Indústria da IA não aceita “não” como resposta
Há dias estou com uma frase do David Bushell na cabeça:
Mais alguém notou que a indústria de IA não aceita “não” como resposta? A IA está sendo forçada em cada canto da tecnologia. É incompreensível a eles que alguns de nós não estejam interessados.
David reclamava de ter recebido comunicados da Proton oferecendo a Lumo, sua IA generativa, mesmo tendo sinalizado expressamente que não queria receber mensagens do tipo. O pior é que a Proton, em vez de assumir o erro e desculpar-se, insistiu em justificativas absurdas para dizer que não havia erro. Só cedeu quando um executivo entrou na jogada, e só depois do post viralizar.
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O Firefox é outro exemplo. Há alguns dias, a fundação Mozilla colocou no ar um site esquisitíssimo (parece feito por IA) delineando os esforços de 2025 e os planos para 2026. A primeira frase do site diz que:
A IA não é apenas mais uma tendência tecnológica — está no coração da maioria dos aplicativos, ferramentas e tecnologia que usamos hoje.
Será que está porque há demanda ou porque empresas e instituições como a Mozilla estão forçando a IA?
Abro um parênteses para listar outras coisas que não desceram bem nesse site da Mozilla:
- “A escolha que enfrentamos é chocante: a direção errada para a IA é uma ameaça à web e à humanidade. Uma versão melhor da IA ajuda a web e ajuda a humanidade.” Essa é uma dicotomia falsa. Existem outros futuros possíveis sem a IA no centro de tudo.
- Nesse sentido, por que a Mozilla se coloca como salvadora do futuro? Que produtos de IA eles têm? Como conseguirão competir com rivais que investem bilhões (com B) de dólares nessa tecnologia?
- O paralelo que o site faz com a Microsoft e seu Internet Explorer é fraco e incorreto. O Firefox não ganhou coisa nenhuma. IE e Firefox perderam para o Chrome.
- Chrome, aliás, que é do Google, empresa que lidera a IA na “direção errada”, conforme a definição da Mozilla. Por que a Mozilla não bate neles? Porque depende do dinheiro sujo do Google para existir. Não se morde a mão que te alimenta.
- Em várias páginas, aparece um texto deslizante dizendo “Não aceite as configurações padrões”. Irônico, dado que muita gente reclama das configurações padrões de IA do Firefox.
- Entre os planos concretos da Mozilla para 2026 está um botão de desligamento geral da IA no Firefox (chegará na versão 148, no próximo dia 24). Parece uma concessão muito grande contra a tecnologia que está (supostamente) redefinindo o mundo.
Outro grande exemplo veio do DuckDuckGo, que abriu uma enquete perguntando se você é a favor ou contra a IA. Mais de 175 mil votos depois, 90% dos respondentes disseram não à IA.
A abordagem do DDG é das menos piores. Os recursos de IA são opcionais e, em muitos casos, segmentados. Um bom exemplo é o chatbot que usa LLMs comerciais e acrescenta uma camada de privacidade entre o usuário e as empresas detentoras dos modelos, o duck.ai. Eu uso. Acho bom. IA tem seus usos. É revolucionária? Vamos com calma.
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As revoltas contra Proton, Mozilla e DuckDuckGo por conta da IA poderiam ser pontos fora da curva. Eles atraem um público mais consciente do estado deplorável da privacidade na internet, perfil que costuma se sobrepor ao dos avessos à IA generativa.
Talvez no panorama geral a IA seja mais aceita? Senti um abalo forte nessa hipótese nas declarações recentes de Satya Nadella, CEO da Microsoft. Em seu blog (escrito por IA?), Nadella disse que
Precisamos superar o debate de slop versus sofisticação e desenvolver um novo equilíbrio em termos da nossa “teoria da mente”, que explique que os humanos estão equipados com essas novas ferramentas de amplificação cognitiva à medida que nos relacionamos uns com os outros.
“Por favor, parem de falar que o lixo gerado por IA é lixo” foi o que li nas entrelinhas.
Alguém comentou dia desses, não me recordo quem ou onde, que tem a teoria de que CEOs caíram no mesmo delírio das pessoas que tratam o ChatGPT como se fosse um amigo.
Naquela mesma conversa desastrosa em que Satya se deu conta de que a água é molhada — que IA só é um assunto quente para empresas de IA —, ele disse também que a sua confiança no potencial revolucionário da IA surgiu ao ver o GitHub Copilot cuspir código. Deu de bandeja um trunfo a quem define a IA generativa como um autocompletar mais badalado.
No caso do David, acredito que tenha havido sim um overlap: o e-mail se encaixa em mais de uma categoria, e ele está inscrito em uma delas. É o equivalente a se cadastrar no site da Serasa, receber newsletters falando pra quitar dívidas mesmo sem ter nenhuma pendente, e reclamar em vez de simplesmente cancelar a inscrição (tem um aviso no próprio e-mail sobre isso).
Quanto ao Firefox, eu disse não apenas uma vez quando o navegador ofereceu recursos de IA, e nunca mais ele me perturbou. O “killswitch” prometido pra v148 já existe. Basta dizer não. Também vi nos sites de tecnologia e no r/firefox que nenhum modelo é instalado por padrão, só se você habilitar um dos recursos que o utilizam (e dá pra remover nas configurações)
O mesmo vale pro Copilot, aliás. A primeira coisa que faço ao (re)instalar o sistema é desinstalar o Copilot. Só vi de novo quando abri o Word, mas neste caso é um recurso do programa, e não do sistema.
