Redes sociais afetam adultos também

Existe ainda alguma dúvida de que redes sociais são prejudiciais para crianças e adolescentes? O ano de 2026 encaminha-se para o fim dessa fábula.

A Austrália já baniu o acesso de menores de 16 anos às plataformas sociais.

No Brasil, o chamado ECA Digital, com uma série de novas obrigações para sites e aplicativos a fim de mitigar os perigos da internet a que menores estão sujeitos, está prestes a entrar em vigor — com algumas aberrações perigosas, como a “verificação de idade”.

Nos EUA, figurões da indústria estão depondo perante a Justiça no julgamento em que uma mulher acusa as empresas de estimularem um uso compulsivo que piorou sua depressão e ideação suicida quando criança.

No Reino Unido, o primeiro-ministro Keir Starmer também esta surfando essa onda, pressionando pela proibição do acesso por menores de 16 anos, a exemplo da lei australiana.

Diante de tanta movimentação, cabe perguntar: redes sociais são prejudiciais apenas para crianças? Em sua coluna no Financial Times, Stephen Bush critica a ideia do governo britânico. Ele sugere expandir o foco para além os menores de idade (arquivo) porque os problemas com que eles se deparam nas redes são comuns a todas as idades:

Uma grande razão pela qual a proibição de menores de 16 anos das plataformas sociais está ganhando tração como ideia política é que é mais palatável do que banir a todos nós [das plataformas]. Mas está longe de ser evidente que qualquer um de nós esteja bem servido por algoritmos que oferecem conteúdo viciante, pornografia violenta ou imagens intermináveis de atrocidades. Também não é óbvio que “proteger” menores de 16 anos não deixará os jovens de 16, 17 e 18 anos mais vulneráveis. A grande quantidade de usuários de internet de primeira viagem que são enganados por fraudes ou são suscetíveis a comportamentos danosos sugere que o resultado disso tudo [proteger menores de idade] é apenas empurrar o problema para frente.

O argumento de Stephen é de que redes sociais (que, a essa altura, de sociais têm pouca coisa) são nocivas para todo mundo. Uma boa regulação deveria atacá-las por esse ângulo em vez de focar em um recorte do público — mesmo um mais vulnerável, como são as crianças e adolescentes.

Em seu texto, o colunista faz perguntas astutas. Qual a idade adequada para consumir vídeos de violência extrema? E imagens de abuso infantil geradas por IA? Após os 18 está liberado ser ludibriado por anúncios fraudulentos? Tudo bem passar horas grudado em feeds infinitos quando se é maior?

Não existe idade certa para essas coisas. E, ainda assim, tudo isso está normalizado. As pessoas reclamam de estarem viciadas no Instagram ou no TikTok, dos golpes chancelado pelas plataformas em todo anúncio que veem, dos vídeos com cenas atrozes que saltam do mais absoluto nada, e… tudo bem? Continua tudo igual. Talvez devêssemos tratar redes sociais como tratamos o tabagismo no Brasil. Proibidas para menores e com restrições mais severas que atinjam (e beneficiem) a todos.

Para muitos políticos, banir os jovens das redes sociais é apenas uma distração reconfortante de nossa incapacidade coletiva de nos protegermos.

Pois é, Stephen.

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25 comentários

  1. eu acho confuso o argumento de que uma regulação para crianças e adolescentes é um engodo quando deveríamos regular pra todos. eu concordo que deveríamos pensar numa solução que considerasse o impacto negativo para todo mundo que usa redes sociais (e até é obrigado a usar). isso não exclui de forma alguma que devam existir garantias voltadas a uma parte da população que é mais vulnerável à nocividade da internet (assim como existe o próprio ECA). sei lá, não me parece que uma coisa exclui a outra

  2. Esse é meu primeiro comentário por aqui. Vou trazer algo que escrevi originalmente em inglês no Fediverso:

    Quando eu tinha 8 anos de idade, eu ganhei meu primeiro PC. Eu sempre fui um menino nerd que costumava desmontar os brinquedos para ver como funciona. Como esperado, isso aconteceu com meu primeiro contato com um computador, com a diferença de que eu percebi que eu podia desmontá-lo usando o teclado: de repente, eu estava mexendo com DHTML e ActiveX (XP+IE6), eu estava programando. Eu só tinha 8 anos.

