Liquid Glass

Grandes reformulações de interfaces gráficas sempre geram estranheza e reclamações. Com o Liquid Glass, a nova linguagem visual da Apple, não é diferente.

A boa notícia é que por baixo dos novos botões, blocos de texto ilegíveis e efeitos modernizados, o jeito de usar sistemas como iOS e macOS não mudou. Quem estava acostumado às versões anteriores conseguirá se guiar nas novas.

Isso não significa que o Liquid Glass seja um acerto. Sob o risco de me contradizer no futuro, acho que a Apple errou.

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Uma grande dúvida que carrego após uma semana usando o iOS 26 e o macOS 26 Tahoe é se os erros e a lentidão são falhas corrigíveis em futuras atualizações ou — em especial a lentidão — efeitos colaterais incontornáveis de efeitos de transparência e refração nas superfícies envidraçadas que, imagino, exigem mais poder de processamento.

Os erros aparecem aqui e ali: menus de contexto que pulam em lugares estranhos, transições de telas erradas, inconsistências e outras coisas do tipo. Nada funcional, mas que quebra a ilusão de fluidez que está no cerne do novo visual. Mesmo caso da lentidão, que vez ou outra aparece em lugares insuspeitos, como o Spotlight e algum comando que deveria ser instantâneo.

E há, também, algo de fundamental que parece quebrado: a ideia de que o Liquid Glass destaca o conteúdo dos apps, promessa feita pela Apple. É o contrário. O Liquid Glass disputa a atenção com o conteúdo; por vezes, chama mais a atenção. Talvez seja o fator novidade, porém.

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Eu nunca comprei a teoria de que a Apple mantém uma política secreta de obsolescência programada. O primeiro contato com a safra 26 dos sistemas operacionais, a primeira com Liquid Glass, abalou essa confiança.

Meus dispositivos são “velhos” (notebook de 2020, celular de 2022), mas, novamente, até então eles rodavam livres de qualquer engasgo. Pode ser que o iOS/macOS 26.1 e subsequentes melhorem a situação, mas a questão não é essa. A pergunta de três trilhões de dólares é por que a Apple sacrificou desempenho e estabilidade por uma mudança meramente estética.

No fundo, o Liquid Glass é isso, uma maquiagem. E uma que, neste primeiro momento, não é das mais bonitas. Há momentos em que os efeitos visuais impressionam, mas eles são menos frequentes do que o marketing da Apple sugere por um simples motivo: em boa parte do tempo e em especial no macOS, os elementos em vidro ficam atrás de áreas chapadas (brancas, no modo claro).

Embora o Liquid Glass passe uma sensação de frescor (pois novidade?), voltar algumas versões o coloca em perspectiva. O macOS, coitado, é o que mais sofre com o Liquid Glass. Compare-o com isto:

Tela de opções do Dock no Mac OS X 10.7 Lion.
Bons tempos que não vivi. (Comecei no 10.10 Yosemite.)

Essa janela é do Mac OS X 10.7 Lion, de 2011. É uma interface mais legível e, para mim, mais bonita.

Desde então, o macOS parece ter caído numa espiral de decadência, fenômeno resumido neste exercício de analisar o sistema operacional para computadores da Apple em ordem reversa, à la Benjamin Button, a personagem do F. Scott Fitzgerald que nasce velho e morre bebê.

Pela primeira vez desde que migrei para os dispositivos da Apple, em 2015, fui procurar como fazer downgrade. Estava (muito) mais satisfeito com o macOS 15 Sequoia e o iOS 18. Acabei desistindo porque, como dito no início, o Liquid Glass é brega e está quebrado, mas no geral as coisas funcionam mais ou menos como antes.

O conformismo não se dá sem algum… ressentimento? Não sei se essa palavra exprime bem a minha sensação; se não, é algo próximo disso. Ao longo dessa década usando sistemas da Apple, a maioria das mudanças me agradou. Até a reformulação controversa das abas do Safari, de 2021, eu abracei e curti. Isso aumenta o desgosto pelo Liquid Glass. É uma rara bola fora da Apple — e de uma magnitude inédita.

