proibindo?
Você, oras. Reclama de tudo.
eu não estou proibindo, só estou lamentando
tá proibido lamentar ver gente tendo gostos tão ruins?
Não é proibido.
Mas teoricamente o gosto de outra pessoa deveria importar somente para aquela pessoa.
Reclamar do gosto de outro é o primeiro passo pra reclamar de qualquer outro tipo de escolha, preferência ou traço que é diferente do nosso.
Isso já foi usado como gatilho pra muito preconceito em diversas esferas, é necessário cuidado com esse pensamento mais conservador.
@iago, tem praticamente todo um campo da academia que lida com o estudo do gosto dos outros: os estudos de distinção e todo o trabalho dos bourdieanos, entre outros.
gosto é socialmente construído, não é uma subjetividade absoluta
gosto não só se discute como se lamenta
Posso lamentar que tem gente que gosta de Funk ou aí é preconceito?