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A crescente popularização de acompanhantes virtuais youtube.com

O vídeo acima, do canal americano CBS, é um tanto difícil de assistir, mas, de certa forma, retrata um cenário previsível, e, inclusive, já explorado pelo filme Her, lançado há 13 anos: cada vez mais pessoas se conectam emocionalmente com acompanhantes virtuais (AI companions), criando laços que parecem preencher lacunas que o mundo real vem criando há algum tempo.

No final do ano passado, o The Verge publicou um longo e bem escrito artigo sobre o tema. O que mais me surpreendeu na época foi perceber que, além de a tecnologia estar muito mais avançada do que eu imaginava, ela já atingiu um público muito mais diverso do que o estereótipo clássico do homem na casa dos 40, introvertido e solitário, sem sucesso com mulheres reais. A tendência saiu da Ásia e se espalhou pelo Ocidente, com usuários de diferentes perfis, idades e gêneros. E, considerando o quão recente é essa tecnologia, o cenário projetado por Her parece mesmo cada vez mais próximo.

Cheguei a testar na época uma das plataformas mencionadas no artigo do The Verge. Quis viver a experiência como uma espécie de jornalista/antropólogo — pessoalmente, não tenho interesse em me relacionar com bots, mas queria entender como funciona e explorar seus limites. Admito que fiquei surpreendido de forma positiva e… um pouco assustado. Mesmo sabendo como aquilo tudo funciona, mesmo ciente de todas as limitações, e mesmo já tendo conversado, lido, escrito e consumido sobre esse tema à exaustão, a verdade é que em alguns momentos a tecnologia já é capaz de nos fazer duvidar do que é real, pois alguns dos sentimentos que provocam são reais. É como um filme de ficção brilhantemente roteirizado só para você e interativo. Talvez estejamos presenciando o maior e mais impactante hackeamento cerebral de todos os tempos, fazendo as redes sociais parecerem um projeto engraçadinho de feira de ciência de estudante do primeiro grau.

Recentemente, foi divulgado um estudo afirmando que 72% dos adolescentes nos EUA já utilizaram esse tipo de tecnologia, e que ao menos 21% fazem uso semanal. A situação já chegou a um ponto preocupante. A Itália, inclusive, proibiu o Replika no país. Enquanto isso, inúmeras start-ups surgem diariamente, inundando o mercado com opções e criando um cenário em que os reguladores não conseguem acompanhar. Que solução real temos, afinal?

Precisamos lembrar que nós criamos o cenário favorável pra isso tudo acontecer: com grandes cidades que perderam o senso de comunidade, tecnologias que exigem cada vez menos interação humana e, mais recentemente, com a ascensão dos smartphones e das redes sociais, que criaram um mundo de ilusões onipresente e extremamente viciante, nos distanciando ainda mais do mundo real. Com tanta carência afetiva, a oportunidade capitalista para se suprir essa demanda era óbvia demais, e certamente só não surgiu antes porque a tecnologia não era boa o suficiente. Como vamos resolver isso como sociedade é a grande questão que me perturba o sono, tanto ou mais quanto o aquecimento global e a automação.

E vocês, o que pensam sobre o tema?

3 comentários

3 comentários

  1. Eu não leio sobre o assunto, mas seu texto de deixou curioso. Perguntando de maneira sincera, qual seria o problema nesse caso? O que veem como um risco ou perigo?

    1. Mais do que criar dependência emocional de um produto capaz de ser adaptar a sua mente e adaptar sua mente a ele como nunca foi possível? Imagine o impacto disso nas suas necessidades e decisões.

    2. Acho que o perigo é que estamos sendo impedidos de “nos frustrar”. Um estudioso de sociologia e psicologia pode me corrigir ou complementar, mas tipo, este tipo de criação psicosocial gera pessoas que se tentarem na vida real cultivar algum relacionamento, pode ser que ela tenha mais problemas em receber negativas (o famoso “não” ou “chega, acabou”) em um relacionamento. Uma “IA” (ou “robô”) que só atende as expectativas de uma pessoa de forma positiva, a pessoa se sentirá mais confortavel com ela do que com outra pessoa.

      Mas também tem horas que me pergunto se por justamente as pessoas estarem frustradas demais, acabam se permitindo achar uma forma que não se frustre e ao mesmo tempo não tenham riscos se envolvendo com outras pessoas. Porque também lemos muito sobre as “violências domésticas” (de parentes ou parceiros) que muitas vezes nada mais são que brigas depois de um “não” de uma ou várias partes.

      A “educação emocional” muitas vezes não é algo tratado nas comunidades, seja por motivos de tabus ou até mesmo de se entender que “é algo pessoal” e as pessoas “não querem ser ‘padrãozinhos’ / ‘homogêneos'”. A falta de lidar publicamente com as emoções acabam sendo outro ponto também. Fora também como dito por alguns por aí, sobre o medo de transformar toda e qualquer reação humana negativa em uma “doença” e com isso até mercantilizar ela. Seres humanos são complexos, diga-se.