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31 comentários

  1. Eu nunca comprei a teoria de que a Apple mantém uma política secreta de obsolescência programada.

    Não é secreta. É simplesmente a lógica de lucro crescente ano-a-ano que exige isso

  2. Pra mim se só tivesse uma opção pra desabilitar o Glass e deixasse tudo Flat Design seria perfeito

  3. A interface do Tahoe parece mais um daqueles temas de devs chineses na lojinha do KDE, e isso não é um elogio.

    Não sou usuário do ecossistema da Apple, mas também fiquei preocupado com o Liquid Glass, já que tudo que a Apple faz vira tendência de design (tinha gente querendo capotar o Jony Ive na rua quando o iOS 7 saiu, mas o mercado segue a linguagem visual dele até hoje) independente de ser bonito ou não.

    Não quero nem ver o crime contra a humanidade que vai ser a One UI 9.

    1. Em celulares acho q vão copiar msm. Mas em PC ninguém liga pra Apple. Por exemplo, a MS tem seu próprio rumo e voltar ao VISTA ñ faz muito sentido a essa altura(W11 é um OS bonito). KDE e demais DE do Linux tbm seguem seu rumo.

      1. É menos descarado que a Samsung, e talvez eu esteja imaginando coisas, mas sempre achei que o Windows 11 bebeu muito do macOS. Até a barra de tarefas foi para o meio da tela, tipo a Dock! Os efeitos de transparência suaves lembram muito os do macOS pré-Tahoe também.

        1. A barra de tarefas centralizada… a única característica “like Mac” marcante q mudou no Windows. Refizeram essa barra de tarefas do zero por conta desse design novo(por isso q até hje ñ dá pra mover ela de posição). Alguém pediu? Não. Kk
          Esse efeito de transparência q vc citou se chama Mica, é baseado no Acrylic do W10.
          No “novo” Liquid Glass o efeito de iluminação é praticamente a msm coisa do que já existia no Fluent.

          Geralmente todos os vídeos de apresentação dos produtos deles são bem bonitos. O grande problema da Microsoft com design, ao meu ver, é que eles fazem algo bacana, mas ñ implementam no sistema todo.
          Tudo aqui: https://microsoft.design/

          1. Refizeram essa barra de tarefas do zero por conta desse design novo(por isso q até hje ñ dá pra mover ela de posição)

            Mas é possível sim. Eu por exemplo uso ela deslocada pra esquerda como sempre foi no Windows.

            Agora não lembro de cabeça a configuração, mas é possível.

          2. @ dalbo1201

            O Luan se refere a mover a barra toda, não só os ícones. Colocá-la na borda direita ou esquerda da tela, por exemplo.

          3. Nossa, falha minha de interpretação.

            Eu nunca usei muito a fundo, por isso não passou pela minha cabeça.

            Malz.

  4. Valeu pelo aviso Ghedin. Ainda não atualizei meus dispositivos para as novas versões de S.O.

  5. Liquid Ass como muitos estão dizendo por aí. Haha
    Tudo isso apenas como cortina de fumaça pra o FRACASSO deles em IA.

  6. Devo só atualizar no ano que vem, ou se Apple informar que ñ vai ter atualização para o macOS Sequoia.

    A Apple poderia disponibilizar alguma opção para desativar as firulas que trouxe com o liquid glass.

  7. é a Apple tentando enfiar o estilo do Apple Vision goela abaixo (ou fazendo com que os usuários se acostumem ao longo do tempo).

    uso Apple desde a interface Aqua (início dos anos 2000) e inicialmente me lembrou muito dos botões transparentes, mas depois de usar um pouco a nostalgia foi embora e ficou só o incômodo.

    No ios, os outlines com brilho são mega cafonas, a proposta da transparência nem sempre funciona direito e a leitura é prejudicada em vários momentos. Acredito que vão aprimorar ao longo do tempo, deixando o fundo mais desfocado e diferenciando melhor o primeiro plano do background, mas atualmente tá bem ruim. (talvez nas telas dos pro o funcionamento seja melhor, mas não sei)

    No Mac Os a transparência tem me incomodado menos, porém o tamanho das interfaces está ridículo. Mesmo no monitor 4k os botões estão desnecessariamente grandes, as 3 bolinhas de fechar a janela estão gigantes (padronizada com o ipad) o que não faz sentido, já que é uma interface pensada para toque sendo usada com mouse. Os cantos arredondados da janela são muito grandes e desperdiçam um bom espaço de tela.

