O Wall Street Journal teve acesso a documentos, pesquisas e mensagens trocadas entre funcionários do Facebook. Fez uma série de reportagens devastadora — “The Facebook Files” —, publicando uma por dia ao longo da semana. Graças a esse material, soubemos que o Facebook:
- Tem regras à parte para uma elite de pouco menos de 6 milhões de usuários;
- Sabe, por pesquisas científicas internas, ser a causa de distúrbios psicológicos graves em 1/3 das meninas adolescentes que usam o Instagram;
- Tentou tornar o feed mais saudável em 2018, mas fracassou e quando as mexidas no algoritmo ameaçaram o engajamento, priorizou o engajamento;
- Deu respostas fracas a alertas de funcionários de que a rede estava sendo usada para tráfico de seres humanos, recrutamento em cartéis de drogas, incitação à violência contra minorias e outros crimes graves, em especial no hemisfério Sul;
- Serviu de plataforma para negacionistas da pandemia de Covid-19.
No Twitter, Andy Stone, porta-voz do Facebook, afirmou que o Facebook “tem mais especialistas e recursos dedicados a este trabalho [de moderação] que qualquer outra empresa de tecnologia do mundo”.
É bem provável que isso seja verdade, e que o próprio Andy e muitos desses especialistas que ele cita tenham as melhores intenções do mundo. Só que esse povo não apita nada lá dentro. A diretoria do Facebook, em especial o CEO, Mark Zuckerberg, já demonstrou em inúmeras situações quais as prioridades da empresa — não é o bem-estar dos usuários. E, vale o questionamento, se nem com todos esses recursos o Facebook consegue criar ambientes digitais saudáveis, talvez seu modelo seja inerentemente quebrado. Via Wall Street Journal (em inglês, com paywall).
Essas são coisas inerentes ao ser humano, andamos dando muito bola pro meio (redes sociais) e nos esquecendo do cerne do problema que é a psique das pessoas.
3 mil anos atrás o budismo já falava sobre isso, na figura do Buda Shakyamuni:
– Descentralização. Perceber as necessidades alheias. Regozijar com as conquistas e posses dos outros.
– Autoconhecimento. Reconhecer constantemente as limitações e características dos nossos próprios pontos de vista. Quando olhamos para alguém, filtramos e classificamos essa pessoa segundo nossos próprios valores, inseguranças e expectativas.
– Meta-conhecimento. Estudar a mecânica do pensamento. Ou seja: como as ideias se formam, como nos apegamos a elas e como elas nos dominam.
– Contentamento. Cultivar a aceitação dinâmica daquilo que você é. “Dinâmica” porque mudamos o tempo todo, assim como as circunstâncias sociais que nos influenciam. Assim, não há um eu fixo e concreto que tenhamos que aceitar ou ao qual devemos nos resignar.
– Relaxamento. Abandonar a dualidade conformismo versus luta: uma metáfora mais adequada seria a da dança, uma constante renegociação com os ritmos da vida.
Isso não quer dizer que não tenhamos que modificar as redes sociais e fechar o cerco contra os bilionários, mas, indica que esses sentimentos são uma questão inerente aos humanos. A tecnologia não tem tanto poder assim sobre a gente, ela serve apenas como um megafone.
Oi Rodrigo Ghedin e equipe do Manual do Usuário!
Acho que vocês irão gostar do podcast Sudhir Breaks the Internet (https://freakonomics.com/sudhir-breaks-the-internet/). É sobre o sociólogo Sudhir Venkatesh que passou alguns anos trabalhando no Facebook e Twitter, tentando entender porque tantas pessoas usam essas ferramentas de forma tão tóxica, e o que essas empresas podem fazer para lidar com isso. Ele conta dos aspectos sociológicos, tecnologicos e culturais de porque é um problema tão dificil de se resolver.
Ah, e claro, conta que quando as ideias que ele e o time propuseram iriam impactar nos negócios, essas ideias foram deixadas de lado.
Nesse tema eu também gostei de ouvir o Jimmy Wales, https://tim.blog/2021/08/24/jimmy-wales/, em como ele fez a Wikipedia ser um site com colaboração de tantas pessoas ser um ambiente muito mais acolhedor e amigável do que as grandes redes sociais. Vai desde não ter o botão curtir, até criar ferramentas que permitam que a própria comunidade se auto-modere.
