Eu detesto IA generativa. Não gosto do que está acontecendo com a indústria, e não gosto do que ela está fazendo com os artistas. Não vamos introduzir nenhuma IA generativa em nossos produtos.

— James Cuda, CEO da Procreate.

A Procreate desenvolve aplicativos de criação para o iPad — um homônimo, de pintura digital, e o Dreams, de animação. A fala dele foi celebrada pela gente anti-IA. / x.com (em inglês)

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11 comentários

  1. Todos aqueles que não evoluíram foram esquecidos pela historia. A evolução é obrigatória e faz parte da própria existência. Vão ser obliterados do mapa.

    1. “A evolução é obrigatória e faz parte da própria existência.”

      nem a evolução é obrigatória, nem faz parte da existência nem o próprio sentido da palavra é absoluto

      esta é uma típica e problemática visão positivista da história — e bastante tecnodeterminística.

  2. Vi dois filmes em curta metragem nessa semana feitos com IA exibidos no festival Kinoforum (que aliás recomendo; melhor ainda, é de graça: https://2024.kinoforum.org/). Um era todo feito em IA, inclusive o roteiro, outro era só a animação, o roteiro era feito por um humano. O todo feito por IA achei péssimo, com um visual tosco na maioria (tirando um ou outro trecho com referências interessantes que ele tinha posto no prompt), aquela coisa bem artificial, e o roteiro bem raso. O outro gostei da história, mas o visual também fica com aquele efeito meio artificial, parece uma propaganda de Fanta desses sabores bizarros com o refrigerante ultracolorido. E daí me pergunto: isso é arte? Se um animador manda uma IA desenvolver um curta e só teve trabalho de pensar na premissa e referências, o resultado final pode ser considerado uma arte autoral? Ou é mais um produto vazio?

      1. Ué, entendo que sim. Filmes, sejam de animação ou não, são considerados arte, tem até a expressão que denomina o cinema de “sétima arte”. Se existe um conceito, uma idéia que é desenvolvida num roteiro e filmada, isso pra mim é arte. Minha dúvida é até que ponto o resultado desenvolvido por IA a partir de uma premissa é arte. Porque o conceito foi pensado de forma criativa, mas o resultado foi simplesmente desenvolvido com uma ferramenta digital, sem um pensamento criativo, artístico por trás.

        1. acho válido questionar o avanço dessas IAs proprietárias, mas sempre digo que o pior caminho possível seja o do questionamento do suposto caráter de arte do que elas produzem

          o problema da arte é que, ainda que se trate de uma palavra polissêmica, existe todo um campo de estudos consolidado sobre ela, bem como uma história e uma historiografia — e a história da arte já incorporou a IA e os procedimentos criativos ligados à IA muito tempo atrás (diria que há pelo menos 100 anos).

          note que você mesmo cai nessa armadilha: recorre a uma definição mas logo coloca empecilhos para dizer que uma coisa seja ou não arte

          não é a intencionalidade ou a capacidade técnica ou a autoria que definem o que caracterize algo como arte. Arte é aquilo que o mundo da arte diz que é arte. Se isso inclui IA ou não, não importa. O MoMA adquiriu recentemente um conjunto de obras feito por IA, por exemplo.

          um filme a priori não é arte — e não é porque ele foi feito por um ser humano ou por uma IA que ele será ou não arte.

          Rauschenberg nos anos 50 pediu a Willem de Kooning que lhe fizesse um desenho. Rauschenberg apagou esse desenho e transformou esse desenho apagado em sua obra. Isso é arte? Quem é o autor?

          Andy Warhol mandava serigrafistas reproduzirem suas famosas imagens de ícones do mundo pop, como Marilyn Monroe. Ele dava a instrução (um “prompt”) e os serigrafistas produziam aquelas séries de imagens. Ele é o autor? Isto é uma obra de arte?

          Athos Bulcão chegava para os operários da construção e mostrava o seu azulejo modular e dava algumas instruções (“algoritmos”): “não pode repetir mais que três vezes a mesma posição”, por exemplo, ou “quatro azulejos não podem fechar uma imagem” ou algo do tipo. Os azulejistas então espalhavam os azulejos montando uma composição “aleatória”, mas produzida a partir de instruções (“prompt”) definidas. Isso é arte? Quem é o artista?

          sem falar nos casos clássicos de questionamento do estatuto da arte, como a Merda de artista de Piero Manzoni ou o porco empalhado de Nelson Leirner.

          ou o automatismo surrealista e a maneira como o dada lidava com o acaso e com o absurdo: duchamp, tzara, breton, magritte, etc — esse povo todo adoraria usar IAs generativas.

          E, mais ou vez, isso não importa na discussão das IAs: há outras razões para nos preocuparmos com elas. Dizer que não pode ser arte porque usa IA aponta simplesmente para a ignorância sobre a própria história da arte.

          1. Olha, não sei se dá para dizer que a história da arte já incorporou a IA e seus procedimentos criativos. Fazer um paralelo entre um artista trabalhando com assistentes (e sim, isso existe há tempos e não desligitima a autoria da obra) e uma IA acho que pode ser um certo exagero.

