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A banalização da violência em Round 6

Nas últimas semanas eu assisti duas séries que amigos próximos e minha companheira não quiseram ver porque eram muito “muito pesadas” (palavras deles)

Os dois seriados em questão eram Arcanjo Renegado e O Jogo que Mudou a História, ambos do Globoplay.

Os efeitos especiais mais simples de Arcanjo Renegado distância o espectador da brutalidade dos tiroteios, apesar do protagonista ainda executar alguns personagens com faca e as cenas de tortura.

Já em O Jogo…, o pano de fundo prisional, as armas improvisadas e o excesso de sangue deixam claro a crueldade dos assassinatos e as condições de tratamento demonstradas na série desumanizam completamente as personagens, tornando, na minha opinião, uma experiência bem mais visceral.

De qualquer forma, sinto que as duas séries nos aproximam mais da violência real que conhecemos, a que vemos nos jornais diariamente e das histórias que escutamos sobre crimes cruéis. Vale lembrar que ambas são dramas e suspenses com quase nada de comédia.

Agora tivemos o lançamento de Round 6. Estamos todos falando sobre isso, nas redes sociais tudo sobre a série virou meme. Parece que esqueceram da violência da série. Mortes arbitrárias de quem falhou nos jogos infantis.

E as mesmas pessoas que não gostaram da duas séries que indiquei por, supostamente, o excesso de violência, estão assistindo Round 6. Parece que as mortes em massa com metralhadoras e o sangue jorrando não são mais tão hostis. Escolher matar outras pessoas por dinheiro não é tão “pesado”.

Inclusive, muitas crianças e adolescentes acompanham a série com o aval do pais, que, de alguma forma, não acham que o seriado seja prejudicial para eles.

Qual a opinião de vocês? Por que vocês acham que a sociedade, pelo menos a audiência de Round 6, não assiste a série com a violência que ela carrega, mas algo leve, engraçado e potencial para memes?

Deixem suas batat… digo, suas considerações nos comentarios!

5 comentários

5 comentários

  1. Eu tenho pensado muito nisso, eu adoro assistir animações ditas adultas, como Love and Robots, Cowboy Bebop, Death Note e afins, mas fico pensando que esse tipo de produção pra se justificar e se livrar do estigma de adulto vendo desenho, apela muito pra violência, e eu tenho percebido muito isso em produções, parece que a violência imprime um tom adulto e sério para as coisas, só que isso também vai nos cansando. Eu tenho procurado coisas mais leves para ver, já assisti quase todo catálogo do Studio Ghibli heheh mas aceito recomendações de filmes, séries e animações mais leves, mas que mantenham qualidade. Na literatura tem uma escritora que eu adoro que consegue esse resultado, chama-se Ursula K. Le Guin.

    1. Acho que a violência em alguns destes itens que você falou são até leves perante outros trabalhos. Cowboy Bebop é como uma série de ação e Death Note um thriller policial sobrenatural. A violência em ambos os casos é parte do tema mas não dita a história totalmente.

      Sou uma pessoa mais de animação japonesa, se quer algo leve te recomendaria assistir e ler Spy x Family (que é uma trama de detetive mas bem comédia), Sand Land (um dos últimos trabalhos do Toriyama, mas que é excelente crítica social onde os demônios são melhores que os anjos), Diários de uma Apotecária (que é uma comédia romântica com tom detetivesco) e Shiba Inu Rooms (que não tem animação ainda, é um mangá recente e bem divertido que conta a história de uma casa recheada de almas de cães Shiba). :)

      Me lembrei de uma série antiga chamada “Midnight Dinner”, que acabei gostando, não contém violência e é bem legal de assistir devido ao roteiro, como cada história se desenvolve legal. E ontem assisti na TV Brasil uma série chamada “Minha Estupidez”, onde a Fernanda Torres entrevista algumas pessoas e a partir do tema da entrevista gera esquetes de humor. Ontem por exemplo se falava sobre a questão climática, não prestei atenção no nome do entrevistado, mas era uma ótima entrevista e a esquete, salvo engano, foi feito no estilo “não olhe para cima” (o filme sobre os cientistas )

  2. Acho q é mais sobre espetacularização né. Tem a violência mas é um fator distante, uma premissa fora da realidade e acho q o efeito coletivo ajuda tb, de querer ver e querer estar por dentro do que acontece… Aí a violência fica secundária e perde um pouco do impacto

  3. aviso: um comentário anticapitalismo refletindo sobre o post, começando por essa citação:

    “Escolher matar outras pessoas por dinheiro não é tão ‘pesado’.”

