Ouro de tolo

Foto em preto e branco de milhares de trabalhadores na Serra Pelada.

Se a inteligência artificial é a nova corrida do ouro, vale a velha máxima de que faz dinheiro de verdade quem vende pás e picaretas.

No caso, as pás e picaretas da IA (sem duplo sentido; acho) são os chips H100 e variações da Nvidia, empresa que vive tropeçando em mercado “revolucionários” que dependem de quantidades abismais de processamento computacional.

A Nvidia, que sambou em cima do “mercado” de criptomoedas e golpes similares (NFT, web3) durante a pandemia, escorregou em um bitcoin e caiu no El Dorado da IA.

A corrida desencadeada pelo ChatGPT catapultou o faturamento da Nvidia, que vem entregando resultados superlativos desde o final de 2022 e, nesta semana, ultrapassou a Apple e a barreira dos US$ 3 trilhões em valor de mercado. Já é a segunda maior empresa do planeta, atrás apenas da Microsoft, cujo papel também se beneficia do rali da IA.

Como em toda euforia, os envolvidos não conseguem se conter. Na Computex, Jensen Huang, CEO da Nvidia, autografou o seio de uma mulher.

Apenas mais um dia normal no mercado da inteligência artificial.

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A grande questão do momento é se o que os CEOs das big techs e de startups de IA estão escavando é ouro de tolo.

Embora as grandes empresas compradas em IA, como Google e Microsoft, estejam entregando resultados financeiros crescentes, isso não é novidade nem pode ser atribuído à febre da IA.

As expectativas estão nas alturas, não por culpa (apenas) da famigerada “euforia do mercado”, eufemismo para investidores profissionais, outro eufemismo para especuladores. Executivos também fomentam esse clima de revolução, como já mencionei aqui. Observamos um pingue-pongue de gente deslumbrada com IA prometendo uma revolução e gente que ganha muito dinheiro acreditando em tais promessas, um jogo de “me engana que eu gosto” que costuma acabar mal quando alguém levanta a mão e diz “… mas espere aí, está faltando alguma coisa”.

A sensação não é só minha. Está evidenciada em colunas como esta da Elizabeth Lopatto no The Verge e esta outra do Christopher Mims (sem paywall) no Wall Street Journal (ambas em inglês). Os primeiros chamados à realidade, como o da Salesforce, ainda são explicados com desculpas que podem ser resumidas com “não tem IA o suficiente”.

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Hoje, aplica-se o rótulo de “IA” a qualquer coisa que remeta vagamente a automações. Esse, mais do que o CEO da Nvidia dando autógrafo em seios como se fosse uma estrela do rock, é o sinal de alerta para o risco de uma bolha em formação. No caso da IA, seria (será?) uma bolha gigantesca, uma bolha atômica.

O único podcast que tenho ouvido religiosamente é o Decoder, em que Nilay Patel, editor-chefe do The Verge, entrevista executivos (geralmente CEOs). Nesta semana foi a vez do fundador e CEO do Zoom, Eric Yuan. No futuro próximo, disse Eric, enviaremos “gêmeos digitais” para reuniões online que tomarão decisões e resumirão as conversas em nossos lugares, enquanto curtimos a família e sei lá o que mais essa gente faz nas horas vagas.

Ato falho, o que ele disse, em outras palavras, é que as reuniões online de que sua empresa depende para faturar são… desnecessárias? E que a IA serve para automatizar um negócio… inútil?

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Essa hipótese — a da bolhona — não significa que a IA seja uma tecnologia inútil. Dada a amplitude conquistada pelo termo, muita coisa boa é ofuscada pelo brilho do ouro de tolo das OpenAI, Zoom, Microsoft e Google da vida. (E, reconheça-se, mesmo elas oferecem alguns produtos e serviços úteis.) O que há, acho eu, é um descompasso entre as promessas grandiosas feitas em nome dessa tecnologia e o que ela pode entregar de fato.

Seguiremos acompanhando os desdobramentos do mercado de IA com um balde de pedras. Digo, de pipoca. Desculpe-me, por um instante abri o Google sem querer.

Foto do topo: Sebastião Salgado/Instituto de Arte de Chicago.

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10 comentários

  1. Interessante que enquanto lia esse post eu já estava me preparando para comentar sobre essa entrevista no Decoder.

    Em vários momentos da entrevista, tive uma “vergonha alheia”. O entrevistador Nilay Patel fez algumas perguntas adicionais de como realmente esse tal de “gêmeo digital” funcionaria. Claro que o CEO se enrolou e não tem a menor ideia de como isso realmente irá funcionar (se funcionar algum dia).

    Em resumo, ele está colocando um negócio atrás de algumas poucas palavras da moda que devem servir pra atrair investimentos. Se isso tem algum fundamento, pouco é discutido…

    1. como é que não perguntaram o seguinte:

      “se esse gêmeo digital é suficientemente articulado para participar de reuniões e suficientemente esperto para tomar decisões adequadas, por que diabos alguém contrataria uma pessoa pra ficar em casa se ela pode programar esses robôs?”

      1. O Nilay questiona isso, ou qual seria o papel do “gêmeo de carne e osso”, no que o CEO responde que a pessoa faria as funções que a IA não consegue fazer ainda. O duro é que os exemplos que ele deu foram conversar pessoalmente e tomar café com alguém que aparece no escritório.

        Só vai sobrar emprego para relações públicas, hehehe.

  2. A IA como conhecemos hoje (para usuário final, consumidor) é mais uma ponta de marketing do que qualquer coisa. Até alguém realmente consiga produzir uma maneira realmente útil que não seja para empresas, vai continuar sendo a bolha que vai estourar em algum momento.