Curto muito o trabalho de vocês. Abraços!
Onde está escrito que as pessoas são obrigadas a usar o Facebook e Instagram?
Não encontrei em lugar nenhum.
Ainda assim, mais de 2 bilhões de pessoas usam Facebook e Instagram. Mesmo que você opte por não usá-lo, eles interferem na sua vida. Na de todo mundo.
Na real, não entendi muito bem a provocação do seu comentário, André. Minimizar a influência da empresa Facebook é miopia ou ingenuidade, mais ou menos como dizer para alguém “você não é obrigada a ter carro” quando esse alguém reclama do preço do combustível.
Álcool faz mal.
Ainda assim, mais de 3 bilhões de pessoas admitiram ingerir bebidas alcóolicas. Mesmo que você opte por não usá-lo, eles interferem na sua vida. Na de todo mundo. (bônus: diferente do facebook, álcool causa mortes diretas).
Na real, não entendi muito bem a resposta, Ghedin. Minimizar a influência do álcool é miopia ou ingenuidade.
Ninguém é obrigado a ingerir álcool. Mas usam.
Ninguém é obrigado a usar facebook. Mas usam.
O facebook, a indústria do álcool, a indústria do fumo, nunca visaram o bem-estar dos seus usuários.
Enquanto tiver alguém comprando, vai ter alguém vendendo.
Querer que o facebook seja bonzinho, seja pró-humanidade, é o mesmo que exigir a mesma coisa da indústria do álcool e do cigarro. Não vão. Quando muito, governos poderiam proibir o uso por menores. (Aliás, o próprio facebook exige que seja maior, até onde eu sei, as crianças usam burlando a regra e cliacando aceito em tudo). Mas como o governo não vai fazer isso, cabe aos pais educarem os filhos. Steve Jobs não deixava sua prole usar iPads e iPhones.
PS: Eu não quero provocar ninguém, só dar outro ponto de vista.
Disse “provocação” no bom sentido :)
Acho que aqui a gente concorda! Eu também acredito que o Facebook não tem como principal interesse o bem da humanidade, por mais que a comunicação deles tentem passar essa mensagem. Revelar as práticas internas do Facebook que contradizem essa “missão” institucional é nosso papel. Não é como se eu esperasse que as pessoas desistirão de usar o Facebook após ler as reportagens do Wall Street Journal ou o Manual do Usuário; nosso objetivo é mostrar o que acontece, contextualizar e, nesse caso, expor a hipocrisia do Facebook.
Sobre o exemplo que usou, discordo da equiparação do álcool ao Facebook (álcool muito melhor, haha!). Na real, discordo da própria ideia de que o Facebook é uma força completamente “do mal”. Essa abordagem, uma maniqueísta, achata o debate. Embora quase não use hoje, e de todos os problemas diretos e indiretos, percebidos ou não, o Facebook proporcionou alguns momentos legais. Digo o mesmo do álcool — nunca coloquei a vida de ninguém em risco após beber, e gosto de beber.
Acabar com o Facebook é um caminho? Sim, porém acho inviável e, talvez, um caminho ruim. Falta uma regulação pesada e mudanças estruturais profundas. Talvez ao final desse processo saia uma empresa (ou várias) irreconhecível, enfim. O que quero dizer, no fim das contas, é aquela velha máxima de que problemas complexos não se resolvem com soluções simplistas.
Nossa, encontramos a solução pra toda essa problemática do Facebook. Vamos dizer à todas as pessoas que elas não são obrigadas a usar o Facebook e Instagram que as pessoas automaticamente se conscientizarão e deixarão de usar essas redes sociais, e Mark Zuckerberg vai com certeza se empenhar em deixar esses apps melhores e se distanciar desses problemas.
Funcionou com o cigarro. Governos fizeram intensa propaganda contra, e a população que fuma hoje em dia é muito, mas muito menor do que antigamente.
Funcionou porque o governo intrometeu. Seu post original meio que passou a mensagem “deixa o zuckerberg fazer o que quiser”
E eu fico imaginando o governo de um lado alertando a população acerca dos malefícios do cigarro e, do outro lado, pessoas falando “onde está escrito que as pessoas são obrigadas a fumar? fuma quem quer, ninguém é obrigado”.
