Não foram uma nem duas vezes que o assunto neurodivergência apareceu aqui no Órbita, com ótimas conversas. Chegou a minha vez de acrescentar aos relatos.
Além da relevância do assunto em si, achei que seria uma boa expor isso a todos que leem e/ou interagem no Manual. (Já havia contado aos assinantes do site.) Afinal, minha ~condição interfere na maneira como toco o site.
Ainda não sei muita coisa de AHSD. Se alguém souber mais, tenho interesse em ouvir.
16 comentários
Opa, sou a sopa de letrinhas completa. Fui indicado com Altas Habilidades muito cedo, aos 4 anos. Fiz acompanhamento minha vida toda em salas públicas de atendimento, em todos os lugares (até nelas) sempre me senti um extraterrestre. À medida que me tornei um jovem adulto, tentei direcionar tal sentimento junto às rotulações pouco esclarecedoras para um único objetivo, o autoconhecimento.
Por meio desse objetivo entendi sobre questões que provavelmente a maioria das pessoa não lidam, mas que eram minhas. Reservar um tempo da minha tarde apenas para “viajar na maionese” para que eu possa ter um sono de qualidade depois, beliscar alimentos a cada 2h para não ficar de mal humor, respeitar o jeitinho que eu calculo algo abominável, respeitar quando não consigo calcular, praticar pedir pão na padaria etc.
Para isso li muitos trabalhos acadêmicos e livros, testando o que era (ou não) compatível com o que eu passava, mas a verdade é que grande parte das minhas vivências não era contemplada.
Divaguei com um bom TDAH kkkkkkk
Diante disso, recomendo que não se repreenda ou pense no que perdeu, mas sim no que pode fazer por você. E que pense nisso independentemente do rótulo que tenha hoje, amanhã ou depois.
Enfim, entender as minhas questões mais intrínsecas (no sentido de organismo, mesmo) ajuda esse meu carrinho (meu corpo) a percorrer essa estrada exaustiva, bela, e, não de má fé, insensível (a vida em sociedade).
Estou no grupo — e dentre os que jurava que tinha TEA grau de suporte I, mas no fim recebeu diagnóstico de AH. Acabei indo atrás do diagnóstico formal por causa da minha filha (que é basicamente igual).
Tenho pouco a acrescentar de forma concisa (para não entediar os que não se interessam), mas penso que tres dados importantes são:
1) é um conceito estatístico — é apenas o percentil 5 da população em uma determinada área. Você não precisa unificar a relatividade com a mecânica newtoniana. Isso é importante para o povo com síndrome do impostor.
2) há múltiplas áreas de inteligência e é possível (e muitíssimo mais frequente) ter habilidade mais em determinada(s) área(s).
3) você não está sozinho :-P
Deixo de recomendaxao um episódio de um podcast de uma neuroped com uma neuropsicóloga — fala sobre AH no adulto. Infelizmente, só no Spotify: https://open.spotify.com/episode/4MZwxCmBNl0TDHSlhlmuRx?si=Ao2PhHZzS0eoTfnfeI6SkA
Ouvi o podcast e me identifiquei com tudo. Gostaria de me submeter a uma investigação desta
Eu fui diagnosticado com Autismo + alta habilidades tardiamente, pra ser mais exato há menos de 1 ano. Ao estudar o assunto percebi que o diagnóstico dessas condições não são fáceis e nem sempre consensuais. O próprio conceito do que seria AHSD é fluído e varia conforme a linha adotada pelo profissional, embora os testes padronizados tentem reduzir esse efeito. Fosse uma coisa mais simples de se repetir, sugeriria uma segunda opinião. Mas, assim creio, o mais importante mesmo não é o diagnóstico X ou Y e sim o que se faz com ele, na medida em que podemos ressignificar nossa presença no mundo, as relações, a própria vida e todas suas questões para nos colocar de maneira diferente no mundo. Para isso o diagnóstico é só um meio não um fim.
Exato. O diagnóstico em si não quer dizer nada — o que importa no fim é entender as causas do seu sofrimento (e/ou o dos outros) e criar estratégias de adaptação para melhorar a vida de todas as partes.
Sinto que o meu diagnóstico foi importante por isso. Ele me ajudou a entender as causas do sofrimento e a criar estratégias. Deu nome ao que eu sentia e também ferramentas para lidar com essas causas, além de melhorar minha convivência com as outras pessoas.
Primeiro de tudo, parabéns pela coragem de se expor e pela coragem de procurar ajuda especializada.