    Isso foi, em grande parte, um esforço auto-didata (sempre fui um lobo solitário que prefere estudar ao invés de socializar, por medo de bullying), mas também devido a fóruns de discussão e comunidades do Orkut. […]

    Se não fosse por mim ter participado de redes sociais durante minha pré-adolescência, eu não teria muito do conhecimento que tenho hoje. Talvez “ignorância é uma bênção” (como diz Cypher em Matrix), talvez fosse mais sociável, talvez fosse um homem socialmente normal vivendo uma vida socialmente normal. Eu dificilmente me tornaria o inconformado[, rebelde lilithista-luciferiano-telemita-gnóstico] que sou hoje, dificilmente teria deixado o catolicismo [porque eu não teria contato com o dito “conhecimento proibido de Lúcifer”, por exemplo].

    Quanto ao tal do “conteúdo adulto”, meu primeiro contato sequer foi usando aquele PC: foi, na realidade, através da TV aberta. Programas brasileiros de antigamente como Pânico na TV ([cheguei a descrever o programa quando teci meu comentário em inglês no Fediverso, mas como estou entre pessoas brasileiras, acho que dispensa apresentações]), Banheira do Gugu ([idem]), “Pegadinhas do Sílvio Santos” (que envolviam pegadinhas sexualmente sugestivas)… Todos esses programas foram abertamente transmitidos, sem levar em conta a idade da audiência.

    Então também teve a escola, colegas me bulinando, e algumas vezes o bullying envolvia… situações, desagradáveis no momento, mas que posteriormente me levavam a… enfim, deixa pra lá. A escola nunca fez parar os bullyings, eu era agredido até mesmo por professores!

    Também há a família, primos que provavelmente me abusaram, não sei, eu sequer sou capaz de lembrar!!

    Hoje, com 30 anos de idade, não posso deixar de notar toda a hipocrisia social: de repente, “precisamos proteger as crianças”. Sério!? O que está sendo feito para EXTERMINAR o bullying escolar? O que está sendo feito para EXTERMINAR o abuso sexual infantil da face da Terra?!

    Sim, as redes sociais podem ser ruins, eu concordo, mas apenas banir crianças das redes sociais não as protegerá das situações além desse véu RGB. Aliás, não houve sequer uma única punição envolvendo o que provavelmente foi o maior escândalo global envolvendo abuso infantil, mas “as redes sociais são más”!

    Sem dizer o quanto isso vai levar à dissonância cognitiva diante de um mundo onde praticamente todas as interações e aspectos sociais se tornaram digitais, especialmente depois do COVID. Quero dizer, não posso jogar fora meus dispositivos e me tornar Luddita: o governo me compele a ter um app de identidade digital [aqui me refiro ao Gov.br, Carteira de Trânsito Digital, Cartão SUS digital, CLT digital, etc], empregos/empresas me compelem a ter uma conta em um banco que requer a instalação de um app de internet banking [aqui me refiro a coisas como iToken Itaú, Chave de Segurança Bradesco, autenticação Santander, etc]. Esse mundo se tornou irreversivelmente digital, e isso é um ponto de inflexão na história humana. Banir crianças do mundo digital pode acabar causando mais dano que benefício.

    E aqui faço um adendo-pergunta retórica: com a proibição de crianças e adolescentes das redes sociais (que, vale ressaltar, é um termo genérico e abrange lugares como Fediverso, Geminispace, fóruns de discussão, entre outros), qual seria o refúgio daquele menino de 8 anos que viu no computador um santuário intelectual para tentar superar os abusos que sofria diariamente na escola e na própria família, que não tinha quem confiar exceto aquele computador com Windows XP e Internet Explorer 6 onde ele, como na história do Elliot Alderson (Mr. Robot), usava o “ver código-fonte” em websites e mexia aqui e ali para fazer as próprias páginas web? Será que esse menino de 8 anos já não teria “partido desse mundo” (ideação com a qual eu convivo desde a minha infância) há muito tempo?

    Eu menciono algumas coisas pesadas nesse meu comentário, não sei nem se vai ser aprovado, minha primeira vez aqui comentando então não conheço bem esse ambiente em específico, mas ok.

  3. Se a gente pensar no cigarro (como sugerido nos comentários), vamos lembrar que começamos primeiro proibindo menores de idade, para só então melhor desenvolver campanhas pra conscientizar adultos. Talvez as redes sociais passem por processo semelhante. Essas mudanças costumam ser lentas mesmo, infelizmente.

