E-mail em texto puro
Em meados dos anos 1990, uma guerra foi travada nas caixas de e-mail de quem já estava online. Foi nessa época que o e-mail em HTML chegou, criando discussões acaloradas em BBSs, listas de e-mail e canais de IRC.
É bem provável que a maioria — talvez, você — não saiba do que estou falando. Voltemos uma casa, para ficarmos todos na mesma página.
Mensagens de e-mail pode ser enviadas em texto puro (text/plain), tal qual arquivos salvos no Bloco de Notas, ou em HTML (text/html). Nesse segundo formato (ou “MIME type”), as mensagens são criadas como se fossem páginas de um site, o que abre uma caixa de Pandora, digo… de possibilidades, como formatação rica e imagens misturadas ao texto.
O e-mail em HTML tem algumas desvantagens óbvias, como a menor segurança devido à ocultação dos links e carregamento de mídias remotas. Um problema incidental é que, ao contrário dos navegadores web, os clientes/apps não seguem os padrões web — cada um exibe o HTML de um jeito, o que torna a criação de leiautes de newsletters, por exemplo, um inferno.
Outro problema do HTML é que mensagens nesse formato são mais “pesadas”, por terem partes invisíveis (cabeçalhos e o próprio código HTML) e visíveis (imagens, em especial) que a contraparte em texto puro não tem.
Hoje isso talvez não seja um grande problema, graças às conexões rápidas onipresentes. Nos anos 1990, com os links lentíssimos de conexões discadas, era algo que fazia diferença.
Mauricio Teixeira, então funcionário de um provedor de internet em Belém (PA), ficou tão irado que, com alguns amigos, idealizou a “Campanha da Fita ASCII”, um protesto contra o e-mail em HTML gravado na assinatura de todas as mensagens de e-mail que enviavam.
ASCII é um antigo padrão de codificação de caracteres. Há anos foi superado pelo UTF-8, capaz de lidar com caracteres de idiomas além do inglês.
Embora tenha perdido os registros de quase 30 anos atrás, uma de suas mensagens, datada de 17 de junho de 1998, foi salva e ilustra uma página que mantém a memória da Fita ASCII, ou ASCII Ribbon Campaign. É óbvio que a assinatura tem o desenho de uma fita em ASCII, que tentarei reproduzir aqui:
/"\ \ / CAMPANHA DA FITA ASCII - CONTRA MAIL HTML X ASCII RIBBON CAMPAIGN - AGAINST HTML MAIL / \
Bati um papo com Mauricio, que hoje usa o Gmail no navegador e envia mensagens em HTML.
“Eu era outra pessoa naquela época, um cara mais extremista, exagerado”, contou-me. “Não que eu não concorde com a ideia base de e-mail em texto puro. Concordo. Eu só não faria de novo o que fiz, do jeito que fiz.”
Mauricio teve a sorte de ter contato com computadores muito cedo, em BBSs de universidades, antes da chegada da internet comercial ao Brasil. “Eu vinha de um ambiente em que só existia texto puro”, disse.
Trabalhar em um provedor (“sabia de trás para frente todas as regras [do e-mail], os RFCs”), mergulhado no terminal do Linux o dia todo e lendo e-mail nelas, ou seja, em texto puro, levou-o à Campanha da Fita ASCII.
A bronca maior era com e-mails que não vinham com cópia em texto puro. E-mails em HTML podem ser enviados com uma cópia em texto puro, útil para casos como o do Mauricio do final dos anos 1990, ou seja, gente que usa clientes/apps de e-mail incapazes de renderizar HTML. “A gente ficava irado por causa disso”, relembrou.
Hoje, ele aponta outro problema do e-mail em HTML: a menor acessibilidade. Leiautes em HTML ou mesmo formatações complexas podem dificultar a leitura por pessoas com limitações motoras ou cegas.
A campanha não teve muita repercussão, apesar dos registros que resistem até hoje em páginas obscuras (e em uma entrada na Wikipédia). Segundo Mauricio, naquela época era mais difícil “espalhar ideias que fossem consideradas alternativas”.
Quando perguntei se outro fator para o fracasso da campanha pudesse ter sido o fato dela atacar um “não problema”, ele concordou: “Para a maioria das pessoas, a capacidade delas poderem fazer um e-mail mais bonito era mais importante do que os outros camaradas loucos de pedra, que ficavam reclamando que aquilo ali estava errado.”
Mauricio, que hoje trabalha na Red Hat, nos Estados Unidos, trocou os clientes de e-mail no terminal pelo webmail quando suas atribuições profissionais tiraram-no do escritório, ou seja, quando passou a precisar do acesso ao e-mail em trânsito. (Isso foi antes dos smartphones modernos.) “Hoje, grande parte do meu trabalho é no navegador web”, contou. “Aceitei que a vida é no navegador agora.”
***
Apesar do domínio absoluto do HTML no e-mail, o texto puro ainda resiste. Alguns clientes/apps populares, como Gmail, Apple Mail e Outlook, permitem redigir mensagens em texto puro, mas não a leitura quando a versão em HTML está disponível.