Eu me identifico como AH/SD mas nunca fui atrás de diagnóstico formal. Acho que a principal característica de quem é , é o sistema nervoso com superexcitabilidade, e ele que faz você se cansar socialmente rápido, você sente tudo com muito mais profundidade do que uma pessoa normal, o que faz muitas vezes evitar contato e precisar ficar isolado,porque a bateria social é gasta muito rápido com tantas percepções e sentimentos ao mesmo tempo. É essa sensibilidade que pode muito ser confundido com TEA, incluindo ai o hiperfoco que você tem nos assuntos que você gosta (lembre-se sempre dessa palavra: Profundidade). Isso fez seu cérebro trabalhar muito rápido pra processar tudo muito rápido, lembrando de coisas que outras pessoas não costumam lembrar e fazendo associações de coisas que outras pessoas não costumam fazer. Isso faz parte do AH/SD. Mas você sente todo esse potencial, e acha muitas vezes que poderia ter usado muito melhor, isso é outra característica da superdotacao, alta cobrança pessoal, medo de falhar, ansiedade crônica, procrastinação por medo de não conseguir ou falhar, ou porque o assunto não te interessa mesmo… Teria muitas coisas pra falar sobre, mas te recomendo o livro Deu Zebra! Descobrindo a Superdotacao e o seu site com vários links, e também recomendo o perfil do Instagram e o canal do YouTube da Daphne Resnauer Queiroz, psicóloga especialista em superdotação. Aliás, aí no Paraná tem diversos especialistas em superdotação, a maioria tem perfil no Instagram. Boa sorte na sua nova caminhada.
Encomendei o Deu zebra!, Flavio. Obrigado pela indicação!
Seja por causa de filmes, séries ou outros meios de comunicação, muitas vezes acabamos criando uma visão estereotipada do TEA e do AH/SD. Eu mesmo tinha uma ideia bem equivocada e nunca imaginei que pudesse ter ambos os diagnósticos, o que chamam de dupla excepcionalidade. No início, é comum nos questionarmos por que nossa visão estereotipada não corresponde ao que somos. Com o tempo, começamos a ressignificar ou a entender o passado. No caso do AH/SD, pode surgir a sensação de potencial desperdiçado. Tenho me esforçado para não me fixar no que “perdi” ou me cobrar pelo passado, mas sim para aprender com ele e agir de forma diferente, evitando certas situações e reconhecendo oportunidades que antes não percebia.
Tenho lido e assistido muito sobre TEA e, agora, estou buscando mais informações sobre dupla excepcionalidade. Encontrei um livro sobre AH/SD da Rianne van de Ven chamado “Giftedness in Practice: Strengthening Personal Leadership in Gifted Adults”. Confesso que ainda não li, pois estou terminando um livro em espanhol sobre TEA, e meu hiperfoco no TEA acaba consumindo meu tempo. De maneira geral, sinto que o diagnóstico foi libertador e tem me ajudado a lidar melhor com o que antes eu considerava “frescura” ou “esquisitice”. E espero que também te ajude.
Na minha área de atuação, Psicologia Educacional, e com uma base teórica em Análise do Comportamento, trabalho com o que chamamos de “Práticas Baseadas em Evidências”. Por essa razão, evito usar o termo “Altas Habilidades/Superdotação”. A escolha de evitar esse termo está fundamentada tanto em bases teóricas quanto em considerações de natureza mais política e social.
A ênfase que se dá ao conceito de Altas Habilidades/Superdotação – que ainda divide opiniões entre especialistas – na mídia e nas políticas educacionais acaba que reforça estereótipos de que a inteligência – cuja definição também não é consenso entre especialistas – é algo que tem bases puramente genéticas, o que pode levar a um sentimento de resignação em algumas crianças, gerando sentimentos de inferioridade e de incapacidade nas crianças diagnosticadas com dificuldades de aprendizagem. Em termos simples, existem muitos desafios e críticas em relação à rotulagem de crianças com dificuldades de aprendizagem, uma vez que esse diagnóstico muitas vezes está associado a questões de classe e suas consequências no desenvolvimento e na aprendizagem. Já tive clientes que chegaram dizendo: “Não sei por que minha mãe me trouxe aqui. Eu sou burro, nunca vou aprender nada. Nasci assim.”
As evidências no campo da Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem demonstram que aspectos associados a “Altas Habilidades/Superdotação” (AHSD) estão frequentemente relacionados a questões do ambiente social.