    O que acho curioso é como normalmente ouvimos pensadores falarem dos danos das redes sociais partindo do pressuposto que elas são dadas, que todos temos conta em ao menos uma dessas plataformas, e só a partir dessa realidade supostamente inexorável é que desenrolam reflexões. Ora, por que não dar um passo atrás (ou seria à frente?) e simplesmente não ter conta em qualquer rede social? Entendo a fragilidade de propor soluções individuais para problemas de caráter social, mas em se tratando de classe média que faz crítica filosófica talvez valha a provocação.

    Também acho esquisito um pessoal que vem dizer que vício nesse tipo de tecnologia (e que agora podemos estender pra chatbots) é consequência de algo maior e que vem antes, como se as pessoas estivessem mal de cabeça e aí fossem mais vulneráveis à dependência/vício nessas tecnologias. Ainda que possa ser verdade que haja uma crise humana que antecede essas tecnologias (capi… cof, cof… ta, cof… lismo), isso não ajuda em nada combater um problema que já foi comprovado de inúmeras formas ser nocivo para a sociedade. Inclusive, cabe aqui também a analogia com o cigarro: talvez pessoas com problemas psicológicos X e Y sejam mais suscetíveis ao vício em cigarro, mas isso não muda o fato de que o cigarro em si gera problemas e que é um produto que precisa ser regulamentado para o bem de todos.

    1. Ora, por que não dar um passo atrás (ou seria à frente?) e simplesmente não ter conta em qualquer rede social?

      Além de ser uma solução individual, como você apontou, tal medida radical parte de uma premissa que acho falha, a de que toda e qualquer rede social é nociva e de que mesmo as redes nocivas são só isso, sem pontos positivos. Fosse assim, acho que mais gente daria esse passo radical de excluir seus perfis.

      Eu tenho a teoria de que se os feeds com recomendações algorítmicas fossem abolidos, boa parte da toxicidade das redes seria dissipada, por exemplo.

      1. >tal medida radical parte de uma premissa que acho falha, a de que toda e qualquer rede social é nociva e de que mesmo as redes nocivas são só isso, sem pontos positivos

        Não conheço todas as redes sociais existentes, mas as mais populares (TikTok, Instagram, YouTube, X) são bastante viciantes e nocivas, né? Não duvido que têm seu lado potencialmente interessante (como tinha a televisão e o rádio), mas usar esse argumento para manter conta em rede social me parece fraco. É como defender uma relação tóxica porque o parceiro até que faz coisas legais quando não está abusando moralmente. Daria até pra manter a comparação com o tabaco, afinal, o cigarro tinha algo de glamouroso e sociável, facilitando interações humanas e formando relações de todos os tipos.

        > Eu tenho a teoria de que se os feeds com recomendações algorítmicas fossem abolidos, boa parte da toxicidade das redes seria dissipada, por exemplo.

        Concordo que eliminar os feeds (e, presumo, todos os sistemas ativos de recomendação) iria melhorar muito o cenário, trazendo de volta alguma autonomia aos usuários. Mas daí ainda teríamos os reels, notificações, sistemas de like, influencers, grupos de WhatsApp, ads por toda a parte, etc, etc. O buraco é mais embaixo, e, como sempre, nos remete ao sistema econômico vigente (que agora já está mostrando as garras com chatbots, talvez os sucessores das redes sociais).

        Continuo questionando a suposta vantagem de se ter conta em rede social. Ora, se querem compartilhar algo com amigos, temos comunicação direta, seja via IM como WhatsApp/Signal/Telegram, e-mail ou mesmo vídeo chamada — pra não dizer encontros ao vivo! Se querem ler notícia, ainda existem os portais (incluindo os independentes). Se querem acompanhar alguma pessoa/equipe interessante, existem os blogs ou mesmo o YouTube (sem feeds nem shorts, por favor). Talvez fosse mais desafiador para pessoas comuns divulgarem seus trabalhos, OK. Mas vale todo o caos por conta disso? A maioria das pessoas está em rede social por isso? Não poderíamos criar/utilizar soluções melhores para esse fim?

