Tenho pensado em como aplicativos de mensagens de texto, como WhatsApp e Telegram, se transformaram na UI/UX dominante para resolver problemas, organizar eventos, dialogar com empresas e outras interações sociais.

Há muitos méritos nesse paradigma; o maior deles, acho, a acessibilidade. Por outro lado, será que não estaríamos melhores lidando com mais interfaces, cada uma adequada à demanda em questão?

Ligações telefônicas, por exemplo, são mais humanas e mais eficientes para resolver mal-entendidos e pequenos gargalos no dia a dia. E-mail, fóruns baseados em tópicos, sites bem feitos para e-commerce… tudo isso caiu em desuso ou perdeu muito espaço para balões de texto e grupões no WhatsApp.

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28 comentários

  1. Vale lembrar que há muito tempo. Em alguns países da África já se fazia muito do que fazemos pela internet apenas com torpedos e SMS.

  2. Isso de “será que não estaríamos melhores lidando com mais interfaces, cada uma adequada à demanda em questão?” me lembra a filosofia Unix de “faça apenas uma coisa e faça bem”. Essa simplicidade na concepção, bem antes do código, traz alguns benefícios que até hoje nos beneficiamos.

    O problema real aí é que tudo está regido sob a óptica capitalista. O que eles precisam é que a marca caia na boca do povo, daí pra frente é só lucro com “dark pattern”.

    Ficaria muito feliz se o governo (em todas as suas esferas) promovesse a criação de aplicativos pra resolver a vida da população, tipo um aplicativo pra enquetes; outro de calculadora; ou quem sabe até mesmo um calendário; só que não acho que isso vai acontecer, é muito de esquerda, pra não dizer utópico, pensar nessas coisas.

    1. Tem algumas coisas parecidas com o que você mencionou, como o portal de proposições do Senado, onde qualquer cidadão pode votar/opinar, e calculadora do cidadão, do Banco Central, para atualizar valores de acordo com diversos índices.

      São aplicações específicas, porém. Não sei se atribuir soluções mais genéricas ao Poder Público seria uma boa. Para mim, o melhor caminho é o software livre — mantém o controle difuso e longe da burocracia estatal, e ao mesmo tempo longe dos incentivos destrutivos do ~mercado.

  3. Assinar texto, não só em imagem, ajuda a não propagar fake news

  4. A pior coisa do uso de mensageiros instântaneos para tudo é o permanente estado de hipervigilância que acabamos vivendo… não é saudável no médio e longo prazo para nossa saúde mental.

    Um pouco de assincronicidade e vida mais lenta é bem desejável e saudável!

  5. Como nao preciso mais trabalhar com TI eu não me importo nem um pouco com os “problemas” que alguns relataram….. Até penso que o whatsapp (a ferramenta) é realmente muito boa para resolver pendências simples, assim não perco tempo com ligação ou deslocamento.

  6. Sou contra esse uso do WhatsApp.

    Gera: excesso de informalidade, conflitos no nível pessoal e ineficiência em muitas situações.

    Exemplo: marcação de consultas/exames. Há casos em que você pega uma “fila”(!); se chegar a vez e não responder em 2 minutos, o chat é encerrado. Ao ser atendido, precisa passar, de forma serial, informações redundantes que já constam no cadastro do sistema (ou que já informou no próprio chat). O email é uma ferramenta muito mais eficiente neste caso, bastam: dados, nome do procedimento, anexar alguma guia e dizer a disponibilidade de dias e horários.

    Por outro lado, muitos fatores forçam essa “lógica”.

    1º) Acesso à internet. Muitos brasileiros o tem somente através de pacotes de dados para apps de uma ou mais big tech da GAFAM.

    2º) Falta de um PC. Mesmo com acesso pleno à internet, sites podem não carregar corretamente em smartphones. E o pior: refresh de formulário devido à pouca RAM no aparelho, ao alternar, para acessar uma anotação ou pegar algum código recebido em SMS.

    3º) Precarização do trabalho. Tenho uma tese de que a ineficiência ou ausência de sagacidade de muitos atendentes é fruto de:

    A) Multitarefa. Exemplo: uma pessoa que atende pelo WhatsApp, telefone fixo e também presencialmente num balcão; e

    B) “Self-Servização”. Gerar, deliberadamente, serviço de péssima qualidade e, como “solução”, ofertar alternativas mais “práticas” como o auto-atendimento através de algum app proprietário (e bugado).

    Com isso, mais uma vez, cortam-se os custos com mão de obra de empregados e faz com que o consumidor trabalhe de graça para a empresa.

    Existem muitas outras questões atinentes ao assunto, fiz apenas um recorte.

    1. Se o WhatsApp fosse uma ferramenta mais completa, com mais recursos realmente úteis (e se não fosse tbm a ganância do menino Zuck), esses problemas não iriam acontecer.

      1. Um WhatsApp mais completo não exacerbaria o problema? Se com ferramentas precárias a galera dá um jeito de usar para tudo, mais ferramentas tornariam a dependência ainda maior.

