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A saga: Lineage OS no meu Poco X3

Instalar uma custom ROM num Xiaomi não é fácil. Precisa pedir, literalmente pedir, pra Xiaomi destravar o bootloader, o que pode levar de 48 horas a até 30 dias. Tive “sorte” e só me pediram 7 dias (168 horas). A instalação foi simples porque, além de ter alguma experiência com isso com meus celulares antigos, o tutorial do site da Lineage OS é bem didático, organizado em alguns passos, incluindo a solução de alguns erros comuns. Mesmo após isso tudo, depois de uma semana usando o celular totalmente configurado (na medida do possível em relação a que era antes) resolvi voltar pra ROM de fábrica, a MIUI.

A princípio fiquei impressionado como a ROM do Lineage veio pelada de qualquer aplicativo usual da Google ou da fabricante que encontramos quando iniciamos algum celular pela primeira vez. Por mais que isto esteja explicitamente descrito, ver com os próprios olhas dá a dimensão de quanta porcaria colocam na nossa frente e faz lembrar o trabalho que dá remover isso tudo. Nenhuma rede social pré-instalada, nenhum navegador famoso, só calendário, equalizador de alto-falantes, configurações, câmera, Relógio, Contatos, Música, Galeria, navegador de arquivos e Telefone. Até a Play Store eu precisei instalar voluntariamente (antes de iniciar a ROM, claro).

A ROM oferece nativamente as ferramentas de customização de temas e cores, contrastando com a MIUI na que a cor do tema depende de qual papel de parede você escolhe, e os temas precisam ser baixados numa loja cheia de propagandas. Tá aí uma coisa que achei incrível: eu esqueci de como é ter um celular que não me bombardeia constantemente com propagandas. Até as configurações dos botões do celular puderam ser reorganizadas de acordo com meu gosto sem precisar instalar nenhum aplicativo pra isso.

Todos os aplicativos podem ter suas permissões micro gerenciadas de um jeito bem mais simples do que na MIUI, que é bem confusa. Todos os aplicativos abertos permanecem abertos até que você os feche, te dando mais responsabilidade sobre o que resolve abrir (e até mitigando um pouco o “multitasking”).

O meu maior receio eram os aplicativos de banco. Pra minha surpresa todos os que uso (Itaú, BB, PicPay, Nubank, Mercado Pago) não deram problema, menos o C6, que acusou um erro seguido de um “tente mais tarde” e nunca funcionou. O aplicativo gov.br também não funciona, ele sequer apareceu na lista quando pesquisei na Play Store. Aplicativos com histórico de bloqueio em ROMs “customizadas”, como Netflix e afins que precisam de um certo controle das funções do celular, apareceram normalmente para serem instalados. O WhatsApp deu uma chiada dizendo que não daria suporte, coisa que nenhum app de banco fez.

O que me deixou um pouco frustrado foi o fato de o Google ter alguns cartões de crédito meus cadastrados na minha conta, mas eu não conseguir usá-los pra pagamento com NFC. O pagamento pelo Google Pay continuou funcinando, ou seja, ainda consegui usar estes cartões no Ifood, por exemplo. Os apps do Mercado Pago, Banco do Brasil, Picpay e até o Nubank oferecem, cada um, uma solução que premite o pagamento em NFC por meio do app deles, mas o Google wallet desabilitou compltamente a função de pagar com os cartões. Ele inclusive sequer me deixa cadastrá-los na carteira.

Por outro lado, consegui compensar isso voltando a praticar a ideia de descentralização, ou seja, de não concentrar em um lugar, ou aparelho, minhas identificações, cartões, etc. Inclusive voltei a usar ativamente meu aparelho antigo, no qual eu deixo algumas contas de banco, pra poder acessar a conta gov.br, e passei a dar importância, de novo, à minha carteira e ao dinheiro em papel. Isso me deu até certo fôlego e me fez reparar de novo no quanto a conveniência pode ser perigosa.

O principal motivo da minha mudança de volta a Rom Stock é a câmera. Comprei esse celular principalmente por causa da câmera. Nenhum aplicativo, nem os ports da câmera dos Pixel (GCam – Google Camera), são capazes de utilizar a câmera com resolução acima dos 16mb nesse celular. Nem o que vem instalado no celular consegue usar todo o potencial do hardware dos sensores e das lentes. Só a câmera da MIUI consegue. Além disso, algumas funções extras como Astrofotografia e outras frescuras, que costumo usar com certa frequência, são muito difíceis de serem adaptadas ao celular com outros aplicativos de câmera, e por conta disso existem várias versões da GCam com ajustes diferentes. Tanto que o recomendado é ter mais de uma versão da GCam instalada e usar o aplicativo mais adequado pra cada função extra que deseja, tipo, uma versão melhor adaptada pra astrofotografia, outra pra câmera noturna, outra pra filmagem, etc. 

Quando o celular quebrar alguma coisa que o torne inutilizável no dia-a-dia, ou se algum app essencial deixar de funcionar nele devido a sua versão de Android, o que é bem comum,  talvez eu o transforme do celular de banco com a Lineage.

Me impressionei com:
– A aparência;
– A fluidez;
– O controle sobre os acessos que os aplicativos têm aos recursos do celular;
– A ausência de qualquer tipo de bloatware, e como que pude escolher a dedo quais aplicativos do Google eu queria/precisava no celular. 

Me incomodei com:
– A lentidão que alguns apps apresentaram ao serem executados pela primeira vez;
– O consumo exagerado de bateria, caso eu esquecesse de gerenciar os aplicativos abertos;
– Algumas áreas de toque que não respondiam bem, em momentos bem específicos, em com alguns aplicativos;
– Toda vez que precisei alternar entre os dados móveis dos chips, foi preciso entrar nas configurações e alterar o chip padrão. Até tem uma opção de usar a rede com maior velocidade, mas não ter essa escolha manual facilitada me pegou bastante.