            Afinal, minha dúvida nesse caso permanece a mesma: quando Andy Warhol mandava reproduzir suas serigrafias ou um artista produz uma matriz de uma gravura e ela é reproduzida infinitas vezes você não anula o fato de que houve uma criação aí: o artista projetou sua obra e apenas se utilizou de assistentes para colocá-la em prática (como um arquiteto e sua equipe, por exemplo).

            Mesmo em casos mais extremos, como esse exemplo do Rauschenberg (essa não conhecia, interessante), o conceito foi todo do Rauschenberg. Ele não pediu para uma máquina algo do tipo: “crie uma obra disruptiva a partir desse original do de Kooning”. Minha dúvida e frustração com esse uso da IA ao ver o curta é exatamente por essa perda de criativade e ausência de projeto. Só preparar um comando do tipo “crie um filme sobre sonhos com estética cyberpunk” fez com que o resultado não tivesse nenhuma criação autoral/pensamento artístico, como nos casos que você listou. Para mim, pareceu mais um “gerador de lero-lero”, como nos resultados de AI de texto, mas na forma de imagem.
            Outra coisa que discordo é dizer que isso não importa na discussão das IAs. Toda nova tecnologia ou poderio da indústria afeta o que pode ou não ser produzido e o que será ou não valorizado e, consequentemente, acessado e consumido pelas pessoas. Tem toda a questão de como os algoritmos e streamings ditam o que é sucesso, por exemplo. Se daqui por diante o Youtube priorizar playlists de músicas feitas por IA (também já me deparei com uma bizarrice dessas) ao invés de músicas originais de artistas humanos, por exemplo, isso afetará nosso consumo de música, e daí por diante.

          2. @Devagar

            você certamente pode manifestar incômodo com a qualidade final daquele curta feito a partir de um prompt (e imagino que seja ruim mesmo). Mas note que não isso que o qualifica ou o desqualifica como “arte” — e mais uma vez, o uso dessa palavra é péssimo, arte é outra coisa.

            acho fundamental discutir IAs, mas não adianta tentar desqualificá-las por não poderem produzir arte porque, como já argumentei, o mundo da arte já a acolheu há pelo menos cem anos (e a maneira como você refuta meus argumentos apenas o reiteram: você diz que andy warhol utilizava assistentes mas a autoria continuou sendo dele e o mesmo a gente poderia dizer de um prompt, o problema é que nem uma coisa nem outra caracterizam algo como arte)

            eu insisto que as pessoas que estão questionando o potencial artístico das IAs ignoram o básico de história e teoria da arte — e o problema é que isso realmente não importa porque a ameaça das IAs vai em outra direção

            eu sempre dou o exemplo do trabalho da artista e pesquisadora gisele beiguelman, que usa IAs e outras ferramentas semelhantes há muitos anos. Vai dizer que o trabalho dela não é arte só por se utilizar de IA?

            e mais uma vez: precisamos separar arte de mercado criativo. Essas duas coisas se cruzam, mas só até certo ponto: a arte se manifesta por meio do mercado da arte, mas o mercado criativo e o mercado da arte são distintos (muito distintos).

          3. Acabei não respondendo ao último comentário e quando fui procurar o post tive dificuldade em achar. Só hoje consegui parar com mais tempo e encontrei. Acho interessante o debate que você traz, mas continuo com dificuldade de misturar no mesmo balaio a IA generativa com o uso de outras ferramentas tecnológicas na arte. Mais uma vez, entendo que a Giselle Beiguelman (aliás estou com um livro dela na fila faz um tempo, deu vontade de passar na frente na minha próxima leitura para ver se ela comenta algumas dessas questões) use tecnologia no seu trabalho, mas acredito que ela tenha controle autoral da obra, saiba o que pretende quando usa a tecnologia. O que me incomodou no caso do curta e de modo geral é o modo aleatório em que a IA generativa é usada para produzir obras de arte. Dá-se alguns parâmetros e o resultado final é gerado a partir de referências colhidas pelo algoritmo, sem a escolha do artista pelo caminho a ser seguido e obra final. Enfim, entendo que o tema dê pano pra manga e vou procurar ver como outros artistas e teóricos como a própria Giselle Beiguelman tratam a questão.

  3. é o famoso “me engana que eu gosto”

    ele sabe que desenvolver ferramentas de IA integradas a aplicativos de ilustração/animação é tarefa cara e complexa num momento em que a bolha da IA está prestes a estourar (como as várias outras modas recentes do mundo de tecnologia de consumo)

    recusando-se a pagar esse preço ele pode se aliar aos discursos mais fáceis anti-IA

    mas assim que a bolha da IA estourar e seus usos se difundirem sem o alarde atual (como já acontece nos aplicativos da Adobe) eu duvido que ele não vá correr atrás de implementar ferramentas similiares às do photoshop (“complete esse gramado pra mim”, “me faça sugestões de céu”, “corrija os erros dessa figura”, etc) simplesmente porque, apesar da gritaria anti-IA, o mercado vai exigir isso tanto quanto exige ferramentas básicas de edição de imagem

    1. (sem falar no fato de que aplicativos como o Procreate estão direcionados justamente para ilustradores em posições intermediárias no mercado — justamente aqueles que tendem a desaparecer com o avanço da IA, já que no futuro um único diretor de arte acabará fazendo com IA o trabalho precário que antes era feito por cinco ilustradores ou designers)