Deixem as nossas interfaces em paz

Não é de agora que sinto desconforto quando sei que algum software que uso passou por uma “grande atualização”.

Veja o caso do app do Jellyfin para Roku OS.

No dia 26/3 saiu uma grande atualização, versão 3.0.0, que os próprios desenvolvedores definiram como “😵‍💫 o lançamento ‘alguém me explica o que está acontecendo’ 🤷”. Mau sinal. De acordo com a lista de alterações, ela foi baseada em um “fork” (derivado), bem diferente da versão estável/oficial anterior que a nova substituiu.

Eu, que não acompanho o desenvolvimento do Jellyfin do Roku OS, tomei um susto quando liguei a TV e me deparei com essa atualização. É bem… diferente. As coisas ficaram espremidas na tela, os filtros expostos distraem muito (e o de “não reproduzidos” não é lembrado) e, no geral, ficou feião — isto é subjetivo, reconheço.

Por acaso, descobri hoje que o aplicativo antigo foi relançado na loja da Roku com o nome Jellyfin Legacy no dia 1º de abril. Que alívio voltar à antiga interface! O motivo para mantê-lo é que a versão 3.0.0 não funciona com versões antigas do Jellyfin Server (10.7 para trás). Fiquei pensando comigo se a pessoa que está com o Jellyfin Server desatualizado há três anos terá a desenvoltura de, ao topar com uma atualização incompatível do app para o Roku OS, buscar informações no repositório do projeto para só então descobrir que existe um novo app — que na verdade é o antigo — disponível para baixar.

***

No passado, costumava receber as “grandes atualizações” com empolgação. “Uhh, olha essas transparências do Windows 7!” “Ficou mais fácil mexer no app XYZ” e por aí vai.

Às vezes me questiono se eu mudei. Tendo a achar que não é o caso. Havia muita margem para melhorias e estávamos, junto a desenvolvedores e designers, aprendendo a lidar com interfaces digitais para uma ampla gama de novas atividades. Hoje, sinto que a maioria das mudanças em UI e UX são justificadas em si mesmas, ou seja, mudança pela mudança, sem muito embasamento ou benefícios óbvios ao usuário.

A Apple está nessa pegada há algum tempo, sendo a tela dos Ajustes que estreou no macOS 13 Ventura, em 2022, o ápice (até agora) dessa tendência burra, até hostil. (Uma boa análise, em inglês.) A perspectiva de uma repaginada profunda em seus sistemas em setembro, como aventa a esteira de rumores, gera em mim uma preguiça enorme desde já.

Curioso que esse problema afeta software proprietário (Apple) e livre (Jellyfin), embora tenha a sensação de ser mais frequente em software proprietário/fechado.

É pedir muito que não mexam no que não está quebrado? Ou — melhor ainda — favorecer a iteração em vez de mudanças abruptas?

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11 comentários

  1. To com você, Ghedin
    Essa coisa de inovar sempre é da bolha de tecnologia.
    Nos círculos que eu frequento, só ouço reclamações e xingamentos quando há atualizações e mudanças nas interfaces. Especialmente no trabalho, as pessoas reclamam muito a cada mudança do office e do windows, que são pequenas na média.

    Uma pequena anedota: eu uso o menu iniciar do lado direito da tela (uma customização pequena e possível desde tempos imemoriais). Todo mundo que olha para a minha tela e precisa apontar alguma coisa fica confuso e reclama comigo…

    O usuário médio vê as interfaces como meio, não querem ter que pensar muito e reaprender onde está o botão toda vez que for usar.

  2. O pior foi terem desativado, há alguns anos, a possibilidade de retardar ou avançar legendas .srt em tempo real. Hoje, não é mais possível fazer isso.

  3. Eu gosto de mudanças no layout, renova o “ar” do site/app. O próprio manual eu curti quando mudou, mesmo adorando o layout antigo que era mais cru.

  4. Recebi essa atualização do Jellyfin para RokuTV como positiva. O visual da interface melhorou, a paleta de cores escolhida agrada mais.
    Porém ainda há muitas coisas para serem consertadas. Os filtros expostos atrapalham e distraem, eles deveriam ser ocultos. Talvez apenas a barra de pesquisa possa ficar visível.

    Quanto a bugs, não percebi nenhum bug muito sério.

  5. Essa matéria foi minha salvação! Do nada, percebi que o Jellyfin não estava mais carregando no meu Roku. Interface? Só aparece o botão de usuário, não lista nada. Para assistir um filme, eu tinha que ir no botão de usuário, clicar em busca, digitar o nome do filme e só aí visualizar sua thumb… essa parte da interface funciona. Então, eu clicava na thumb e o aplicativo inteiro travava e me devolvia para a tela inicial do Roku. Que grande cagada eles fizeram com o aplicativo! Vou tentar o Legacy.

    1. Aconteceu a mesma coisa comigo, Carlos. Instalei o Legacy e tudo voltou ao normal!

  6. Todo ano depois de algum lançamento tem a celebre frase “a Apple não inova mais”, não sei como as empresas lidam com esse tipo de comentário, mas da a entender que a maioria dos usuários querem experiencia nova a todo momento subvertendo toda hora o jeito de usar o dispositivo.
    Acho legal um ponto de equilibro, há rumores que esse ano todos os sistemas da maçã vão sofrer uma grande reformulação visual, última vez vista há 12 anos atras no lançamento do iOS 7, eu particularmente ainda me empolgo com novidades visuais e quero ver como vão ficar os sistemas.
    Como faz mais de uma década desde a reformulação acho que isso seja a melhor forma de lidar, você mantem a mesma experiencia por um longo período, mantendo estável locais de trabalho e a memória muscular dos usuários, e depois de um tempo joga uma inovação até para ditar novas tendências e fazer algumas coisas irem pra frente, como no caso do Windows Vista, apesar da péssima experiência dizem que foi ele que impulsionou as fabricantes a saberem que deviam começar a entregar um hardware melhor para o consumidor final.
    Acho que a pior tendencia atual são as atualizações infinitas. Até o Windows 7 como o acesso à internet ainda era um pouco limitado, tinha a percepção que o sistema tinha que vir redondo o máximo possível, depois disso houve o entendimento que “se ta ruim, apenas lançamos um update”, fazendo os softwares nunca terem uma versão final acabando de certa forma com a estabilidade até mesmo de versões grandes que supostamente teriam que ser a mais estáveis depois de um grande ciclo de betas.

    1. Eu só vejo o papo “a Apple não inova mais” em comentários de sites/blogs/canais de tecnologia. Nunca ouvi gente ~normal (irmã, companheira, por exemplo) reclamarem disso, rs.

      Eu discordo um pouco das sua premissa, Mateus, de que a última alteração no iOS foi há mais de uma década. O iOS 18 tem pouco do iOS 7, é resultado de anos de iterações sutis — ou de atualizações infinitas, algo que pode ser ruim ou bom, a depender do intuito e da execução da desenvolvedora.