    Pra mim, essa correria toda é justamente porque ninguém quer ficar para trás. Se der errado, todo mundo errou.. mas, se der certo, todo mundo acertou. Não vai ter um meio termo…

  3. A IA é algo que veio pra ficar, não tem jeito, mas tem um longo caminho para se tornar algo realmente útil, já que mais erra do que acerta. Talvez demore mil, dois mil anos, mas lógico, em tempo de simulação que pode ser alguns dias, semanas ou meses kkk

    Enfim, trazendo um ponto de vista pessoal, eu não consigo entender direito por que não consigo gostar de usar IA. Em alguns raros casos, como de síntese ou criação restrita, eu acho que funciona até que bem, dadas as suas limitações, mas eu ainda prefiro buscar no Google e ler artigos diferentes para tirar minha conclusão a respeito de determinado assunto. Certamente tem algo a ver com controle.

    O que me irrita de verdade são os serviços empurrarem goela abaixo, como o Notion tem feito. É só eu dar um espaço duplo que já vem a porcaria da IA encher o saco. E olha que já mandei email pedindo para retirar a IA, procedimento deles, e nada foi feito em um mês.

  4. IA é um tema amplo facilmente reduzido a um ou outro aspecto particular na gritaria das redes sociais — tão amplo que, como aponta o texto do ghedin, a palavra se esvazia a ponto de não significar materialmente nada de fato

    mas acho que valem alguns apontamentos:

    uma questão básica entre os marxistas é a da capacidade de geração de valor (e, por consequência, de extração de mais-valor) por parte de máquinas. O entendimento tradicional é o de que máquinas não produzem valor, apenas os transferem: todo valor é oriundo do trabalho humano. No entanto, em anos recentes, tem havido discussões a respeito de como o capitalismo vai reagir a um cenário de proletarização tão generalizada e acelerada baseada na extração de mais-valia relativa que fará com que a quantidade de humanos se reduza a ponto da extração de mais-valia ficar inviabilizada. Ou seja: qual o valor gerado por um produto realizado por uma IA com quase nenhum envolvimento humano (sobretudo levando em conta o fato de que o valor gerado pelo trabalho dos programadores se dilui a ponto de tender a zero)?

    Num entendimento marxista tradicional, as IAs seriam a armadilha do próprio capitalismo, que se enforca a si mesmo. Por outro lado, IAs não substituem posições nas quais o trabalho humano continua sendo profundamente explorado (construção civil, limpeza, etc — os chamados subempregos). A questão é: seremos todos faxineiros ou pedreiros no futuro ou as IAs em ambientes “criativos” serão abandonadas justamente para que se continue a explorar a mais-valia de “trabalhadores criativos”?

    uma das obras de arte mais célebres do cânone brasileiro são as inserções em circuitos ideológicos de cildo meireles. Utilizando-se do caráter altamente circulatório de determinadas mercadorias (em particular a cédula de dinheiro e a garrafinha de coca-cola, esta em especial pelo seu aspecto simbólico), cildo hackeou a programação do sistema para difundir provocações e ideias subversivas por meio desses objetos. Ele carimbava “quem matou herzog?” nas cédulas de dinheiro e gravava instruções para produção de coquetel molotov nas garrafas de coca-cola (de modo que as instruções só ficassem visíveis quando a garrafa estivesse preenchida pelo líquido escuro, já posicionadas em engradados de forma a esconder a inscrição).

    hackear a lógica por trás de IAs generativas é algo que artistas contemporâneos também têm feito de forma muito engenhosa e criativa. O trabalho mais célebre (e talvez o mais importante) neste sentido é o da artista e pesquisadora gisele beiguelman em sua obra botannica tirannica, que usou IA para criar espécies novas de flora que superassem os preconceitos e violências simbólicas próprias da ciência ocidental e presentes nas próprias IAs

    richard stallman, nesse sentido, nunca esteve tão atual: mais do que nunca é relevante pautar a abertura de todos os códigos fechados para que esses cofres algorítimicos sejam efetivamente hackeados pelas pessoas e não usados contra elas

  5. Como sempre, o marketing torcendo o pano de T.I. para extrair qualquer gota de informação que possa virar uma campanha genérica e abrangente para venda de produtos. Alguns úteis outros inúteis(a maioria) aproveitando qualquer hype que entre na cabeça de consumidores desatentos ou deslumbrados.

  6. Penso que todo esse BOOM da IA é algo passageiro, mas a IA generativa em si veio para ficar; a longo prazo, as expectativas irão diminuir, empresas vão lucrar menos com tudo isso (vão criar outro “BOOM” em outra área para $urfarem) e tudo seguirá normalmente. Algumas mudanças comportamentais aqui e ali – e até mesmo algumas mudanças no mercado em geral (IA não irá acabar com todas as profissões, mas com certeza afetará muitas áreas), do resto, vida que segue, rsrs. Particularmente, estou ansioso para quando a IA for realmente eficiente na construção de NPCs únicos nos jogos eletrônicos que tanto amo; paralelamente, estou com receio de perder minha fonte de renda para uma IA bem treinada (sou corretor de redações/revisor de textos) – razão pela qual estou, desde o ano passado, qualificando-me para migrar de área.

    1. Fábio. Na sua área. Mesmo que a IA não seja melhor que um humano acho perigoso ela ser tão mais barata e rápida que possa acabar tomando um espaço bem relevante.

  7. Só mais um produto surfando na curva de hype… Daqui uns meses as coisas já estão mornas de novo…