        1. Num mundo ideal nós teríamos soluções melhores para esses fins. Para chegar lá, só precisa combinar com… todo mundo. O que é bem difícil. Não é que faltem tecnologias, práticas e alternativas melhores às redes sociais comerciais. Isso existe. O problema é convencer a maioria (nem precisa ser todos) a usarem-nas. É muito mais fácil, atraente e com maior potencial de alcance postar algo no Instagram do que em um blog. Ignorar isso é ignorar uma parte relevante do problema.

          1. > É muito mais fácil, atraente e com maior potencial de alcance postar algo no Instagram do que em um blog. Ignorar isso é ignorar uma parte relevante do problema.

            Uma postagem no Instagram hoje não alcança nem 20% dos seguidores. Essas plataformas são cada vez mais media e menos social. Além disso, é muito evidente que a esmagadora maioria dos usuários não é geradora de conteúdo (para além de selfies com filtro).

            Mas eu divago. Talvez um dos problemas seja justamente termos caído no encanto de que quanto maior o alcance e likes, melhor. Esse tipo de métrica faz a galera escrava de algoritmos desenvolvidos para nos manter online.

            De qualquer forma, mesmo achando que esse seja um problema social e que deve ser abordado de maneira coletiva para um resultado mais amplo e eficaz, acredito tambem que uma parcela considerável da classe média deveria ser mais pró ativa evitando essas tecnologias, uma vez que têm mais a ganhar do que perder longe delas.

            Novamente, a comparação com o cigarro se mantém: é muito bacana termos campanhas governamentais de vários tipos pra nos afastar do tabaco, mas o indivíduo esclarecido já era capaz de evitar esse troço e proteger a própria saúde — ao preço de se marginalizar em algum grau, veja você que alinhamento curioso com as redes sociais.

            A impressão que me dá é que a nossa época está tão imersa em comodidades que quer win-win pra tudo. Uma coleção infinita de conveniências sem qualquer consequência. Lamento, pessoal, mas não vai rolar. As escolhas que fazemos têm consequências, e muitas vezes essas consequências conflitam com nossos desejos.

          2. Uma postagem no Instagram hoje não alcança nem 20% dos seguidores. Essas plataformas são cada vez mais media e menos social. Além disso, é muito evidente que a esmagadora maioria dos usuários não é geradora de conteúdo (para além de selfies com filtro).

            Esses 20% compreende pessoas do seu círculo, fulalas. São a sua “audiência” da vida real. Acho que sou um bom exemplo por ter não um, mas dois blogs: se eu postar algo no Instagram, mais gente do meu convívio verá do que um post aqui no Manual. As pessoas têm o hábito de abrir o Instagram. Hábitos são difíceis de quebrar, mais ainda quando elas e as pessoas do convívio delas só postam ali dentro.

            A maioria das pessoas não é “geradora de conteúdo”, mas quando têm uma foto legal ou um story bobo, elas postam no Instagram. Não é nem uma questão de “quanto maior o alcance e os likes, melhor”. Arrisco até que a maioria não se importa em ficar famosa (daí muitos terem alterado seus perfis para privados, visíveis apenas para quem segue). É que ali elas têm uma audiência garantida, mesmo que parcial.

            Reduzir todos esses fatores a “as pessoas são ignorantes” é um equívoco tremendo.

          3. > Esses 20% compreende pessoas do seu círculo. São a sua “audiência” da vida real.

            Compreendem os seguidores na plataforma, Ghedin. E a heurística do Instagram (como qualquer rede social) não envolve saber quem realmente está mais próximo de você, e sim as chances de o conteúdo engajar pura e simplesmente.

            > se eu postar algo no Instagram, mais gente do meu convívio verá do que um post aqui no Manual.

            Você talvez esteja perdendo de vista meu argumento central, que é justamente questionar o valor dessas métricas de engajamento (criadas para nos manipular e gerar lucro). Em outras palavras, talvez os posts dos seus blogs não precisem de esforço ou tecnologia para obterem mais alcance simplesmente porque maior alcance não significa muita coisa no final das contas. De qualquer forma, você é gerador de conteúdo, portanto pertence a um nicho de pessoas. Meu argumento aqui é mais focado nas massas.

            > A maioria das pessoas não é “geradora de conteúdo”, mas quando têm uma foto legal ou um story bobo, elas postam no Instagram.

