Excesso de inteligência
A chegada do ChatGPT, da OpenAI, em novembro de 2022, foi a largada de uma nova corrida do ouro.
Empresas na vanguarda do que se convencionou chamar “inteligência artificial” (IA), como Google e Meta, até então não arriscavam colocar chatbots não confiáveis e recursos de edição super poderosos nas mãos de qualquer pessoa.
A OpenAI arriscou, e, com isso, ganhou o imaginário popular e forçou uma mudança de postura em empresas muito maiores.
O Google sentiu o calor e queimou a largada com o Bard. A apresentação do chatbot, feita às pressas em fevereiro deste ano, foi um fiasco.
Desde então, o próprio Google, Meta, Amazon, grandes empresas e novas startups passaram a despejar quantias obscenas de dinheiro na criação de produtos comerciais baseados em IA.
Em setembro, quase um ano após o ChatGPT virar a chave do Vale do Silício, da web3 e NFTs para a IA, muitos desses produtos começaram a dar as caras:
- O Bard chegou ao hegemônico buscador do Google e a outros serviços da empresa, como o Gmail.
- Na Microsoft, Windows 11 e computadores Surface viraram coadjuvantes do Copilot, a marca que sinaliza as inserções de IA em produtos da casa, no último evento organizado pela empresa.
- A Amazon atualizou a Alexa para falar mais e melhor, graças à inteligência artificial gerativa.
- A Meta lançou um rival do ChatGPT e do Bard, o pouco imaginativo Meta AI, e contratou celebridades para darem rostos a personas baseadas em IA que aparecem como contatos no WhatsApp, Instagram e Facebook.
- Nesse intervalo, o ChatGPT ganhou uma nova versão e aprendeu a “ver, ouvir e falar”, como notou o anúncio no blog da OpenAI — que, aliás, poderia ser o de um filme ruim de ficção científica e/ou terror.
Com tantas empresas que controlam as nossas vidas inebriadas pela IA, ávidas por empurrá-la ao público, é um bom momento para para e pensar no porquê disso.
Num sentido pragmático, as IAs ajudam em sessões de brainstorming, nos primeiros rascunhos de um texto, organizando e limpando dados, criando imagens ilustrativas.
Muitas dessas aplicações levantam questões relevantes, como o uso antiético de material alheio para treinamento, o consumo de recursos naturais pelos potentes servidores usados para treinar e responder as solicitações dos usuários, e os impactos no mercado de trabalho.
Debate-se, ainda, se as mudanças que as IAs prometem (ou ameaçam, dependendo do ponto de vista) se realizarão. Pode ser uma revolução, pode dar em nada.
Para as empresas, porém, é quase um “tudo ou nada”. Não basta usarmos um chatbot para trabalhar. O futuro vislumbrado por elas é um em que a IA está presente o tempo todo em nossas vidas.
Para a Meta, por exemplo, em breve jogaremos RPG com um Snoop Dogg de IA ou falaremos do jogo de ontem à noite com uma réplica virtual do ex-marido da Gisele.
Assisti à transmissão dos eventos da Meta e da Microsoft. Em ambos, tive uma profunda sensação de isolamento, uma artificialidade etérea, mais ficcional que a de filmes de ficção científica que se esforçam para entregar o que Mark Zuckerberg e Satya Nadella conseguiram demonstrar sem esforço.
Corremos o risco de passar de um estágio em que estamos isolados uns dos outros, interagindo apenas por telas, para nos isolarmos de vez, ocupados demais falando com máquinas que se parecem mais com seres humanos do que nossos iguais.
Acredito que todo exagero dado as IAs generativas se tornou algo muito ruim para o potencial que esse tipo de ferramenta pode trazer para sociedade, seja para o bem ou para o mal.
Posso falar do meu uso, principalmente do ChatGPT, que coloco como um assistente para o meu dia-a-dia, seja no trabalho ou pessoal. Posso dizer que usando a ferramenta como auxilio, vem ajudando demais minha produtividade. Por exemplo: revisão de textos que escrevi.
Esse último parágrafo foi um soco.
E o Claude 2 da Antrophic?
O hype está caindo, e ficando claro as limitações. E está na mesma hora que o google está mostrando suas limitações.
AI, na forma que vai ser, é necessário e francamente, finalmente.
Imagina o mundo, muito muito breve, em que podemos fazer qualquer pesquisa falando como humano e ter as respostas “boas o bastante”. Não precisa ser tecnicamente perfeito 99.99% do tempo para min. Quero procurar uma palavra… “como se chama quando ter muitas opções é o mesmo problema, para o consumidor, que ter poucas?” e ao falar no ar, que alguma maquina me responda algo que não seja “desculpe, eu não entendi”. Imagina o mundo onde eu passo a aprender coisas da wikipedia conversando como um ser real, não fazendo daças de palavras chave para ter uma resposta razoável.
Isso eu percebo que quero desde sempre.
E, como tudo na internet, assim que a grande massa passar a usar vai virar uma bosta desanimadora, apenas nao sei como ainda… :_(
Na minha função, ajuda bastante ter uma IA pra gerar esqueletos de texto. Não costumo, mas quem é mais “junior” (detesto essas hierarquias de empresa) consegue destravar com um esboço inicial da ideia no ChatGPT.
A questão é mais profunda do que a sua indagação Ghedin: deveríamos estar usando toda essa tecnologia para trabalhar muito menos e, principalmente, trabalhar menos em tarefas repetitivas. Mas não é isso que ocorre, estamos trabalhando muito mais e cada vez estamos sendo empurrados pra uma neurose de produtividade e medo de perder o emprego.
E, principalmente, trabalhando menos estaríamos com a intaeração humana que importa: família e amigos.
Se as IAs fazem o trabalho mais braçal, não faz mais sentido trabalharmos as 44h ou mais horas por semana. Mas o capitalismo tardio vai se recrudescendo e retornando à era pré-revolução industrial.
Correção: réplica virtual do ex-marido da Gisele
Opa! corrigido.