Exato! Ninguém é obrigado a fumar. Ninguém é obrigado a usar o instagram. Mas enquanto tiver gente fumando, vai ter empresa vendendo cigarro. Enquanto a galera usar facebook/instagram, vai ter facebook/instagram.
Não dá pra esperar que a indústria do cigarro faça propaganda contra o cigarro. Não dá pra esperar que o instagram faça algoritmos que não prendam a pessoa naquele app ridículo.
Mas ninguém é obrigado. As pessoas estão lá pq querem. Esse o ponto.
@André,
Não posso falar por todos, mas acredito que, da mesmo forma que não se esperava que a própria indústria do cigarro se autorregulasse, ninguém espera que o próprio Facebook resolva seus problemas de boa vontade.
O que se advoga é por uma regulação séria dos governos e por uma conscientização muito maior acerca dos malefícios provocados pelas redes, como feito com outras indústrias nocivas.
Ao defender que “usa quem quer”, você diz que esse é um problema individual, não coletivo, que o Facebook pode fazer o que quiser e que nós (e os governos) não devemos nos meter nisso. Por outro lado, você usa o exemplo da indústria do cigarro, que foi tratado como o exato oposto disso (ou seja, como um problema coletivo que precisou de intervenção da sociedade e dos governos).
Então, afinal, o que você defende? Que esse é um problema individual no qual o coletivo não deve se meter, ou um problema coletivo que precisa de regulação e de contrapropaganda?
O governo não proibiu.o cigarro. Hoje fuma quem quer. Claro, desde que maior de idade. Só fez propaganda dos malefícios. O que vcs querem é regular a internet, dar o poder à um grupo de pessoas de dizer o que pode e o que não pode. Isso é errado. Agora, consicentizar, aí sim, sou a favor, inclusive esse blog faz muito isso.
@ André
Engano seu. O papel do Estado não foi de apenas conscientização — e isso vale para todas as indústrias. Existem parâmetros mínimos em diversas esferas — sanitária, publicitária, tributária, logística etc. Até a restrição a menores, que você menciona, é uma interferência.
O “grupo de pessoas” que detém esse poder somos nós, ora. Que ideia maluca essa de que o Estado é um grupo apartado do todo… Eles nos representam, mesmo que vez ou outra essa representação seja bem deturpada.
Entendo seu ponto de vista, e concordaria um tempo atrás. Certamente tenho tendências libertárias também. Mas se algo é uma ameaça à democracia que tendências mercadológicas não conseguem suprimir, devemos deixar que a liberdade individual — que nesse caso parece estar oposto aos interesses da sociedade — irrompa com a democracia, o Estado de direito e o próprio bem estar dos indivíduos?
Existe o contra-argumento do “o estado sabe mais do que é melhor pra mim do que eu mesmo?”, mas, com ciência, esse não é mais um caso absurdo. Se déssemos cocaína à crianças provavelmente veríamos um mundo diferente; enquanto essa decisão foi óbvia — movida pelo bom senso — a do Facebook é mais difícil, mas com bons estudos podemos trazer isso à luz do bom senso também.
O que é uma opinião?
Também não está escrito em nenhum lugar que todo rico precisa ser um cretino — e mesmo assim todo rico é um cretino.
É a vida, né?
Desculpa, sou leitor do MdU de longa data e pra mim, peão chão de fábrica, você e riquinho :)
Do meu ponto de vista o MdU, apesar do ótimo trabalho do Ghedin, ainda é um blog sobre tecnologia, assunto que é relativamente exclusivo das classes altas e de homens brancos.
Chuto que uns 90% da audiência do Manual é de classe A pra cima (ainda que não se enxerguem assim). Não são ricos, mas comparados com o povo brasileiro, são muito mais ricos. Basta ver que normalmente as preocupações são secundárias em relação as questões mais urgentes da sociedade. Alguma vezes até beiram a ingenuidade. Mas mesmo assim, a luta contra bilionários, uma barracão sistêmica do capitalismo, se faz necessária, nem que seja para marcar uma posição social e pessoal apenas.