Essa caça as bruxas com a IA é tão desnecessária quanto o hype das big techs. Já usamos IA de uma forma ou outra há décadas. Não quer, não usa.
Bom, ao meu ver, esse desespero das empresas nao é apenas para monetizar a IA o mais rapido possivel, é tambem pra ter milhões de usuários produzindo novos dados enquanto usam as ferramentas.
É super provável que nossas conversas, métricas de uso, feedbacks, tudo… serão usados para treinamento de futuros modelos. Esses dados são valiosos, gente.
No caso do Firefox, bom… ele ainda recebe money do Mr. Google, certo? Vai saber se não teria um “cano” levando dados fresquinhos do Firefox pro Google. Incentivos existem. Mas é pura especulação minha, não tenho provas.
Embora eu concorde com o movimento de rejeição, eu não sei dizer o quanto dessa rejeição é geral. Pode ser que o sentimento anti IA toma mais atenção na mídia, porém grande parte dos usuarios não estejam tão bravos assim com IA. Não sei…
Eu tambem me sinto enojado com muita coisa que vejo envolvendo IA. Mas eu separo a tecnologia das ações humanas.
Por exemplo, creio que o termo “AI slop” desrepresenta a realidade. Pra mim não existe IA slop, existe “human slop” assistido por IA.
Nenhuma IA acorda de manhã com a iniciativa de criar um prompt pra um video viral, e depois vai sozinha postar no Instagram. Pessoas são quem iniciam e governam todo processo.
O termo “IA slop” nos induz a perder de vista a raiz do problema: a banalidade humana — que agora esta empoderada por IA.
Claro, acima estou me referindo as pessoas comuns postando lixo a Internet.
No caso da IA sendo forçada em nossas ferramentas, ai a coisa ja vai mais a fundo, vou deixar pra outra hora…
Mas IA é só a ponta do iceberg…
Eu aceito o “AI slop” porque a IA, embora não seja o iniciador da ação, é indispensável para o volume de “slop” que é produzido hoje. “Slop” sempre existiu, mas antes a escala era menor. A IA democratiza o ferramental e elimina o tempo humano — duas das grandes e últimas barreiras que seguravam a pororoca de chorume na internet. Hoje está fora de controle, e a tendência é piorar.
Concordo plenamente. O termo “AI slop” acaba sendo justo, pois IA tá sendo crucial nesse processo de elevar a banalidade humana à raiz cúbica.
Se continuar assim, a Indie Web vai se tornar o único refujo… vai até beneficiar sites como esse aqui.
Olha, mas talvez nem seja necessário cogitar uma conspiração. Se bem me lembro o Firefox se conecta ao Gemini por padrão.
É a mesma coisa do Google como motor de pesquisa: a Mozilla não “vende” seus dados, ela só aceita dinheiro para que, por padrão, todas as suas buscas sejam feitas no Google.
Isso que você fala que o Firefox não ganhou do IE é bem verdade! Confesso que eu não lembrava. Nesse gráfico animado, partindo de 1996, dá pra ver claramente que o Firefox estava crescendo na direção de destronar o IE, mas o Chrome surgiu e engoliu ambos rapidamente: https://businessfibre.co.uk/internet-browser-market-share/
É hilário ver o Satya se dizer entusiasmado com o potencial revolucionário da IA ao ver o Copiliot cuspindo código. Numa reportagem recente do The Verge foi mostrado que dentro da Microsoft o discurso é outro, e que o uso dos produtos concorretes é que é incentivado.
Aliás, quem aqui lembra no passado quando os agentes autônomos do Copilot começaram a commitar código no repositório oficial do .Net Core da Microsoft, quebrando tudo em ritmo de festa, obrigando os engenheiros (humanos!) a irem lá apagar o fogo numa conversa pra lá de hilária de com os bots? Estamos falando do cenário ideal pra tecnologia florescer: Github (da MS), rodando Copilot (da MS) no repositório do .Net Core (também da MS!). Sopa fina de caos.
Aliás, nessa linha de pérolas da Microsoft recomendo esse vídeo recente do Primeagen mostrando as trapalhadas mais recentes que a empresa vem cometendo: https://www.youtube.com/watch?v=d8WEzjDx4-E
Primagen, um dos meus favoritos…
A postura da Mozilla tentando surfar o marketing da resistência às causas perdidas enquanto adere ao posicionamento mainstream e se furta de críticas ao Google é… deprimente
eu ouvi no trabalho essa semana, com essas palavras: “o desenvolvimento mudou de vez. pense na IA como um estagiário, como uma pessoa que está ali te ajudando e a qual vc está ensinando. isso tornao trabalho muito mais divertido”
lembrei disso lendo o penúltimo parágrafo. infelizmente, as empresas compraram de vez essa ideia e estão gastando muita grana nisso (então, TEMOS que usar)
Eu já ouvi literalmente essa mesma analogia do estagiário/assistente. Deve rolar nessas palestras de bullshitagem corporativa.
“Pense no que você pode fazer com 10 assistentes” … oi?