As perdas de emprego são reais, mas a desculpa da IA é falsa

por David Gerard

Ambas as afirmações a seguir são verdadeiras:

  1. Em toda a economia dos EUA, não há um efeito visível da IA sobre contratações e composição dos empregos;
  2. Alguns setores estão absolutamente devastados diretamente pela IA.

Mas também:

  1. Ninguém se importa se foi tecnicamente a IA ou não que tirou seu emprego;
  2. A economia mais ampla já está visivelmente ferrada.

Até a imprensa financeira mais mainstream começa a admitir que alegar que demissões são culpa da IA é uma desculpa falsa para agradar investidores.

Aqui vai uma manchete da Fortune: “Demissões por IA se parecem cada vez mais com ficção corporativa que mascara uma realidade mais sombria, sugere a Oxford Economics”. Essa realidade mais sombria é que a economia já está mal. Mas voltaremos a isso:

A principal motivação para esse rebranding dos cortes de pessoal parece ser a relação com investidores. O relatório observa que atribuir reduções de quadro à adoção de IA “transmite uma mensagem mais positiva aos investidores” do que admitir falhas empresariais tradicionais, como demanda fraca de consumo ou “contratações excessivas no passado.” Ao enquadrar as demissões como uma guinada tecnológica, as empresas podem se apresentar como inovadoras e voltadas ao futuro, em vez de negócios lutando contra ciclos econômicos.

[…]

Quando questionado sobre o suposto vínculo entre IA e demissões, Cappelli pediu que as pessoas olhassem com atenção os comunicados. “A manchete é ‘É por causa da IA’, mas se você lê o que eles realmente dizem, eles falam ‘Esperamos que a IA cubra esse trabalho.’ Ainda não aconteceu. É só uma esperança deles. E estão dizendo isso porque acham que é o que os investidores querem ouvir.”

Um relatório (arquivado) do Yale’s Budget Lab diz que não há evidência de efeitos na economia como um todo vindos da IA:

O mercado de trabalho não parece ótimo, então parece fazer sentido que a IA esteja tirando empregos. Mas nós analisamos isso de muitas, muitas maneiras diferentes, e realmente não conseguimos encontrar sinal de que isso esteja acontecendo.

De modo geral, entre os setores econômicos, a IA não está afetando o mercado de trabalho de modo visível, mas é uma ótima desculpa para demissões:

Stephany disse que não há muita evidência em sua pesquisa que demostre grandes níveis de desemprego tecnológico devido à IA.

“Os economistas chamam isso de desemprego estrutural, então a fatia de trabalho não é mais grande o suficiente para todo mundo e portanto pessoas vão perder empregos em definitivo por causa da IA. Eu não acho que isso esteja acontecendo em larga escala,” disse ele.

Então, se isso for verdade, por que há tantas demissões? São problemas econômicos mais amplos e de longa duração. Pode-se começar pelo fim da política de juros zero [nos EUA].

De 2007 a 2009 tivemos a crise financeira global. A economia dos EUA foi tão danificada pelo colapso que o Fed (Banco Central de lá) baixou as taxas de juros para quase zero por quase uma década, só para manter o dinheiro fluindo. Você podia tomar um empréstimo praticamente de graça! Então as empresas cresceram ao máximo com o dinheiro barato. Contrataram em excesso por precaução, caso precisassem de trabalhadores.

Depois, em 2022, a inflação estourou e o Fed elevou as taxas de juros. De repente, as coisas não iam tão bem. Corta para 2024–25, e as empresas estão se livrando dos funcionários que contrataram prospectivamente como se fossem estoque excedente não vendido.

Então, as pessoas de fato estão perdendo empregos, mas não diga “ninguém está perdendo o emprego para a IA.” Isso não é verdade. Alguns setores realmente foram devastados pela IA em específico.

Brian Merchant, do livro Blood in the machine — que vocês deveriam ler — tem martelado esse tema. Ele tem um projeto em andamento, “AI Took My Job”, em que conversa com trabalhadores que foram de fato demitidos diretamente por causa da IA.