            Quando poderiam simplesmente enviar diretamente para os conhecidos que elas acreditam que iriam valorizar aquilo, em vez de terem a ilusão de que metralhar cegamente pra centenas de seguidores será melhor — novamente, porque existem métricas para reforçar essa crença (likes, seguidores, compartilhamento, etc).

            > É que ali elas têm uma audiência garantida, mesmo que parcial.

            Elas não sabem quem realmente vê o que elas postam — é tudo uma grande caixa preta altamente dinâmica, provavelmente incompreensível para nós humanos. É como metralhar no escuro, e com o preço alto que estamos discutindo por aqui já não é de hoje, não é mesmo?

            Não sei você, mas eu prefiro compartilhamentos pessoais a impessoais (e.g. receber diretamente a foto de um amigo em vez de vê-la postada publicamente). E se for pra ser impessoal, existem diversas plataformas públicas para isso, como blogs e fóruns.

  4. Esse argumento do autor sobre crianças tem base em uma teoria maior sobre a “libertação” das crianças, como última fronteira dos direitos humanos (muito análoga a questão das mulheres no passado). Para quem tiver interesse segue o link de 01 livro sobre o assunto (em inglês): https://archive.org/details/EscapeFromChildhood/mode/2up

  5. La vai um longo comentário e fiquem a vontade para pular se quiserem. Se continuarem, agradeço.

    Acho que isso casa muito com a questão da “bostificação” levantada no Órbita.

    Fico me perguntando se um controle maior evitaria problemas sociais na questão da internet. Volta a um ponto levantado na “bostificação”: já abriram a caixa de pandora e não tem muito como voltar – Isso falando em culturas como a do Brasil. Como levantado, a China fez um “firewall” e com isso as questões culturais deles ficam entre eles, evitando tanto que algum aspecto deles negativo passe as culturas ocidentais, e vice versa.

    Isso também volta a outro ponto: a questão midiática. Mesmo antes da massificação da internet, a televisão trouxe muita “cultura inútil” para pausterizar a forma das pessoas agirem – inclusive influenciando no incentivo as compras e nas formas de consumo e produção própria. E antes da televisão era o rádio, antes do rádio os jornais, antes dos jornais, talvez podemos dizer “influêncers de época” – gente que espalhava notícias para seus povos?

    Mas voltando a proibição: fechar a caixa de pandora realmente faria algo melhor em comunicação e comportamento humano?

    O diabovelho puxa a questão da liberdade individual – algo que a (extrema) direita tem usado como argumento para tentar estar no poder. E bem, Brasil meio que ficou numa beira de abismo entre 2013 a 2022 com esta lógica. Argentina está indo para o mesmo abismo nos últimos anos, Estados Unidos está tomando do mesmo rémedio que dava para outros países… e a tal “liberdade individual” no final virou uma dissociação coletiva, com uma “ditadura estatal” de qualquer maneira como pano de fundo (Estados Unidos tem a questão dos estados em si terem legislações locais muitas vezes mais restritivos em relação ao país como todo). Isso falando de uma visão política curta que tenho e não negarei.

    E as hoje “big techs” aplicam uma espécie de argumento falso em relação a tal “liberdade”: xingue “quem quiser”, menos quem paga eles ou eles julgam que não deveriam ser julgados. Então “liberdade por liberdade individual”, ela não existe na prática. Você é livre para agir no conjunto social tal como seus pares, mas não a ponto de atacar seus pares ou aliados.

    Liberdade em um senso comunitário pleno não que não exista, mas vale da máxima “a minha termina na sua”.

    Mas voltando a questão das redes sociais: e se elas de fato não existissem ou fossem totalmente bloqueadas?

    Bem, há ainda bares com gente bebendo e fumando, ou uma praça aberta com diversos tipos de pessoas, ou escolas, grupos sociais como igrejas, agremiações e outros… onde muitas pessoas não ficam acessando freneticamente seus celulares ou nem tem um celular, no máximo um daqueles só de discar o número. Seriam “redes sociais analógicas?” Comunidade talvez seja a palavra exata?

    Quando vim parar nas redes sociais, acho que eu tinha uns 17/18 anos e acessava pegando internet dos outros. Nisso foram mais de 25 anos online, 10 deles aos trancos e barrancos em internet alheia de gente que tinha mais condições de ter algo do que eu.