Bugs:
– Algumas vezes os aplicativos ficam com uma tela preta se forem “minimizados” com a ação de “mostrar aplicativos abertos”, forçando a fechar e abrir o aplicativo pra continuar usando;
– Controlar o tempo de um vídeo fica difícil se a função de gestos estiver ativada no celular (ao invés de usar os três botões: voltar, Home, e apps abertos);
– Já tive que reiniciar o celular porque bloqueei a tela enquanto um app esperava uma ação: a tela de bloqueio não permitia que fizesse qualquer gesto e a digital não reconhecia, enquanto a ação não era concluída (acho que era pra digitar alguma coisa num campo específico lá), e por contrapartida, não realizar a ação pois a tela estava bloqueada.

12 comentários

12 comentários

  1. Não funcionar o app do governo é uma questão muito séria. Com a digitalização de serviços para o cidadão isso é um sinal muito complicado. Precisamos de soluções que contem com a participação do prórpio governo para possibilitar verdadeira liberdade e soberania de dados.

  2. Sempre fui adepto de instalar Custom ROM, isso desde meu Galaxy S2. Mas vi que ultimamente está impossível usar custom devido as restrições de bancos e pagamentos por aproximação. Isso me desanimou e meu novo Android (POXO X6 Pro) já nem penso mais em passar por esses perrengues. Uma pena pois gostava demais da leveza e simplicidade de ROM AOSP.

  3. Victor, parabéns pelo relato tão bem descrito! Tem gente (como eu) que realmente aprecia esse tipo de informação, e nesse nível de detalhe. :)

    Uma pergunta: você já experimentou alguma GSI? Tem essa aqui bem conhecida: https://github.com/TrebleDroid/treble_experimentations/releases

    A ideia é oferecer uma versão do Android o mais próximo possível da feita pelo Google, porém se a tralha toda de telemetria e caos do tipo. Então, por exemplo, eles não mexem em temas nem customizações do tipo. É bem cru mesmo. É o sistema que uso no meu modesto Moto G52 já há 3 anos — porém parei no Android 12 porque, você sabe, quanto mais se atualiza, pior fica, hehehe!

    O desafio de uma GSI é tornar o sistema genérico o bastante pra funcionar em qualquer celular. Coisa que o Google nem se propõe a fazer, delegando a parte de drivers e funcionalidades específicas pros fabricantes de cada marca/modelo.

    Eu nunca fui a fundo pra saber se esse projeto deixa o Android o mais capado possível para um uso normal. Um bom indicativo, talvez, seja comparar o tamanho da imagem com projetos como o LineageOS. Esse mundo bloatware é muito cansativo, não é mesmo?

  4. Obrigado pelo relato! Tenho um Redmi 9 e, como é “filho único”, nunca me arrisquei. Pesando prós e contras, acho que não vale o esforço. Sinceramente, acho que na próxima compra, vou arrumar um dumbphone ou algo como o CAT S22 Flip. Pois é frustrante usar aparelhos com hardware relativamente bom com sistema tão ruim. Sem contar a falta de privacidade, poluição visual e excesso de estímulos.

    1. saindo do contexto aqui. mas com um dumbphone da pra usar whatsapp?
      pergunto pq simplemente nao da mais pra usar rede de voz por causa de spam. e ngm mais atende ligação justamente por causa do spam, como faz?

      1. É possível, mas improvável. Aos 14:50 deste vídeo há um teste no “WhatsPlus”, sem sucesso. São apps não-oficiais que podem ser descontinuados a qualquer momento.

        Comprei um Nokia 110 4G igual ao do vídeo, mas não veio com o app instalado. Aqui , conto minha breve “saga” até pegar um dumbphone. Deixando claro que não pretendo substituir o Smartphone.

        Quanto à comunicação, é aquele ditado: cada um sabe onde seu calo aperta. Mas digo uma coisa: WhatsApp tem muito spam também e tenho uma tese que grupos e / ou apps que consultam a agenda de nossos contatos são responsáveis por vazar nosso número para os spammers.

  5. Por concidência também vou embarcar no mundo das custom ROMs novamente depois que meu tablet novo chegar hoje (no meu Xiaomi Note 8)
    Mas queria mesmo que ele tivesse suporte a alguma distro Linux
    Meu maior receio era os bancos, não sabia que o Nubank e o PicPay aceitam elas de boa
    O Caixa Tem acho que não tem jeito pois nem opções do desenvolvedor ativa ele aceita
    A primeira que vou tentar é a do Project Infinity X

    1. O Caixa Tem funciona normal, mesmo com as opções de desenvolvedor ativado.

      1. Tenho dois xiaomi e ambos bloqueiam com o modo desenvolvedor ligado.

        Caixa normal é engraçado pq uma vez liguei o modo desenvolvedor e esqueci de desativar. nisso o app normal ficou um bom tempo usando normal. só uma vez que abri o caixa tem e ai os dois alertaram o modo desenvolvedor.

        pior que só uso ele porque gosto de que fique ligado o “mostrar toques”

  6. Bom relato. Nos lembra como o android é open source de mentirinha: um monte de coisa não funciona bem ou de forma alguma sem o código proprietário do fabricante, do google ou de algum terceiro

  7. Legal seu relato, Victor! Obrigado por compartilhar.

    Não existe uma versão instalável do aplicativo de câmera da MIUI, a exemplo do que fazem com o GCam?

    1. Pior que não. Essa parece ser uma frustração comum ao ponto de alguns mantenedores criarem alguns ports do aplicativo da câmera dos Xiaomi que tem AOSP de fábrica, mas infelizmente não adaptaram para os que vem com MIUI, como no meu caso.