    Isso sem falar na bagunça UX em geral:
    – cliques desnecessários – vc clica em buscar no apple music e depois tem que clicar no campo de busca novamente no topo da tela pra começar a digitar.
    – falta de padrão entre os dispositivos – pra ligar o noise cancelling do airpod no ios é só ir na central de controle, mas no mac esse menu não fica na central de controle, tem um botão separado na menu bar.

    Enfim, tá tudo bagunçado. Me parece que é um meio de caminho para unificar tudo e possivelmente ser pensado em um futuro horrível onde tudo é touch + VR.

    Sobre performance, históricamente as versões 0.1 dos OS da apple têm perfomance mais lenta e com mais gasto de bateria e geralmente são otimizados nas próximas atualizações. No meu Air m1 não senti diferença, já no meu iphone 13 mini a bateria tá durando menos do que com o ios anterior, mas espero que corrijam em breve.

    1. E o que é a aquela sidebar em todos os apps e a maioria não dá pra collapsar a barra da esquerda.

  8. Infelizmente esse é mais um capítulo da história “Precisamos mudar algo, mesmo que seja desnecessário. Mudar por mudar”. Saí de um aparelho totalmente funcional e rápido (além de esteticamente agradável) para botões que facilmente remetem aos anos 90 e lentidões sem sentido. Não sei se chamo esse processo de obsolescência programada, tá com muito mais cara de “precisamos justificar o salário de algumas pessoas da equipe e o orçamento desse projeto”. Se a lenda da obsessão do Steve Jobs pelos detalhes for real, nada supera uma atualização tão horrenda quanto essa. Isso pq estou falando só do SO, nem estou entrando no mérito dos glitches de aplicativos.

    P.S.: a atualização no Apple Watch também tratou de enshittificar tudo.

    1. Pensei o mesmo que você. Fica nítido que os caras queriam só jogar no ar algo para justificar alguma coisa que ñ necessariamente uma evolução para os usuários.

  9. excelente esse review ao estilo benjamin button!
    pra mim o ápice do design no mac foi perto ali do mavericks.
    agora tá bem ruim.
    vou seguir no sequoia, útlimo antes dessa porcaria de liquid glass.

  10. Dica: vá em ajustes > acessibilidade > tela> ligue “aumentar contraste” (no Mac). Surge um visual retrô que eu prefiro mil vezes. No iPhone fica menos retrô, mas ajuda bem a enxergar os botões e os “vidros líquidos”.

  11. Pelo que pesquisei rapidamente não dá mais para fazer o downgrade para o iOS 18 porque a Apple parou (como faz historicamente) de assinar as versões anteriores do sistema. Uma pena, pois seria meu primeiro downgrade desde que comecei a usar iPhone em 2019. Tenho um 12 que estava muito bem no iOS 18 e está irreconhecível no 26.

    O Mac vou seguir sem atualizar.

    1. Existe um forma de fazer isso, tanto no Mac quanto no iPhone para versão anterior. no Relógio não encontrei. Estou aproveitando o meu sábado para fazer isso.

  12. Eu instalei o novo Tahoe e o iOS 26, já tem um tempo que as coisas parecem desmontar na interface apple, mas até então no Sequoia cada app tinha sua unidade uma barra clara de menu de ações, atalhos eram mais claros, agora parece o Figma (software de design que uso) a cada atualização algo fica escondido ou flutuante e isso tá incomodando muito, vamos ver as versões 26.1 de cada sistema, mas fazia tempo que eu não via algo tão cru ser lançado.

    Não queria relembrar o Steve Jobs e o Jon Ive, mas duvido que eles teriam deixado algo assim passar batido, sem contar que parece agora que os apps pararam de evoluir e ao invés de ouvir os clientes resolveram resetar a interface como uma desculpa de não temos coisas novas pra lançar.