    Não seria assim no capitalismo, quando querendo ou não escolhemos os políticos que se rendem ao mercado, e o mercado pressiona o governo a ter um teto de gastos, e que por consequência corta insumos para programas sociais de inclusão dos menos favorecidos? Ou quando a bolsa está na alta histórica e mesmo assim grandes empresas fazem demissões em massa, deixando muitos em insegurança alimentar e de moradia para maximizar as ações dos investidores, e aos poucos matando quem foi obrigado a entrar nesse jogo da sociedade?

    Também outras citações interessantes:

    “Parece que esqueceram da violência da série. Mortes arbitrárias de quem falhou nos jogos infantis.”

    “Inclusive, muitas crianças e adolescentes acompanham a série com o aval do pais, que, de alguma forma, não acham que o seriado seja prejudicial para eles.”

    Desde pequenos já somos condicionados a fazer parte do jogo (leia-se: capitalismo) através de muitas brincadeiras competitivas e de uma formação escolar do melhor preparo para vencer “concorrentes no mercado de trabalho”.

    Eu tenho a inocente esperança que as pessoas percebem que a história de round 6 é uma analogia ao sistema massacrante que nós vivemos, talvez por isso não se incomodem com a dita violência, pois ela é simbólica ao que vivemos diariamente como consequência desse sistema, mesmo que não consigam dar o nome ao tal jogo que a maioria de nós somos forçados a jogar.

    Talvez essa seja a razão pela falta de aversão, de ver ludicamente numa história fictícia a tentativa de pessoas tentando vencer, muitas tentando defender e poucas tentando acabar esse sistema. E isso deve trazer algum alívio momentâneo, um “e se…”

    Enfim, há muitos elementos em round 6 simbólicos ao capitalismo (pessoas são identificadas como números, entram em competições para fazer qualquer trabalho sem importância social direta e torcem pra não morrer no processo mas também torcem para que outros morram, assim sobram mais “oportunidades” e “fatias do bolo pra quem fica”, e nesse processo se desgastam e acabam até recusando uma ajuda momentânea (um pedaço de pão, ou um programa de inclusão social, para se ter o mínimo das necessidades básicas atendidas) pela ilusão de ganhar num jogo feito para se perder (trocando por uma loteria, ou o que na está moda hoje: as bets). E deve haver muito outros pontos na série traçando essas semelhanças.

    Pra concluir, vejo que é através da arte a forma que as massas conseguem abraçar uma causa, e não atoa, essa produção é do mesmo país que venceu o Oscar com o filme Parasita, outra obra crítica ferrenha a ilusão de que no capitalismo todos conseguem comprar uma casa. (e o caso recente do agora deposto presidente da Coreia do Sul declarar lei marcial contra “forças anticapitalista” serve como mais um sinal do que essas obras estavam avisando, e que a prosperidade capitalista apresentada no KPOP é só fachada)

    1. Salvo engano já falaram que realmente o roteiro de Round 6 / Squid Game foi feito para ser uma sátira do sistema capitalista (exemplo de crítica aqui https://www.telegraph.co.uk/tv/0/squid-game-season-two-capitalism-the-white-lotus/ ), e em partes também do sistema de “castas” que a Córeia do Sul tem, dado que o país tem um sistema hierárquico social que gera muita disfunção. A Córeia do Sul tem esta questão também das divisões sociais que as mídias tentam quebrar (“Parasita” também é nessa linha, lembrando).