No Thunderbird, dá para viver só no texto puro. A instalação de uma extensão que habilite a versão em HTML quando não há texto puro ou ele vem bagunçado, como a Allow HTML Temp, é recomendada. O Evolution, para Linux, também oferece essa experiência.
Raros, ainda existem clientes de e-mail que só trabalham com texto puro, como o Claws ou o The Bat. O KMail, do projeto KDE, até permite ver mensagens em HTML, mas o padrão obrigatório é texto puro. (A barra/botão para converter mensagens em HTML é uma atrocidade visual.)
Faz alguns anos que escrevo e-mails em texto puro. Adoraria poder lê-los assim também. Posso configurar a minha fonte favorita e ler sem muitas distrações. A newsletter do Manual só não é em texto puro porque a ferramenta de disparo não permite. (Vai uma cópia em texto puro, para quem a lê em aplicativos que priorizam esse formato.)
No mundo real, o HTML viabiliza e-mail marketing ruim e os instintos mais profundos de mau gosto em pessoas que não conseguem resistir a uma barra de formatação de texto.
Caso queira se juntar à turma da Fita ASCII, o site Use plaintext email é um ótimo ponto de partida, com indicações de clientes/apps e outras informações.
Melhor usar Notepad++
BBS era uma coisa de outro mundo na época, incrível demais para uma criança. Só perdia para o Clipe Informática na capacidade de surpreender. Saudade.
Caramba! Sabia das fitas K7 de jogos e programas, mas não conhecia essa técnica de transmitir pelo rádio. Algo surreal mesmo. Esse tipo de tecnologia antiga me impressiona muito mais do que as atuais.
Enquanto isso, em 2024, se acaba a energia elétrica (algo não muito raro ultimamente para quem mora na cidade de São Paulo), ficamos sem telefone fixo (para quem não sabe, o telefone fixo até a época da internet via “ADSL” funcionava mesmo sem energia elétrica).
A energia do fixo não vem da linha?
Eu não tenho mais fixo, mas achei que seguia igual. Antigamente o fixo nem na tomada era ligado.
Normalmente, hoje em dia, é VoIP. O aparelho fica ligado ao modem, e a ligação telefônica é digital, trafegada através de uma VLAN específica na rede.
Estou impressionado com essa mudança. Não sabia que precisava da energia elétrica.
Pô vou discordar que assim é melhor kkkkk gosto do e-mail já formatado, sem exageros claro
Obrigado pela dica do “Use plaintext email”. Não sei se existe, mas estou atrás de cliente ou webmail que use markdown, seja num “live mode”, com duas janelas (edição/preview) ou alternando entre elas.
Esse papo me lembra de algo hilário que vi na época do Google+, quando fizeram alguma modificação na seção de comentários. Fizeram desenhos em ASCII de tanques, helicópteros, fuzis e convocavam: “Join the resistance now!! Let’s get the old Youtube back”.
https://grahamcluley.com/wp-content/uploads/2013/11/youtube-ascii-art-comment.jpeg
https://www.tubefilter.com/wp-content/uploads/2013/11/ascii-youtube-art-1920×1131.jpg
Juro que não pretendo me defender, mas, por algum motivo, na época eu gostava muito do Google+, e até torcia que ele fizesse sucesso kkk
bom texto curtinho direto e com cheiro de nostalgia que faz sentido, não é só uma lembrança desmedida.
isso me lembrou de uma coisa que acho muito ruim: assinaturas de e-mail com imagem/gif
é tão mais prático e bonito visualmente ser apenas em texto, mas muita gente insiste em usar uma imagem para isso.
no meu trabalho usamos imagens estáticas mas é para ter o logo da empresa junto, fica tudo dentro de uma única imagem.
Mas porque não deixar as informações em texto e a logo sozinha ser uma imagem? Ou entendi errado?
Pelo menos na empresa que trabalho é assim.
Porque aí o e-mail é em HTML, hehe. Em txt, a mensagem inteira (incluindo a assinatura) só comporta texto puro.
pode ser rsrsrsrs é o outlook que usamos aqui
não sei acho que é par ser mais facil trocar assinatura copiando e colando, temos que usar o e-mail do núcleo, mesmo tendo e-mails particulares, os assuntos tem que estar compartilhados por todos, principalmente por questões de ausências. E falta treinamento do povo de TI e das chefias para ensinar o pessoal a ficar mudando assinaturas previamente salvas….
Algumas empresas, principalmente as grandes, dão muito valor (e com razão) a sua identidade visual. É a marca propriamente dita, composta pelas cores, logotipo, fontes, e todo tipo de formatação. Infelizmente isso vai junto ao e-mail. A maioria delas usa uma assinatura que contenha suas cores, seu logotipo, e às vezes até uma foto de perfil profissional do ser humano por trás daquele e-mail. Isso também ajuda a personificar a mensagem. Existem e-mails que são negociações, propostas de orçamento, concorrência, e personificar a mensagem (incluindo a assinatura) é uma forma de ser melhor notado.
Sensacional! Por mais newsletter assim.
Esse artigo se parece com uma introdução do Tecnocracia. O saudosismo nunca falha, adorei!
nossa verdade!
O mundo seria muito melhor se email nunca tivesse adotado HTML como MIME type!