    Eu era o cara “viciado no computador”. Os donos do computador não faziam muita coisa, no máximo um e-mail ou tirar uma dúvida na época que tinha o Cadê.

    O tempo passa. MSN, Orkut e Facebook fizeram a primeira onda de massificação de redes, saindo das mãos de quem tinha um pouco mais de dinheiro e agora permitindo quem comprou computador às prestações e tinha uma internet discada para usar a noite. Ou (como eu fiz muito) usava Lan Houses para madrugar e tentar achar pessoas para conversar.

    A segunda onda veio com a consolidação do Facebook, depois Twitter e YouTube, todos sendo caminhos para as pessoas mais comuns, enquanto que a internet neste meio tempo ficava mais barata e mais rápida (o ADSL começava a popularizar).

    Acho que a onda atual é a que trouxe o TikTok, os sites de compras (ou sites mistos de compra e mídia), a consolidação do Whatsapp e a digitalização do dinheiro. Hoje sou o cara que vê os outros mais com tela grudada na cara enquanto vêem piadas do TikTok, alguma matéria forçada e paga pela direita para enganar ou homens e mulheres fazendo pose de sedução para carentes e idosos.

    Em todas estas ondas tiveram sempre o “submundo”, pessoas que seja pelos canais mais populares ou mais “ocultos” acabavam “incentivando o consumo de conteúdo” * mais prejudicial. Os “chans” e “fóruns temáticos” poderiam tanto abrigar conversas nerds bacanas quanto algo mais podre. Não vou dizer que foi incentivo de big tech pq nisso eu teria que ter provas que em algum momento este tipo de comunicação com informação prejudicial foi incentivado, financiado, etc… por tais.

    Acho que já falei demais e devo ter abusado ou divagado muito longe, mas tentando trazer justamente as seguintes questões:

    – Não que Big Tech tenha sua parcela de culpa, mas sim, ela incentivou por muito tempo comportamentos prejudiciais.

    – Liberdade não é extamente algo absoluto. É relativo e depende da cultura em que estamos.

    – Talvez deixamos passar por muito tempo (por isso trouxe nestes´ultimos parágrafos os exemplos) a questão de deixar comunidades tóxicas rolando. Isso foram 20 anos sem muitas ações assertivas contra tais. Só agora fizeram algo, mas mezzo tarde: quem estava coordenando comunicação podre hoje é parte do poder político e militar também…

    1. Parei de ler aqui: O diabovelho puxa a questão da liberdade individual – algo que a (extrema) direita…

      1. E olha que bacana, aí você exerceu seu direito de liberdade individual (a não ser que leu o resto e só pos este comentário para provocar, o que também não deixa de ser uma liberdade). Legal, né? A minha liberdade de escrever terminou no momento que você se sentiu incomodado com este trecho em específico. Por quê? Só você pode dizer, se quiser e se sentir livre para isso. E eu nem sei se o resto do que escrevi ficou bom. Já agradeço por ter lido até aí.

        Teoricamente somos livres totalmente para fazer qualquer coisa – salvo engano, isso é o que chamam de “nilismo”, não? Códigos morais, regras, etc… só existem “em nossas cabeças, em palavras postas por alguém que não sabemos o quão relevante são”.

        Na prática se colocam códigos morais para proteger pares e tentar sobreviver sem tantos conflitos. Mas isso não via significar que não vai existir conflitos, tais como este.

        Na questão das redes sociais, as tais redes meio que nascem em um nilismo , mas até porque no início delas, só pessoas que tinham alguma instrução social participavam ativamente e tentaram construir comunidades, incluso esta onde estamos. Conflitos existem, mas são gerenciados entre seus pares.

        Não li livros ou vi matérias profundas sobre como as redes sociais foram criadas. Não nego que é um pouco de preguiça, mas ao mesmo tempo é um foco que não consigo ter pois diferente de alguns, minha vida é pagar contas e não ter emprego estável. Estar aqui ou em outro lugar online é um misto de refúgio e aprendizado.

        Mas pelo que tenho entendido, há uma expectativa que redes sociaisvirem plataformas de mudança sociopolítica. E de fato isso ocorreu.