Em contextos de pobreza, onde o acesso a alimentação regular é limitado, recursos educacionais são escassos, e o apoio familiar é mínimo, o desenvolvimento de habilidades avançadas pode ser prejudicado. Crianças que crescem em bairros empobrecidos, sem infraestrutura adequada e com pais que trabalham longas horas e não podem participar ativamente na educação dos filhos, frequentemente enfrentam barreiras adicionais ao seu desenvolvimento. Essas condições adversas podem limitar o acesso a estímulos cognitivos e oportunidades de aprendizado, o que, por sua vez, pode afetar negativamente o desenvolvimento de habilidades que são frequentemente associadas a AHSD.
Do ponto de vista teórico, a Psicologia do Desenvolvimento enfatiza a importância do ambiente e das experiências de vida no desenvolvimento das habilidades cognitivas. A teoria do desenvolvimento sociocultural de Lev Vygotsky, por exemplo, destaca como o aprendizado é mediado socialmente e como a interação com o ambiente e com outros indivíduos influencia o desenvolvimento cognitivo. Além disso, a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, proposta por Esther Thelen, sugere que o desenvolvimento das habilidades é o resultado da interação contínua entre o indivíduo e seu ambiente. Assim, fatores ambientais e sociais desempenham um papel crucial na formação e no potencial de desenvolvimento das crianças.
Portanto, ao considerar as condições em que as crianças vivem, é evidente que o ambiente social e econômico pode ter um impacto profundo em seu desenvolvimento. Essa perspectiva reforça a ideia de que habilidades avançadas não são necessariamente inatas, mas podem ser fortemente influenciadas por fatores externos. Assim, o conceito de AHSD deve ser abordado com cautela, reconhecendo a influência significativa do contexto social e econômico no desenvolvimento das habilidades.
Portanto, ao optar por não usar o termo “Altas Habilidades/Superdotação”, busco evitar a perpetuação de estigmas e promover uma abordagem mais inclusiva e baseada em evidências, que considera as necessidades individuais de cada pessoa e seu contexto.
Note que não nego pessoas com “Altas Habilidades/Superdotação”, mas que a compreensão e uso desse termo é muito das vezes, equivocado, resultando em vieses e discursos que geram grande problemas para a prática educacional e na própria percepção de identidade das pessoas.
Entendo e concordo (muito!) com as ponderações a respeito do contexto social na definição (e no próprio termo) AHSD. Obrigado pelo complemento!
Entretanto, meu relato se dá em uma camada… digamos… mais “concreta” da questão, ou posterior ao que você trouxe no comentário. Tenho duas irmãs, tivemos uma criação praticamente uniforme e, mesmo assim, sempre fui muito diferente delas. Óbvio que aspectos ambientais/sociais, que são impossíveis de serem padronizados, influenciaram a mim e a elas e ajudam a explicar tais diferenças, mas não no todo, acho eu. E é sob esse prisma que estou encarando o diagnóstico — não no contexto global, mas na minha órbita (!) e, em última análise, em como ele me afeta enquanto indivíduo.
Não sei você Ghedin, mas geralmente, desde cedo, quem é AHSD percebe que é diferente de todas as outras pessoas a sua volta, que tem algo terrivelmente errado com ele e de que precisa conserto…. E geralmente procuram ajuda depois de crises de Burnout/ansiedade, porque geralmente se cobram demais e trabalham demais sem se cuidar, foi seu caso?
Pelo que me lembro, as diferenças despontaram na adolescência. Sentia-as, para o bem e para o mal (para o bem, movido pela arrogância da tenra idade, rs), mas nunca cogitei que fosse algo realmente diferente a ponto de ser uma condição/diagnosticável, sabe? Tanto que foi só depois do comentário da psicóloga, com meus 30 e tantos anos, que essa hipótese entrou no radar.
O João Carvalho, que é comunista e educador popular, tambémtem AH/SD, tem um diagnóstico recente e fez alguns vídeos sobre o assunto. Este é um deles, mas no canal dele tem mais, inclusive entrevistas sobre o assunto. https://youtu.be/CnVfglrKVn0
Eu me identifiquei muito com o relato dele neste vídeo. Também tenho TEA e AH. Vou até conferir os outros relatos dele sobre o tema.
Chega na gata já mandando a real do AHSD e explicando “Sabe o que é melhor que ter um super dote? Ter altas habilidades pra usá-lo!”
(Provavelmente tenho alguma coisa menos obscena para contribuir com a discussão mas por ora não será possível pois estou no celular.)