    Vou comentar sobre alguns apps que fazem parte do meu dia a dia e tá cada vez mais confuso o uso ou foram esquecidos:

    O app de música poderia melhor e faz tempo, a interface do finado iTunes era ruim, mas funcionava bem;
    O app Journal, esse podia ter integração com o Notas e o Lembretes né e ser mais fluido a navegação;
    O app calculadora, esse carece de usabilidade;
    O app Messages, podia abarcar o RCS e outros protocolos e permitir o chat com WhatsApp, Telegram e tals, seria muito mais útil;
    O app Freeform é lindinho, mas faltam ferramentas e integração de ecosistema, é ruim demais de usar considerando ambientes colaborativos;
    O app Mail esse falta muita coisa da concorrência como assinatura HTML (sem eu precisar ir no código fonte, falta um editor wysiwyg), as regras são complicadas e tendo IA deveria ser mais fácil criar regras pra arquivar emails;
    O app Safari esse melhora muito pouco e hoje é impossível navegar sem ficar de fora de algum site;
    O app Preview é o que me causa mais estranheza, pelo ícone que parece um copo de pinga de cabeça pra baixo e não conversa mais com o sistema parece;
    O app iPhone Mirroring ainda é o mais estranho pra mim de todos, eu preciso bloquear o celular e depois desbloquear pra usar é bem confuso;
    O novo app Games seria legal se fosse possível integrar outras lojas tipo xbox, steam, epic e por aí vai, mas só separou a loja de jogos do App Store e a navegação tá péssima (nem vou falar dos preços);
    O app Mapas parece um morto ele é bonitinho, mas sem integração com transporte público no Brasil e a falta de um recurso tipo o Street View não tem uso;
    Os apps Photo Booth (até hoje não sei para que ser) e o Photos são horríveis de usar, não que o Google Photos resolva o problema, é outra bizarrice de usar, ter inteligência artificial (automação né, que de inteligente não tem nada) e ela não te ajudar é o cúmulo pra mim.
    O app Podcasts, eu já fui fâ de acompanhar alguns canais de notícias em outros idiomas, mas eu to acostumado a parar o que estou fazendo para ouvir, se eu to trabalhando música ou notícia passa reto e ou eu não trabalho ou não presto atenção (meu tico e teco não batem bem eu acho), ao ver agora tem integração como App TV e Apple Music.

    E vamos contar né a Apple não é de hoje tira o nome das coisas do dedo no C#, não é possível eles não tem uma nomenclatura clara a cada lançamento é um prefixo que surge novo e só complica (lembrei da Apple antes da volta do Jobs nos anos 1990).

  13. Eu adoro efeitos de vidro. Acho o Windows 7 um dos sistemas mais bonitos que já fizeram, e um desses fatos é que eles colocaram vidro em uma dose aceitável (vidro nas bordas das telas, vidro no menu iniciar e vidro quando você pousava o mouse no botão de ver a área de trabalho). Mas a Apple exagerou e muito, é vidro no relógio, vidro no ícone, vidro nos widgets. Ficou maluco. Além disso os efeitos molengas nas animações – para ferrar os aparelhos de menor processamento foi sacanagem.

    Até a versão anterior, o Mac tinha efeitos de transparência e achava eles bonitos. Mas agora a Apple exagerou. E o que dizer dos “border radius” cuja configuração DEPENDE da janela. Um absurdo que não conversa com os guidelines da Apple.

    Não atualizei o Mac, vou aguardar para ver o que vai acontecer no 26.1

  14. O meu m1 não mudou de desempenho.
    Continua igual.
    O iOS não vou atualizar tão cedo.

  15. Eu não gostei do visual, não gostei do desempenho. Minha esposa tem um iPhone 12, que até então estava tudo muito fluido na versão antiga, depois que atualizamos ele virou uma carroça, tive que resetar o telefone pra ver se voltava ao normal, digamos assim. No Mac m1 de 2020 também o mesmo problema, sem falar do Safari que ficou muito, muito, mas muito feio e incompatível.

  16. Oi Rodrigo. Meu caso é quase oposto. Tenho um macbook air M1, 2020, e está rodando liso e rápido, sem nada dos travamentos que você mencionou. Sim, a interface mudou, mas nem tanto no Mac – no iPad foi mais visível, até por mudanças funcionais. Mantenho o mesmo uso de antes; algumas coisas estão mais rápidas, como o Spotlight, nenhuma mais lenta. E olha que nem lembro quando foi a última vez que desliguei – em vez de só repousar, baixando a tela.