Discutindo o noticiário, “o mais influente meio de educar populações”

17/1/17 11 comentários

Existe um tipo de formação continuada que nos arrebata na juventude e, raríssimas exceções, atendemos até a morte. É o noticiário. Alain de Botton, em seu livro Notícias: Manual do Usuário, diz que ele é “de longe o mais influente meio de educar as populações”. Há indagações e sugestões interessantes ali, todas pautadas por uma questão maior: a finalidade das notícias. Continuar lendo Discutindo o noticiário, “o mais influente meio de educar populações”

O cérebro humano tem um bug

28/9/16 17 comentários

O estupor que causa a leitura de V.I.S.H.N.U., de Eric Acher, Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco, é algo impressionante, similar a um filme de ação visto no cinema. Talvez as falas não sejam o ponto forte, porque algumas perdem o ritmo em sua banalidade, mas a combinação de uma história frenética com desenhos imersos numa espécie de permanente penumbra de insólita imprecisão em preto e branco, te arrastam junto com os personagens que se agarram desesperadamente nas poucas chances que têm de sobreviverem em um mundo em constante conflito com as máquinas e, claro, com os próprios humanos. Continuar lendo O cérebro humano tem um bug

Não basta pensar, é preciso ser como os bilionários

20/7/16 64 comentários

Existem inúmeras medidas de sucesso, embora sejamos bombardeados por algumas poucas: emagrecer, ser popular e, disparada a maior delas, ter dinheiro. Não há fórmulas para conquistar esses sucessos ou seríamos todos magros, requisitados e ricos, mas vender a ideia de que eles estão ao alcance de qualquer um é, em si mesmo, um negócio rentável. Pode ser um esquema suspeito que privilegia uns poucos em detrimento de muitos, como os de pirâmide, ou, de uma forma menos danosa e mais opaca, um discurso que normaliza situações especiais. Continuar lendo Não basta pensar, é preciso ser como os bilionários

Um guru atípico no Vale do Silício: debate do livro “Bem-vindo ao Futuro”, de Jaron Lanier

4/7/16 10 comentários

Tinha o livro de Jaron Lanier1 comigo há alguns anos. Talvez desde seu lançamento, não sei precisar. Comprei uma cópia em uma livraria grande de São Paulo porque estava ansioso demais pra esperar ele ser entregue pela Amazon (que na época ainda não estava no Brasil). Paguei mais caro por isso, obviamente.

No começo me senti, não sei bem o porquê, intimidado com o livro por vislumbrar algo difícil pela frente. Deixei-a de lado e parti para outros temas e leituras. Acabei que me livrei da edição numa arrumação de livros aqui em casa por achar que tinha perdido a oportunidade de lê-lo no momento certo. Às voltas com o Clube de Leitura me lembrei dele e lastimei sua ausência já que resolvi inclui-lo na seleção a despeito do que achava sobre não tê-lo lido na “hora certa”. Continuar lendo Um guru atípico no Vale do Silício: debate do livro “Bem-vindo ao Futuro”, de Jaron Lanier

Debate do livro Neuromancer, de William Gibson

26/5/16 7 comentários

Não será nada espantoso o dia em que vislumbrarmos mais e mais pessoas conectadas aos seus aparelhos de realidade virtual. O que hoje nos parece exótico, coisa de nerds loucos, não o será mais. Mas o maior problema (ou não) será justamente a combinação de drogas com a RV: os aparelhos disponíveis hoje, aparentemente desconfortáveis e um tanto toscos, serão necessariamente diferentes e melhores (imperceptíveis), e as drogas, legais e ilegais, estarão à disposição para uso combinado, permitindo uma quase total imersão virtual. Se hoje não há dispositivos em nossos corpos que nos ligam diretamente às máquinas, essa combinação vai bastar por enquanto, já que é mais barata e acessível que implantes e procedimentos cirúrgicos. Daí, o vício inerente. Serão outros tempos e o que vamos fazer com essas outras realidades que superarão a Internet que conhecemos fazendo-a parecer primitiva, irá além do entretenimento e conhecimento: a busca por novas sensações ou sensações recriadas que passarão a nos interessar como nunca! Muita coisa pesada, evidentemente, será encontrada em algo parecido com o que temos hoje na Deep Web. O corpo, essa carcaça que nos serve de simples suporte para o Eu, é demasiadamente carente e repleto de anseios ainda não anunciados que vão nos fazer agarrar em distrações para deixar livre a mente em seus novíssimos descaminhos. Anestesiados em nossos cubículos, conectados à matriz, talvez nos comportemos como idiotas ou encontremos finalmente o sentido da existência. Todos os outros meios de se chegar em estágios menos sofisticados, possíveis com drogas como o LSD, serão inúteis sem essa combinação de RV+drogas. Disso, como não poderia deixar ser, surgirá uma nova religião e os primeiros adeptos serão os ateus. Vamos comungar, como num sonho-pesadelo, enfim, imaterializados no ciberespaço.

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“Digital e territorializado”: Debate do livro Smart: O que você não sabe sobre a Internet, de Frédéric Martel

28/4/16 17 comentários

Depois de sairmos da leitura d’O Círculo, a ficção de uma empresa aniquiladora da já frágil privacidade como a conhecemos hoje, partimos para a dura e cruel realidade em Smart: O que você não sabe sobre a Internet, do francês Frédéric Martel, que mostra, com estilo e narrativa agradáveis, as entranhas da Internet (não confunda com a deep web!), ou melhor, o que as pessoas fazem com ela e seus arranjos vistos de um outro modo — um praticamente invertido do que comumente achamos. Não deve ter sido mera coincidência, então, que algumas coisas que vimos no livro de Dave Eggers sejam notáveis também no de Martel, só que dessa vez para valer. Continuar lendo “Digital e territorializado”: Debate do livro Smart: O que você não sabe sobre a Internet, de Frédéric Martel

“Tudo que acontece deve ser conhecido”: Debate do livro O Círculo, de Dave Eggers

31/3/16 96 comentários

Não será por O Círculo que, daqui a alguns anos, poderemos bater no peito e dizer que a nossa geração também teve o seu 1984 (de 1949) ou Admirável Mundo Novo (1932). Esses dois clássicos são referências fortes no livro de Dave Eggers, objeto do nosso debate de hoje, mas, na verdade, sinto dizer: em termos literários, estamos bem longe de termos algo parecido. Isso não significa, porém, que se trate de uma obra vazia. Por aquele texto relativamente fraco argumentos e indagações inquietantes se revelam. Continuar lendo “Tudo que acontece deve ser conhecido”: Debate do livro O Círculo, de Dave Eggers