Tradutores, em particular — empresas acham que tradução automática ruim é boa o bastante. A qualidade do conteúdo gerado por IA do Duolingo é tão baixa que muitos clientes pagantes cancelaram a assinatura. Tradutores freelancers mal conseguem achar trabalho hoje, porque chatbots de IA produzem traduções.

Moderadores de conteúdo também são alvo da IA, porque as empresas realmente não ligam para o trabalho. Elas aceitariam qualquer porcaria, e agora estão aceitando mesmo!

A investida em “vibe coding” e o software que não funciona mais, não tenho um link com prova definitiva, mas está claro que qualidade é o item número 55 da lista de prioridades.

MBAs odeiam empregados. Qualquer empregado. Eles te desprezam. A IA promete a única coisa que os MBAs mais desejam — demitir pessoas — então eles a abraçam sem ressalvas. O fato de não funcionar não importa.

MBAs também presumem que qualquer trabalho que não entendem deve ser simples, então lançam lixo malfeito que qualquer consumidor percebe que é ruim. Mas o produto provavelmente não perderá sua base de clientes no próximo ano — provavelmente — então isso vira um problema para daqui a alguns trimestres.

Às vezes os gestores esquecem que a IA é só a desculpa, e demitem trabalhadores de nível inicial assumindo que a IA pode substituí-los — quando não pode. Às vezes percebem que atiraram no próprio pé.

O que vai acontecer é que as empresas vão perceber que os robôs não conseguem fazer o trabalho, mas isso vai levar um ou dois anos. Então as empresas que sobreviverem vão recontratar pessoas. Tentarão pagar menos, claro.

Liz Fong-Jones, da Honeycomb e ex-Google, diz:

A IA hoje literalmente não é capaz de substituir os engenheiros seniores que estão demitindo. As corporações de fato estão produzindo menos, mas apostam em usá-la de exemplo com gente o suficiente para que os sobreviventes baixem a cabeça e as ajudem a implementar IA em troca de manter seus empregos… por enquanto.

Quando a bolha da IA estourar — o que eu ainda chuto que será no próximo ano — isso marcará o início da Grande Depressão 2. Será uma coisa feia.

Só que já está feio — sem algumas gigantes de tecnologia trocando os mesmos USD 10 bilhões entre si, os números da economia oficialmente entram em recessão.

A economia real, onde você e eu vivemos, já está encrencada. Os números da economia real dos EUA estão tão ruins que o presidente Trump demitiu o Comissário de Estatísticas de Trabalho dos EUA por um relatório de empregos de que não gostou. É assim você nota que as coisas vão bem!

Agora é a é hora da ajuda mútua. Se você ainda tem um emprego, envie uns trocados para quem não tem. Eles precisam.

E, claro, devemos mencionar nossos bons amigos da Stop Gen AI, que ajudam a redistribuir dinheiro para os afetados por demissões relacionados à IA, ou com a desculpas da IA. Apoie o Stop Gen AI.

Publicado originalmente no Pivot to AI em 29/1/2026.

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2 comentários

  1. “não é verdade que pessoas estão perdendo emprego para IA. em alguns setores realmente pessoas perderam emprego para IA, mas veja bem… não é beeem a IA, sabe?, é culpa da economia e do gestor que acha que IA é boa e aí demite, mas a culpa não é da IA.”

    ou seja, ninguém está perdendo emprego para IA, só tradutores, moderadores, iniciantes em tech, suporte, redatores… a IA não substitui ninguém, ela só coincidentemente aparece exatamente no momento em que muitas dessas pessoas é demitida.

  2. Estou lendo o livro “Automação e o futuro do trabalho” que faz a mesma abordagem do texto. Segundo o autor do livro, a maioria das automações elimina alguma(s) tarefa(s) do emprego, mas não todas as tarefas e, consequentemente, o emprego. Por isso, não se pode considerar que o emprego acabou por causa da IA.
    Ainda segundo o autor, a automação tem gerado a manutenção de empregados arrombados (subempregos, mal remunerados) e o distanciamento $ entre a classe trabalhadora e altos empregados.