Topa tudo por dinheiro
Kate Knibbs, repórter da Wired, descobriu um fenômeno bizarro no YouTube: canais que leem obituários de pessoas comuns, em grandes volumes.
Na apuração, Kate descobriu que os canais fazem isso de olho na receita com publicidade que o Google divide com youtubers.
Apesar do mau gosto, a princípio não há nada ilegal na prática — ao menos, nos Estados Unidos. As pessoas fazem coisas esquisitas para ganhar uns trocados fáceis.
O programa de divisão de receita do YouTube existe há bastante tempo e é um sucesso. Ajudou a lançar pequenos impérios do audiovisual e a estabelecer nomes fortes do mercado de influência digital.
Mais que isso, é a realização de algo que muitos ativistas pedem: que o trabalho feito por pessoas comuns em redes sociais beneficiem todas as partes, não só as empresas.
É uma reivindicação justa, ainda que não seja universal. E aí talvez esteja o erro de alguns (todos?) empreendedores do Vale do Silício: acreditar que dinheiro é um motivador universal, o único que importa.
O fato do YouTube ser um monopólio de fato, o único lugar viável para distribuir vídeos de média duração em formato paisagem (na horizontal), deve ser considerado, porque atrai quem não liga ou sequer sabe da divisão de receitas.
Em outros locais, talvez não seja o caso.
No final de setembro, o Reddit anunciou um programa similar, em que usuários compram créditos para repassar a outros que postarem coisas legais. No meio do caminho, o Reddit fica com pelo +50% do dinheiro.
O Reddit era um dos poucos lugares em que a motivação de trocar ideias era genuína. Não por acaso, as pessoas passaram a colocar “reddit” em pesquisas no Google para fugir dos posts talhados por SEO (ou seja, incentivados por dinheiro) e ler as opiniões desinteressadas de pessoas comuns.
As coisas continuarão assim, uma vez que passe a existir um incentivo financeiro? Difícil dizer.
No X, antigo Twitter, há agora um esforço descarado para manter os usuários dentro da plataforma, com o fomento à publicação direta de conteúdo e a destruição dos links.
O chamariz para que criadores de conteúdo e jornais façam isso? Dinheiro. O X tem distribuído parte da sua minguante receita publicitária para alguns usuários pagantes com grande audiência — sem critérios ou lógica transparentes.
As redes sociais comerciais, já dominadas por conteúdo publicitário e por pessoas que se transformaram em marcas, estão carentes de interações genuínas. Elas perderam espaços para as polêmicas que viralizam e que dão dinheiro no X, para os “achados” que convertem comissões generosas de lojas ávidas por diminuir os custos de aquisição de clientes, para o grande negócio da internet.
Quando o lugar que frequentamos se torna um grande shopping, só nos resta fazer o papel de consumidores.
As pessoas sentem isso. Daí a busca por refúgio nos apps de mensagens, onde ainda é possível ter alguma intimidade sem um anúncio piscante (ou uma tentativa de golpe) tentando nos ganhar ou enganar.
Esse respiro não deve durar muito. A Meta já sentiu o sangue na água e começou a instrumentalizar seus apps de mensagens, incluindo o WhatsApp.
Foto do topo: Alexander Grey/Unsplash, com edição de Rodrigo Ghedin.
Quando li o título, foi impossível não lembrar do Moisés.
“Desenha um arco-iro”.
“Esse respiro não deve durar muito. A Meta já sentiu o sangue na água e começou a instrumentalizar seus apps de mensagens, incluindo o WhatsApp.”
Quem sabe quando isso acontecer no WhatsApp, não será também quando as pessoas buscarão alternativas. Quem sabe essa alternativa não seja um padrão aberto em que a gente não fique refém de um único app?
Como diz meu pai: Para sonhar, não se paga nada…
Acho difícil, o whatsapp se consagrou como mensageiro supremo over power ubíquo, justamente por causa da ganância das operadoras em cobrar muito pra enviar SMS… Mais fácil todo mundo continuar acomodado.
É o famoso “grande demais para falir”.
Não concordo, acho que existe uma linha tênue que se for ultrapassada pode fazer com que os usuários passem a buscar outra solução, a Kodak também era grande demais para falir bem como a Xerox entre outras.
Pra isso só precisamos de um super mensageiro disruptivo que supere o whatsapp em estabilidade de operação, disponibilidade de sistema, não cobre 1 centavo para manter sua infraestrutura ativa e funcional, seja tão fácil ou mais fácil ainda de mexer, e que todo mundo migre em peso e use em peso.
São fatores demais a se considerar.
E diferente de um facebook, o whatsapp tem um ambiente mais tranquilo.
Ou esperar a meta colocar propaganda abusiva e cobrança para retirar a propaganda e ver paulatinamente a migração para padrões abertos, não vai acontecer hoje, nem amanhã, mas “pode” acontecer.
Discordo, a interoperabilidade entre apps vem aí (até o começo de 2024), então a migração pra outro mensageiro, como Signal e Telegram, vai ficar muito mais fácil e amigável.
Gostaria de entender se o motivo de tudo estar tão caro hoje é o fato das pessoas toparem tudo por dinheiro, ou se o motivo das pessoas toparem tudo por dinheiro é porque tudo está tão caro hoje em dia.
Me interessa também um estudo financeiro/histórico do custo de vida ao longo dos anos. Não sei como explicar, mas seria algo que analisasse a qualidade de vida das famílias (pode ser esse termo?) ao longo dos anos, de 1900 a 2023, considerando fatores como salário, inflação, custo de vida, quantidade de horas trabalhadas, tipos de lazer, acessibilidade a cultura (música, arte, livros etc), prática de atividades físicas, posse de bens básicos (casa, veículo de deslocamento – não limitado aos automotores, bicicletas e ônibus contariam), acesso à mobilidade urbana coletiva, perspectivas de estabilidade econômica, etc.
Um super estudo que colocasse as diferentes épocas em um panorama “aproximadamente” isonômico (se é que posso usar esse termo haha) e chegasse a conclusões (ou tendências de conclusão) interessantes.
Não li o texto, porém eu tenho uma teoria.
Há alguns anos, o custo de vida era mais baixo devido existirem menos coisas. Não havia necessidade de ter celular, não havia necessidade de internet, não havia necessidade de ter uma TV por cada quarto em uma casa, não havia necessidade de uma casa totalmente conectada (nunca entendi essa tendência), e etc. Era um telefone na casa. Era uma TV na sala e chega. Era um carro para a família.
Além disso, e não havia esse ritmo massivo de consumismo que existe hoje, portanto a percepção de que já tínhamos (quase) tudo era maior. E quanto mais voltamos no tempo, mais isso se intensifica. No início do século 20, essa discrepância consumista era menor ainda, e no meu ponto de vista, dava ao povo em geral uma sensação de maior de felicidade.
Sei lá, posso estar falando bobagem.