        Quando falei da (extrema) direita, não falei por mal, mas por fato: quem teve musculatura de comunicação para justamente abordar uma “liberdade” e acusar “a oposição” (no caso “esquerda” – os sociodemocratas e pessoas que eles alcunham de “comunista” sendo que nem eles (e nem eu) sabemos perfeitamente a alcunha correta) de usar as comunicações de redes sociais para impor ditaduras e limites morais. Isso é documentado, isso é debatido pelo que vejo por todos que estudam políica ou tem um pé nisso.

        Aí indo de encontro ao texto e ao que falei: a imposição de regras nas redes ajudam a ter um ambiente com conflitos limitados. O Órbita se mostra assim: com uma moderação que regula inclusive para evitar que por exemplo fiquemos nos provocando com ironias e estigmas perante as questões politicas, qualquer um comenta mas pensa antes para evitar algo que incomode demais.

        Quando vemos que antes da popularização da IA tivemos algumas tentativas de colocar limites (me lembro do Bruno Sartori trazendo os exemplos de Deep Fake para provocar tanto o debate quanto os políticos e influencers que estavam engatinhando na tecnologia); vemos também que as próprias big techs, que tem a moderação de suas redes consigo mesmas, fizeram que leigos confiassem em inteligências artificiais (que hoje acho um termo que serve genericamente para “todo conteúdo autoproduzido por um computador”, mas na prática é um termo que tenta abranger automação digital como um todo).

        E a internet hoje fica abarrotada de vídeos que parecem interessantes mas na prática são automações de criação. “A ditadura da criação” acaba neste momento, diz os donos (e ditadores) das tecnologias que geram outras coisas. Engraçado o uso do termo “ditadura” por alguém responsável por uma tecnologia que se diz “libertadora” mas na prática está limitada a própria programação e estilo criado.

        Saindo desta divagação: nisso que vale se pensar se as regulações serviriam para algo. Pegue você mesmo nesta rede aqui: já faz um tempo que pôs regras que evitam discussões políticas estúpidas. Isso é uma forma de restrição.

        Quando governos pensam em regular as redes, isso é um outro nível, que mostrou que a moderação falhou, que as regras falharam, que a ideia que se tinha da “aldeia global digital” já era.

        Quando vemos algumas notícias do governo americano tentando criar uma “rede digital livre e aberta para países com restrições de uso”, aí vemos e se perguntamos “ué, e quem deu a liberdade para os Estados Unidos interferirem nas regras dos países alheios?” E mais ainda: será que alguém nesta rede se fala que “ICE é crime” e que “(um político) é (não vou falar o crime mas já imagine qual)”, se eles também não vão ser expurgados dali, quando não alguém dos Estados Unidos vai enfinar um “carimbo digital” dizendo que aquela pessoa não presta?

        Mais uma vez falei demais. Não sei se lerá ou não – já que você parou muito cedo, talvez você se pôs uma regra de não ler mais nenhum comentário meu e ok, eis sua liberdade aí. ;)

  6. Eu gosto de pensar numa comparação com os ultraprocessados na alimentação. O tabagismo é um fim em si mesmo, enquanto os ultraprocessados são inseridos no nosso cotidiano através da alimentação. É algo mais disfarçado e com ideia de praticidade. Apesar de ser algo que deve ser evitado e que faz um mal enorme, ainda assim é de acesso fácil em qualquer supermercado e é estimulado pelo mercado. Um dos principais combates aos ultraprocessados hoje se dá através de campanhas de conscientização pra mostrar que alimentação saudável não é um bicho de sete cabeças (não confundir com alimentação “fitness”) e que é importante aprender a cozinhar para isso. Imagino que algo similar deveria ser feito sobre a internet hoje. É preciso mostrar pra pessoas que existe um uso mais saudável e seguro da internet, que não passa pelas Big Techs, e que requer aprender algumas coisas pra se ter um maior controle. Pra grande parte das pessoas hoje, as redes sociais são A internet. Então, apenas falar de proibição pode passar uma ideia errada.

    1. É um paralelo melhor mesmo, Bruno! E que vai além: da mesma forma que o lobby dos ultraprocessados emperra a conscientização da alimentação saudável, enquanto as big techs se sentarem à mesa para discutirem regulação e leis como o ECA digital, não avançaremos.

  7. Você tem toda razão, Ghedin. Há anos eu comparo o uso que as pessoas fazem de produtos das Big Tech (incluindo as redes sociais, mas não somente) com o tabagismo. O uso comumente começa pelo pacto faustiano digital de trocar a conveniência e comodidade oferecida pelas plataformas pela subserviência e a perda de autonomia. A pessoa vai ficando cada vez mais dependente e não consegue sair. É muito semelhante à dependência de drogas. E devia ser tratado por meio de políticas públicas da mesma forma que se trata a dependência química.

