Inteligência artificial: a que custo?

Muita gente acha que a inteligência artificial gerativa mudará o mundo. É provável que sim, de diversas maneiras. Entre outras — uma que as empresas do setor não gostam de abordar —, piorando ainda mais a emergência climática.

Quase um ano depois do ChatGPT dar o ar da graça, começam a pipocar estudos que dimensionam o impacto ambiental da tecnologia.

O consumo de água da Microsoft, principal financiadora da OpenAI e que fornece os potentes servidores em nuvem usados pela dona do ChatGPT, saltou 34% entre 2021 e 2022, segundo um relatório ambiental da própria empresa.

No Google, o aumento no consumo de água no mesmo período foi de 20%.

Pesquisadores independentes atribuem o aumento ao uso intenso necessário para treinar os grandes modelos de linguagem (LLMs) e processar os comandos dos usuários de IAs.

Uma pesquisa ainda não publicada, de pesquisadores da Universidade da Califórnia, estimou que cada sessão de 5 a 50 perguntas e/ou mensagens para o ChatGPT consome cerca de 500 mililitros de água. Uma garrafinha d’água para escrever um e-mail robótico ou fazer uma “pesquisa” com resultados imprecisos e/ou inventados, ou — no eufemismo do Vale do Silício — em que a IA “alucina”.

Outra, esta de um doutorando da Universidade de Amsterdã, prevê que até 2027 o consumo energético de serviços de IA poderá ser o equivalente ao dos Países Baixos, um país inteiro.

As empresas de tecnologia estão em uma nova corrida do ouro, sim, mas até agora só conseguiram garimpar prejuízo.

O GitHub Copilot, assistente para programação da Microsoft baseado no ChatGPT, custa US$ 10 por mês e dá US$ 20 de prejuízo, em média, segundo informações de uma fonte próxima à empresa dada ao Wall Street Journal (sem paywall).

Tanto Microsoft quanto Google cobram US$ 30 mensais para liberar os poderes da IA gerativa em suas aplicações de escritório. Esse valor é somado ao valor padrão da assinatura básica, sem IA.

No início do ano, Satya Nadella, CEO da Microsoft, dizia que a IA “tirava o Google para dançar”, como se a nova tecnologia tivesse potencial para acabar com a hegemonia do rival nas buscas na web.

Nadella foi ouvido como testemunha no julgamento antitruste contra o Google, movido pelo Departamento de Justiça dos EUA, ainda em andamento. O executivo se retratou: “Chame [aqueles comentários] de a exuberância de alguém que tem 3% de participação [de mercado].”

De que outras maneiras a IA gerativa mudará o mundo? Na real, ninguém sabe. Nadella teme que as mudanças trazidas ajudem a manter as coisas como elas são, ou seja, que a IA sedimente a liderança monopolista do Google no setor.

O Google, por sua vez, parece meio perdido.

A Bloomberg obteve mensagens de um grupo no Discord, criado por funcionários do Google, para colher feedback de usuários entusiastas do Bard, rival do ChatGPT.

“O maior desafio em que ainda estou pensando”, escreveu Cathy Pearl (sem paywall), líder de experiência do usuário do Bard, “[é] para que LLMs [grandes modelos de linguagem, base das IAs] são realmente úteis? Digo, que façam a diferença mesmo. A ser descoberto.”

A newsletter do Manual. Gratuita. Cancele quando quiser:

Quais edições extras deseja receber?


Siga no Bluesky, Mastodon e Telegram. Inscreva-se nas notificações push e no Feed RSS.

15 comentários

  1. Confesso que não me habituei com o pessoal perguntando receitas de bolo à ia quando desenvolvemos mecanismos de busca que ja captam os erros normais de humanos, a ponto de escrever qualquer palavra errada de qualquer forma e o buscador encontrar resultados condizentes. E só uma coisa, o Estado Países Baixos pede para ser assim chamado, e nao de Holanda.

  2. Apenas citando um exemplo, no desenvolvimento de software o Copilot do GitHub veio pra ficar. Muito díficil ver um time de dev que ainda não o use.
    Um fato curioso: em uma pesquisa interna na minha empresa mostrou que o copilot é “amado” pelos desenvolvedores mais experientes e nem tão “amado” assim pelos menos experientes. Isso mostra que experiência pessoal ainda é fundamental para filtrar os resultados gerados pela IA para construção de bons produtos. Nenhuma novidade até então, mas até quando essa experiência será fundamental?
    Enfim gostaria de saber como as GenIAs estão sendo usadas em outras áreas que não para o desenvolvimento de software.

    1. “Muito díficil ver um time de dev que ainda não o use”

      cara, a empresa em que eu trabalho tem mais de 300 funcionários (é uma empresa de tecnologia), e ninguém que eu conheço usa para o trabalho.

    1. Interessante. Esperava um pouco mais de contexto em vez de literalmente “Falso”, e só. Ainda mais sendo ex-CEO, ele não tem qualquer compromisso em dizer a verdade. (Se fosse o atual, poderia dar ruim.)

      1. Não vejo a necessidade dele mentir sobre isso (sendo um ex-CEO).
        Ele não disse que não dá prejuízo, só que a informação da matéria é “falsa”.

        A matéria do NYT usa “fontes próximas”. Então realmente não dá pra saber qual a informação verdadeira.

        1. Concordo, não tem motivo para ele mentir. É que nessa situação o jornal/jornalista tem mais a perder publicando uma informação falsa do que o ex-CEO mentir de que a informação é falsa, sabe?

          “Fontes próximas” não é o ideal numa reportagem, mas às vezes é o que tem. E um jornal grande, de negócios (é o WSJ), coloca a própria reputação em risco ao publicar algo mal apurado, especialmente de fonte não identificada.

          Para mim, a refutação de um jornal de credibilidade e com bom histórico de cobertura precisa de mais subsídios para ser considerada. (Porque, sim, sempre tem a possibilidade da fonte, mesmo confiável e de fato próxima à operação, estar com uma informação errada, desatualizada, desencontrada etc. e o repórter não corroborá-la de outra forma.)

  3. Acho que esse fogo no * com as IA atualmente, não vai durar mais 6 meses. Foi a onda do momento do mundo da tecnologia depois dos NFTs e metaverso floparem.

      1. Mas IA, do jeito que tá, continua inútil. O grande uso tá sendo pra galera fazer trabalho de escola/faculdade, fazer montagens de pôsteres de filmes da pixar absurdos, botar cantores pra cantar musicas que nunca cantaram (tipo o blue pen cantando careless whisper ou freddie mercury cantando evidencias). Não dá pra confiar na IA (no modelo atual uma grande máquina de ifs) pra trabalhos profissionais n.

        1. Algo eh mais que absolutamente nada. E mais, use mais. Uns 10 ou 20% do que eu fazia no Google faço no gpt agora pois eh melhor para isso. E breve em assistente de voz vai ser interessante.

        2. Para alguns exemplos que você citou, concordo que são inúteis.

          Mas para a minha área de atuação (criação de software), por exemplo, as I.A. já têm feito uma contribuição gigantesca.

          A parte chata do trabalho, pode ser quase toda delegada. Através de prompts que precisam ser escritos por alguém que tenha profundo conhecimento da área.

          Este conhecimento é necessário, tanto para escrever os prompts, quanto para validar a resposta.

  4. O quanto essas empresas consomem de água para gerar respostas aleatórias é absurdo mesmo; mas o principal ponto é a prova implicita que isso trás: individualização da crise climática é balela de empresário pra se manter rico e consumindo como se existisse outro planeta.