[…] O chamado “boom da IA” em que estamos agora na real vende duas coisas, e nenhuma precisa ser muito boa: uma maneira de automatizar o trabalho que você não valoriza o suficiente para contratar um ser humano para fazê-lo ou, no mínimo, uma maneira de esconder os seres humanos que fazem esse trabalho para que você possa se sentir melhor a respeito da miséria que você paga a eles.
— Ryan Broderick.
Bom resumo — ainda que meio cínico — do que a inteligência artificial generativa, e talvez num geral, representa de fato.
O comentário foi feito em um texto sobre os robôs Optimus, da Tesla, mostrados na última quinta (10), desta vez controlados remotamente por seres humanos. / garbageday.email (em inglês)
Vou acrescentar um uso pessoal meu, tangencial ao primeiro: executar o trabalho que você não quer/gosta de fazer, mas não tem dinheiro para contratar um ser humano para tal — atualizar tabelas de forma sistemática/recorrente, converter roteiro em texto de uma viagem para tabela, corrigir algum erro de sintaxe besta em um código mega simples que inventei de usar para automatizar a criação de PDFs…
Meio que bate com o que sofri agora pouco. Liguei para o número de suporte da TIM, me mandaram acessar um link enviado por um SMS. Esse link me redireciona para a minha conta já logada e a minha ligação simplesmente cai.
Tentei conversar com o chatbot da empresa no WhatsApp, e por incrível que pareça, a tal de “TAIS”, nome do chatbot, ñ me deu a opção para falar com um atendente.
Tá osso essas automatizações nada funcionais!!!
Por que meio cínico?
Por ignorar quaisquer aspectos positivos (se é que há; não estou afirmando) do “boom” da inteligência artificial e que têm sido celebrados por tanta gente (de techbros e executivos de empresas do setor, sim, mas não só eles).
“Não há razão para qualquer indivíduo ter um computador em casa.”
Ken Olsen, 1977.
“Não há chance de o iPhone conseguir uma fatia significativa do mercado.”
Steve Ballmer, 2007.
Negar o progresso é sempre um tiro no pé.
andré, essa é uma noção positivista de progresso e de história
pra começar, progresso não é um valor objetivo, universal e homogêneo
em segundo lugar, a história não é nem linear nem progressiva: hoje podemos naturalizar a presença de computadores e dispositivos digitais móveis em nossas vidas, mas tratam-se de escolhas que envolveram a recusa de outras ou o silenciamento de outras possibilidades
a máxima frankfurtiana ainda vale: toda reificação é esquecimento
no que concerne à IA, não se trata de negar seu impacto: ao contrário, trata-se de lamentá-lo, dada a precarização geral do trabalho que ela tende a promover. Transformações tecnológicas não são naturais e nem devem ser naturalizadas
e digo isso na condição de alguém que vê com muita preocupação a caça às bruxas às IAs: https://arquiteturaemnotas.com/2023/11/15/nao-temos-combater-ias-temos-que-combater-o-trabalho/
Com o poder da visão em retrospecto é fácil, e todas as vezes que “negaram o progresso” e acertaram? Até recentemente NFT era o futuro, lembra?