    Em vez de fazer isso, muitas vezes o Estado reforça essa dependência, não só contratando diretamente essas empresas, enviando bilhões em recursos do erário que viram evasão de divisas, déficit comercial, aumento da dependência de dólares e maior concentração de dinheiro e poder nas mãos de meia dúzia de bilionários. Mas também obrigado o cidadão a ter se submeter a essas empresas para ter acesso aos serviços públicos mais básicos. Um caso escrachado disso é a febre dos apps de governo: serviços que só estão disponíveis se o cidadão aceitar os termos de serviço e usar as lojas de aplicativos das Big Tech.

  8. Esse artigo é o exemplo clássico da teoria da ladeira escorregadia: começa-se protegendo as crianças e termina-se infantilizando toda a população sob o julgo do Estado. Se as redes sociais são o “novo cigarro” (pode usar a cannabis como exemplo tb), que cada um decida se quer fumar ou não. A liberdade inclui, necessariamente, a liberdade de fazer escolhas que os outros consideram ruins. Trocar a liberdade pela segurança algorítmica oferecida pelo Estado é o caminho mais curto para a tirania dos governos e mass surveilance.

    1. Liberdade é exatamente o que não se tem hoje. O Estado usa o seu poder para obrigar o cidadão a aceitar os termos de serviço e usar as Big Techs. Muitos serviços só estão disponíveis em aplicativos de código fechado nas lojas oficiais da plataforma. Isso torna impossível a pessoa usar um direito ou exercer uma obrigação sem aceitar um contrato draconiano e ceder mais dados para as empresas estrangeiras.

      É preciso ter liberdade para se usar a plataforma que quiser e a loja de aplicativos que quiser, inclusive de rejeitar os termos de serviço das Big Tech. Essa liberdade precisa urgentemente ser garantida por lei. Pois, deixando tudo como está, o Estado só torna cada vez mais difícil a vida de quem não quer se relacionar com o oligopólio digital.

      1. Eu também concordo com os pontos levantados por você.

    2. Note que o cigarro não foi proibido em momento algum, nem é o que peço no post em relação às redes sociais. Você fala como se a liberdade absoluta e individualizada fosse sagrada, o que não é verdade e nem funcionaria em uma sociedade. O cigarro mesmo é um bom exemplo: você pode fumar até seus pulmões virarem pó, mas não pode fazê-lo em ambientes fechados e também não fica sabendo das marcas por publicidade.

      Outro equívoco de interpretação aparece quando você sugere que estou propondo uma “segurança algorítmica oferecida pelo Estado”. O que você fumou para tirar essa ideia do meu texto? 😁

      Eu aceito (e gosto!) de argumentos discordantes nos comentários, mas quando eles distorcem o que escrevi fica difícil debater…

      1. Touché pela ironia do “o que você fumou”. kkkk. Pelo seu texto, vc entende que o governo tem o direito de impor “restrições severas” para salvar o indivíduo de sua própria compulsão. Eu acredito que o preço de sermos adultos livres é o risco de fazermos escolhas estúpidas. Se aceitarmos que o governo deve restringir o Instagram porque “perdemos horas lá”, teremos que aceitar, pela mesma lógica, restrições a qualquer outra coisa que um comitê de “especialistas” julgue nociva.

        1. A gente já vive com restrições de toda sorte como pressuposto para manter a boa convivência e impedir que o indivíduo se destrua e aos outros. Os exemplos do cigarro. Dirigimos carros e motos, mas sob regras e só depois dos 18 anos. No carro, aliás, você é obrigado a usar o cinto de segurança, mesmo que o não uso, na maioria dos casos, só afete diretamente você mesmo.

          O problema do Instagram não é (só) perdermos horas lá. Esse é o menor dos problemas, aliás. Não consigo imaginar um cenário em que a permissividade com anúncios de golpes, a produção e veiculação de imagens de abuso infantil e imagens de violência extrema, para ficar nos exemplos mais óbvios, devam ser ignoradas — não pelo Estado, mas por nós mesmos, sociedade — em prol de escolhas individuais.