        Nem é preciso imaginar, basta olhar para o mercado chinês e o WeChat, o “super app” que faz brilhar os olhos dos techbros do Ocidente.

      2. E quando o WhatsApp cai?

        Numa “WhatsAppização” de Serviços Essenciais, seria como a queda de energia / internet (ou o famoso “caiu o sistema” das agências bancárias antigamente).

    2. Chegando bem atrasado aqui, mas preciso comentar: muito preciso esse recorte! É exatamente o meu sentimento com relação a essa “whatsappização” de tudo. Concordo com todos os aspectos, e ainda acrescento um: privacidade. Não esqueçamos que a criptografia fim a fim que o whatsapp tanto alardou é deixada de lado no whatsapp business, em troca de outras funcionalidades. Aliado a todos esses aspectos mencionados transformam o whatsapp num poço de dados sensíveis de todo mundo, sem nenhum tipo de cuidado ou critério. Empresas agora são obrigadas a cumprir com a LGPD e adequar seus sistemas, mas na prática trocam todas as informações, dados, documentos sensíveis, tudo pelo zap

  7. Uma geração que não sabe fazer um ctrl+c e ctrl+v, você realmente acredita que iriam utilizar o e-mail?

    1. Eu realmente não acho que seja algo geracional, ou que seja possível fazer esse recorte por faixa etária. Parece-me um problema generalizado.

  8. Mas pq complicar se o maior benefício dos mensageiros é justamente simplificar?
    Lembre-se que a geração dominante não sabe mais falar ao telefone e odeia receber um “bom dia” (li essas reclamações outro dia no Twitter).

    1. Cara, aqui mesmo no MdU eu já li de pessoas que estão sempre com fones de ouvido pendurados nas orelhas para não ter que falar com outras pessoas. A coisa está cada vez pior, pessoas cada vez mais fechadas dentro de bolhas.

    2. Cuidado com generalizações, João. Não é porque um aleatório falou no Twitter que odeia receber bom dia que esse sentimento é compartilhado por toda uma geração. (Aliás, acho pouquíssimo provável que seja o caso.)

      1. Antes fosse um aleatório. Veja vc mesmo no Twitter.
        No mais, foi vc mesmo quem generalizou no último parágrafo do post.

        1. Hmm, não consigo ver porque não uso Twitter. E daí que veio meu estranhamento — nunca ouvi falar dessa suposta aversão geracional ao “bom dia”. (No geral, tenho ressalvas a críticas negativas a “gerações”.)

  9. Embora eu entenda o ponto, mas acho completamente desnecessário receber um email sobre algo que poderia ser uma simples mensagem de texto.
    Já até comentei sobre isso há algum tempo no PostLivre. O pior é quando um aplicativo de mensagem se propõe a ser tudo em um só e vira um monte de nada. Sim, estou falando de você, Microsoft Teams. 😁

    1. Total! Acho que seu comentário fica dentro do que eu sugeri no post. Se pode ser resolvido com uma mensagem de texto, que se use uma mensagem de texto. O problema são as mensagens de texto que poderiam ser um e-mail — conteúdo um pouco maior, que não necessita de resposta imediata, preferivelmente registrável e que demanda reflexão do interlocutor.

      1. Exato. Normalmente as pessoas usam uma marreta para matar uma barata e um chinelo para derrubar um muro.

        Tenho tido uma experiência interessante combinando as duas ferramentas. Quando o assunto que precisa ser decido pode se resumir a um “concordo” ou “discordo”, temos enviado emails com todas as informações. Quem precisar de mais detalhes, responde por email e faz suas perguntas. A decisão de sim ou não fica disponível numa enquete no grupo do WhatsApp. “Assunto 1 do email. 👍ou👎”. Isso tem facilitado bastante nossa comunicação e tomada de decisões.

        1. “Normalmente as pessoas usam uma marreta para matar uma barata e um chinelo para derrubar um muro.”

          Vou fazer um quadro dessa frase pra pendurar na sala aqui de casa.

          1. kkkkkk gosto de analogias. Essa foi inventada na hora.

            Seria uma frase interessante mesmo para um quadro.

  10. O mais incrível é ver aquelas situações em que a urgência está na cara da pessoa, e em vez de pegar o telefone e *ligar* pro terceiro (seja pelo telefone em si, seja pela função de ligação do aplicativo), o cara vai e escreve uma mensagem, calmamente, pra depois reclamar “pô, mas o outro ainda não me respondeu…”.

  11. Concordo totalmente! Eu odeio ficar preso em vários chats por motivos que não sejam de “bater papo”. Mas acho que é a mesma ideia de planilhas, sabe? Tem um monte de app pra resolver os problemas, mas a planilha é o mais flexível, apesar de não ser a melhor forma na maioria dos casos.

    1. Tenho a teoria de que todo software do mundo pode ser replicado com um editor de texto puro (Bloco de Notas) e planilhas eletrônicas. Talvez devesse acrescentar mensagens de texto a esse rol 😄🥲